Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
Menu

JORNAL DE DEBATES >

Desdobramentos da crise política

25/08/2009 na edição 552

É bobagem achar que alguém ganhou nesse jogo insano de denúncias e tapiocas. Todos perderam, acelerou o processo de degradação institucional do país, o modelo político tornou-se mais e mais obsoleto, trazendo um conjunto de incertezas no horizonte.

Vamos por partes, para entender a abrangência dessa crise e a dificuldade em prever seus desdobramentos.

O ponto central, o pano de fundo desse terremoto inédito é o fim do monopólio de opinião e de informação, devido ao advento das novas mídias e da proliferação dos bancos de dados eletrônicos.

O modelo político brasileiro, até agora, funcionava com o Executivo montando alianças fisiológicas com grandes partidos ônibus – PFL-DEM, PMDB –, representantes de oligarquias regionais. Nada que diferisse muito de outros momentos da história. Esses políticos garantiam votos no Congresso e voto de cabresto de seus redutos – uma opinião pública pouco influenciada pela grande mídia, a exemplo do deputado gaúcho que se lixou para mídia.

Essa opinião pública localizada era importante no período eleitoral. Fora, o jogo se dava com o jornalismo que cobria especificamente o poder central, o dono da chamada opinião pública – como a conhecemos até alguns anos atrás.

Assuntos sumidos

O modelo se sustentava em cima de uma hipocrisia ampla e generalizada – típico das democracias ocidentais na era pré-internet. Partidos políticos se fortaleciam articulando interesses de seus políticos, de grandes grupos associados, montavam alianças com o Judiciário, com altos funcionários públicos. Depois, o discurso da busca do bem comum era mediado pela mídia. Quando não se conseguia cooptá-la, a mídia ia até a gôndola, sacava escândalos seletivos e a produzia crises políticas, quadro que se tornou mais agudo no país devido às disfunções do modelo político brasileiro.

Essa articulação acabou. Com a expansão das informações, das investigações criminais, uma opinião pública cada vez mais influente passa a ter acesso a todo estoque de denúncias abafadas. E começa a colocar em xeque todas as instituições: o Executivo, o Judiciário, o Legislativo e… a mídia.

A mídia passa a entrar em xeque quando o saco de irregularidades políticas é aberto e o público passa a entender os critérios de seleção de escândalos.

Exemplos muitos simples.

1. Na semana passada, a Folha deixou escapar uma matéria em que mostrava que uma empresa – possivelmente ligada ao ex-governador de Goiás Marcone Perillo – participou de licitações fraudadas de instituições estaduais paulistas. Houve evidências – segundo a matéria – de que a Casa Civil de Serra atuou diretamente para retirar o nome da empresa do inquérito. Se confirmado, é crime.

2. Um mês atrás, nas gravações feitas pelo Ministério Público Estadual gaúcho contra a governador Yeda Crusius, aparecem indicações de que empresas envolvidas em manipulação de licitações de merenda escolar, em São Paulo, estavam atuando junto ao esquema Yeda.

3. No relatório publicado pelo Estadão nesta semana – sobre a Satiagraha – os emails de Roberto Amaral envolvem políticos, autoridades e reguladores tucanos. O tema não mereceu chamada de capa nem será aprofundado.

4. O caso Camargo Corrêa sumiu completamente do noticiário. A que custo?

5. O caso Safra-Madoff sumiu completamente do noticiário.

Explicação da loucura

Nenhum desses fatos será aprofundado pela mídia. Antes, não se saberia dessas omissões; agora, se sabe.

‘O Caso Veja’ foi apenas o primeiro episódio de desvendamento desse jogo. Mas a cada dia cada manobras, vendas de matérias, negócios com Secretarias de Educação, perdão de dívidas de impostos, jogadas de mercado virão à tona.

Não se inverta a lógica da mídia e se passe a achar que toda corrupção é tucana. Ela é intrínseca ao modelo, é do PT, do DEM, do PV, do PSB.

Se se for escarafunchar os negócios da Eletrobrás com a Cemar, no governo Lula, os do Collor com o Canhedo, os de Itamar com José de Castro e Eduardo Cunha, os de Sarney com Machline, Saulo e companhia, os de FHC com os fundos de pensão, em benefício a Daniel Dantas, se verá que ninguém escapa.

A diferença entre eles foi o tratamento dado pela mídia, quando ainda tinha o monopólio da notícia e da denúncia. A capacidade da mídia de selecionar o escândalo e ter o monopólio da escandalização lhe conferia um poder que a fazia pairar acima dos partidos e dos demais poderes.

Agora, não tem mais.Mais que isso, nos próximos anos, outros grupos entrarão no mercado da comunicação e da informação, de novas empresas, mais ágeis e criativas, aos grupos de telefonia – imensas vezes maiores do que os grupos jornalísticos – além de todo o universo que transita na blogosfera. No final desse processo, dos grupos atuais provavelmente restará apenas a Globo.

É essa perspectiva pouco otimista que explica a loucura que tomou conta dos grupos tradicionais de mídia, levando-os a ultrapassar qualquer limite prudencial.

Poder esvaziado

Em Brasília há uma comemoração do fracasso da mídia. Com esse amontoado de campanhas destrambelhadas, a mídia não conseguiu derrubar Sarney, não conseguiu desmanchar a aliança PT-PMDB, não conseguiu deter o avanço da candidatura Dilma. Significa que Lula e o PT venceram? Não necessariamente.

É impossível manter o jogo político com a quebra da legitimidade. Pactos com Sarney, com o PMDB fisiológico, são pedras no estômago de qualquer cristão.

Até agora esse jogo era superado em nome da governabilidade. Junto a segmentos independentes da opinião pública – e mesmo junto a setores criadores do PT – o maior fator de legitimidade de Lula é justamente a mídia, as tentativas frequentes de golpes políticos que cria uma espécie de cadeia da legalidade no seu entorno.

Acontece que esse pragmatismo, antes visto como essencial para assegurar a governabilidade, está se esgotando. E vai se esgotar mais rapidamente quando ficar claro que a mídia não possui mais o poder desestabilizador que acredita ter. E quando as novas mídias expuserem mais ainda as entranhas da República.

Reconstrução do sonho

O racha que se observa agora no PT, com a saída de Marina Silva, com Suplicy e Mercadante procurando se afastar da imagem do partido, é um risco concreto, muito mais concreto para o partido – e para seus candidatos – do que as campanhas destrambelhadas da oposição.

A mídia exagera ao centrar toda a batalha no campo da opinião pública e perder foco no leitor. O governo erra ao supor que toda a batalha se dá no campo eleitoral, junto aos milhões de eleitores que veneram Lula.

De 2011 em diante, mesmo que vença um candidato de Lula, não é ele quem estará no poder. Se não se tratar de costurar, desde agora, teses legitimadoras, alianças legitimadores, se não se procurar devolver a legitimidade ao partido, principalmente, se não se passar a estudar seriamente esses novos tempos, a era da plena informação, haverá uma guerra permanente paralisando o país.

Sem a reconstrução do sonho, o próximo governo será uma crise permanente, o jogo político uma guerra sem quartel, seja Serra, seja Dilma, seja Ciro o eleito.

Salto visível

Para as próximas eleições, haverá bandeiras legítimas do governo Lula a serem empunhadas. Essa ideia de que o governo é constituído apenas de alianças espúrias torna-se forte quando todo o foco da mídia está na escandalização.

Baixada a poeira – porque não há priapismo midiático que sustente dois anos de denúncias – as bandeiras ficarão mais nítidas:

1. A opção pelo social, muito mais que seus antecessores, muito menos do que teria sido possível, se a política monetária fosse menos predatória. Mas como a oposição irá criticar o ponto mais vulnerável de Lula, se a mídia está há 8 anos repisando que o melhor de Lula é o Banco Central?

2. Montagem de uma rede social que mudou a cara do país, especialmente com o Bolsa Família, Luz para Todos, aumento do salário mínimo e Prouni.

3. Avanço na modelagem das relações federativas, através do modelo PAC: União definindo regras e recursos, estados articulando-se com setor privado e tocando as obras, méritos políticos repartidos entre ambos.

4. Retomada de investimentos básicos, como infraestrutura, saneamento e moradia (a depender dos resultados a serem alcançados ainda em 2010).

5. Nova inserção internacional, como o reconhecimento sobre o salto do país no cenário mundial.

6. O pré-sal com todo seu potencial de redefinir a política industrial.

Modelo empacado

E haverá os pontos fracos:

1. Aparelhamento da máquina.

2. Incapacidade de avançar em reformas gerenciais mais profundas.

3. Incapacidade de tornar a inovação ponto central de seu governo.

4. Incapacidade de instituir centros de pensamento estratégico capazes de definir o futuro de forma consistente.

Para as eleições, a oposição está em um mato sem cachorro. Não poderá falar dos juros, porque presa ao discurso mercadista da mídia. Não poderá propor alternativas aos programas sociais. O câmbio seria a grande bandeira, mas dólar é papel e câmbio baixo é lucro para os grandes aliados da oposição, a mídia.

Tivesse fôlego, Serra poderia ter feito uma revolução em São Paulo. Aqui, em se plantando, toda ideia dá. O estado tem as melhores universidades, a mais abrangente estrutura de instituições empresariais, institutos de pesquisa, distâncias pequenas. Não conseguiu sequer desenvolver um modelo de gestão adequado, como Aécio fez em Minas.

******

Jornalista

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem