Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

Dantas, PCC e o preço da metáfora

Por Claudio Julio Tognolli em 23/05/2006 na edição 382

Estamos numa noite fria e calculista, de chuva horizontal. O sítio já era sugestivo pelo nome: ‘Estrada das Lágrimas’. Bem ao lado do 95º Distrito Policial, não muito longe da Via Anchieta, em São Paulo. Nivelam seus destinos, ali, PMs intimoratos e um delegado de barriga pontuda, que se lhe sai por debaixo do colete a prova de balas. Descem do carro este repórter, mais Guilherme Bentana, da TV Record, e o ubíquo Karl Penhaul, da CNN – que mora na Colômbia, nasceu no interior da Inglaterra e acaba de chegar de Bagdá. Delegado e PMs se assustam com Karl, que é careca ao osso e tem uma aparência de holigan. O delegado não esperou para estudar o rosto de Karl e logo mostrou ser homem de gatilho fácil – mas nada que um ‘boa noite’ não tivesse desarmado, deveras.

Há cinco anos recebi em casa Kirk Semple, do New York Times, ora em Bagdá, que veio cobrir o PCC. Bastou uma entrevista de Kirk com o então homem forte do PCC, Geleião, para que este se lhe encomendasse a morte. Kirk seria assassinado na porta de seu hotel, nas proximidades da Rua Sílvia, na zona sul de São Paulo. Marcola encomendou a morte de Kirk a Geleião, alegando que o gringo ‘era da CIA’. A morte era encomendada num fax, interceptado pelo promotor Márcio Sérgio Christino, o primeiro a encarar o PCC.

Kirk me telefonou de Bagdá e pediu para que ciceroneasse Karl Penhaul. Guilherme Bentana conduziu Karl aos desvãos do crime. Franqueou acesso para Karl falar com narcotraficantes. Mostrou-lhe a ‘tiragem’ do Deic. A CNN citou Bentana em cadeia mundial. A Record mostrou Karl nas favelas com Bentana. Não sei como: Karl Penhaul trouxe um número de telefone que lhe franqueou acesso a uma voz que era ‘mesmo’ a de Marcola. Mas a voz que um dos melhores jornalistas do Brasil, o Roberto Cabrini, mostrou na TV Bandeirantes como sendo a de Marcola em entrevista exclusiva, não ‘batia’ com aquela ouvida por outros jornalistas, como Karl Penhaul. A pergunta é: quantos Marcolas estão falando por aí?

Roberto Cabrini, uma grife glamurosa do jornalismo, sempre confiabilíssimo, deve uma explicação cosmética, quase gramatical: por que em sua entrevista não faz uso de vocativos. Por que não chama Marcola pelo nome em nenhum instante. Já disseram que seria porque Marcola não gosta desse apelido, e gosta mesmo é de ser chamado ‘M1’. Uai, por que Cabrini não usou o ‘M1’ no ar?

Falácia lógica

Estamos naqueles momentos em que vale tudo. Tudo mesmo. A revista Veja, por exemplo, passou quase dois anos atacando o competente e agressivo Leonardo Attuch, da IstoÉ Dinheiro, que se lhes processa agora, devido a supostas ‘relações espúrias’ que o jornalista manteria pela sua proximidade de Daniel Dantas, do Banco Opportunity. O não menos competente e não menos agressivo Marcio Aith, o homem que deu o furo dos grampos da Kroll contratada por Dantas, revela em Veja que fez uso do mesmo Dantas para obter a lista com nomes de políticos, como o presidente Lula, que manteriam contas em dólar no exterior.

No fundo é a mesma desfaçatez excogitada, a saber: o ‘meu Marcola’ é mais veraz que o ‘seu Marcola’, e você será bandido só quando você falar com Daniel Dantas, porque, quando for minha vez de falar com Dantas, o que faço merece o nome de ‘furaço’. Mas estamos no ponto em que todo o publicado já virou uma abstração – e quem lembra das coisas volta e meia é lembrado dentro daquilo que Max Weber chamava de ‘pestilência metodológica’. Por outra: foi neste Observatório que salientamos, há muito tempo, a existência de uma ‘Operação Gutenberg’, ainda em segredo de Justiça, em que se apurava suposta venda de reportagens, jamais obviamente publicadas.

A existência dessa operação foi levada a conhecimento de um punhado de jornalistas de mercado, e de repórteres bissextos, exatamente a 10 de setembro de 2004, quando a Abin abriu suas portas para a imprensa. Deste então, também bissextamente, Veja vindicava genuflexamente da PF a ultimação dessa operação. Se esta Operação Gutenberg continuar (e continua), que sejam postos nela não só a IstoÉ, mas também agora a Veja ‘de Daniel Dantas’ e a CartaCapital ‘de Demarco e Jerreissati’, como costumam referir-se uns aos outros os repórteres dessas publicações litigantes, não só na busca de furos, mas sobretudo agora litigantes ad hominem – (um Argumentum ad hominem , do latim ‘argumento contra a pessoa’ é falácia lógica identificada quando alguém responde a algum argumento com uma crítica a quem fez o argumento; ou seja, não se questiona o argumento, mas sim quem o fez).

Medo e angústia

Susan Sontag, quando ficou com câncer, escreveu A Doença como Metáfora, seguido de A Aids como Metáfora. Revelava que os crentes das metáforas de que o câncer poderia ser fruto de ‘mal olhado’, ‘sistema nervoso’, ‘má alimentação’, acabavam buscando tratamentos alternativos, ‘energéticos’, ‘espirituais’, mesmo holísticos, que acabam conduzindo estes pacientes ao túmulo.

A metáfora tem um preço. O preço da metáfora é a eterna vigilância, nota Richard Lewontin, geneticista de Harvard. O que isso tem a ver com Daniel Dantas e PCC? Tudo. Naquelas noite frias e calculistas de chuva horizontal, quando este repórter, mais Karl Penhaul, da CNN, mais Guilherme Bentana, da Record, fomos ver o PCC de perto nas favelas, e de perto os policiais que tentavam conter os ataques, com seus parcos coletes, a cidade estava dividida numa grande metáfora: de um lado os homens do bem, de outro os homens do mal. Obviamente cada um via as coisas como podia ver (Stefan Zweig via no mapa do Brasil o formato de uma harpa lírica, e Lima Barreto via no mapa do Brasil o desenho de um presunto). Mas o que sobrou foi a metáfora de dois exércitos litigantes: era a cidade dividida, era a São Paulo milenarista e milenarizada, sobretudo pela mídia.

O que agora se tenta mostrar é que certamente não há pessoas de bem no PCC, mas que certamente há pessoas do mal dentro das forças do bem, vulgo polícia. A mídia só vai se superar quando revelar os reais motivos que levaram o PCC ao ataque terrorista: corrupção policial, torturas. Vamos pagar o preço caro da metáfora bipolar. E pior: vamos ter de lidar com a ideologização política do episósdio. (Já no sábado dos ataques, um site tucano explicava que os ataques terroristas haviam sido gerados pela contaminação do preso mal tratado pela ‘falta de ética do PT ladrão no poder’.)

O filósofo Martin Heidegger gostava de separar medo da angústia. Medo se erige sobre um objeto real, e palpável, literal ou mesmo figurativamente. Angústia se erige sobre o nada. Num primeiro momento de terror, governantes mostram os objetos do medo: fotos de terroristas, armas apreendidas, sangue. Num segundo momento, some a figura do terrorista e só sobra a sua prática: terrorismo. É aí que entra a angústia: ela se erige sobre o nada. A invasão do Iraque foi a exploração da angústia, em cima de relatórios falsos. Usa-se a prática na exploração da angústia. Usa-se o ator na exploração do medo. O uso político dos ataques do PCC começarão a ocorrer quando passarmos a enxergar PCCs em todos os cantos, mesmo que eles não existem.

Foi por isso que o filme A Bruxa de Blair fez tanto sucesso: não havia tubarão, Jason ou asassinos. Era o nada que exercia o terror . Nesse sentido, o medo está para a angústia assim como a nostalgia está para a melancolia. O nostálgico pensa ‘que saudades de minha namorada’. O melancólico indaga ‘como seria bom ter uma namorada’. Cabe à mídia regular e impedir isso: que nosso medo de objetos reais não seja transformado, política e ideologicamente, em angústia do nada.

Parece que foi ontem

Foi em 1989 que o presidente Bush pai foi à TV e mostrou no Salão Oval da Casa Branca, aos repórteres, uma pedra de crack que havia sido ‘confiscada dias atrás por agentes da DEA num parque ao lado da Casa Branca’. Foram repórteres do Washington Post que mostraram a farsa: a pedido de Bush agentes do DEA se dirigiram ao Lafayette Park para tentar achar o crack. Não acharam. Tiveram de comprar por 2,4 mil dólares em um parque muito longe dali. Culpar o crack pela crise social e criminal, gerada pela reaganomics então tão recente, era a saída encontrada pela política neoliberal de Bush pai.

‘Drogas servem para aliviar a culpa coletiva. Como sociólogo, considero o pânico associado ao crack da década de 1980 uma variante de uma tradição americana. Em diferentes momentos de nossa história, as manchetes a respeito das drogas serviram para afugentar da consciência moral do país uma determinada classe de cidadãos maltratados’, diz o sociólogo Barry Glassner, guru espiritual do cineasta Michael Moore.

Continua Glassner:

‘Por um momento consideremos o ocorrido no início da década de 1870 em São Francisco. Os trabalhadores chineses, indispensáveis na construção da estrada de ferro transcontinental durante a década anterior, tornaram-se supérfluos na opinião de grande parte da população branca. Devido à depressão econômica e aos 20 mil imigrantes chineses desempregados, os políticos, os jornalistas e os líderes sindicais apontaram as casa de ópio como uma prova da devassidão dos homens chineses. Em consequência, propuseram afastá-los de seus empregos e proibir a imigração. Na realidade, as casas de ópio, como os pubs ingleses, eram agradáveis lugares de encontro, onde os homens partilhavam histórias e poucos frequentadores se dedicavam ao consumo de ópio’.

Isso não é novidade. No século 19, por exemplo, o Times londrino satanizava em suas manchetes o bacilo de Koch, sem discutir as condições sociais, paupérrimas, que levavam à contração da tuberculose. Vejamos alguns números, obviamente não constantes das reportagens que satanizavam o bacilo: no princípio do século 19 havia na Inglaterra apenas uma aglomeração com mais de cem mil habitantes, Londres. São 33 delas na véspera do século 20. O centro dos lanifícios, Leeds, passa de 53 mil habitantes, em 1801, para 123 mil em 1831 e 430 mil, em 1900. No mesmo período, Birmigham passa de 73 mil habitantes para 200 mil e, depois, para 760 mil residentes. Os dias de trabalho são de 16 horas. A carga semanal é de 64 horas. Trabalha-se na fábrica seis dias seguidos. A média de trabalhadores morando numa casa é de 26. Os salários decaem de 16 shillings por semana, em 1821, para 6 shillings, em 1830. Nesse grupo, a esperança de vida é inferior aos 40 anos. Contratam-se para o trabalho nos lanifícios crianças de quatro, nove e sete anos de idade. É nesse quadro social que brota a tuberculose. Mas, para o Times, a culpa estava no bacilo de Koch.

Cabe à mídia tomar o cuidado com as metáforas que vai aceitar consumir. As provas de que corremos o risco de engolir mentiras podem ser vistas na íntegra do relatório final da CPI do Sistema Penal, concluída em São Paulo, dez anos atrás. Parece que o relatório foi escrito ontem, porque nada se fez. Confira aqui.

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Jornalista, professor titular da ECA-USP e autor de Pactos Silenciosos: Patos Silenciosos, a ser lançado pela Editora do Bispo

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