Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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JORNAL DE DEBATES >

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 01/05/2007 na edição 431

27/4/07

Não é, novamente, apropriado o nome Painel do Leitor para a seção de cartas dos leitores da Folha. Pelo menos os leitores comuns, que não são personagens de reportagem da véspera ou assessor de imprensa que diverge de artigo da seção Tendências/Debates.

Mais da metade do espaço do Painel do Leitor de hoje foi subtraída em duas polêmicas. Um auditor da Receita escreve sobre matéria de ontem. O repórter responde. Um assessor de imprensa da Secretaria de Estado de Gestão Pública rebate artigo. Um professor (autor ou co-autor do artigo?) retruca.

A manifestação do auditor deveria ser publicada em Brasil. A polêmica do assessor com o professor ficaria melhor em Cotidiano.

Primeira página

É bem melhor a foto do físico inglês Stephen Hawking da edição SP que a da edição Nacional.

Pauta

O Painel do Leitor _no diminuto espaço que sobreviveu_ traz uma pauta saborosa. O leitor Ezio Bazzo escreve sobre a controvérsia a respeito das cataratas do Iguaçu: mudar ou não o nome de Garganta do Diabo para Voz de Deus.

Às vésperas da visita do papa, não faltam exemplos (alguns antigos) de diabo e inferno rejeitados com o tempo, como as letras das quais Roberto Carlos e Paulo Coelho se arrependeram. Ou da empresa doadora de vinho para a visita de Bento 16 que se recusa a importar um rótulo chileno que tem ‘Diablo’ no nome.

Contradição

Na pág. A4 (‘Marina critica termelétricas, Angra 3 e colega de governo’), a Folha informa que a geração estimada das duas usinas hidrelétricas a construir no rio Madeira é de 6.450MW.

Na pág. A5, (‘Ministra se compromete com Lula a liberar usinas’), a Folha diz que as hidrelétricas vão gerar, ‘juntas’, 3.500 MW.

Qual a informação correta? Pelo menos uma está errada.

Pareceres

A reportagem ‘Ministra se compromete com Lula a liberar usinas’ (pág. A5) é valiosa pela informação do título e por outra, a de que o presidente da República quer o delegado Paulo Lacerda no comando da Polícia Federal, e não no do Ibama.

Parece haver, porém, dois problemas, que não invalidam o duplo furo.

O texto sustenta: ‘Se o cronograma atrasar, afetará a expectativa dos investidores _assim, haveria menos investimento e um menor índice de crescimento do PIB’. Faz bem a Folha em registrar o que os investidores afirmam, mas não deveria abraçar suas opiniões. Quer dizer então que, se atrasar ‘o cronograma’ de construção das hidrelétricas, o PIB necessariamente vai crescer menos? Os empresários podem dizer isso, mas não significa que seja verdade.

Outro problema é de falta de informação. A matéria descreve que Lula afirmou à ministra Marina Silva que dois ministros mostraram ao presidente ‘pareceres divergentes do do Ibama’.

Ontem o jornal publicou declaração de um diretor da Odebrecht, empreiteira co-empreendedora das usinas, falando de pareceres que ‘descartam riscos’ ambientais apontados por técnicos do Ibama.

Seria importante saber: os pareceres apresentados por dois ministros e citado por Lula são aqueles patrocinados pela Odebrecht? Se o jornal tiver a resposta, o leitor ganhará mais um elemento para formar opinião.

Palco

Com a indicação dos integrantes da CPI do Apagão Aéreo na Câmara, o jornal poderia fazer um levantamento de quem, entre os deputados da comissão, é pré-candidato a prefeito em 2008. A deputada Solange Amaral, indicada pelo DEM, é um dos nomes que Cesar Maia cogita lançar à sua sucessão no Rio.

Quem são?

É uma pena que o jornal não tenha publicado o voto de cada integrante do Conselho de Ética na decisão de não reabrir processos de cassação contra três deputados. É o tipo de informação útil ao leitor, para avaliar o desempenho dos seus eleitos e de outros parlamentares.

Quem é?

O texto ‘Juiz se defende e culpa governo por sua prisão’ (pág. A8) fala de passagem sobre um certo ‘Carreira Alvim’, mas não apresenta o personagem. O leitor não é obrigado a saber de quem se trata.

Sabatina

É interessante o relato da sabatina promovida pela Folha com d. Odilo. Os jornalistas e as pessoas da platéia questionaram sobre o que se deveria questionar.

Mas não deixa de ser provocadora, um convite à reflexão jornalística, a observação do padre Júlio Lancelotti: ‘Muitas vezes se fazem perguntas como se ele [d. Odilo] tivesse que dar conta do mundo inteiro, de toda a política, de toda a história. Ele vai ser arcebispo e não presidente do mundo’.

Maioridade

A cobertura da decisão de uma comissão do Senado de aprovar a redução da maioridade penal para 16 anos é clara e informativa.

Deixa duas dúvidas: do ponto de vista legal, o que é o ‘terrorismo’ citado na capa de Cotidiano e na primeira página? Por que o ministro Tarso Genro disse, de acordo com a assessoria, que ‘o projeto foi bem defendido pelos nossos senadores’? Ficou estranho, parece que a redução da maioridade integrava proposta governista, quando o que ocorreu foi o contrário.

A conta da Copa

A reportagem ‘O preço da Copa’, em duas páginas de Esporte, é um belo furo. Até agora, nas discussões sobre o Mundial de 2014, autoridades, parlamentares e jornalistas se pronunciavam sem muitas informações sobre o custo de sediar a competição no Brasil. Agora, o tamanho da conta começa a ficar mais evidente.

Ciclo de estudos

A Folha prestaria um serviço aos leitores se acompanhasse o ciclo de estudos bancado pela federação dos bancos, com a presença de integrantes da Justiça do Trabalho (viagem e hospedagem pagas pelo patrocinador). Será em Natal, no feriadão. É outro bom furo do jornal hoje, mas ausente da primeira página.

26/4/07

O leitor da Folha recebeu hoje novamente um jornal no qual alguns magistrados são tratados ora como juízes, ora como desembargadores federais.

A crítica diária vem insistindo sobre a necessidade de padronização. Se o ombudsman martela, não o faz por obsessão, mas por defender o interesse dos leitores que, em um texto, lêem uma denominação que na retranca seguinte já é outra. O jornal está errado se acha que padronizar o que é passível de padronização não significa informar corretamente.

As recentes contradições não ocorreriam se fosse respeitada norma divulgada pelo Programa de Qualidade em agosto do ano passado. Ela afirma: ‘Não existe o cargo de ‘desembargador federal’ para se referir ao juiz federal que atua no TRF, embora alguns juízes federais se intitulem assim. Pela Constituição Federal, só há cargos de desembargadores nos Tribunais de Justiça’.

Nas duas retrancas do alto da pág. A12, sobre personagens investigados na Operação Hurricane (Furacão), eles são descritos como ‘desembargadores federais’. Também aparecem como juízes.

A ‘lei’ do Programa de Qualidade voltou a ser relembrada ontem à tarde no sistema ao qual os jornalistas da Folha têm acesso.

O resultado de hoje é que, uma vez mais, os leitores receberam uma informação que, segundo o próprio jornal concluiu em agosto de 2006, está incorreta.

O leitor e os mistérios da economia

No sábado uma só retranca citou cinco vezes um certo ‘swap cambial reverso’. Não explicou o que era. Na crítica diária da segunda-feira, lembrei que o leitor não é obrigado a saber o que significa.

Hoje, na capa de Dinheiro, surge de novo, duas vezes, o ‘swap cambial reverso’. Mais uma vez, o jornal não traduz o palavrão ao leitor.

Se a insistência expressa convicção de que a explicação é dispensável, é uma pena. O jornal se destina também a especialistas, mas deve ser escrito principalmente ao leitor não iniciado no economês.

O leitor e as ‘previsões’

Na segunda-feira, a Folha informou: ‘São Paulo tenta conter crise interna’. De fato, levar uma goleada de 4 a 1 do São Caetano e ser eliminado do Campeonato Paulista balança qualquer um.

Hoje, foi esta a abertura da principal matéria da capa de Esporte, noticiando o 2 a 2 do São Paulo com Audax Italiano, resultado que classificou o time do Morumbi para as oitavas-de-final da Libertadores: ‘A previsão era de uma vitória tranqüila e uma classificação sem sustos’.

A pergunta óbvia: de quem era tal previsão? Como poderia esperar vitória tranqüila uma equipe que vem de uma goleada humilhante, que tenta conter a crise, que decidia a passagem à próxima fase em uma competição duríssima, em que são poucos os jogos fáceis?

Pior ainda é a lógica cômoda para o jornalista e que não presta serviço ao leitor: se o jornal diz hoje que previa vitória tranqüila e classificação sem sustos, por que não escreveu isso ontem? A previsão não foi publicada na Folha de quarta-feira.

Se o jornal fazia tal vaticínio, por que não o bancou?

Falar depois é fácil. Em outras palavras, é informar mal.

Na primeira, notícia de ontem

A primeira página destaca: ‘Serra propõe criar mínimo regional de R$ 410 em SP’. É notícia relevante para quem recebe e para quem paga. Há um problema, porém: a Folha adiantou ontem parte da novidade, justamente a referente aos R$ 410. Hoje, na primeira, pareceu informação envelhecida.

Painel do Leitor

A carta do desembargador Celso Guedes, referente a assunto associado à Operação Têmis, estaria mais bem editada em Brasil, e não no Painel do Leitor.

Outro problema: a mensagem do leitor José R. A. de Sant’Anna está encimada pelo intertítulo ‘Ieltsin’. Ocorre que ela fala de artigo sobre a condição dos negros no Brasil, e não sobre o falecido presidente russo.

Um presente ao leitor

Há no jornalismo detalhes que, por saborosos, colhem um sorriso e são como antídoto ao mau humor. É o caso da nota de hoje do Painel que conta o resultado da decisão do deputado Dr. Rosinha de ‘bater chapa’ na disputa pela presidência da Frente Parlamentar de Saúde. Rosinha perdeu por 46 a 1. O título inspirado: ‘Gol de honra’.

Meio Ambiente – Bastidor

A edição da reportagem ‘Pressão de Lula acelerou as mudanças no Meio Ambiente’ (pág. A5) repete procedimento recente, quando uma retranca de outro lado saiu páginas antes das acusações. Dessa vez, o bastidor saiu antes das notícias. Dificulta a leitura.

O texto fala de ‘mudanças anunciadas ontem’, ‘mudanças no Ibama’. Quais são elas? Descobre-se apenas uma página depois.

O parágrafo final cita dois ministros que ‘avaliam’ que o ‘pedido’ de ‘mais informações’ para autorizar a construção de hidrelétricas no rio Madeira ‘pode comprometer o cronograma e causar falta de energia para atender ao objetivo do governo de elevar o crescimento anual do PIB (Produto Interno Bruto) para cerca de 5%’.

A retranca informa (ou dá a entender) que as usinas funcionarão a partir de 2012. Se o objetivo de crescer 5% é imediato, por que a inexistência de geração de energia em 2012 vai prejudicar, agora, o resultado de 5%? O jornal deveria explicar a ‘avaliação’ dos ministros. Pode até estar certa, embora pareça estranha. Mas não deveria ser relatada sem espírito crítico.

Meio Ambiente – Dia seguinte

Não era simples o desafio da Folha hoje, o de recuperar os furos sofridos, sobre a divisão do Ibama e o convite ao delegado Paulo Lacerda para chefiar o órgão. A impressão é de que se saiu bem. A apresentação das razões dos setores pró e contra a liberação da construção das hidrelétricas no rio Madeira tem um pluralismo que deveria inspirar cotidianamente o jornal.

Papel sobrando 1

A pág. A6, com o noticiário sobre o Ministério do Meio Ambiente, informa três vezes o nome do Ibama por extenso. Desperdiça espaço e toma tempo do leitor.

Lide no pé

A retranca ‘Policial suspeito diz conhecer procurador alvo de investigação’ (pág. A12) parece estar com as notícias principais no fim. Exatamente no último parágrafo: ‘Ontem à noite, Xuxinha foi indiciado pela PF por formação de quadrilha. Ele pediu o benefício da delação premiada, o que foi aceito’. O ‘Estado’ abre uma página com essas informações.

Terminologia jurídica

Dúvida : o texto ‘Liberação da programação da TV recebe duras críticas’ (pág. A13) diz que ‘um mandado de segurança do STJ autorizou que as redes exibam em quaisquer horários os seus programas […]’.

Não seria uma liminar (decisão provisória), em vez de mandado de segurança? A Justiça concede a liminar, mas não o mandado de segurança.

Calçados, têxteis

Peço desde já desculpa caso tenha ocorrido falta de atenção, mas não encontrei informações importantes na longa cobertura sobre aumento do imposto de importação para produtos dos setores calçadista e têxtil: a produção, o faturamento, o lucro e a produtividade vêm caindo ou subindo nos dois ramos da indústria?

A arte mostra queda na exportação de calçados. Mas faltam números sobre outros desempenhos, cujo conhecimento é decisivo para o leitor formar opinião sobre a iniciativa do governo.

Papel sobrando 2

Com poucas diferenças, os textos ‘Medida protecionista gera críticas’ (pág. B2) e ‘Economistas temem que a tarifa maior valorize real’ (pág. B3) repetem informações. De porcentagens citadas a entidade (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) e consultoria (Tendências) consultadas.

Pauta

Está na pág. B5 (‘Setor registra 1ª morte do ano na colheita de cana’) uma bela pauta. Do que morreu o trabalhador rural?

Papel bem aproveitado

Com menos espaço que ‘Globo’ e ‘Estado’, a Folha faz uma cobertura muito boa sobre educação, a partir dos novos números divulgados. Uma observação de fundo: depois de conhecer as diversas opiniões registradas e considerar as informações, a impressão é de que uma dose maior de ceticismo faria bem ao jornal. O motivo é que não há sinais de que vá haver fiscalização eficiente das verbas a serem transferidas aos municípios e da veracidade dos dados que o governo federal receberá (sobre reprovação, por exemplo; ou aprovação sem critérios).

Previsível

Havia muitas opções para o alto da pág. C3, cujo título é ‘Cidades do Nordeste têm pior desempenho’. Não é que não seja importante, mas é previsível, o que reduz a temperatura jornalística.

Escândalo político?

O jornal deveria investir ainda mais e repercutir amplamente a informação de que o município de São Paulo teve sua rede municipal classificada em colocação indevida no ranking divulgado em 2006, ano eleitoral. Vale investimento de reportagem para apurar se foi mesmo erro técnico ou não. E memória sobre o uso do ranking na campanha do ano passado.

Reprovação

Se for verdade o que o secretário da Educação de Ramilândia (PR) disse, houve equívoco no ranking escolar que condenou a cidade ao pior índice (a aprovação de 93.2% teria se transformado em reprovação). É importante checar. A imprensa em geral considerou correta a posição. Fez bem a Folha em dar a palavra ao secretário.

Assinaturas demais

É a segunda vez que toco no assunto: faz parte da cultura da Folha assinar textos com uma assiduidade que considero excessiva. Ao contrário do que costumam supor muitos jornalistas, assinatura demais não valoriza o profissional, mas vulgariza um código que deveria ser preservado para apuração, interpretação e missões jornalísticas diferenciadas.

Hoje, mais uma vez, Esporte assina relato de partida de futebol disputada do outro lado do Atlântico (‘Chelsea dá primeiro troco no Liverpool’, pág. D4). O repórter não estava no estádio. Assistiu à partida (provavelmente) pela TV. Por que assinar?

25/4/07

O verbete ‘Jornalismo crítico’ do ‘Manual da Redação’ (pág. 44) define: ‘Princípio editorial da Folha. O jornal não existe para adoçar a realidade, mas para mostrá-la de um ponto de vista crítico. Mesmo sem opinar, é sempre possível noticiar de forma crítica. Compare fatos, estabeleça analogias, identifique atitudes contraditórias e veicule diferentes versões sobre o mesmo acontecimento. A Folha pretende exercer um jornalismo crítico em relação a todos os partidos políticos, governos, grupos, tendências ideológicas e acontecimentos’.

O oposto a este pilar do projeto editorial da Folha, o jornalismo crítico, foi publicado hoje na pág. B10: ‘Bancos encabeçam lista de investimento em cultura’. Linha-fina: ‘50% das instituições que responderam a pesquisa do Gife põem dinheiro na área’.

Do início ao fim, o texto tem parentesco mais identificável com a divulgação promocional do estudo do grupo _que reúne empresas ou suas fundações_ do que com o jornalismo.

O texto emprega repetidas vezes o verbo investir e os substantivos investidores e investimentos. Não informa, contudo, quanto somou a renúncia fiscal do Estado. Alardeia a terceira colocação da cultura entre as áreas que receberam investimentos, mas omite o valor que deixou de ser recolhido graças às numerosas e controversas leis de incentivo fiscal.

A matéria dá a entender que os ‘investimentos’ não têm contrapartida.

O lide fala em ‘dez maiores investidores privados em projetos culturais’, entre os quais relaciona o Banco do Brasil, a Petrobras e a Eletrobrás. São instituições privadas?

Dos dez maiores ‘investidores’ em cultura, quantos usaram a Lei Rouanet? O leitor não é informado.

A renúncia é do Estado. Há interesse público em saber o montante que as empresas deixaram de recolher aos cofres públicos, amparadas nas leis de incentivo.

Não há referência sobre o motivo de os bancos figurarem tão bem no ranking. Os lucros das instituições financeiras aumentaram ou caíram em 2005, o ano abordado no estudo?

Sem outro lado

Texto-legenda ‘Oficial’ (pág. A4) mostra foto de carro e informa que cinco ministros foram com veículos oficiais a uma reunião partidária. Não há, porém, outro lado. Amanhã o jornal poderia esclarecer que irregularidades existem na prática flagrada ontem à noite (pode ser considerada crime?) e quais são as punições previstas.

Nomenclatura

O jornal volta a tratar hoje Ernesto Dória, membro do Tribunal Regional Federal de Campinas, tanto como juiz como desembargador. Ele foi um dos presos na Operação Hurricane (Furacão). Já está solto.

Ontem eu escrevi que o jornal seria mais preciso se o chamasse de desembargador.

Uma atenta e mais bem informada jornalista me chamou a atenção: a Constituição se refere a juízes dos Tribunais Regionais do Trabalho, e não desembargadores.

Consultei um procurador da República, que acrescentou: também pela Carta de 88, não existem desembargadores nos Tribunais Regionais Federais. São juízes.

Quer dizer: o ‘desembargador’ Carreira Alvim (do TRF da 2ª Região), personagem importante da investigação que desembocou na Operação Hurricane, pela Constituição é juiz, e não desembargador.

Acontece que os juízes dos TRFs e dos TRTs passaram a se intitular ‘desembargadores’, e a denominação ‘pegou’.

A Folha precisa decidir: ou são juízes (pela norma legal) ou desembargadores (pelo uso repetido, talvez consagrado).

O jornal prestaria um serviço se se debruçasse sobre a questão (sem deixar de checar as informações acima) e padronizasse a terminologia. É ruim o leitor ler em um texto referência ao juiz que na página seguinte é ‘promovido’ a desembargador.

Têmis

Praticamente sumiu do noticiário a Operação Têmis. A retranca ‘Polícia irá pedir quebra de sigilo de 20 suspeitos’ (pág. A8) diz que policiais se referiram ao material apreendido como ‘lixo’.

Cada vez fica mais claro, essa é a impressão, que o jornal valorizou em excesso a ação da Polícia Federal na sexta-feira.

Foto-pauta

Tem interesse jornalístico a foto da pág. A8 que mostra caça-níqueis funcionando em frente a uma base da Polícia Militar. A imagem levanta uma dúvida: há algum problema legal na jogatina ali existente? Os policiais deveriam reprimi-la ou não há fundamento legal para isso?

MP não é Justiça

Como afirmou ontem a Folha (pág. A6, ‘Judiciário tem órgãos federais e estaduais’), ‘o Ministério Público não é parte do Judiciário’.

Hoje, na arte da pág. A8, se lê na nota ‘Os presos pela PF’: ‘Os quatro magistrados foram soltos […]’.

Eram três magistrados e um procurador da República. O procurador integra o Ministério Público Federal. Portanto, não é parte da Justiça. Logo, não é magistrado.

Soccer

O texto ‘Soldados questionam versões do Pentágono’ (pág. A11) diz que o soldado Pat Tillman, morto no Afeganistão, era ‘jogador de futebol’, que ‘deixou uma promissora carreira no futebol’.

Tillman, na verdade, não se destacou no velho esporte bretão introduzido no Brasil no século 19 e em relação ao qual os americanos ainda mantêm reservas.

Ele jogava um esporte muito diferente, o ‘futebol americano’. Futebol _o esporte citado na matéria_ é chamado de ‘soccer’ nos EUA.

Planeta novo

A cobertura (clara, didática) do anúncio da detecção do primeiro planeta fora do Sistema Solar capaz de abrigar a vida suscita a dúvida: se ninguém viu o planeta (ele foi detectado ‘indiretamente’), o que é a ilustração que está na primeira página e na pág. A 14?

Se for ilustração-fantasia, o jornal deveria esclarecer. Se for o próprio planeta, então ele foi visto.

Investimento estrangeiro

A primeira leitura da arte da capa de Dinheiro, referente ao fluxo recorde de investimento estrangeiro em um mês de março, dá inicialmente a impressão de estar errada. Há outros meses com mais investimento que o de março de 2007, inclusive no governo Lula. Só quando se lê com mais atenção percebe-se que os picos anteriores não são de março, mas de outros meses.

Para muitos leitores, só há mesmo uma primeira leitura. Falta tempo para voltar e reler. Talvez ficasse melhor uma arte comparando março de 2007 com março dos anos anteriores, até para o gráfico mostrar o auge agora (excetuando o período das privatizações, como explicou a matéria).

Redundância

As principais informações (lide e sublide) da retranca ‘Reservas já passam de US$ 118 bi’, pág. B3) já haviam sido publicadas duas páginas antes, na capa.

Pacotão da educação

Na cobertura da Folha, senti falta de ouvir mais vozes discutindo o pacote lançado ontem pelo governo federal. Isso foi feito sobre a premiação de escolas públicas que melhorarem o desempenho. Mas não sobre o programa em geral, sobre o qual só se pronunciaram dois ex-ministros.

Piso

O Programa de Desenvolvimento da Educação pretende criar o piso de R$ 850 para professores da rede pública até 2010. Duas questões: quantos professores ganham menos que isso hoje (só assim se pode ter idéia do tamanho do salto pretendido)? ; o valor é nominal, será reajustado pela inflação? Em 2010, R$ 850 não terão o mesmo poder de compra de hoje.

Informática

O principal título de Informática, a manchete da capa, tem erro de digitação: saiu ‘Entrega em domicílo’, em vez de ‘Entrega em domicílio’.

24/4/07

A cobertura da Folha sobre as Operações Hurricane (Furacão) e Têmis parece hoje bem mais contida na divulgação dos relatos da Polícia Federal sobre os investigados. Penso que o jornal está correto.

No fim de semana, pareceu haver exagero e desequilíbrio editorial no noticiário, superestimando escutas telefônicas não-conclusivas e sem impacto (renderam a manchete dominical); nas cores carregadas sobre um senador que não foi nem indiciado, nem acusado, nem preso, nem (que se saiba) grampeado na Operação Lacraia, da PF; e na matéria sobre a Operação Ouro Negro (da Polícia Rodoviária Federal), sem ouvir o outro lado.

Além da manchete da segunda-feira, quando o prazo de 15 dias para defesa de um magistrado ganhou relevo que não tem.

Por outro lado, o jornal mostra hoje o resultado de investimento próprio de apuração que deveria ser mais freqüente na investigação sobre decisões judiciais suspeitas. É boa a reportagem a respeito do aumento de patrimônio de um juiz no período em que ele foi convocado para atuar em tribunal de segunda instância.

A Folha já tinha publicado um material muito bom fruto de apuração autônoma no domingo, sobre os três chefões do jogo do bicho presos.

Frear a reprodução acrítica das versões (muitas vezes sem comprovação) da polícia e do Ministério Público e acelerar a produção de reportagens não-dependentes de fontes oficiais é um caminho saudável.

Furacão – Primeira página

Não é que esteja errada, mas é imprecisa e não define como poderia a condição do ministro Paulo Medina (STJ) a chamada de primeira página sobre a Operação Hurricane. Medina é descrito como ‘suspeito’. Ele foi denunciado pelo procurador-geral da República sob acusação de três crimes.

Medina, portanto, é mais que suspeito. É acusado.

Furacão – Sem novidade

O título da primeira página ‘Juiz e advogado admitem existência de quadrilha’ não é novidade, embora a reportagem da Folha tenha algumas informações novas.

Na terça-feira passada (17 de abril), o ‘Globo’ noticiou na capa: ‘PF: juiz confessa a venda de liminares’. No interior, o diário do Rio titulou: ‘Esquema confirmado’. Escreveu que o juiz Ernesto Dória ‘confirmou […] o esquema de vendas judiciais e informações privilegiadas para a máfia dos bingos e dos caça-níqueis’.

Hoje a primeira página da ‘Folha’ conta que Dória e um advogado confirmaram ‘à PF parte do esquema de decisões judiciais favoráveis ao jogo’.

Às vezes, mesmo sem informar na frente, o jornal não deve esconder a notícia. Hoje, me pareceu exagerado destacar fato revelado na semana passada.

Talvez a Folha fizesse melhor se chamasse a atenção dos leitores para suas investigações exclusivas, como a de hoje sobre o patrimônio do juiz Manoel Álvares.

Furacão – Magistrados

Há duas cartas no Painel do Leitor e uma frase no Tiroteio do Painel sobre a decisão de ministro do STF de libertar apenas os três magistrados e o procurador encarcerados na Operação Hurricane. Os outros 21 presos continuam detidos.

A Folha, porém, apenas reproduz declarações pontuais de dois ministros sobre a decisão (em ‘Procurador diz ter convicção de crimes de magistrados’, pág. A8), sem buscar mais opiniões, a fim de obter um painel plural que ajudaria os leitores a formar juízo.

Houve ‘corporativismo’ do ministro do STF que concedeu a liberdade? O que ele escreveu na sua decisão? Qual foi a base legal? O que o jornal tem a informar aos leitores?

Furacão – Desembargador

A linha-fina e o texto da matéria ‘Quadrilha existe, admitem dois acusados’ (pág. A6) tratam Ernesto da Luz Pinto Dória como ‘juiz do Trabalho’. O jornal seria mais preciso se afirmasse, como faz em outros momentos, que ele é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho de Campinas.

Furacão – Bicheiro decano

Chama atenção a idade, 82 anos, do bicheiro Turcão, um dos ‘tios’ presos na Operação Hurricane. Volta e meia, quando se especula sobre a possível prisão de um ou outro político, a imprensa costuma falar da idade como obstáculo à privação de liberdade.

Não é pelo fato de ser quem é que Turcão seria diferente diante da lei. Por que, mesmo octogenário e doente, ele está preso? O que dizem seus advogados? E o MP e a Justiça? O que a Folha pode informar?

Furacão – TRF

Arte na pág. A6 (‘Conheça o Poder Judiciário’) informa que RS, PR e SC estão sob jurisdição do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. No domingo, porém, o texto ‘Esquema fluminense pode ter extensões em mais de três Estados’ (pág. A12) descreveu decisões do TRF da 2ª (e não 4ª) Região sobre bingos e caça-níqueis no Rio Grande do Sul e no Paraná. Isso é possível?

Furacão – Obviedades

O título de alto de página ‘Procurador diz ter convicção de crimes dos magistrados’ (pág. A8) é tão previsível que se torna jornalisticamente impróprio. Ora, se foi o procurador-geral da República quem acusou os magistrados em denúncia apresentada ao STF, é lógico que ele vai dizer que tem convicção. Notícia seria afirmar que não tem.

A Folha publica declaração de Antonio Fernando de Souza: ‘A minha convicção é que todas as pessoas contra as quais ofereci denúncia realmente cometeram delitos. Espero portando que haja condenação’. Se dissesse não ter convicção, poderia ser acionado judicialmente. E, se acusa, espera condenação (pelo menos vai dizer isso), e não absolvição.

Furacão – Dilma

O ‘Estado’ informa que, em Belo Horizonte, a ministra Dilma Rousseff afirmou ser ‘óbvio que, na medida em que aprofundarem as investigações, um modelo institucional para a questão dos jogos de azar vai ser delineado no Brasil’.

Não vi na Folha.

Ela quis dizer que a jogatina será (ainda mais) legalizada, incluindo caça-níqueis, bingos e bicho?

Têmis – Matemática

A boa reportagem ‘Patrimônio de juiz aumenta em período eleitoral’ (pág. A7) dificulta a leitura ao exigir que o leitor faça contas que caberiam ao jornal.

O juiz Manoel Álvares afirma que ganha R$ 730 mil por ano. Na média, recebe mais de R$ 60 mil mensais (distribuindo 13º salário e outros pagamentos em 12 meses). Mas a soma do que ele afirma receber é R$ 40 mil líquidos por mês. Para poupar R$ 350 mil teria de viver com uma parcela muito pequena dos vencimentos.

O jornal não esclarece, salvo engano, se os R$ 730 mil representam valor bruto ou líquido.

O juiz sustenta que recebe R$ 8 mil por mês (parte dos R$ 40 mil) de indenização. Que indenização é essa?

Há muitas perguntas. Ainda é tempo de responder.

Têmis – Balanço

A Folha ainda não fez o necessário balanço da Operação Têmis.

A operação da PF se destinava a obter provas documentais de crimes; como vazou, não apreendeu nada de muito importante, segundo o noticiário até agora.

A operação interceptou telefonemas, com autorização judicial. Como vazou (conforme a PF), não surgiram até agora grampos muito comprometedores.

Originalmente, a operação previa prisões, que a Justiça não autorizou.

O vazamento da operação não é um tanto desmoralizante para a polícia?

A PF sabe mais sobre a suposta quadrilha hoje do que antes das ações da sexta passada?

Não é o caso de o jornal informar os leitores, mesmo _se for a conclusão_ mostrando que houve muito barulho, mas poucas conseqüências? Ou, caso contrário, contando como foi útil a operação. Última hipótese, que ela frustrou a investigação policial em alguns aspectos, mas foi positiva em outros.

Furacão, Têmis – Disputa na PF

As recentes operações têm algum impacto na disputa para suceder o delegado Paulo Lacerda na direção da PF? Quem ficou mais forte, quem se enfraqueceu? Lacerda pode continuar? Tarso Genro pretende escalar como sucessor alguns dos influentes delegados federais originários da mesma cidade do ministro, Santa Maria (RS)?

Mudando de assunto

Está errada a nota ‘Reencarnação’ (pág. E6), que se refere a Ernesto Che Guevara como cubano. Ele era argentino.

23/4/07

Esta crítica aborda as edições de hoje, ontem (domingo 22 de abril) e anteontem (sábado 21 de abril).

A leitura do jornal sugere quatro pautas, espalhadas em textos publicados no sábado:

a) Em ‘Delúbio vai a inauguração em Goiás, mas não espera por Lula’ (pág. A13), conta-se que o ex-tesoureiro do PT ‘está formalmente desempregado desde janeiro do ano passado, quando foi demitido do cargo de professor de matemática da rede estadual de ensino de Goiás’. É natural que, após essa informação, o leitor indague: então, do que vive Delúbio?

b) Também na pág. A13, o jornal informa (‘Desembargador acusou colegas de irregularidades na eleição do TRF’) que ‘Carreira Alvim [desembargador então preso] afirmou que o atual presidente [do Tribunal Regional Federal da 2ª Região] teria conseguido um edital para permitir que o filho, Ricardo Aguiar, entrasse na faculdade de Direito da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) sem prestar vestibular’. Está aí um caso que interessa a leitores de todo o país, inclusive a jovens universitários e vestibulandos: o rapaz entrou ou não pela janela? Por ter publicado a versão de Carreira Alvim, citando o nome de Ricardo Aguiar, a Folha deveria apurar e esclarecer.

c) na cobertura da reunião empresarial em Comandatuba (‘Em evento, executivos aplaudem críticas à falta de eficiência no porto de Santos’, pág. B6), lê-se que a presidente do Instituto Ayrton Senna disse que, ‘mantido o ritmo atual, o Brasil levará 305 anos para ter um Índice de Desenvolvimento Humano equivalente ao de um país rico’. A Folha não confirma nem nega, usando a fórmula ‘segundo Viviane’. A informação impressiona. Não valeria checar?

d) Operação Hurricane, Operação Têmis, Operação Lacraia, Operação Ouro Negro. A Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal não apelam excessivamente ao marketing?

Edição de sábado, 21 de abril

Envolvidos

É imprópria a descrição na primeira página (‘Suspeito de integrar máfia, ministro do STJ sai de licença’) do ministro Paulo Medina como ‘envolvido’ na Operação Hurricane (Furacão). O magistrado é ‘investigado’ pela Polícia Federal.

Outra chamada (‘Senador é acusado de colaborar com grilagem de terras’) afirma que o senador Jayme Campos ‘foi envolvido no caso. Ele nega’. Nega o quê? Supõe-se que alguma suspeita ou acusação. A expressão ‘envolvido’, além de pouco clara, tem sentido eventualmente pejorativo. Deveria ser evitada pelo jornal.

Transparência

O colunista Fernando Gabeira escreveu sobre questões relativas à Câmara (‘O apagão dos apagões’). O leitor não é obrigado a saber que o autor também é deputado. Portanto, não se trata de mero observador, mas participante das decisões do parlamento e interessado nelas de forma particular. O jornal deveria informar no pé a condição de deputado do seu colunista.

Erramos em etapas

No sábado foram publicadas em uma nota de Erramos três correções relativas à reportagem sobre assalto a banco na semana passada. No domingo, sobre a mesma matéria, saíram (também condensadas em uma nota) mais duas correções.

Por que a correção em etapas, sem reconhecer de uma só vez os erros da reportagem? O método prejudica a compreensão pelo leitor.

Têmis – A floresta

É considerável o risco de a crítica diária do ombudsman, ao apontar erros técnicos, perder-se nas árvores e esquecer a floresta. No sábado, a Folha ofereceu uma boa cobertura da operação da PF concentrada em São Paulo (a floresta). Teve problemas, como os citados a seguir (algumas árvores), mas deu aos leitores uma boa idéia do que aconteceu.

Têmis – A investigação

O texto ‘Operação da PF investiga venda de sentenças em SP’ (pág. A4) diz que ‘o esquema teria começado em meados de 2006’. A lógica é que a ‘investigação’ tenha sido iniciada naquela data, e não o suposto ‘esquema’.

Têmis – Outro lado

A leitura da cobertura foi dificultada pela publicação do outro lado antes do conjunto dos textos. Na pág. A4, há manifestações de quem ainda não tinha aparecido em nenhuma matéria. É o caso da Telefônica, que emitiu nota sobre assunto que o leitor só encontrou páginas à frente.

Têmis – Falou ou não?

O texto ‘Acusados afirmam desconhecer acusações’ (pág. A4) dá conta de que o advogado Nabor Bulhões não respondeu ao recado em seu celular. Já em ‘Patrimônio de magistrados foi alvo em 1999’ (pág. A6), o advogado ‘diz estar convencido de que o STF manterá a decisão de trancar ações contra seu cliente’. A Folha conversou ou não com Bulhões?

Têmis – Por dentro dos bingos

Em tom relatorial, o jornal publica que ‘Nove bingos são interditados em São Paulo; 88 casas ainda estão em atividade’.

A Folha prestaria um serviço aos leitores se contasse como estão, por dentro, os bingos em funcionamento. Milhares de pessoas, entre elas leitores do jornal, freqüentam bingos. O movimento aumentou ou diminuiu? O que estão fazendo os fanáticos por jogo? Jogadores desistiram de ir às casas com medo de operações policiais?

Para saber, não servem relatórios oficiais ou declarações de empresários do setor. É preciso fazer reportagem.

Sinal amarelo

Tem um problema a reportagem ‘PF prende 32 em operação contra grilagem de terras’ (pág. A14). Os leitores são informados de uma operação na qual não há registro (que se saiba) de interceptação telefônica do senador Jayme Campos; ele não é um dos 32 presos; a escuta em que é citado é muito pouco conclusiva; não há é possível entender se há algum caso de irregularidade com a participação do senador; ele não é acusado formalmente de nada.

Mesmo assim, é o principal personagem da matéria.

O jornal não pode se transformar em mero divulgador de ações da Polícia Federal e de declarações de integrantes do Ministério Público.

15 linhas

A primeira página destaca: ‘Homem mata um e se suicida após invadir prédio da Nasa’. Na pág. A15, há meras 15 linhas sobre o assunto.

Se a capa sintetiza o que o jornal considera mais importante ou interessante no dia, o leitor espera que dentro encontre informações à altura. Não foi o que aconteceu.

No pé

A primeira página informa com dez linhas que a Casa Branca ordenou uma investigação sobre o massacre da Virgínia, que o assassino comprou uma pistola pela internet, que houve 12 ameaças a instituições de ensino e do governo.

Dentro, há apenas 18 linhas, sem título, no pé da matéria sobre o episódio na Nasa.

De novo, o leitor que confiou na primeira página se frustrou com a cobertura interna.

Células-tronco

É de alto nível a cobertura sobre a sessão no Supremo Tribunal Federal sobre o uso em pesquisas de células-tronco embrionárias.

Os leitores da Folha receberam o melhor pacote de informações sobre o evento. O jornal acerta ao publicar as _para dizer o mínimo_ delicadas declarações de Cláudio Fonteles, ex-procurador-geral da República, sobre a professora Mayana Zatz.

O ‘Estado’ tem prognóstico que não li na Folha: o STF deve permitir ‘que a comunidade científica brasileira utilize células-tronco de embriões humanos congelados há mais de três anos’.

Economia cifrada 1

O texto ‘Empresários atacam juro e pedem corte de gastos do governo’ (pág. B6) fala de ‘adequação da carga tributária brasileira’.

O leitor tem o direito de perguntar: o que é isso?

Economia cifrada 2

Há cinco citações sobre ‘swap cambial reverso’, uma delas na linha-fina, no texto ‘Dólar fecha em queda, apesar de atuação do BC, a R$ 2,028’ (pág. B9).

Os leitores não são obrigados a conhecer o significado de tal palavrão.

Pensamento único

A Polícia Rodoviária Federal é a única voz do texto ‘Quadrilha que adulterava combustíveis é presa no NE’. Na Operação Ouro Negro, foram presas 45 pessoas.

Nenhuma delas foi procurada. Nem advogado, nem parente, nem amigo. Não há registro nem de tentativa para falar com representante dos presos.

Reportagem exemplar

A exemplar reportagem-furo ‘ExcelAire acusa Embraer por falha em jato’ é mais um capítulo da ótima cobertura que a Folha faz do acidente. Os leitores ganhariam muito se, como nesse caso, o jornal não descansasse até contar o possível sobre tantos episódios, sem esquecê-los já na notícia bombástica seguinte.

Sargentos promovidos

Está errada a informação de que sargentos são ‘oficiais de baixa patente’ (‘Em AL, policiais fazem greve por reajuste de 88,5%’, pág. C6). A confusão se manifesta também na chamada da primeira página, embora nesta esteja implícita a ‘promoção’ dos sargentos.

Sargentos são praças, não oficiais.

Indústria cultural

As capas da Ilustrada e do ‘Caderno 2’ do ‘Estado’ tratam do mesmo livro, do mesmo escritor, contêm (no ‘Estado’ em página à frente) entrevista com o mesmo autor.

Os principais diários brasileiros se parecem cada vez mais uns com os outros.

Por quê?

O texto ‘Ele não vem’ (pág. 2 da Folhinha) confirma que o ator Zac Efron não virá ao Brasil para a apresentação do ‘High School Musical’.

A pergunta embutida, mas que não é respondida: por quê?

Edição de domingo, 22 de abril

O melhor do domingo

A edição dominical, mais interessante que a da semana anterior, trouxe quatro ótimas histórias: o perfil dos ‘tios’ bicheiros do Rio, o relato da sobrevivente do massacre na Virgínia, a aventura até os destroços do avião da Gol e, em especial, a entrevista com Dercy Gonçalves. Duas delas (bicheiros e professora do Virginia Tech) não foram contempladas pela primeira página.

Manchete

É compreensível que o jornal quisesse dar à Operação Têmis seu principal título da primeira página de domingo.

Posso estar errado, mas a impressão foi de que as informações não têm força jornalística para sustentar a manchete ‘Grampos indicam venda de sentenças’. As escutas transcritas internamente não são conclusivas, não têm o impacto das da Operação Hurricane no Rio, aparentemente não dizem muita coisa.

É possível que apareçam grampos com mais força que os divulgados. Estes valiam registro interno, mas até para uma pequena chamada na primeira página parecem material jornalisticamente fraco.

Exagero

A nota ‘Arbitragem’ (pág. A4) traz declaração de Luiz Paulo Velloso Lucas sobre Zonas de Processamento de Exportação.

É exatamente o assunto sobre o qual ele escreveu uma página antes, na seção ‘Tendências/Debates’.

Coluna do ombudsman

A reprodução de ilustração publicada na terça-feira sobre o massacre na Virgínia, ao ser ampliada, perdeu qualidade. O atirador ficou menos escuro e, as vítimas, menos claras. A mudança prejudicou a formação de juízo pelos leitores sobre o tema principal da coluna do ombudsman.

Denúncia

O ‘Estado’ informou que o ministro do STF Paulo Medina foi denunciado pelo procurador-geral da República sob acusação de formação de quadrilha, corrupção passiva e prevaricação.

Esforço de reportagem

O perfil que o jornal fez dos três grandes bicheiros presos pela Operação Hurricane é informativo, bem escrito, bem apurado e relevante. Reúne informações mais conclusivas e mais fortes do que as do noticiário da Operação Têmis. Foi um bem-sucedido esforço de reportagem. Pena que os leitores que se guiaram pela primeira página não tenham tido a atenção chamada para o belo trabalho que o jornal produziu.

Viagem à selva

A viagem dos repórteres da Folha ao local onde o Boeing da Gol caiu em setembro é daquelas reportagens em que, tanto ou mais que os fatos apurados sobre o caso (os destroços que os índios querem que a empresa retire, por exemplo), vale o relato da aventura. Faltam boas histórias no jornal. Essa ficou muito boa.

Terminologia jurídica 1

Não há sentido, salvo desconhecimento pelo qual já peço desculpas, em afirmações contidas em ‘Inquérito da PF ainda não está concluído’ (pág. C4).

O texto diz que o Ministério Público Federal ‘ainda analisa se aceita o indiciamento’ dos dois pilotos do Legacy. Variante: ‘Caso haja indiciamento de controladores de vôo, e a Procuradoria os aceite […]’.

Não cabe ao Ministério Público aceitar ou recusar indiciamentos. O indiciamento é prerrogativa da polícia no inquérito. O MP denuncia (faz a acusação formal) ou não. A polícia pode indiciar, e o MP não denunciar. A polícia pode não indiciar, e o MP denunciar. O MP pode divergir da polícia, o que não significa ‘não aceitar o indiciamento’.

O jornal deveria corrigir.

Ouvidores

O ‘Globo’ publica reportagem contando que ‘o Brasil está atrasado dez anos em relação à Europa quando o assunto são ouvidorias de empresas privadas’. No alto de página, o texto ‘Ouvidorias: um atraso de dez anos’ foi publicado na seção ‘Defesa do Consumidor’.

Edição de segunda, 23 de abril

Informação: do caos à ordem

Por mais feliz que o jornal possa ser ao editar a cobertura das operações policiais que investigam membros do Judiciário, é muito difícil para o leitor acompanhar a profusão de informações. Sem deixar em segundo plano a busca pela notícia exclusiva, a Folha prestaria um serviço de grande utilidade se reservasse esforços especiais para tentar organizar as informações. Elas são tantas que está difícil entendê-las.

Minha impressão é de que hoje, sobre a Operação Têmis, o jornal foi bem-sucedido. Contou a história da investigação, qual era o seu foco inicial, como está, para onde deve seguir. Não foi o jornal que deu mais espaço ao assunto, mas foi muito claro.

Manchete

Pelo segundo dia, a manchete parece fraca: ‘Supremo dá 15 dias para ministro se defender’.

Se o jornal não tem novidades importantes sobre a Operação Hurricane (ou sobre a Têmis), não é obrigado a manchetar o tema, só para evidenciar sua preocupação com ele.

Critérios

Os leitores da Folha ainda não receberam um relato mostrando que critérios nortearam os ministros do STJ para (um deles) ordenar a prisão de 25 pessoas na Operação Hurricane e negar (outro) a de 43 suspeitos na Têmis. Qual a diferença?

Terminologia jurídica 2

O texto ‘Ministro tem 15 dias para dar explicações’, que fundamentou a manchete, dá a entender que o procurador-geral da República ‘solicitou’ ao STF ‘denúncia’ contra magistrados e procurador. Não há lógica. A prerrogativa de denunciar (acusar) é do procurador. Ao STF cabe acatar ou não a denúncia, em caso positivo instaurando processo. O Ministério Público não ‘solicita’ denúncia à Justiça. Ele a apresenta.

Sem explicação

A nota ‘On-Line’ (pág. A8) fala em ‘streaming’.

O jornal precisa explicar ao leitor o que querem dizer termos técnicos e palavras estrangeiras.

Operação França

A boa cobertura da Folha sobre o primeiro turno da eleição francesa tem dois destaques: o texto mostrando como a França não está mal como faz supor ‘a angústia de uma parcela importante da sociedade’ (‘Medo do declínio nacional move voto dos franceses’ , pág. A10) e a análise sobre os limites da Presidência de um país membro da União Européia (‘Tratados da UE restringem poder presidencial’, na mesma página).

Baloubet

A reportagem ‘Pessoa planeja despedida digna a Boloubet du Rouet’ (pág. D6) conta que o cavaleiro Rodrigo Pessoa caiu de primeiro para 17º no ranking. Não explica por quê. Pessoa é um dos protagonistas da disputa sobre a seleção da equipe brasileira para os Jogos Pan-Americanos. A única referência da matéria é: ‘Ainda com a participação no Pan aberta […]’. Por que está indefinida? Há problemas? Quais? O que diz Pessoa? É interessante saber da ‘despedida digna’ do velho cavalo, mas o cavaleiro hoje é mais notícia. Ao driblar a conflagração no hipismo nacional, a Folha dá a impressão de ter evitado um assunto que vem cobrindo e no qual deveria insistir.

Passeio paulistano

É muito boa, criativa e saborosa a reportagem ‘A São Paulo de Adoniran’. Comprova como, a partir de um lançamento da indústria cultural, o jornal pode fazer reportagem autônoma.

Uma pequena observação que não diminui o mérito da matéria: em desrespeito à orientação do jornal, há declaração entre aspas de personagem não-identificado. Salvo engano, as recomendações de não publicar off entre aspas se reforçaram após o caso Jayson Blair, o repórter cascateiro do ‘New York Times’. A Folha deveria mesmo evitar tal recurso.’

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