Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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JORNAL DE DEBATES > DOSSIÊ VEDOIN

Denúncia só vale contra o governo

Por Carlos Lopes em 26/09/2006 na edição 400

Desde sexta-feira (22/9), e sobretudo após a história de uma suposta e fracassada compra de informações sobre as atividades ilícitas de alguns membros da oposição, uma certa espécie de mídia dedicou-se a encobrir o que realmente de novo apareceu no caso do esquema dos sanguessugas. São litros e litros de tinta e toneladas de papel, horas e horas de televisão, empregados numa única função: como impedir que as novas denúncias dos Vedoin sejam apuradas.

Naturalmente, tal tentativa está condenada a não prosperar. As revelações dos Vedoin na entrevista dada à IstoÉ não vão ser apagadas porque se escrevem litros de tinta para escondê-las, ou porque se tenta confundi-las com um suposto dossiê que nem apareceu. O que está na IstoÉ já é material suficiente que demanda apuração urgente.

Por outro lado, tal tentativa de abafamento parece mais própria a manicômios do que a órgãos de imprensa, pois desde que a Polícia Federal, convocada pelos ministros Humberto Costa e Saraiva Felipe, estourou o esquema dos sanguessugas, os seus organizadores, Darci e Luiz Antônio Vedoin, tinham se transformado nos oráculos da mídia e da oposição ao governo. Com base nas declarações e documentos apresentados por eles, foram acusados e estão sob processo de cassação 72 parlamentares e, segundo alguns, podem chegar a mais de 120.

Mas, pelo jeito, a oposição e essa mídia acham que isso somente vale quando o alvo são parlamentares da base governista. Quando é o seu próprio terreiro, aí trata-se de “armação”, de “baixaria”, ou seja lá que tergiversação diversionista se escolha. No entanto, não pode ser assim. Afinal, todos não são iguais perante a lei?

Realmente, a mídia oposicionista foi muito imprudente. Ela açulou o PSDB e o PFL para que formassem a CPI dos Sanguessugas, ela os impulsionou a tomar de assalto essa CPI, ela dirigiu, com suas pautas diárias, os interrogatórios, ela fez com que os parlamentares oposicionistas levassem colegas ao pelourinho – e fez tudo isso promovendo os Vedoin de réus a acusadores.

Era uma imprudência porque, desde o início, era claro que o esquema existia desde 1998, ou seja, por coincidência, desde que o José Serra assumiu o Ministério da Saúde. Sem dúvida que as revelações não ficariam nos parlamentares da atual base governista. No entanto, essa foi a ilusão, desde o início. Bastava os Vedoin falarem alguma coisa, que era tido por verdade inabalável. Qualquer menção deles a alguém, transformava-se imediatamente numa sentença à pena capital. O prêmio pela delação não era apenas escapar da cadeia: era a notoriedade ofuscante sob os refletores da mídia.

Muito a investigar

Pois bastou os Vedoin chegarem aonde a mídia e a oposição não queriam para ser um Deus nos acuda e tudo virar ao contrário. E isso, literalmente, de um dia para o outro. Aliás, algumas horas depois que a IstoÉ saiu às bancas com uma entrevista dos Vedoin, lá estavam os mesmos escribas, os mesmos locutores e os mesmos tucano-pefelistas que antes os incensavam como a fonte do “desmascaramento do maior esquema de corrupção da História da República” (sic) deblaterando contra a falta de credibilidade daqueles que eram os seus heróis na manhã daquele mesmo dia.

Mas o que não se quer investigar? O que disseram os Vedoin na IstoÉ? Vejamos alguns trechos:

Luiz Antônio – No melhor período, quando o Serra e depois o Barjas eram os ministros, a bancada do PSDB é que conseguia agir com maior rapidez. Com eles era muito mais fácil e muito rápido. Quando as emendas eram da bancada era coisa de um dia para o outro.

Darci – A confiança de pagamento naquela época era tão grande que nós chegamos a entregar cento e tantos carros somente com o empenho do Ministério da Saúde, antes de o dinheiro ser liberado. Isso acontecia no País inteiro. Sempre quando se tratava de parlamentares das bancadas ligadas ao governo.

IstoÉOs srs. estiveram reunidos pessoalmente com o ex-ministro José Serra alguma vez?

Darci – No ano de 2001 estivemos com ele em dois eventos no Mato Grosso. Um na capital e outro em Sinop.

IstoÉO ministro sabia que nos bastidores daqueles eventos havia um esquema de propinas?

Luiz Antônio – Era nítido a todos.

Darci – Posso te afirmar que as emendas quando eram destinadas para esses eventos saíam ainda mais rápido.

IstoÉQuem é Abel Pereira?

Luiz Antônio – É um empresário de Piracicaba que operava dentro do Ministério da Saúde para nós. Era ele quem conduzia todo o processo e fazia sair todos os empenhos… Era um operador, uma pessoa indicada e muito ligada ao Barjas Negri, secretário executivo do Ministério quando José Serra era o ministro e seu sucessor.

Darci – O Barjas Negri é o braço direito do José Serra. Nosso esquema já funcionava no Ministério. Quando o Serra saiu, o Barjas assumiu o Ministério e foi indicado o Abel para continuar a operar.

IstoÉO Abel, então, deu continuidade a um esquema que já existia?

Darci – Quando nós iniciamos a montagem, em 1998, já existia esquema dentro do Ministério da Saúde, com os parlamentares. Nós acertávamos com os parlamentares e o dinheiro saía. Naquela época era muito mais rápido para sair os empenhos e os pagamentos.

IstoÉA que época o sr. se refere exatamente?

Darci – Entre 2000 e 2002. Quando o Serra era ministro foi o melhor período para nós. As coisas saíam muito rápido.

Tudo isso é essencialmente corroborado pela documentação e pelos dados do próprio Ministério da Saúde. Por exemplo, das 891 ambulâncias que a empresa dos Vedoin entregou entre 2000 e 2004, 70% delas (681) foram até o fim de 2002, ou seja, durante a gestão de Serra e de Barjas Negri.

Sobre os documentos referidos na reportagem da IstoÉ encontram-se “cópias de pelo menos 15 cheques emitidos pela Klass [outra empresa dos Vedoin]”, que foram entregues ao mencionado Abel Pereira, somando R$ 601,2 mil. “Um deles, o de número 850182, datado de 30 de dezembro de 2002, tem o valor de R$ 87,2 mil. No mesmo dia, há outros sete cheques, seis deles são de R$ 30 mil e recebem os números de 850183 a 850188. O cheque 850181, também de 30 de dezembro de 2002, tem o valor de R$ 45 mil”. Segundo Darci Vedoin, “depois que eles perderam a eleição, o Abel me procurou e passamos a fazer muitas liberações”. E, realmente, como observa a revista, em 2002 a empresa dos Vedoin vendeu mais ambulâncias, pagas com a verba do Ministério da Saúde, do que em qualquer outro ano: 317.

Barulho inútil

Há também vários depósitos em conta de empresas, indicadas por Abel Pereira. Por exemplo, uma denominada Kanguru Factoring Sociedade de Fomento Comercial, com o CGC 003824340/0001-25, que fechou após a posse do presidente Lula. Outros foram feitos na conta de empresas como a Datamicro Informática, de Governador Valadares (MG) e a Império Representações Turísticas, de Ipatinga.

Já se sabe que Abel Pereira é hoje um emérito vencedor de licitações na Prefeitura de Piracicaba, cujo prefeito chama-se Barjas Negri.

Portanto, o que investigar, naquilo que os Vedoin já disseram, é o que não falta. Quanto mais não seja para descobrir como a gestão ministerial daquela época não conseguiu perceber, em meio a tal enxurrada de ambulâncias, que elas eram superfaturadas. Diante de questões tão evidentes, não há barulho que possa impedir as investigações de continuarem.

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Psiquiatra, São Paulo

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/09/2006 Alanéa Priscila Coutinho

    Parabéns Carlos Lopes. Espero que o observatório volte a ser o espaço que era antes e só voltará a ser com articulistas como você. Sabe? Às vezes tenho até vergonha de dizer que sou jornalista, porque a nossa imprensa hoje me envergonha. Fora a denúncia da Isto é, não vi nenhum veículo falar do conteúdo das denúncias, somente da compra do famoso dossiê. Queremos ouvir as explicações dos tucanos. Está na hora deles se explicarem.

  2. Comentou em 27/09/2006 Leandro Vilas

    Ao Dr. Carlos Lopes,

    Essa é para o sr. e Freud explicarem – foi irresistível – como é possivel que uma conduta seja ao mesmo tempo ‘suposta e fracassada’, já que o segundo adjetivo exige a sua existência da conduta – o que o primeiro adjetivo nega – para concluir que não foi bem-sucedida?
    Deu pane ou é duplipensar mesmo?
    A propósito, acho que o conteúdo dos documentos (e a grana) não vieram à luz pelo mesmo motivo. Qual? A imprensa que pergunte ao Senador Mercadante em vista do que já adiantou o Delegado da PF, Edmilson Bruno, no O Globo de 19/09/2006.

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