Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > UFSCar

Demissões na rádio geram polêmica

Por Wilson Alves-Bezerra em 18/05/2017 na edição 942

Tem sido frequente, nos últimos anos, notícias sobre demissões em massa nas redações de grandes veículos da imprensa brasileira. Desnecessário é retomar o tema do encolhimento das equipes que, inequivocamente, tem justificativas de ordem financeira. De natureza bem diversa é um passaralho em uma rádio pública de uma universidade pública, pois essa não deve, por princípio, estar sujeita às oscilações do mercado.

Tal é a situação paradoxal que vive a Rádio UFSCar, uma FM da cidade de São Carlos, interior de São Paulo, que funciona desde 2006 na frequência 95.3khz, a emissora teve demitidos, no início do mês de abril, seus únicos dois jornalistas sob a alegação de “corte de despesas”. Justificativa difícil de ser levada a sério, a considerarmos que, no mesmo período, foram contratados um produtor musical e duas locutoras, o que transformou radicalmente a identidade da emissora. Boletins jornalísticos e programas de entrevistas, como o veterano “Rádio UFSCar Convida” – responsável por importantes interações com pesquisadores, professores, políticos, artistas e intelectuais desde a criação da emissora – , foram sumariamente extintos e deram lugar a músicas e locutoras bem humoradas, típicas de rádios comerciais.

A demissão de Simone Bezerra e Daniel Monteiro, os jornalistas responsáveis pelo jornalismo público e plural que englobava notícias da universidade e do município, produziu, enfim, uma chaga nas Diretrizes Editoriais da Rádio UFSCar, documento construído coletivamente no âmbito da extensão universitária em 2006, que vinha pautando, em suas diversas etapas e com diferentes matizes, a condução da rádio até há bem pouco tempo. Nele, preconiza-se como missão da rádio “a prática da pauta fundada nas demandas e interesses públicos; da apuração plural e compromissada eticamente; da pesquisa intensa e multifocal; da interpretação informada e transparente”. Com a saída dos jornalistas, tais princípios deram lugar, na prática, à leitura de releases de eventos científicos ou de notas reproduzidas de outros veículos de comunicação. Assim, a comunicação pública foi é substituída pela assessoria de imprensa.

O princípio da “heterogeneidade e diversidade almejada para o público ouvinte da Rádio”, que se traduzia numa grade de programação plural, construída por programadores da comunidade, e era sintetizado pelo slogan “Escute diferente”, tornou-se, na boca sorridente das novas locutoras “Rádio UFSCar, a diferentona”. Essa, porém, é apenas a dimensão publicamente audível da “Nova programação da Rádio UFSCar”. Valendo-se do fato de que a concessão da rádio pertence à Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Universidade Federal de São Carlos (FAI/UFSCar), a atual gestão da Fundação vem ignorando princípios básicos que regiam a emissora, como a “gestão compartilhada entre a UFSCar e a FAI” e o fato de que a emissora “responde aos princípios de ambas instituições, tendo como compromisso difundir uma programação educativa, cultural, jornalística e científica, isenta dos ditames mercadológicos.”, conforme reza o Estatuto da Rádio, aprovado unanimemente pelo Conselho de Extensão da UFSCar, em agosto de 2016.

Diálogo difícil

O recém-demitido jornalista Daniel Monteiro, após cinco anos de atuação na rádio, assim define o perfil da nova reitoria da UFSCar: “desde o princípio, a nova gestão da Universidade deu a entender que a comunicação estaria no centro das ações. Assim, a Rádio UFSCar passou a estar na pauta das discussões. Contudo, essa nova gestão da FAI aparenta possuir uma visão extremamente mercadológica da comunicação, dando ênfase na busca pela audiência e no retorno financeiro que pode ocorrer, em detrimento de valores estabelecidos no projeto editorial da Rádio ou até mesmo da própria identidade que a emissora, ao longo dos últimos nove anos, lutou para estabelecer.”

Um dos pilares do funcionamento da Rádio UFSCar, em sua última etapa, era seu Conselho Editorial e de Gestão, aprovado em 2016 com representantes de diversos setores da universidade e da Fundação, após mais de um ano de discussões em um Conselho Pro Tempore. Pois foi a própria Fundação, num gesto unilateral que, no início do ano, por meio do Ato FAI 01/2017, instituiu outro Conselho Editorial, nomeando outros membros, com o objetivo de centralizar a escolha dos programas propostos pela comunidade e de outras decisões estratégicas.

Diante desse quadro, a coordenadora da Rádio UFSCar junto à Pró-Reitoria de Extensão, a professora Débora Burini, demitiu-se, com uma carta que tornou pública em reunião do Conselho de Extensão: “após todos os meus esforços para reverter esse processo de ingerência sobre a Rádio, esgotam-se neste momento todas as tentativas de diálogo possíveis, inclusive as que já foram formalmente protocoladas nessa Pró-Reitoria de Extensão, e para as quais ainda não obtive resposta”. Chama a atenção, de fato, a placidez búdica – ou bovina – da atual Pró-Reitoria de Extensão, a qual tem afirmado não saber ao certo se a Rádio, de fato, é atribuição da Extensão na universidade, ignorando tanto o fato de que a concepção da rádio se deu no âmbito daquela Pró-Reitoria quanto a existência de uma Coordenação da Rádio nela lotada.

No âmbito mais ampliado do próprio jornalismo da UFSCar, e não mais apenas na Rádio, outra dimensão que cabe ressaltar é o fato de que as decisões sobre as matérias divulgadas no portal da universidade não são mais atribuição dos jornalistas da Comunicação Social. As pautas passaram a ser ditadas por critérios obscuros, fazendo com que muito do que os jornalistas da universidade produzem simplesmente não seja publicado, como informaram fontes ligadas à UFSCar. Procedimentos com uma coloração que faz lembrar os interventores das épocas menos nobres da história nacional.

Finalmente, para concluir a descrição, em linhas gerais, do atual iceberg da comunicação na universidade, vale mencionar o caso eloquente da pouco transparente criação da TV UFSCar, um veículo que vem funcionando numa rede social, do qual não consta aprovação em nenhum Conselho da universidade e para cuja operação a FAI vem se atribuindo um papel central. Além de ter comprado equipamentos para o funcionamento da televisão, a fundação delegou a si mesma, no seu recém-aprovado novo Estatuto, o papel de geri-la. Trata-se de um caso claro de inversão de papeis.

Diz o novo estatuto da FAI, que cabe à Fundação: “”XII – Desenvolver, através de sua Diretoria de Fomento à Cultura e à Comunicação, desde que solicitado e na forma definida pelo órgão competente da UFSCar (grifo meu), todas as atividades necessárias para a implantação e operacionalização de Rádio e TV Educativa e Universitária, com fins exclusivamente educativos e culturais”.  Ora, se a universidade não criou a televisão, dado que sua criação não consta em nenhum Conselho Superior da UFSCar, de onde terá surgido tal solicitação?

A TV, cabe ressaltar, vem veiculando reportagens como, por exemplo, a da singular aparição da então recém-empossada reitora Wanda Hoffman na função de cozinheira, trajada a caráter, servindo estudantes no Restaurante Universitário em um dos primeiros dias do ano de 2016. Em reportagem de quase cinco minutos, com o didatismo próprio da emissora privada de onde  vem a repórter contratada que está à frente da TV UFSCar, mostra-se a cozinha do restaurante, fala-se sobre quantidades de gêneros, entrevistam-se cozinheiras para, finalmente, ver-se a aparição da reitora, no apoteótico minuto final, dizendo: “Eu estou aqui hoje com toda a minha equipe para que a gente possa mostrar o nosso empenho em que o RU possa ser um local adequado para servir as nossas refeições para toda a nossa comunidade”. Não é preciso ser especialista na área para entender que se está diante não de jornalismo público, plural e de interesse da comunidade, mas de marketing pessoal.

Parece haver um projeto de comunicação na UFSCar que vem ignorando o papel e as atribuições dos Conselhos Superiores da Universidade e que demonstra não se pautar pelos princípios da comunicação pública. Cabe à comunidade universitária e à sociedade em geral responderem se pactuam com tal projeto, dado que é no âmbito da coisa pública que essas decisões estão sendo tomadas e implementadas.

***
Wilson Alves-Bezerra é professor da UFSCar, foi Coordenador de Cultura no período de 2013 a 2016 e vice-presidente do Conselho Editorial Pro Tempore da Rádio UFSCar entre 2015 e 2016

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