Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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JORNAL DE DEBATES > RESPONSABILIDADES DE MÍDIA

Credibilidade e a autonomia do jornalismo

Por Venício A. de Lima em 21/11/2006 na edição 408

Um dos temas subjacentes ao debate sobre o papel e as responsabilidades da grande mídia é a autonomia do jornalismo – como profissão e como prática – em relação aos conglomerados privados de comunicações, cada vez maiores, mais poderosos e em número mais reduzido em nível global.

Esta é, aliás, uma discussão que vem conquistando espaço, inclusive nos nossos cursos de pós-graduação em Comunicação, infelizmente quase sempre distantes da realidade concreta do setor. Desde pelo menos a década de 1970, o tema vem sendo pesquisado e debatido nos mais importantes centros de pesquisa da Comunicação. Mesmo entre nós, muito se tem publicado sobre a construção de uma teoria do jornalismo e uma Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo foi criada, em 2003.

Na verdade, a questão da autonomia implica outra absolutamente crítica para a sobrevivência das empresas que produzem notícias: a sua credibilidade. Embora alguns jornalistas em posição de comando e empresários ainda se utilizem da superada metáfora do jornalismo como simples mensageiro – condição que o exime de qualquer responsabilidade em relação ao conteúdo da mensagem que transmite –, não há dúvida de que é crescente a consciência da necessidade de se praticar um jornalismo que tenha como meta a correção, a isenção e a verdade.

Percepções distorcidas

O presidente das Organizações Globo, por exemplo, ao ser agraciado no XIX Congresso Brasileiro de Magistrados, recentemente realizado em Curitiba, reafirmou esses compromissos. E não se trata apenas de uma ‘virtude’. Ao contrário. Como salientou Roberto Irineu Marinho, ‘informar com qualidade é uma exigência dos [nossos] consumidores. Sem isso, nós seríamos abandonados e nossas empresas definhariam’.

A credibilidade é a nova questão de fundo que emergiu a partir da cobertura política oferecida pela grande mídia aos seus ‘consumidores’, não só durante a crise política que se iniciou em maio de 2005, mas, sobretudo, durante a campanha eleitoral deste ano. São várias as razões para essa emergência e algumas delas já foram tratadas em artigos anteriores. Retomo a questão teórica.

Os estudos sobre o ‘jornalismo sitiado’, a sociologia do jornalismo, as pesquisas sobre construção da notícia (newsmaking), enquadramento (framing) e agendamento (agenda setting), apesar de diferenças significativas, admitem a autonomia do jornalismo embora sujeita a uma série de constrangimentos. Na verdade, ela é praticada no contexto de uma subcultura própria; de rotinas produtivas que se transformam em normas; e de interferências – explícitas ou não – da posição editorial, vale dizer, das opções e interesses daqueles que são ou proprietários ou concessionários da grande mídia.

É nesse contexto que certas coberturas políticas podem provocar distorções importantes na percepção que grandes segmentos da população constroem sobre estratégias e ações de governo que afetam diretamente suas vidas.

Estrutura simbólica

Já pude tratar neste Observatório (‘Diversidade em risco: Rumo ao monopólio da TV paga‘) de um relatório do Programa Internacional de Comportamento Político da Universidade de Maryland, apoiado em pesquisas realizadas entre os meses de junho e setembro de 2003, que constatou que 48% dos americanos acreditavam que suas tropas haviam encontrado evidências de ligações entre o Iraque e a al-Qaeda; outros 22% acreditavam que as tropas encontraram Armas de Destruição em Massa (WMD) no Iraque; e 25% acreditavam que a opinião pública mundial apoiava a ação armada dos Estados Unidos.

Todas essas percepções estavam equivocadas. E por quê? As pesquisas identificaram – entre os quatro fatores principais – as fontes de informação sobre a invasão do Iraque. Entre os 80% que tinham a radiodifusão como fonte principal, 18% eram telespectadores da Fox News. Dentre eles, 80% tinham pelo menos uma das três percepções equivocadas e 45% acreditavam em todas as três.

Estes dados indicam que o jornalismo produzido pela Fox News sobre a invasão do Iraque recebe um ‘enquadramento’ que não só favorece o ponto de vista oficial do governo Bush como omite fatos importantes em relação ao próprio conflito. E para que isso aconteça não é necessária – embora possa existir – uma determinação de ordem superior para que os jornalistas cumpram. A estrutura simbólica de valores, orientações e expectativas, dentro da qual a prática jornalística da Fox News ocorre, é suficiente para produzir esses resultados distorcidos da realidade.

Pluralidade e diversidade

É falso, portanto, acreditar que o jornalismo, sobretudo o jornalismo político, possa ser julgado somente por critérios técnicos internos à profissão. As notícias são construções simbólicas e a autonomia do jornalismo sempre será relativa. O jornalista nunca será absolutamente neutro ou isento o que, todavia, não o exime de buscar a exatidão factual.

Assumir publicamente essa condição constitutiva do jornalismo – e abrir a discussão de seus critérios e práticas – talvez seja o único caminho para a grande mídia privada restaurar a credibilidade ameaçada junto aos seus ‘consumidores’.

Essa é a discussão que está posta entre nós. São a pluralidade e a diversidade na mídia e o interesse público que ganham com esse debate. E nunca é demais insistir – por mais que essa insistência desagrade a alguns: ganha, sobretudo, a democracia brasileira.

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Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: crise política e poder no Brasil (Editora Fundação Perseu Abramo, 2006)

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/11/2006 Márcia Coelho

    Venício, concordo integralmente com você de que a aceitação do jornalismo enquanto construção simbólica (e sujeito a crenças) é o grande ‘Xis’ da questão na atual conjuntura. Confesso que, nesse debate sobre a imprensa, fiquei extremamente surpresa com o pensamento positivista e cartesiano de uma gama extensa de medalhões. Os atuais argumentos têm que centrar, sim, esforços nessa compreensão sobre o caráter simbólico de todo e qualquer dicurso. Sinto que esse é o primeiro divisor de águas que me separa de certas compreensões sobre o jornalismo e sobre suas representações, compreensões expostas, inclusive aqui no OI, com toda a autoridade e pompa retórica. Embora eu sinta em você um tom moderado (talvez cuidadoso) no trato de certas questões, acho que dá pra fazer uma frente jornalística (e acadêmica) em torno dessa questão programática básica.

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