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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > VIDA DE JORNALISTA

De repente, desemprego

Por Ariadne S. Lourencini em 27/03/2006 na edição 374

O vestibular. que sacrifício! tanta aula, tanto estudo, tantos tropeços e, no fim, a recompensa: Passei! Ótimo! Agora, sim. Agora finalmente serei o que sempre quis. Vou estudar, me dedicar aos estudos e serei então uma grande… DESEMPREGADA!

É, caras e caros amigos… É triste assim a realidade de um profissional que luta para se formar na tão nobre e almejada profissão de jornalista para chegar ao ponto em que chegamos: o desemprego. Para ser mais enfática: o ruir de sonhos, o cair do cavalo, a terra prometida que não existia, o despertar para a realidade, e muitos outros modos de dizer que se ‘quebrou a cara’.

‘Parece que o cargo já foi ocupado’. ‘Você tem experiência?’ ‘Não, precisamos de pelo menos cinco anos de redação!’ ‘Ah, desculpe, não temos nenhuma vaga no momento.’ ‘Já tentou mudar de área?’

Alcança ou cansa?

Sim. Eis que me deparo com a dúvida da minha vida. O que faço com este diploma que tanto orgulho daria aos meus pais? Que tanto me esforcei para conseguir? O que faço diante de tantos ‘nãos’, tantas portas fechadas, tanta indiferença ao que eu defendia com unhas e dentes? Na faculdade, ser tachada de ‘dicionário ambulante’ porque, a tiracolo, não saía sem o Aurelinho, acreditando que ele me daria base para escrever melhor. Os professores. Ah, os professores… Destes guardo rancor! Profissionais formados, experientes, que não puderam ao menos me chamar no cantinho e alertar sobre o que me aguardava. Não puderam ao menos cochichar no meu ouvido ou mandar um bilhetinho escrito: ‘Fuja enquanto é tempo!’ E me deixaram à mercê da sorte no selvagem mercado de trabalho de comunicação. Onde aparentemente só os sortudos ou, digamos assim, bem relacionados conseguem seu lugar ao sol. Nunca os perdoarei! Diziam que eu era boa aluna, que teria futuro na profissão. E, no entanto, hoje vejo que as paredes da sala de aula foram apenas cercas com arame farpado que nos protegiam da verdade nua e crua de que só os fortes sobreviveriam.

Isso eu nunca escutara durante as aulas de Realidade Socioeconômica e Política Brasileira, nem mesmo nas aulas de Jornalismo Contemporâneo. Muito ao contrário.

Bom, há que se pensar no futuro deles. Se dissessem a verdade a todos, de que viveriam? A quem lecionariam? ‘Estudem muito, viu? Porque desempregado inculto é a pior coisa que há!’

Diante de tanta amargura e intolerância do mercado que me rejeita, só me resta mesmo um artigo, talvez publicado, talvez não. Mas o importante é acreditar, afinal, quem acredita sempre alcança, não é verdade? Ou será cansa?

Ah, que importa? Tá na hora da Sessão da Tarde!

******

Jornalista, Vila Velha, ES

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/03/2006 Elisabeth Priestley

    Entendo seu desabafo, quem já não passou por isso? Há muitas histórias que eu poderia contar para endossar suas palavras, mas…De que adianta? Mais proveitoso seria despender energia tentando encontrar saídas – porque elas realmente existem. Não que sejam necessariamente fáceis, óbvias ou rápidas, mas, ainda assim, existem. Desde queimar os neurônios e bolar pautas interessantes para oferecer pelo país afora (com a santa internet isso não é tão inviável quanto era na época em que comecei) até pesquisar empresas, ver o tipo de comunicação interna que elas usam, desenvolver projetos para melhorar a situação e ir até lá, com a cara e a coragem, vender sua idéia. Ou desenvolver seu próprio projeto, um jornal comunitário, uma publicação de utilidade pública, levantar custos, montar uma apresentação decente e ir à luta atrás de financiamento.
    Não é coisa para se tentar apenas uma vez, nem duas nem três – se bem que é até possível dar certo logo de cara, por que não? O fato é que, conforme você sabe, água mole em pedra dura… Acredite, continua funcionando. Você já protestou, já desabafou e tem todo o direito de fazê-lo. Mas agora que já o fez, desligue-se de tudo isso, pois, de que adianta? Não aposte nos outros – editores, chefes e a usual turma do não. Vire a página e aposte em você. O mercado é isso aí, mas você não é isso aí. Não encontra o seu lugar no mercado de trabalho? Então invente o seu lugar – primeiro na cabeça, depois no tempo e no espaço.

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