Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > FOLHA DE S. PAULO

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 03/07/2007 na edição 440

’28/06/07

A cobertura da Folha sobre a ação policial no complexo do Alemão é marcada pela preponderância –e dependência– de informações fornecidas pelas autoridades estaduais do Rio. Manchete: ‘Ação policial mata ao menos 19 no Rio’. Título do alto da capa de Cotidiano: ‘Operação da polícia mata ao menos 19 no Rio’. Título do alto da pág. C3: ‘Polícia buscava esconderijo havia 2 meses’. Título do alto da pág. C4: ‘Para secretário, ação é ‘remédio amargo’, porém necessário’.

O drama dos moradores da favela ficou reduzido a texto de uma coluna, na pág. C4: ‘160 mil sofrem com o combate a 1.600 no Alemão’.

A Folha não ouviu opiniões alternativas –e divergentes– às do governo do Rio.

O ‘Estado’ consultou fontes diversas na reportagem ‘‘Pan é pretexto para ação de extermínio’’. Fez uma entrevista interessante com um fotógrafo que vive no complexo do Alemão, ‘‘Não tem como ficar aqui’, diz professor de fotografia’.

Ao ver no jornal tantos cadáveres carregados, é natural que os leitores queiram saber de quem são. Se ainda não foram identificados, a Folha dificilmente poderia responder. Mas deveria buscar informações que ajudassem a esclarecer. O ‘Estado’ contou uma versão sobre um surdo-mudo que teria sido assassinado ao não atender aos gritos de ‘pára, pára’ dos policiais.

Na história recente, a Folha superou seu concorrente local na cobertura de operações da polícia no Rio que resultaram em grande número de mortos.

Hoje, com o olhar mais curioso e plural, o ‘Estado’ parecia a Folha.

Gaza é aqui – Fotografia

Na comparação com seus dois principais concorrentes, a Folha foi o jornal que abriu menos a fotografia da primeira página para o confronto (o ‘Globo’ publicou duas).

A primeira página da Folha optou por uma foto em que policiais carregam um corpo. Considero mais dramática a imagem da capa de Cotidiano, com moradores carregando um corpo (cadáver?).

Fotografia na capa de ‘O Dia’ entra para a antologia do fotojornalismo brasileiro: um policial, com uma arma na mão direita e um charuto na esquerda, passa por três cadáveres. Em página interna, ele fuma o seu ‘puro’.

A Folha poderia publicar amanhã as duas fotos.

Vale perfil do policial.

19 a 3

A desproporção entre o número de mortos (19, todos traficantes, segundo o relato oficial) e feridos (três) é muito grande. O que dizem especialistas em segurança pública e ações armadas urbanas? É possível comparar com estatísticas da missão de militares brasileiros no Haiti?

Uma boa discussão

O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, disse que se ‘quebrou um pacto de não-agressão silencioso, onde a solução dos problemas era não agir’.

Mais: ‘A sociedade tem que optar se ela quer que as pessoas fiquem sem tiros em determinadas favelas, mas à mercê do tráfico, ou que o Estado se imponha e expulse o tráfico’.

O secretário parece ter razão sobre o pacto (o que não quer dizer que não se devam cumprir as leis do Estado de Direito em ações repressivas).

É muito boa a discussão que ele propõe. A Folha deveria ouvir o que a sociedade tem a dizer/responder.

Bucha de canhão

A Folha conta que um agente policial foi atingido no tórax, embora usasse colete à prova de balas. Quer dizer que, em um confronto com traficantes que usam fuzis, os coletes dos policiais não os protegem de projéteis desse tipo de arma? O jornal deveria esclarecer.

Pan-pan

A decisão de aprofundar o combate contra os traficantes que dominam o complexo do Alemão ocorreu às vésperas dos Jogos Pan-Americanos. A proximidade da competição não foi determinante para a iniciativa da polícia fluminense?

União

A Folha informa que, ‘apesar de preso, Luís Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, voltou a operar na fronteira do Brasil com o Uruguai, segundo a polícia’.

Beira-Mar está preso em penitenciária federal. Ou seja: a polícia do Rio afirma que a União permite que o traficante atue, mesmo estando encarcerado. O que a União tem a dizer a respeito?

Dúvida: por que a badalada Força de Segurança Nacional cedeu apenas 150 agentes para a operação de ontem? Eles ficaram distantes da área de fogo pesado.

Retirada

Pelo que entendi, depois de todo o esforço de ontem, a polícia se retirou do morro. Ou seja: os traficantes continuam a dominá-lo militarmente. Por que a Secretaria de Segurança ordenou a retirada? Para que serviu a operação?

Personagens

Seria interessante os leitores saberem quem são os traficantes que dominam o complexo do Alemão. O jornal citou os que estão presos. E hoje? Quem dá as cartas no local? Jornais do Rio falam que um certo Tota foi baleado, mas não detido. A propósito: a considerar o número de prisões, a operação não parece ter sido bem-sucedida.

A bala que fez a curva

A reportagem ‘Professor é assassinado em frente a alunos’ (alto da pág. C5) diz que um professor ‘foi assassinado ontem com quatro tiros no rosto’.

Mais à frente: o assassino ‘efetuou os disparos pelas costas do professor’.

Um leitor bem-humorado perguntou se se trata ‘do projétil folha-seca’, referência ao chute do craque Didi, que fazia uma curva.

Manual – Aids

O texto ‘Morre o poeta carioca Bruno Tolentino, 66’ (pág. E14) afirma apenas que ‘a causa da morte foi falência múltipla dos órgãos’. O ‘Globo’ diz que o poeta tinha Aids. Por que a Folha não publicou a informação?

O ‘Manual da Redação’ recomenda (pág. 51): ‘Quando a morte de alguém decorrer de Aids, não omita a causa (nos diagnósticos e autópsias, quase nunca a Aids é mencionada, e sim outras doenças decorrentes da síndrome, como pneumonia)’.

Lula e Renan

A Folha informa que ‘Lula não se dispôs a entrar em campo a favor de Renan’ e que ‘não houve ordem para salvar Renan’ (‘Renan vai ao ‘amigo Lula’ para pedir apoio’, pág. A5).

Título do ‘Globo’: ‘Lula intercede por Renan’.

A acompanhar.

Lugar-comum

Título da primeira página: ‘País Basco une o moderno ao tradicional’.

27/06/07

Trecho da coluna de sábado assinada por Clóvis Rossi na pág. A2 (‘Guido Salim Mantega Maluf’): ‘Se alguém se lembra, Paulo Salim Maluf foi o primeiro a lançar a tese do ‘estupra, mas não mata’. Marta Suplicy correu atrás e cunhou sua versão reduzida e ‘light’ da frase, o tal ‘relaxe e goze’. Como todo mundo deve lembrar, a frase original é ‘se o estupro é inevitável, relaxe e goze’. O desprezo ao público é idêntico’.

Trecho da coluna de segunda-feira, no mesmo espaço, autoria de Fernando de Barros e Silva (‘Estupra, mas não mata’): ‘‘Relaxa e goza!’ Marta foi vítima da sua autoconfiança, acabou traída pela espontaneidade. Ofendeu quem já estava sendo desrespeitado em seus direitos e/ou humilhado nos aeroportos. Deveria ficar por aí. Impressionam, no entanto, a insistência e a violência dos ataques à ministra, as facilidades e os exageros comparativos, os estupros do bom senso cometidos nos últimos dias. Não é preciso ir muito longe para constatar a fúria machista recalcada na fala dos marmanjos. Marta não é Maluf. […] Alegar que ‘relaxa e goza’ tem como premissa a frase ‘se o estupro é inevitável’ equivale a usar uma verdade fora de contexto para produzir uma mentira como resultado. É má-fé’.

Sublinho a expressão ‘não é preciso ir muito longe’.

Trecho da coluna de Clóvis Rossi de hoje (‘A escola Marta/Maluf’): ‘Claro que existem ‘crimes piores’, ou, no caso, problemas mais graves do que o caos nos aeroportos. Logo, o ‘relaxa e goza’ de Marta deveria ser desculpado, pelo menos na visão calhorda de quem acha que a coitadinha da ministra teve um momento de infelicidade. Nada disso. Foi exatamente de desculpa em desculpa para o desprezo das autoridades para com o público, dos mais diferentes governos, que se chegou ao estágio de barbárie que o país vive. As frases tanto de Marta como de Maluf são profundamente emblemáticas desse desprezo’.

Nem Barros e Silva nomeou Rossi na segunda, nem Rossi citou Barros e Silva hoje. Não precisava: as dezenas de mensagens de leitores evidenciam que é evidente o confronto de idéias entre eles.

Os leitores da Folha ganham imensamente com a divergência entre colunistas _um deles, Rossi, também repórter e membro do Conselho Editorial; outro, Barros e Silva, editor de Brasil.

Se o pluralismo é um dos pilares do projeto jornalístico da Folha, nada mais salutar que ele se expresse em desacordos entre os seus colunistas. Não é o que ocorre em publicações que têm como norma tácita o não confronto de pensamento entre seus colaboradores.

Ao oferecer opiniões divergentes, o jornal se enriquece, contribuindo para que os leitores formem juízo.

Talvez os termos ‘estupros do bom senso’, ‘fúria machista recalcada’, ‘mentira’, ‘má-fé’ e, em troco, ‘visão calhorda’ não configurem o tom desejado em prova de admissão ao Instituto Rio Branco. Mas a virulência retórica pode ser componente do bom debate.

Reproduzo a frase final da mensagem de um leitor ao ombudsman: ‘Que o Conselho Editorial não freie essa ‘briga’, pois o melhor da Folha é exatamente a pluralidade de seus articulistas’.

Informação que não muda o conteúdo da manifestação do leitor, à qual me associo: quem teria poder de frear não seria o conselho, mas o comando do jornal.

Eis a íntegra do verbete ‘polêmicas’ do ‘Manual da Redação’ (Publifolha, 2001, pág. 47): ‘A Folha estimula polêmicas em suas páginas. Elas devem estar presentes em artigos e críticas e se refletir em reportagens e entrevistas. A Folha publica também discordâncias conceituais entre seus jornalistas. Polêmicas que se prolongam tendem a cansar o leitor e descambar para ataques pessoais. Quem edita deve recomendar aos polemistas que evitem esse tipo de ataques. A maneira correta de encerrar uma polêmica é avisar as partes de que terão apenas mais uma oportunidade e igual número de linhas para se manifestar e publicar essas manifestações lado a lado’.

Reafirmo: a controvérsia em curso enriquece o jornal. Seria estimulante que, se os polemistas se dispuserem a prossegui-la, não lhes fosse imposto obstáculo. Não identifiquei ataque pessoal, apenas o acento compatível com a defesa contundente de opiniões.

Por quê?

Li a íntegra da cobertura sobre a crise no Conselho de Ética no Senado. A despeito de muitas informações, não consegui compreender um aspecto importante da renúncia do senador Sibá Machado à presidência do órgão: era seu interesse promover uma investigação digna do nome sobre Renan Calheiros ou sua saída visa ajudar o presidente do Congresso e as relações do Planalto com o PMDB?

Pacote da CIA

Concordo que tem relevo jornalístico a informação sintetizada pelo título do alto da pág. A10, a mais importante de Mundo (‘João Goulart era ‘oportunista’, disse CIA’). Ocorre que a notícia está à disposição há pelo menos 13 anos.

O documento liberado ontem no pacote da agência americana apenas reafirma o que historiadores já conheciam. Em breve consulta na página da CIA na internet há pouco, encontrei um documento de fevereiro de 1963 (elaborado nove meses antes do desclassificado ontem) que começa assim: ‘O presidente Goulart é essencialmente um oportunista’. O acesso público a este papel existe desde 1994.

É curioso que seja necessário um evento de iniciativa governamental dos EUA para chamar a atenção a interpretações da agência sobre o Brasil que estão à disposição há tanto tempo, parte do período já na internet.

Tem mais importância histórica e jornalística e oferece informações inéditas a reportagem que ocupa a parte inferior da página, ‘Agência detalha recurso à Máfia para matar Fidel’. Os planos de assassinato são ressaltados no ‘New York Times’ (os documentos liberados são o maior destaque da primeira página) e no ‘Washington Post’ (terceiro título em importância, acima da dobra da capa).

Para gostar de ler (e rir)

É ótima a reportagem de capa da Ilustrada, ‘Os amigos do rei’, sobre músicos que acompanham Roberto Carlos. O melhor, para rolar de rir, é a subretranca ‘Cabelos da banda seguem a moda do chefe’.

Quem quiser rir um pouco mais não deveria deixar de ler hoje a seção Contraponto, do Painel.

26/06/07

Títulos na primeira página (‘Diretor da Polícia Federal desafia o Ministério Público’) e no alto da pág. A4 (‘Diretor da PF defende escutas e desafia Ministério Público’) empregam o verbo ‘desafiar’ sem que haja desafio algum embutido nas declarações de Paulo Lacerda.

O delegado afirmou que, se a Justiça decidir que o Ministério Público tem atribuições para investigar, este teria que ‘assumir a responsabilidade pela apuração dos 120 mil inquéritos que tramitam hoje’. Trata-se de opinião. Inexiste desafio.

O verbo ‘desafiar’ é jornalisticamente forte, mas só deve ser usado quando faz sentido.

Roriz sem destaque

O novo escândalo no Senado, referente a negócios de Joaquim Roriz, não recebeu atenção na primeira página da Folha. Nem mesmo alto de página em Brasil.

Acho que o jornal erra ao minimizar o caso.

Folha versus Folha

A primeira página (os três quartos disponíveis, em virtude de anúncio) considerou um dos destaques da edição a informação sobre a derrota judicial (provisória, cabe recurso) de Daniella Cicarelli para o YouTube.

A chamada dá a entender que a Folha oferecerá uma boa cobertura. Na pág. C7, a reportagem foi publicada em uma coluna, no pé.

A primeira página transmitiu uma expectativa que não se confirmou, para frustração dos leitores.

Combinação confusa

A primeira página publicou dois títulos para a cobertura do espancamento e roubo de uma empregada doméstica no Rio. O primeiro, ‘Polícia prende os 5 acusados de agressão a doméstica’ é seguido da chamada.

O outro, abaixo, ‘Pai afirma que jovem podia estar drogado’, ficou perdido. Não deixou claro que trata do mesmo assunto acima.

Shopping e shopping

Retratos do Brasil: anúncio sobre o ‘início da comercialização’ de um shopping ocupa 25% da primeira página.

No mesmo espaço, um grande texto-legenda informa que quatro operários morreram quando trabalhavam na construção de outro centro comercial.

Única

Entre aspas no texto, Janice Ascari parece ser a única procuradora Regional da República em São Paulo (‘Diretor da PF defende escutas e desafia Ministério Público’, pág. A4). É isso mesmo?

Manual – Sem outro lado 1

É boa a reportagem ‘Gastos do PT com segurança disparam’ (pág. A12). Ela expõe a ascensão social de funcionários muito próximos à direção partidária. Mas há problemas.

O jornal compra off, entre aspas, sobre a ‘mentalidade de aparelho’ de José Dirceu. Tal característica teria sido importante para a disparada dos gastos petistas com a segurança. Por que o jornal não tentou ouvir o ex-ministro?

Há referência a Sérgio Gomes da Silva, no texto e no quadro, como ‘um dos suspeitos pela morte’ do prefeito Celso Daniel. Por que é suspeito? Há inquérito em andamento? Silva está indiciado? Se ele foi indiciado no passado, o Ministério Público o acusou? Em caso positivo, como se pronunciou o tribunal do júri? A reportagem não esclarece.

O quadro diz que Freud Godoy foi ‘inocentado’ pela PF. É impressionante que esse tipo de afirmação ainda apareça na Folha. Basta consultar o ‘Manual da Redação’, apostilas sobre o funcionamento da Justiça produzidas pelo jornal, palestras promovidas pelos programas de Treinamento e Qualidade: polícia não julga! Quem julga é a Justiça.

Manual – Sem outro lado 2

O texto ‘Aparelhamento do Estado é herança de Lula, diz Aécio’ (alto da pág. A14) apresenta uma série de afirmações do governador de Minas que miram o presidente da República.

Contrariando os princípios resumidos no ‘Manual da Redação’, o jornal não buscou o ‘outro lado’ de Lula.

Manual – Sem outro lado 3

Texto na pág. A14: ‘Onda de invasões no Pontal demonstra ‘intransigência’ do MST, afirma Serra’.

Por que a Folha não indagou ao MST o que pensa da afirmação do governador de São Paulo?

Matriz cifrada

A expressão ‘matriz energética’ volta a aparecer hoje, no texto ‘Brasil pode sofrer apagão já em 2008, diz Adriano Pires’ (pág. B2).

Não seria melhor o termo mais jornalístico, e menos de especialistas, ‘fontes de energia’?

Papel sobrando

A capa de Cotidiano na edição Nacional tem uma fotografia que é um enorme desperdício de papel. Ela mostra o aeroporto Tom Jobim – Galeão. A imagem não tem nenhuma informação, não ‘diz’ nada.

Ao contrário do que afirma a legenda, errada, o que aparece não é uma pista do aeroporto, mas o pátio de estacionamento de aeronaves.

O jornal deveria corrigir.

Sem fotos

Até agora, a Folha não publicou fotografia dos jovens que espancaram no Rio uma empregada doméstica, cuja imagem apareceu ontem e hoje.

O jornal também deveria exibir os agressores.

Temporão

A cobertura do ‘Estado’ sobre a sabatina da Folha com o ministro Temporão afirma que o público reagiu com aplausos e vaias a declarações do ministro da Saúde. Não vi a informação na Folha.

Pode ser falta de atenção minha, mas não consegui saber se a pessoa que vai comprar a pílula do dia seguinte na farmácia precisa apresentar receita ou não.

Entendi que a distribuição do Ministério exige prescrição médica. E que as farmácias vendem o medicamento desde 1999. Mas faltou dizer se o estabelecimento pode e deve exigir receita.

Deu para entender?

Título do alto da pág. D2: ‘Com tudo em falta, Copa América tem uma sobra’.

26/06/07

Os comentários a seguir se concentram na edição dominical da Folha. No pé, algumas notas tratam do jornal de sábado e do de hoje.

Engodo publicitário

A Folha não deveria aceitar anúncios produzidos com a intenção de ludibriar os leitores, mimetizando peça jornalística.

O despudor da propaganda de guaraná nas páginas 4 e 5 da Revista da Folha se enquadra na fórmula do engodo.

O fato de o anúncio conter o aviso de ‘informe publicitário’ não desobriga o jornal de proteger os leitores da confusão.

A diagramação mimetiza a da Revista, para que o objetivo de iludir tenha mais chances de sucesso.

O mesmo anúncio saiu na Revista do ‘Globo’, com diagramação adaptada para enganar os leitores do jornal carioca.

Voltarei ao assunto na coluna dominical.

É mesmo a Folha?

Títulos que acompanham as três fotos da primeira página: ‘‘AMEI DEMAIS’, diz pivô do Caso Renan’; ‘Henrique Meirelles, presidente do BC, MOSTRA SUA INTIMIDADE e diz estar relaxado após quase 5 anos de críticas’; ‘Dercy Gonçalves COMEMORA 100 anos em Santa Maria Madalena, onde nasceu’.

(Maiúsculas por conta do ombudsman, embora em um caso o título gritasse mesmo em letras garrafais.)

É animador que as edições dominicais e não só elas busquem um cardápio jornalístico mais atraente (havia um tempo em que a Folha dos domingos adorava manchetes de economia, relevantes, porém tediosas).

No entanto, há limites que o jornal deveria considerar, para não ser confundido com publicações mais de entretenimento do que de jornalismo.

No caso de Meirelles (a opinião sobre a reportagem está mais à frente), ele não mostra intimidade alguma, apenas encena a intimidade. São coisas diferentes, e o jornalismo de qualidade não deve confundi-las.

Boa manchete

É muito boa a reportagem que rendeu a manchete ‘Governo amplia negócios com empresas investigadas’. O jornal foi transparente ao informar que nenhuma das firmas alvo de operações da Polícia Federal foram declaradas inidôneas. Apontou, porém, de modo feliz, como a União não se importa em manter e até vitaminar contratos com empresas suspeitas de irregularidades.

Mistério esclarecido

A primeira página informa protocolarmente que, entre as 280 páginas da edição, estão incluídas 20 (em tablóide) do especial Carreira Executiva.

Curiosidade imediata: por que, com um produto extenso assim, não houve chamada na capa?

Ao ler o suplemento, descobre-se a resposta: porque ele é um produto jornalístico muito fraco.

Clichê

A nota ‘Fogo amigo’ (pág. A4) trata de ‘matérias recentes’.

‘Matéria’, no caso, é jargão parlamentar e processual que deveria ser evitado pela Folha. Significa assunto, tema, projeto congressual etc.

Esses moços

O anúncio da nova turma do Programa de Treinamento em Jornalismo Diário diz que seu objetivo é ‘selecionar jovens talentosos e ensiná-los a trabalhar em jornal diário’.

Lembro de conversa de anos atrás com os finalistas (40, diz o texto), entre os quais havia candidatos que dificilmente se enquadrariam na categoria de juventude.

Se a Folha quer apenas ‘jovens’, deveria informar o limite de idade para os inscritos no seu excelente programa de treinamento.

De tanto amar

Considero legítima a publicação de entrevista com a jornalista Mônica Veloso. É importante o leitor conhecer a proximidade dela com o presidente do Senado para avaliar a autoridade do depoimento da mulher que conta ter recebido em nome de Renan Calheiros dinheiro de um lobista de empreiteira.

A entrevista trata de vários assuntos, mas a primeira página e Brasil (‘Jornalista que hoje é ‘terror de Brasília’ diz que amava demais’, pág. A10) destacaram aspecto pessoal sem maior importância: Veloso dizer que amou ‘muito’ Calheiros.

A propósito, ela não emprega o advérbio ‘demais’ citado entre aspas na primeira página. Sua frase: ‘Amei, amei muito’.

Manual – Mônica sem outro lado

Diz o ‘Manual da Redação’ (Publifolha, 2001) nas págs. 26 e 27, sobre procedimentos: ‘Quando o repórter dispõe de uma informação que possa ser considerada prejudicial a uma pessoa ou entidade, é obrigatório que ele ouça e publique com destaque proporcional a versão da parte atingida _esse procedimento, na Folha, é chamado de ‘ouvir o outro lado’’.

Mônica Veloso afirmou: ‘Até porque inicialmente ele [Renan Calheiros] me disse que estava separado’.

Esse tipo de postura mentir sobre estado conjugal configura cafajestada.

Por que o jornal não ouviu o ‘outro lado’ de Calheiros sobre essa e outras declarações?

Gauche – Sem outro lado

No texto que resume a conversa entre três professores de esquerda sobre a mobilização universitária em São Paulo (‘Invasão na USP revela um desejo paradoxal por ordem’, pág. A16) há uma declaração ofensiva a quem se opôs à ditadura militar e se manifestou contra a ocupação da reitoria da USP.

Disse o professor Paulo Arantes: ‘São manifestações de extrema-direita que nem na ditadura nós tivemos’.

A Folha deveria ter ouvido os potenciais atingidos pela afirmação.

As ‘madres’ e o perdão

Considerando a distância entre a repórter e o objeto da sua reportagem, é bom o texto ‘Colombianas se unem por filhos sumidos’, pág. A18).

Há um problema.

As mães de mortos e desaparecidos na Colômbia devem mesmo, como afirmam, ter se inspirado nas Mães da Praça de Maio. A Folha, contudo, não deveria tratá-las como uma ‘franquia’ das Madres pioneiras.

Todos os grupos, subgrupos, subsubgrupos em que se dividiu o movimento argentino ainda hoje exige punição para os responsáveis pelos crimes imprescritíveis, conforme o direito internacional.

Já a entidade da Colômbia, de acordo com entrevista de fundadora, sustenta que ‘depois da verdade, por mais dolorosa que seja, vem o perdão’.

A distância política com as Madres da Praça de Maio, para as quais não há por que perdoar, é enorme.

Mais clichê

Título da pág. Especial C1: ‘Com ar despojado, casas de suco são nova onda no Rio’.

‘Ar despojado’ é lugar-comum.

‘Nova onda’?

O título referido acima fala em ‘nova onda’

A reportagem, entretanto, conta que João Donato freqüenta uma casa de sucos há sete anos. ‘Nova onda’ de sete anos?

Francisco Marconi está ‘há 23 anos na madrugada’ do BB Lanches (no Leblon). ‘Nova onda’ de mais de duas décadas?

No Orkut, ‘clientes disputam quem tem o privilégio de pedir ‘o de sempre’ ao Marconi’. ‘Nova onda’ não dá tempo para estabelecer ‘o de sempre’.

O Pólis Sucos, em Ipanema, era freqüentado ‘na década de 80’ ‘pelo presidente João Baptista Figueiredo’. ‘Nova onda’?

A subretranca informa que o BB Lanches foi criado em 1964. O Pólis Sucos, em 1970.

Diz a linha-fina: ‘Lojas de sumo de frutas ampliam clientela fiel com inovações como suco de luz e se tornam uma nova praia para cariocas’.

Como se viu na reportagem, essa praia é das antigas.

O melhor são as reticências

É ótima a reportagem ‘Meirelles relaxa e…’ (pág. E2). É claro que não se trata de ‘mostrar a intimidade’, mas de permitir que a jornalista acompanhe o presidente do Banco Central em atividades que ele não considera verdadeiramente íntimas.

Mas o resultado ficou saboroso, um dos pontos altos do domingo.

Divórcio trintão

Os jornalistas que produziram o Mais! sobre os 30 anos do divórcio podem se orgulhar do seu trabalho. É o que a Folha trouxe de melhor no domingo.

O caderno cresce quando, em vez de ser apenas espaço de idéias, combina idéias com reportagem.

Algumas observações.

A natureza do tema permitia elaborar reportagens de cunho narrativo e mais ‘humano’. A edição seria melhor se tivesse mais gente e emoção, com encontros e desencontros narrados com encanto, e menos ‘especialistas’.

O jornal fez muito bem em lembrar o senador Nelson Carneiro, jovem advogado que saiu da Bahia com o corpo marcado por uma surra da polícia de Juracy Magalhães e que, nas capitais federais, inscreveu seu nome na história do país.

Relaxa e goza, parte 2

Diz o texto que rendeu a capa da Revista da Folha: ‘Céu de brigadeiro, portanto, para quem pretende aproveitar o verão na Europa (muitos pacotes oferecidos em dólar) e nos EUA, época em que faz um calorão de levar todo mundo para ruas, parques e shows ao ar livre’.

O mundo real, em título na pág. C5: ‘Para órgãos de defesa, cliente deve usar tempo para reclamar e documentar gastos’.

Na Revista: ‘Se a idéia é pegar um sol em moeda nacional, há sempre as praias do Nordeste’.

O mundo real, em linha-fina na pág. C2: ‘Rotas entre Nordeste e Sudeste/Sul eram as que apresentavam mais problemas em Cumbica e em Congonhas ontem’.

Na Revista: ‘Para quem busca frio, também é boa a notícia: a neve já dá o ar da graça nas pistas de esqui do Chile e da Argentina […]’.

O mundo real estava nos textos de dias atrás, com os atrasos de enlouquecer causados pelo clima em Buenos Aires. Os problemas foram ignorados pela Revista.

Na Revista: ‘E, para completar a maré de sorte […]’. Sorte de quê? Do apagão aéreo contínuo? Ou porque faz calorão como sempre! no hemisfério Norte nesta época? Ou porque ‘há sempre as praias do Nordeste’ de fato, ‘sempre!’? Ou porque ‘a neve já dá o ar da graça’ como sempre, ou quase sempre!

No meio do texto da Revista, surge o imprevisto a atrapalhar o oba-oba: ‘Mas, como tudo na vida tem seu revés, a nova crise deflagrada pelos controladores de vôo na última terça-feira pode azedar o humor dos viajantes _nesse caso, não há relaxamento de férias que funcione’.

Para refletir: jornalismo de serviço não deve ocultar as vicissitudes que o turista pode enfrentar, pelo contrário, deve orientá-lo sobre como superá-las; jornalismo de serviço não deve ser sinônimo de texto que desrespeita a inteligência do leitor.

Sabáticas

Ficou muito bom o caderno especial sobre o Pan, ‘Arqueologia & Futurologia’.

Idem a reportagem ‘Viagem de Aracaju para o Rio demora 21 horas e 45 minutos em dia de caos aéreo’ (pág. C8).

Segundona

Registro sobre as ‘leis que não pegam’ na Folha: há um ‘DEM, ex-PFL’ em nota da pág. E2, embora exista recomendação para não usar mais essa fórmula (basta ‘DEM’).

Nota na pág. D2 afirma que o PC do B tem a secretaria de esportes de Campinas. Já li na Folha que a secretaria do partido é a da Habitação.’

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