Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Cuba em evidência

Por Arthur Poerner em 24/07/2015 na edição 860

O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA do dia 21/7 , na TV Brasil, teve a felicidade de se manter ligado ao tema da edição anterior, quando apresentara a excelente entrevista concedida ao Alberto Dines pelo escritor cubano Leonardo Padura, uma das estrelas da recente Flip. Transcorrida uma semana, ele voltou para comentar o reatamento oficial das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos, o tema que concentrara o noticiário internacional da véspera.

Tais relações foram rompidas há 54 anos, em 1961, pelos EUA, depois que a Revolução Cubana, vitoriosa em 1º de janeiro de 1959, com a queda e fuga do ditador Fulgencio Batista, adotou uma série de medidas populares consideradas inaceitáveis por Washington, a começar pela reforma agrária, com o confisco incluindo as terras sob propriedade norte-americana dedicadas ao cultivo da cana-de-açúcar, então representando 40% do total. além da nacionalização das refinarias de açúcar e de petróleo.

Cuba não cedeu na firmeza, na coerência e na intransigência tão indispensáveis na conquista da liberdade: não quis voltar aos tempos em que os EUA, que controlavam o mercado açucareiro, não hesitavam, quando julgavam ameaçado qualquer dos seus interesses.  em intervir, militarmente, na Ilha. E foi à base de uma persistência obstinada que a Revolução Cubana se consolidou e se impôs a ponto de influenciar a vida política do nosso continente. Não há mais dúvida, por exemplo, de que contribuiu, diretamente, para o golpe civil-militar no Brasil, bem como  para a série que se desencadearia no chamado Cone Sul, ante o pânico que se assenhoreou dos formuladores da política externa norte-americana só em pensar numa ‘segunda Cuba’ num país com os recursos nacionais e populacionais de um Brasil.

O rompimento das relações pelos EUA foi precedido, ainda, pelo fracasso do embargo comercial decretado em outubro de 1960 e até de uma invasão da Ilha, com o financiamento de exilados cubanos, na baía dos Porcos, em 1961, tentativas que só fizeram apressar a orientação socialista do regime. E o socialismo que acabou resistindo e sobrevivendo até à poderosa União Soviética, e convencendo o presidente Obama da inutilidade de toda a pressão de mais de meio século sobre Havana, é este que acabou de adentrar, na segunda-feira, com muito mojito para regar os papos, o casarão da Rua 16.

É o socialismo possível, isoladamente, num país pequeno e pobre como Cuba, que assegurou ao seu povo, desde o início, o que se pode chamar de básico e fundamental, a própria essência da igualdade democrática: a saúde e a educação. Fora disto, a chamada igualdade das oportunidades só costuma aparecer, mas muito raramente, às custas de acasos ou dos assim chamados milagres, área não abrangida pelos estudos do capital, de Karl Marx a Thomas Piketty.

As prioridades norte-americanas, como sabemos, são outras, tanto que, antes de Obama chegar à presidência, a maioria da população nos EUA sequer podia contar com a garantia de um plano de saúde. Assim, o reatamento de modo algum vai eliminar as críticas que os dois governos e sociedades continuarão a fazer aos respectivos modelos de democracia. Aliás, o reatamento sequer equivale. neste caso, a uma normalização, pois o fim do embargo norte-americano é medida que transcende os poderes do presidente Obama.

É muito importante, enfim, mas apenas e sempre um primeiro passo, o avanço possível agora, de que falamos no Observatório da Imprensa. O que não deve ser motivo de tristeza ou decepção. Foi, afinal, com um primeiro passo que se iniciaram movimentos como, por exemplo, a Grande Marcha, liderada por Mao, e a ascensão da China à grande potência mundial.

***

Arthur Poerner  é jornalista e escritor

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