Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ENTRE ASPAS >

Desaforos entregues em casa

Por Eugênio Bucci em 17/03/2009 na edição 529

Comecei nesta profissão há 25 anos. Primeiro, como revisor da revista Cães & Companhia e logo depois, aí para valer, como repórter da revista Veja, isso já em dezembro de 1984. Naquela época, nós não tínhamos internet. Sequer computadores nós tínhamos. As cartas dos leitores chegavam até nós na Redação. Algumas eram desaforadas, sem dúvida, mas guardavam um mínimo de urbanidade e elegância. Vinham identificadas com o nome e o endereço do remetente e, para publicá-las, os órgãos de imprensa muitas vezes exigiam o RG do cidadão. Quando líamos algum insulto, isso acontecia no ambiente de trabalho. Processávamos, então, os dissabores ali mesmo. Só depois, mais tarde, voltando já cansados para casa, é que tínhamos de nos resignar: naquele dia, dormiríamos refletindo sobre uma impropriedade ou uma ofensa que tinham mandado pra gente. Sem alternativas, levávamos o desaforo para casa.


Agora é diferente. A rede mundial de computadores inventou essa curiosa modalidade de interação: a entrega do desaforo em domicílio. De casa mesmo nós abrimos o e-mail ou os sites para o qual escrevemos profissionalmente e damos de cara com o desrespeito que nos bate na cara. O pior é que, frequentemente, nem sabemos direito quem é que nos bombardeou com a agressividade sem fundamento. Há casos de missivistas que se escondem atrás de nomes fictícios e, aí protegidos, disparam aleivosias para todo lado. Fira quem ferir. Os terroristas do verbo ficaram mais desinibidos com o cyberanonimato.


Não é verdade que as barbaridades que nos chegam não nos abalam. Eu me abalo. Sei de muitos que se abalam do mesmo modo. Essas coisas nos atingem, fazem mal, impõem um grau de sofrimento, mesmo que pequeno. Essa história de ler desaforos e depois dar de ombros não é assim tão simples. A gente sempre sai machucado da experiência. Estamos submetidos, sem escudos, às injúrias que nos são entregues em casa na velocidade da luz.


De volta às ditas e às desditas


O artigo que postei aqui há duas semanas (‘A briga em que todos perdem‘), comentando o editorial que a Folha de S.Paulo publicou no dia 17 de fevereiro de 2009 (aquele célebre, que caracterizou a ditadura militar no Brasil de ‘ditabranda’), foi saudado com quase cem mensagens de leitores. Eram exatamente 96 quando as li, ainda na semana passada. Uma grande parte era raivosa, com agressões à Folha e seus proprietários. Outras traziam insultos contra a esquerda, minimizando os crimes da ditadura militar no Brasil. Apenas 17 cartas, sem tomar partido deste articulista, propuseram uma abordagem menos apaixonada e de mais alto nível do problema. Entre essas, devo destacar as de Saulo Fidelis, Cássio Muniz, Mário Abramo, Álvaro Marins, Ruy Acquaviva, Mariana Martins, Bernardo Meditsch e Luiz Paulo Santana. Em geral, esses leitores protestaram contra o que entenderam ser, no meu artigo, uma tentativa de jogar água na fervura – ou de pôr tudo em panos quentes. Discordaram de mim, mas sem me ofender.


Outros reforçaram meus argumentos, como Luiz Armando Badin. Foram, ao todo, 22 os que me apoiaram. Enfatizaram a correção com que Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato – acusados pela Folha de nunca terem repudiado as ditaduras de esquerda – se comportaram nas últimas décadas. Também considero inatacável a conduta dos dois professores, como deixei bastante claro no artigo, ainda que considere os termos adotados por Fábio Comparato, pedindo que o diretor do jornal e o redator do editorial se ajoelhassem em praça pública, um tanto acima do tom.


Do restante das mensagens, muitas se empenharam a me achincalhar. Viram em mim um defensor da Folha de S.Paulo. O modo amigável e aberto com que me referi ao jornal, cuja trajetória jornalística eu admiro, foi visto por alguns como um modo submisso, dito brando, de me dirigir àquele diário. Houve quem me chamasse de covarde, houve acusações de que eu falava bem da Folha para ver se conseguia um emprego lá, houve insinuações de que eu estaria recebendo dinheiro de alguma organização de direita.


Entre as mensagens contrárias ao que escrevi, contei 19 bem truculentas. A esses leitores tenho a dizer apenas que, se o objetivo deles foi me ferir, conseguiram. E não há nada que eu possa fazer a respeito. Intriga-me, apenas, a ironia de que justamente esses, os mais deseducados, são os que mais cobram polidez da Folha. Na base do desaforo, inclusive contra este jornalista, julgam militar pela cordialidade e pelo respeito no espaço público.


Pensando nisso, considero que vale a pena voltar uma vez mais ao assunto. É um bom momento para um rápido balanço, ainda que precoce.


O erro que se reconheceu


De 15 dias para cá, a situação evoluiu. No dia 7 de março, um ato público ocupou o espaço bem em frente à porta do jornal, com cerca de 300 pessoas. Os presentes protestaram contra a ‘ditabranda’ e contra o tratamento ríspido dispensado aos professores Fábio Comparato e Maria Victória Benevides. A própria Folha noticiou o ato público no dia 8 de março, um domingo. Nessa mesma edição, ela publicou a íntegra do texto do abaixo-assinado contra ela própria, ao lado de uma nota em que reconheceu o erro de chamar a ditadura de ‘ditabranda’. Mais uma vez, a Folha deu uma demonstração de abertura, de compromisso com o pluralismo e de espírito democrático. Ela manteve, porém, o ataque aos professores, agora chamados de ‘democratas de fachada’, sob o argumento, outra vez, de que eles jamais condenaram as ditaduras de esquerda – entre elas, a cubana. Se houve progresso numa parte da contenda, na outra parte ficamos no impasse.


Aqui é preciso recapitular alguns fatos. Em pelo menos um de seus livros, Comparato denuncia explicitamente a institucionalização do abuso de poder e o totalitarismo dos regimes comunistas, conforme anotei no artigo anterior. Agora, por iniciativa de um leitor, veio à tona uma carta do mesmo Comparato, publicada na Folha no dia 1º de junho de 2004, em que ele evidencia sua discordância ética e política com o governo de Cuba. Vamos transcrevê-la:




Ruptura


‘O professor François Chesnais (‘Ruptura radical’ é a saída para o Brasil, defende professor francês’, Entrevista da 2ª, 31/5) tem dado uma excelente contribuição à causa do mundo subdesenvolvido ao mostrar, em seus vários livros, de que forma a globalização capitalista, comandada pelos EUA, aprofunda a divisão entre ricos e pobres até dentro dos países mais ricos do planeta. Mas, ao apontar em sua entrevista a experiência política cubana como exemplo a ser seguido pelos países subdesenvolvidos, especialmente o Brasil, o ilustre professor prestou um desserviço àquela nobre causa. A mundialização humanista, pela qual lutamos, funda-se no respeito integral à democracia e aos direitos humanos, caminho que, infelizmente, não tem sido seguido pelo governo cubano.’ Fábio Konder Comparato, professor titular da Faculdade de Direito da USP (São Paulo, SP)


O próprio ombudsman do jornal, em sua coluna do domingo (15/3), fez referência a isso. Eis o que ele escreveu:




De empastelamentos a reconhecimento de erros


Não faz muito tempo, alguém que discordasse das opiniões expressas por um jornal podia juntar uma turba e destruí-lo fisicamente.


A isso se chamava ‘empastelamento’. Este jornal, quando era ‘Folha da Manhã’ e ‘Folha da Noite’, foi vítima de tal agressão em 1930.


No sábado, dia 7 passado, um grupo de 300 pessoas (segundo o jornal) ou pelo menos 450 (de acordo com os organizadores) realizaram manifestação de protesto em frente à Folha.


Elas se diziam indignadas com editorial publicado em 17 de fevereiro com menção à ditadura brasileira (1964-1985), chamada de ‘ditabranda’.


O ato, com número de participantes que evidencia tanto o poder de convocação dos promotores do evento quando a importância do jornal, foi pacífico. A Folha o noticiou no domingo e deu na íntegra manifesto lido ali.


Faz muito pouco tempo, veículos de comunicação nunca reconheciam seus erros. A Folha foi o primeiro no Brasil a ter seção fixa para eles.


No domingo, pela primeira vez que eu tenha memória, um jornal admitiu erro de opinião. Foi a Folha, neste episódio.


Isso demonstra como avançou a relação entre imprensa e sociedade neste país.
A propósito, leitores registram que a ‘Nota da Redação’ em resposta a carta de Fábio Konder Comparato em 20 de fevereiro continha erro factual.


É verdade: ela dizia que Comparato não havia ‘até hoje’ manifestado repúdio a ditaduras de esquerda como a de Cuba. Em 1º de junho de 2004, o ‘Painel do Leitor’ publicou carta dele com críticas ao regime cubano.


Eu tinha esperança de que haveria um gesto de reconhecimento da Folha em relação ao erro cometido, e ele veio, ainda que tenha se limitado ao erro da caracterização da ditadura. Sustentei, também, que um episódio deve ser tratado como um episódio. Não mais que isso. Aproveitar um passo em falso do jornal para atirá-lo na vala comum dos que sustentaram editorialmente a ditadura é faltar com a verdade. Não discuto aqui se houve colaboracionismo da empresa, cuja história interna desconheço – e deve ser esclarecida. O que posso discutir é o conteúdo jornalístico da Folha dos anos 1970 para cá. Nesse ponto, não pode haver dúvidas: a Folha se firmou como um veículo de ponta das lutas democráticas no Brasil, dando voz a setores que não tinham entrada nos meios de comunicação conservadores. Não aceito a caracterização de que a Folha, em suas páginas, tenha sido uma base de sustentação do regime dos torturadores. Ela não foi. Eu mesmo fui colaborador do jornal em mais de um período e me orgulho disso. Não vou agora me somar aos que se valem de uma situação tensa para inviabilizar relações de respeito que contribuíram para aprimorar o jornalismo e a democracia. O episódio ‘ditabranda’ não muda a história pregressa. É um episódio – não ‘isolado’, mas bem demarcado – e deve ser avaliado em sua especificidade.


Continuo acreditando que jogar lenha nessa fogueira das exacerbações não nos levará a bons caminhos. Jamais pedi que se mascarassem as posições de um lado e de outro – apenas apelei para o bom senso e para a razoabilidade. Os argumentos, penso eu, podem ser elucidados sem que as reputações sejam vilipendiadas de parte a parte. A indignação dos que se solidarizaram com os professores Fábio Comparato e Maria Victória Benevides é justa. Eles foram desrespeitados e isso dói também em mim. Outra coisa é transformar a tensão do momento num incêndio que consome pontes e tradições que construíram parte das nossas instituições democráticas. Diante dessa fogueira, prefiro o papel de bombeiro.


Um ponto alto na polêmica


Em artigo publicado na semana passada neste mesmo Observatório (‘Folha contra Folha‘), o editor Cássio Schubsky, da Lettera.doc, diverge de mim em alguns aspectos. Li com grande interesse e com admiração as palavras de Cássio. No meu modo de ver, foi um dos pontos altos da polêmica. Numa passagem, ele chama a atenção do leitor para um defeito no meu texto anterior. Creio que ele tem razão.


Ao final do meu artigo, eu lembrei que entre nós, brasileiros, a abolição da escravatura não custou uma guerra civil (como custou aos Estados Unidos), e que a proclamação da independência também se deu sem tanta violência, assim como a proclamação da República. A própria ditadura militar aqui não atingiu os mesmos graus de matança registrados países vizinhos. Evidentemente, jamais pretendi, com isso, promover a tese da ‘índole pacífica’ da nossa gente, o que considero uma mistificação. Apenas quis apontar o descompasso que existe entre a constatação de baixos índices de violência em nossa história (inclusive com a suposição de que a nossa ditadura teria sido ‘branda’) e a prática aberta da violência verbal em relação àqueles de quem discorda. Se há ‘brandura’ em nossa história, por que tanta violência (sem tanta ternura) nos nossos debates? Revendo agora aquele trecho, desconfio que escrevi mal o que queria escrever. Agradeço ao Cássio por ter me corrigido.


Fora isso, o termo ‘ditabranda’, com o qual também me acusam de ter sido ‘brando’, não foi uma invenção daquele editorial. O neologismo teria aparecido, parece que em primeira mão, na boca de ninguém menos que do general Augusto José Ramón Pinochet Ugarte (1915-2006) – o que é uma paternidade abominável para qualquer palavra. O leitor pode checar no Youtube. Lembro também que o leitor Thiago de Jesus, de São Paulo (SP), postou sob o meu artigo de 15 dias atrás outro esclarecimento providencial. Segundo ele, ‘o neologismo `ditabranda´ é antigo, da época em que a dita ainda brandia’. O leitor explicou: ‘Lê-se num artigo da revista Time, de 1974: `While it has been ten years of ditadura (hard dictatorship) for the bulk of the population, it has been ditabranda (a mild variety) for business and the middle class´ (ver aqui).’


Enfim, ‘ditabranda’ não é uma palavra tão nova assim e, por todas as razões, adotá-la para uma caracterização histórica é um palpite infeliz, como eu já disse no texto anterior. ‘Ditabranda’ poderia até servir de piada (de mau gosto), na linha do que a minha geração no movimento estudantil gostava de fazer (dizíamos ‘ditamole’). Mas, para definir um período histórico, não tem a mínima procedência. A própria Folha reconheceu.


Rugas na testa


Nisso tudo, o pano de fundo é a questão da liberdade. Não tanto a liberdade que não havia na época da censura, mas a liberdade com que nós mesmos, hoje, lidamos com a divergência. Sempre acreditei que coube – e cabe – à minha geração o desafio de igualar os homens naquilo que a sociedade de classes os diferenciou e de diferenciá-los onde a sociedade de massas os igualou. Isso está escrito num livro que publiquei em 1993 (O peixe morre pela boca, pela editora Scritta). Ainda acredito nisso. Devo essa formulação às leituras que fiz de Marilena Chaui e de Maria Rita Kehl, e faço questão de dar o crédito. Acredito em combater a desigualdade assim como acredito em promover a liberdade.


É por acreditar nisso que me assusto com a intolerância que aparece em episódios como esse da ‘ditabranda’. Assustam-me os ataques gratuitos e injustos, mas ainda mais me assusto quando alguém se põe a satanizar aqueles que abraçam uma postura considerada ‘de direita’, como se apoiar teses ‘de direita’ fosse um crime. Crime é desprezar os direitos humanos, e esse crime foi praticado à esquerda e à direita. Acusam a Folha de ter uma inspiração ‘de direita’ em seus editoriais. Não concordo com a acusação. Não vejo a Folha como cartilha do neoliberalismo ou qualquer coisa do gênero. Acima disso, porém, não vejo falta de legitimidade alguma em um jornal que expresse uma visão de mundo mais ‘à direita’, desde que nos marcos da democracia. Será que alguém ainda pensa que só a ‘esquerda’ tem as soluções para os problemas contemporâneos?


Vejo nessas satanizações um sintoma de intolerância, com a qual não posso compactuar. Vejo aí a mesma intolerância que há naqueles que ainda execram os socialistas só porque são socialistas. Esse carimbo, ‘de direita’, não desqualifica ninguém, assim como o carimbo ‘de esquerda’ não autoriza ninguém a atropelar o império da lei. Somos uma sociedade que inclui gente de diversas orientações ideológicas e todos devem ter assegurada a sua condição de interlocutores legítimos. Isso exige de nós uma prática e um discurso muito, mas muito distinto do que temos visto.


O compromisso com a liberdade reside justamente aí, na capacidade de reconhecer as diferenças e de vê-las como expressões igualmente dignas. No mesmo plano. A solução não passa por exigir que concordem conosco: a solução passa por ver na discordância respeitosa um ambiente propício à criatividade e às soluções que são maiores do que a formulação fechada de cada uma das partes. Não integro nenhum coro dos contentes, como insinuaram os leitores mais inflamados. Também não comungo do coro dos candidatos a vítimas eternas, que vêem em cada divergência um indício da perseguição das elites. As coisas não são assim.


Ou aprendemos a lidar com as contradições ou ficaremos marcando passo em doutrinas dogmáticas e autoritárias, que, para sorte de todos, já se provaram farsescas. A pior ameaça que hoje pesa sobre nós não vem mais dos potentados, mas dos fanáticos, sejam eles milionários ou miseráveis. As desigualdades sociais devem ser combatidas, repito. Devem ser combatidas sem tréguas. Mas não nos esqueçamos também de combater a intolerância. Em nós mesmos.


De minha parte, não sou fiel a nenhum senhor. Sou fiel apenas ao que penso e ao que sinto. Não é lá grande coisa, bem sei, mas o que eu sinto e penso não se pretende verdade universal – pretende-se apenas um argumento a mais que, em lugar de adesão, almeja alcançar interlocutores de boa fé, partidários da liberdade. E você ainda se pergunta de que lado está a verdade? É simples: a verdade não tem donos. A verdade mora logo ali adiante, num ponto além do alcance das minhas mãos. E das suas. Ou nós a tecemos juntos, na nossa intersubjetividade problemática, ou nada feito.


Quanto aos desaforos, guardo-os em casa, fazer o quê? Guardo-os como marcas do tempo, como rugas na testa. Eles não são limões dos quais se possa fazer uma limonada. São desaforos mesmo, que demoram um tempo para se dissolver através do organismo. Mesmo assim, penso que ainda podemos levar disso algo mais do que desaforos. Talvez uma pequena lição, ainda que mal sucedida, de liberdade. Talvez uma pedra do passado, que o ressentimento conseguiu atirar contra o futuro. Talvez uma torrente de excessos, nostálgica de alguma obscura ordem de exceção. De um lado e de outro. E mesmo assim vale a pena, porque toda interpretação é uma sentença em aberto.

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Jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP

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