Sábado, 23 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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ENTRE ASPAS >

Da torre de Babel à torre de papel

Por Deonisio da Silva em 10/02/2009 na edição 524


‘Toda a Terra tinha uma só língua e as mesmas palavras.’ (Gênesis, 11, 1).


Auto-respeito ou autorrespeito? Coerdar ou co-herdar? Infra-estrutura ou infraestrutura? Minidicionário ou mini-dicionário? Mini-saia ou minissaia? Pára-raios, para-raios ou pararraios? Tintim ou Tim-tim? A lista de cerca de 20 000 palavras com hífen ficou bastante alterada depois do Acordo Ortográfico, baixado pelo presidente Lula no fim do ano passado, com prazo de aplicação até 2012.


Nossos problemas gramaticais vêm de longe. Em 22 de janeiro de 1500, três meses antes do descobrimento do Brasil, o rei português Dom Manuel I, o Venturoso, determinou: ‘Avemos por bem que nehum moço fidalgo não seja apontado nem paga a sua moradia, salvo por certidão de Dieg´Alvares, Mestre de Grammatica’.


O que o rei quis determinar? Que nenhum fidalgo analfabeto fosse nomeado (apontado) para o serviço público, ou ganhasse alguma coisa do erário, sem que o professor Diego Álvares atestasse que o nomeado sabia ler e escrever.


Cinco séculos depois, baixada ordem semelhante, o Senado, a Câmara Federal, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais seriam dizimados e, em alguns casos, esvaziados. Quantos senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores passariam numa prova de gramática da língua portuguesa? Quantos dos mais de cinco mil prefeitos, respectivos secretários e assessores seriam aprovados?


Agora, então, com o novo Acordo, a coisa piorou muito. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Os brasileiros viveram e escreveram 453 anos sem Acordo Ortográfico. O primeiro surgiu em 1943, no penúltimo governo de Getúlio Vargas, político preocupado com a unidade nacional.


Vendas a rodo


Fazia apenas 36 anos que o padre Fernando de Oliveira tinha publicado a sua Grammatica da Lingoagem Portugueza quando surgiu a referência solar da língua escrita – Os Lusíadas, publicado em 1572.


Até então, desde o século 16, quando ocorreram as primeiras manifestações escritas da língua portuguesa no Brasil, obra de portugueses que para cá vieram ou brasileiros natos, até a Segunda Guerra Mundial, cada um escrevia como queria, abusando de consoantes dobradas, agás, ípsilons, hífens etc.


Como está a questão hoje? Em empresas, escolas e universidades, ouvem-se os pedidos de socorro, o principal dos quais é a dúvida se a palavra tem ou não hífen: ‘Tudo junto ou separado?’.


É oportuna uma reflexão sobre nosso modus operandi para agirmos organizada e coletivamente – a língua é nossa! – com o fim de consertar a desarrumação que tomou conta de nosso modo de escrever.


Em vez de discutirmos amplamente todas as questões, pois tivemos bastante tempo para isso, vez que o Acordo foi concebido ainda na década de 1980, optamos por esta confusão causada pela pressa com que pessoas abnegadas e outras muito espertas tentaram atender ao distinto público.


As abnegadas quiseram atender; as espertas quiseram vender, que é também uma forma de atender, naturalmente, mas que tem, digamos assim, limites éticos mais esgarçados.


O sucesso dessas últimas é impressionante, por motivos óbvios. Tenho olhado com melancolia para pais que, orientados pelos filhos, dirigem-se aos caixas das livrarias para pagar altos preços por gramáticas e dicionários, depois de ouvir dos pimpolhos que ‘a professora disse que é este aqui’. ‘Mas aqui na lista está este’. ‘Mas mudou!’.


Letra da lei


No governo e fora dele, há profissionais trabalhando e sofrendo para arrumar a aplicação do Acordo. A crise por que passa a forma de escrever em língua portuguesa trouxe novas oportunidades de trabalho para profissionais de Letras.


Reitero que sou a favor do Acordo Ortográfico. Línguas de cultura como o latim, o grego, o inglês, o francês, o alemão, o espanhol e o italiano estão unificadas há muito tempo. Até o árabe, que tinha catorze grafias, agora tem uma só.


Passou o tempo de lamentar e reiterar que o Acordo poderia ter sido feito de outro modo. É hora de, todos juntos, colaborarmos para sua aplicação. O Acordo agora é lei.


***


Deonísio da Silva responde


[incluído às 17h55 de 12/2/2009]


Para que meu artigo chegue aos leitores, muitos trabalham nele nos bastidores, naturalmente, sobretudo o editor Luiz Egypto. Recorro a ele e vou gastar mais um tempinho em atenção aos leitores. Assim, começo pelo professor Rafael Palomino, de quem sou eu ex-vizinho de cidade, por lembrar ao arqueólogo Roberto Ribeiro que escrevi ‘primeiras manifestações escritas do português no Brasil’. Em Portugal elas se deram no século 10, ainda que muito presas ao latim.


O jornalista e servidor público federal Cláudio Rangel de Oliveira, de Salvador-BA, levanta questões muito pertinentes, que já foram desenvolvidas em outros artigos, aqui mesmo neste Observatório, não apenas por mim. Ele afirma com muita propriedade que ‘não existe ninguém que já tenha ouvido, ou que conheça todas as palavras de um determinado idioma. Nem mesmo um gramático ou dicionarista conhece todas essas palavras’. A língua falada, especialmente a portuguesa falada no Brasil, é muito criativa, nosso povo tem como sua grande marca o ato de improvisar, de que o melhor exemplo é o futebol: o craque, descumprindo as ordens do técnico, como faziam Garrincha, Pelé, Nílton Santos, Gérson, Romário, Falcão e poucos outros no passado (raros o fazem no presente), resolvia o problema criando outros modos de jogar, não previstos pelo ‘professor’.


Já o professor Marcos Saavedra de Campinas-SP diz que o Brasil não foi descoberto pelos portugueses, desconhecendo que para escrever temos que respeitar o repertório do leitor, ainda que dele (do repertório) desconfiemos. Naturalmente não desconheço que, entre outros, fenícios e vikings estiveram no Brasil, mas o artigo teria que ser dez vezes mais longo, e seria inútil registrar tantas outras controvérsias aqui! Ficaria ilegível e ineditável! O físico sabe que o sol não nasce, por exemplo, mas se tiver que referir isso, será obrigado a designar assim o fenômeno, senão seu artigo fica ininteligível para o público e só será entendido por seus pares e este não pode ser o propósito de quem escreve na mídia. Victor Hugo avisou que ‘quando não somos intelígiveis é porque não somos inteligentes’ – frase que me faz pensar muito quando escrevo. Mário Quintana, mais jocoso, disse que quando o leitor não entende o que o escritor escreveu, um dos dois é burro.


O engenheiro William Millet, de São Paulo-SP, observa muito bem os graves problemas entre Microsoft e língua portuguesa. O word usa até hoje ‘save’ para arquivar. Li um dia numa pedreira de Cruz Alta-RS, de um lado ‘Só Jesus Cristo salva’; e de outro ‘Baygon mata tudo’. O acaso e o contexto mudaram o sentido dos dois textos.


O reservista Nelson Lott, de Rio Grande-RS, registra a dificuldade dos mais velhos após tantas reformas. Corretíssimo! Alguns já viveram a de 1943, a de 1945, a da década de 1970, e agora vem esta. Eles se sentem de repente desalfabetizados diante de filhos, netos, amigos, funcionários, colegas etc.


Não gosto de generalizar: assim registro que nem todos os editores pensam no lucro. Vários deles publicam obras que dão inclusive prejuízos, outras mal se pagam. Carlos Drummond de Andrade vendeu apenas 200 exemplares de seu livro de estréia; a primeira edição de Macunaíma, de Mário de Andrade, foi de apenas 800 exemplares e levou muitos anos para se esgotar; Parque Industrial, de Patrícia Galvão, ficou fora do mercado por várias décadas. A segunda e terceira edições saíram nas décadas de 1980 e de 90. (Fui editor da de 1993, graças ao filho da autora, o jornalista Geraldo Galvão Ferraz). Os exemplos são abundantes. Duvido que um editor como o professor universitário, doutor pela USP, Jaime Pinsky, faça edições sobre o Acordo Ortográfico para ganhar dinheiro. Tomara que ganhe, senão como vai publicar livros essenciais que sequer se pagam? Mas não o faz por isso. Conheço muitos que assim procederam, inclusive o editor que me lançou no longínquo 1975.


Muito obrigado a todos. (D. S.)

******

Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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