Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
Menu

JORNAL DE DEBATES >

Desligados

Por Gal Beckerman em 12/09/2005 na edição 346

Os judeus não vivem mais em Gaza.

Pela primeira vez desde a Guerra dos Seis Dias, o Estado judeu voluntariamente deixou parte do território que os palestinos reclamam como sua Pátria – acabando, de fato, com uma parte da ocupação.

Gaza, esta pequena faixa costeira mediterrânea ultrapopulosa, (com uma área que é o dobro do tamanho de Washington e uma população de 1,5 milhão, apenas 8.000 dos quais eram judeus), saiu das mãos israelenses. Os soldados desmantelaram bases militares. Bulldozers demoliram construções. Colonos, seja de própria vontade ou arrastados por soldados, esvaziaram suas casas, deixaram suas estufas gigantes onde plantavam verduras e especiarias, abandonaram os cemitérios onde haviam sepultado seus mortos;

Com a exceção, talvez, daqueles que esperavam a intervenção do Messias, poucos duvidavam de que a retirada iria se realizar. A única variável, parecia, era por quanto tempo e com que violência os colonos iriam se agarrar à terra e, no final, o barulho e a fúria duraram menos de uma semana.

A verdade é que à partir do momento em que Ariel Sharon anunciou suas intenções em dezembro de 2003, batizando o plano com o nome anódino de ‘desligamento’ ele pareceu totalmente irreversível. Isto não apenas porque era Sharon, o antigo ‘pai dos assentamentos’ com sua vontade de ferro, que o promovia e realizava. Desde o momento em que o plano foi articulado, Sharon teve um aliado poderoso: a imprensa israelense.

Apesar de um ano e meio de aguerrida oposição por parte do movimento pró-colonos e seus simpatizantes na mídia, e de alguns fortes formadores de opinião do establishment da direita, os três grandes diários de Israel – Haaretz, Yedioth Ahronoth e Maariv – forneceram um apoio quase irrestrito ao plano de Sharon, tanto em seus editoriais quanto pela sua cobertura. Eles prepararam a população e ajudaram a assegurar os 60% de apoio que ganhou. A imprensa garantiu que a ação de Sharon pudesse se realizar de uma maneira e apenas desse jeito: sem negociação, sem acordos escritos, sem qualquer mecanismo sustentável para lidar com o dilema de dois povos tentando coexistir em uma minúscula porção de terra.

O desligamento tinha pontos fracos demais para não serem explorados por uma mídia cética. Mas ao evitar certas questões complicadas, ao não olhar muito longe no futuro, ao nunca realmente dissecar os motivos mais profundos de Sharon ou sua estratégia de longo-prazo, a imprensa de Israel ajudou a transformar uma ação nacional pobremente articulada, em algo inevitável.

Os israelenses são obcecados por notícias. Um estudo de 1998 descobriu que 82% da população lia um jornal mais de duas vezes por semana, 86% assistia regularmente a noticiários na TV. No anoitecer das sextas-feiras (o equivalente israelense das manhãs de domingo), pode-se passear pela rua e quase ouvir as pessoas virando as páginas das gordas edições de fim-de-semana. A cada hora, altos bips saem de carros, ônibus, e janelas dos prédios, anunciando o início de noticiosos pelo rádio.

Porque as notícias aqui nunca são triviais. E nas tensas semanas que levaram à retirada, os israelenses estavam ansiosos por qualquer pequena informação, qualquer pista, sobre o que esperaria por eles em agosto.

As filigranas da sociedade ficaram visíveis naquelas semanas. As profundas divisões – entre religiosos e seculares, judeus ashkenazim e sefaradim (orientais ou europeus), trabalhadores e elite – eram visíveis nas fitinhas fortemente coloridas que esvoaçavam em quase todas as antenas de carros no pais: laranja para os colonos, azuis para a multidão pró-desligamento.

Adolescentes se juntavam em todas as horas nas esquinas mais importantes, desafiando o tráfego para colar adesivos e pedaços de tecido. O país parecia dividido em dois times. Um dia vi um homem num caminhão com uma fita laranja amarrada em seu espelho retrovisor parando num farol vermelho, colocando metade do seu corpo para fora da janela, e gritando para um desconhecido num carro enfeitado de azul: ‘Você não percebe? Nunca haverá paz. Nenhuma paz! Nenhuma! Todos os jornais mostravam quadros com a contagem regressiva dos dias para o desligamento. Israel estava num estranho estado de suspense, segurando sua respiração, com os judeus hassídicos de capotes pretos rezando furiosamente a Deus para deter a mão de Sharon, e a elite secular fiel à idéia de que qualquer fim da ocupação, não importando como fosse realizada, iria se provar positiva.

Estava claro onde estava a imprensa. Cada ato de violência antidesligamento ganhava uma cobertura de destaque e negativa. Os jornais estavam cheios de fotos e artigos sobre tumultos, barbudos selvagens de sandálias e kipás bordadas e meninas em longas saias negras protestando nas ruas. Quando, no final de junho, um grupo de arruaceiros anti-desligamento jogaram pedras na cabeça de um inocente menino palestino de uma distância de poucos metros, a imprensa amplificou o incidente. TVs transmitiram repetidamente cenas do ataque e, não apenas o grupo de repórteres que acabaram salvando o menino, mas todos os três grandes jornais usaram a palavra ‘linchamento’ para descrever o acontecido. O apoio à retirada saltou em quase 10% nas pesquisas daquela semana.

A imprensa de Israel sempre foi pouco simpática com os colonos. Tradicionalmente, os editores e jornalistas daqui vêm dos setores secular, liberal e da classe média alta da sociedade israelense. Eles vivem nos antigos prédios brancos estilo-Bauhaus, em Tel Aviv ou em seus subúrbios e tomam seu café na Rua Dizengoff, a poucas quadras do Mediterrâneo. A ideologia dos colonos é distante deles. Quando milhares tentaram marchar ilegalmente para Gaza para impedir o desligamento – uma ação que os colonos consideravam equivalente à marcha de Martin Luther King Jr. de Selma – a imprensa os descreveu como uma autêntica ameaça ao Estado.

Mas o retrato negativo dos colonos foi apenas uma pequena parte de como a imprensa ajudou a promover o desligamento. No ano e meio de preparativos e discussões sobre a retirada, a mídia não perguntou o tipo de questões que se estão mostrando cada vez mais óbvias, agora que estamos no que os israelenses resolveram chamar de ‘O Dia Seguinte’.

O que realmente estava por trás da proposta de Sharon? A tentativa de colocar o processo de paz de volta nos trilhos ou, como seu primeiro assessor Dov Weisglass disse numa controversa entrevista, colocá-lo em ‘formol’, afastando a pressão ocidental e solidificando a posse de Israel sobre a Cisjordânia?

E por que a insistência em uma ação unilateral, retirada sem negociações com os palestinos? Não deveria a morte de Yasser Arafat, em novembro de 2004, sempre retratado como o principal obstáculo à negociação, ter provocado uma virada na política?

E onde ficavam os palestinos? Até chegar em 15 de agosto, a imprensa de Israel fez pouco esforço para entender como eles viam a retirada. Aos olhos palestinos, Israel estava fugindo, sucumbindo à incansável campanha de terror, ou como Israel o descreveu, saindo como expressão de sua própria e forte vontade? E como a retirada deixaria a Autoridade Palestina? Ela seria capaz de assegurar o controle de Gaza frente ao popular grupo extremista Hamas? E, importante, a ação unilateral poderia fortalecer o Hamas e minar Abbas, que sempre declarou que a negociação é a única forma de acabar com a ocupação? A retirada ajudaria a estabelecer um Estado Palestino ou seria prejudicial?

Tais questões poderiam ter alterado o rumo que esta peça da História seguiu. Mas em toda a primavera e o verão, quase ninguém fez as perguntas. A imprensa ficou aquém de sua responsabilidade jornalística de analisar a política e explorar suas muitas implicações. Cinco anos de incessante violência tinham exercido um efeito paralisante. Jornalistas e editores, como a maior parte dos israelenses, estavam dispostos a ignorar as complexidades deste ‘conserto rápido’, mesmo que isto pudesse romper o insustentável status quo.

Silêncio! Estamos desligando

Duas grandes pinturas, ambas alusivas a imprensa, saúdam quem entra no prédio do Haaretz na Rua Schocken Street, que atravessa um antigo bairro de operários no sul de Tel Aviv. Uma é cheia de anúncios fúnebres com moldura negra (‘Ao nosso amado pai’). A outra é de anúncios de sexo (‘Duas irmãs procuram…’). É uma brincadeira, tenho certeza. Você vê isso em qualquer banca de jornais em Israel. E aí está o Haaretz, o auto-proclamado jornal sério de Israel, sóbrio, ficha corrida limpa, frente aos seus dois concorrentes, Maariv e Yedioth Ahronoth, ambos tablóides com circulações bem maiores, onde todo dia é um dia bom para manchetes enormes em vermelho-sangue.

Apesar de sua menor circulação – cerca de 80 mil exemplares diários, comparados a 600 mil do Yedioth Ahronoth e 400 mil do Maariv – as notícias e editoriais do Haaretz têm impactos importantes. Ninguém na elite do poder pode ignorar seu editorial diário, não-assinado. Como o The New York Times, Le Monde e o The Guardian, ele se vê como um ator, com uma perspectiva distinta dos freqüentes dilemas existenciais do país.

Mas existe uma ironia na influência do Haaretz. Embora sua equipe de reportagem seja a mais profissional em Israel e suas análises sejam as mais profundas, ele também continua sendo, editorialmente, um dos últimos redutos de uma posição crescentemente marginalizada e combatida politicamente: a esquerda. Muitos dos leitores do Haaretz têm um relacionamento de amor e ódio com o jornal, inflamam-se às vezes com as suas posições editoriais, mas são incapazes de abandoná-lo.

Para entender o quão fora do consenso israelense o Haaretz passou a se situar, não é preciso ir além de Amos Schocken, o editor do jornal, herdeiro de uma família judia alemã que possui e dirige o jornal desde 1935. Schocken consegue tirar de si 95% dos israelenses a cada vez que abre a boca. Eu o vi neste verão, um homem alto e elegante com cabelo grisalho e óculos pequenos, numa conferência em Jerusalém sobre mídia. Ele bruscamente cortou uma colona que estava falando emocionadamente sobre o então iminente desenraizamento de judeus de Gaza de seus lares. Disse ele: ‘Desculpe-me, mas vamos, por favor, colocar as coisas em suas devidas proporções. Este país foi fundado por gente tirada e desenraizada de seus lares em condições mil vezes piores. Esta é uma evacuação que está sendo realizada em condições absolutamente luxuosas…’ Ainda que estivesse pregando para uma platéia na maioria convertida, seu tom, seu sangue-frio, parecia replicar exatamente a arrogância de que o seu jornal é freqüentemente acusado.

A segunda intifada, que começou como revolta armada no final de 2000 e evoluiu numa brutal campanha terrorista que transformou símbolos de vida civilizada – ônibus e cafés – em banhos de sangue, apresentou à mídia israelense um dilema. Como capturar o sentimento nacional de ameaça existencial, o medo e a ansiedade, e ao mesmo tempo não ser vencido por eles e manter o mínimo de distância crítica? TVs e tablóides foram logo inundados por imagens altamente emocionais – gritos, parentes enlutados mostrando fotos de suas crianças sorridentes mortas em atentados suicidas; cenas de shopping centers cheios de sangue e queimados; religiosos com longas barbas procurando no asfalto pelos menores pedaços de restos humanos. O assassinato de 19 adolescentes na danceteria Dolphinarium em junho de 2001. O massacre de 29 judeus durante a ceia da Páscoa de março de 2002.

Haaretz teve um problema especial neste tempo. Seu ponto forte – uma extensa cobertura da vida dos palestinos sob ocupação – agora parecia obsceno, mesmo entre israelenses da esquerda. Não queriam ouvir nada de Gideon Levy e Amira Hass, dois repórteres do Haaretz, únicos entre os jornalistas israelenses, que cobrem ao vivo as condições palestinas. Hass é a única jornalista israelense que mora nos territórios, e residiu em Ramalah e Gaza na última década. Quando eu disse a amigos israelenses que queria conversar com os dois jornalistas, reagiram como se eu tivesse dito que pretendia prestar minhas homenagens no túmulo de Arafat em Ramalah. Até muitos moderados israelenses os rejeitam. Especialmente Levy. A maior parte dos jornalistas (até alguns do próprio jornal de Levy) o vê como um escritor de dramas que bate muito na culpa israelense e atravessa para a ingenuidade. Uma amostra de seus artigos desta primavera, numa coluna semanal chamada ‘Twilight Zone’, parecia bastante inócua: uma visita a uma agência de emprego para palestinos de Gaza que procuravam inutilmente por trabalho em Israel, uma conversa com estudantes frustrados na Cisjordânia, e um perfil dos salva-vidas na praia de Gaza. Mas esses artigos foram escritos num tempo de relativa calma. Seus críticos o acusam de ser muito condescendente quando entrevista palestinos com sangue israelense nas mãos, de não perguntar questões sensíveis – no que parecem ter razão.

Em abril de 2002, próximo ao ápice da intifada, uma popular escritora Israelense, Irit Linor, publicou uma carta aberta ao Haaretz cancelando sua assinatura. Escreveu que a cobertura da intifada pelo Haaretz era ‘anti-sionista’. ‘Acho que é errada e chata’, queixou-se, ‘e que suas bases de trabalho são desonestas e distantes da realidade e do lugar onde vive.’ O tom indignado reverberou desatando o que alguns chamaram de um dilúvio de cancelamentos. O Haaretz não confirmou quantos, o que pode apoiar a idéia de que o número foi significativo. Gente de dentro do jornal regurgitou uma famosa frase pronunciada por Gershom Schocken, pai de Amos e legendário editor-chefe do jornal de 1939 a 1990. Quando assinantes cancelavam assinaturas por razões políticas, o velho Schocken respondia textualmente: ‘Você não merece ler meu jornal. Você não vale isso’.

Esta frase também ouvi de David Landau, o atual editor-chefe. É parte da aura do jornal, o que ele gosta de acreditar sobre si mesmo – uma ilha de luz e objetividade num mar de emocionalismo. Mas ao ouvir Landau tornou-se claro para mim que a política do Haaretz não se manteve congelada nos últimos cinco anos. O jornal também sentiu os efeitos dos homens-bomba. O maior sinal foi o apoio entusiástico e acrítico do jornal ao plano de desligamento.

Se você pudesse esperar que qualquer página editorial fosse cética sobre o unilateralismo do desligamento e sobre seu imprevisível iniciador, Ariel Sharon, teria sido no Haaretz. Não apenas o jornal sempre havia defendido um acordo negociado de terra por paz, mas Sharon tinha por décadas sido descrito em suas páginas como o inimigo público número um, uma mistura de Al Capone com Mussolini.

Mas tão logo o plano foi anunciado em 2003, os editoriais diários do Haaretz começaram a soar como se os redatores dos discursos de Sharon os tivessem escrito. O desligamento foi ‘o remédio salvador para a galopante doença da fome por vítimas’, escreveu o jornal em 26/10/2004. O voto do governo no plano em fevereiro foi descrito como ‘um dos mais importantes e talvez mais decisivo … desde a decisão de fundar o Estado de Israel’.

Landau, originário de Londres, foi um estudante de yeshivá [colégio rabínico] antes de se tornar jornalista, um trajeto incomum na profissão. Ainda é algo de anômalo no meio do secularismo dominante na equipe do Haaretz. Quando fui falar com ele, me chamou imediatamente a atenção o fato dele ser um dos poucos homens da redação a usar uma kipá (solidéu). Isto, junto à sua barba negra, o fazia parecer quase rabínico. Por décadas ele trabalhou no jornal de língua inglesa Jerusalem Post, outro bastião da esquerda até que foi comprado pelo grupo conservador Hollinger, em 1989. Menos de um ano depois, insatisfeito com a nova linha editorial, Landau liderou uma demissão em massa de 30 importantes repórteres e editores. Ele é editor-chefe do Haaretz há um ano e meio, e ainda fala com as cautelosas pausas de alguém desconfortável em representar uma instituição.

‘Nós enveredamos para uma queda com Ehud Barak’, me contou Landau com seu sotaque britânico. E só essa frase, por simples que pareça, denota uma forte guinada das posições políticas tradicionais do Haaretz. Landau referia-se ao antigo primeiro-ministro que, em julho de 2000, fez o que a maioria dos israelenses acreditavam ter sido uma oferta territorial muito generosa nas conversações de paz em Camp David. Quando Arafat rejeitou sua proposta, a violência palestina irrompeu rapidamente, Barak e seus assessores começaram a vender uma certa narrativa do conflito para um povo confuso e enraivecido. Essa narrativa, esse entendimento comum, foi tenazmente reforçado. Barak disse que a rejeição palestina em Camp David e o início da revolta dois meses depois tinham revelado de uma vez por todas que o líder palestino e sua gente nunca realmente haviam se interessado pela paz, o conflito armado sempre fora sua intenção. Todos os apertos de mão e expressões de boa-fé do período de Oslo tinham sido jogo de cena. A real intenção do povo palestino era matar, aniquilar e destruir Israel. Um verdadeiro ‘parceiro para paz’ só emergeria após uma geração, talvez duas.

A maior parte dos israelenses logo internalizou isto. Ninguém parou para perguntar qual poderia ter sido o papel de Barak no fracasso das negociações. Ninguém examinou que parte Israel desempenhou em perpetuar o banho de sangue. Ninguém nem mesmo questionou o argumento de Barak de que a violência palestina era organizada, e não uma reação espontânea nascida da frustração.

Nem mesmo o Haaretz.

‘Mesmo que continuássemos abominando e condenando a ocupação e as práticas do exército israelense e do Shin Bet [serviço de segurança de Israel] e publicando Gideon Levy com orgulho, caminhamos para uma queda com Ehud Barak em 1999-2000, e todas as nossas esperanças e aspirações se estilhaçaram como as dele’, disse Landau. ‘Continuamos a por a maior parte da culpa sobre o outro lado, sobre Yasser Arafat. Isso deu forma à nossa evolução em todo o período da intifada e, agora, na transformação de Sharon.’

Isto foi surpreendente. Mas o que ele me disse depois foi mais ainda. Nos meses que levaram à retirada, um refrão comum na direita era que a mídia, em seu fanatismo pelo desligamento, estava fechando os olhos para as várias acusações de corrupção pendentes sobre Sharon, acusações de financiamento ilegal de campanha e subornos. Landau alisou sua barba e basicamente confirmou que isso era verdade.

Contou a recente conversa com um opositor ao desligamento que tinha perguntado por que o Haaretz, ‘bastião do progressismo, o cruzado contra a corrupção neste país há décadas’, tinha dado a Sharon ‘quase uma carta branca’ em seus problemas legais e éticos.

Landau disse que ele também perguntava esta questão todas as manhãs para o espelho, e acabou concluindo que qualquer exame do que chamou de ‘pecadilhos’ de Sharon, teriam que ‘ser deixados de lado quando comparados aos benefícios morais e éticos que podemos alcançar com o desligamento’. Acrescentou: ‘Você está certo. Não é que eu faça isto de uma forma inconsciente ou sem cuidado. Eu conscientemente coloquei esses valores abaixo de um proveito que vejo para a democracia de Israel’.

‘Esses palestinos são animais’

Para manter o desligamento na onda, a mídia tinha a responsabilidade de proteger o primeiro-ministro. Esta rendição da responsabilidade jornalística foi expressa abertamente, e sem nenhuma vergonha, nas duas semanas que precederam a retirada. Amnon Abramovitz, um comentarista sênior no influente Canal 2 de TV, chegou a comparar Sharon a um ícone religioso sagrado, que precisa ser guardados num ‘caixa selada, revestida de esponja, algodão e celofane, pelo menos até a conclusão do desligamento’.

Isto era algo novo. A mídia israelense vinha sendo um vigoroso e atento fiscal por pelo menos 30 anos. Seu Watergate aconteceu ao final da Guerra de Yom Kipur em 1973, quando ela expôs o despreparo do governo para o ataque de surpresa, e provocou a renúncia da primeira-ministra Golda Meir. O próprio Sharon tinha sido um alvo constante e foi fortemente atacado durante a Guerra do Líbano em 1982, quando a imprensa se recusou a ser silenciada pelo que é muitas vezes chamada de a regra do ‘Silêncio! Estamos Atirando’, e no final revelou como Sharon, então ministro da defesa, ultrapassou rudemente suas atribuições, ampliando o escopo da guerra até que chegou a Beirute.

Só uma mídia que acreditasse piamente no desligamento poderia lhe dar o apoio cego que ele estava recebendo. A imprensa adotou não apenas o plano de Sharon, mas o nome de Sharon para o plano, hitnatkut, que em hebraico significa desligar, desengajar. A mídia, junto com muitos israelenses, abraçou e nunca abandonou a narrativa de Barak. Para apoiar um processo que ignora os palestinos, primeiro tem-se que chegar à conclusão de que os palestinos esqueceram a idéia de coexistência pacífica.

Para entender a força desta narrativa, é importante voltar para outubro de 2000, o mês em que a segunda intifada começou e em que esta história nasceu. Nas primeiras duas semanas daquele outubro, os palestinos e israelenses tinham, cada qual, um evento de mídia que parecia confirmar para eles a enorme depravação do outro lado – dois pequenos trechos de filme, retransmitidos milhares de vezes. Primeiro vieram as cenas de Muhammed al-Durrah, um menino palestino de doze anos, que foi pego com seu pai no meio de um fogo cruzado num checkpoint de Gaza. A imagem de seu pequeno corpo tremendo, se movendo e depois inerte, morto, foi extremamente potente em todo o mundo árabe. Aí, em 12 de outubro, veio o assassinato de dois policiais israelenses numa delegacia de polícia em Ramalah, e a imagem de um homem no terraço da delegacia, com suas mãos derramando sangue.

Se a morte do menino foi um ponto de inflexão para o mundo árabe, a morte dos dois policiais foi igualmente seminal para os judeus. Mas, como Daniel Dor, professor de estudos de mídia na Universidade de Tel Aviv e antigo editor de jornal, escreveu em seu livro, Intifada Hits the Headlines, ‘o linchamento não foi o único ato terrível de violência cometido naqueles dias. Foi parte de uma realidade total – uma realidade violenta, trágica, complexa e largamente paradoxal. Os tablóides, porém, a transformaram num evento de significado mítico, desconectado no tempo e no espaço, que revelava de uma vez por todas a ‘natureza assassina’ de todo e qualquer palestino. E foi assim que o linchamento ficou gravado na memória coletiva israelense por toda a Intifada’.

As manchetes do dia seguinte contavam a história: ‘Esses palestinos são animais, não humanos’, no Yedioth Ahronoth, e ‘Bestas Humanas’, no Maariv. Dor assinala que o tom dos comentários e das reportagens começou a refletir o que era considerado uma nova realidade. Em 13 de outubro, Nahum Barnea do Yedioth Ahronoth escreveu: ‘Não mais lágrimas, não mais sangue’, disse Itzhak Rabin, há mais de sete anos, nos jardins da Casa Branca. É tempo de paz. Mas agora se percebe que Rabin estava errado. Entre o mar e o Rio Jordão ainda há muita fome por sangue e lágrimas, e existem aqueles dispostos a fornecê-los’.

Em 27 de outubro, Ari Shavit, numa entrevista muito lida de Barak no Haaretz sob a manchete ‘A Revolução Copernicana de Barak’, escrevia sobre uma ampla mudança conceitual havida no pensamento a respeito dos palestinos. ‘Agora a máscara caiu. A maquiagem foi removida, a roupa tirada’, escreveu Shavit. ‘E agora todos podemos ver as verdadeiras imagens dos atores. Agora todos nós vemos esta realidade cruel – revelada por Barak e personificada por Arafat – nos olhos.’

O que aconteceu tão abruptamente naquele outubro, observa Dor, definiu um padrão para a cobertura do conflito nos cinco anos seguintes: uma amplificação emocional da história israelense e o apagamento das versões palestinas. As mortes e perdas palestinas começaram a aparecer menos e menos nos jornais israelenses. Em 2 de outubro, os três jornais mencionaram as mortes de palestinos no protesto violento. Um dia depois, a cobertura de mortes palestinas começou a diminuir até que no final foram movidas para as páginas internas, onde ficaram.

O efeito desta cobertura sobre os israelenses ficou imediatamente claro. Numa pesquisa publicada pelo Maariv em 10 de novembro, 38% responderam que os israelenses sofreram mais que os palestinos nas primeiras cinco semanas da intifada – algo que os números de mortos e feridos não poderiam sustentar.

Dor continua a trabalhar com grupos de observadores de mídia que rastreiam a maneira como a narrativa que se cristalizou naquele mês deu forma e enquadrou as notícias nos últimos anos. E chegou a uma conclusão interessante: não foi tanto a reportagem que foi afetada pela narrativa. A reportagem se manteve, em sua maior parte, desapaixonada, objetiva e profissional. Mas é no enquadramento dessa reportagem, na colocação de fotos, manchetes e textos – trabalho de editores – que ele identifica uma super-simplificação do conflito.

Um artigo que dá igual peso aos dois lados de uma história é minado por uma manchete que ressalta apenas um. Um texto escrito num tom sem emoção é colocado ao lado de uma foto horrorosa. O relato de uma opinião dissidente é jogado para o fundo do jornal. Isto é verdade, diz Dor, mesmo no Haaretz, e até com Levy e Hass que têm espaço para apresentar a visão palestina, mas seus textos nunca são apresentados na primeira página.

Estas tendências – um foco incansável nas vítimas israelenses do terror, a invisibilidade de palestinos, e uma recusa a ver o conflito em termos que não sejam emocionais – apenas pioraram à medida que a violência se intensificou.

Quando visitei Nahum Barnea, amplamente considerado como o colunista mais influente e respeitado do Yedioth Ahronoth, ele me disse que concordava com a premissa básica de Dor. Ele também achava que as manchetes, fotos e o posicionamento eram um desserviço à complexidade do conflito, contribuindo para a sensação israelense de que o conflito era irresolúvel. Mas acrescentou sua impressão de que os motivos dos editores seriam mais financeiros do que ideológicos.

‘A mídia, na maior parte dos casos, fez o máximo para fortalecer a tensão, a histeria, o que foi na minha opinião muito deplorável’, Barnea me disse. ‘O sangue era espalhado nas telas. Nas primeiras páginas. Não foi um período de que possamos nos orgulhar. Ao mesmo tempo, não faz sentido esconder o sangue. É isto o que interessa ao público. E é muito, muito difícil cobri-lo. Em algum tempo, torna-se rotina. Acontecia quase diariamente e as pessoas ficavam cansadas disso. Então como você pode despertar seu interesse? Fazendo-o ainda maior do que era. Nossa responsabilidade é informar o público e educá-lo. Mas ainda assim, a forma como você se vende, a forma como você consegue pontos de audiência é pelo choque. E nós fizemos muito disso.’

Barnea disse que a coisa chegou a um ponto em que, se não tivesse um atentado terrorista, jornalistas sentiam como se não tivessem nada interessante para oferecer ao público. ‘Uma crise política, um ministro que renuncia, uma discussão entre EUA e Israel – quem liga?’ disse ele. ‘Quando você começa a usar esse tipo de cocaína, você não volta para a maconha.’

Prisma estreito

O rosto confiável e agradável de Chaim Yavin e sua voz perfeitamente pronunciada são o que os israelenses assistiram durante os últimos 40 anos nas horas que se seguiram a atentados terroristas, guerras e eleições. Ele é o grande âncora israelense. Yavin, agora com 72 anos e ainda apresentando as notícias toda noite no Canal 1 da TV [governamental], decidiu quebrar o consenso da mídia e expor o que ele via como as doenças da ocupação.

Terra dos Colonos [Land of the Settlers] é uma série em cinco partes produzida por Yavin e transmitida nesta primavera, não no Canal 1 em que trabalha, que se recusou a financiá-lo, mas pelo Canal 2, independente. Semanas antes da transmissão do primeiro episódio, a séria já provocava apaixonada discussão e já tinha gente chegando a conclusões sobre ela.

A série foi filmada quase inteiramente pelo próprio Yavin, e tem um ar muito pessoal, confessional. Yavin aparece num longo casaco preto, headphones, segurando uma pequena câmera de vídeo digital. Sua voz – chocada, perturbada, indignada – narra cada cena: um pai e sua filha doente tentando cruzar um posto de controle militar, agricultores palestinos sendo expulsos de seus campos por colonos com metralhadoras, um colono de Gaza acariciando o túmulo de sua filha…

E Yavin parece estar engasgado, em tempo real, com o que está vendo. Num ponto, sentado na sala de uma família de colonos, tomando chá e debatendo com eles, Yavin grita: ‘O que estamos fazendo aqui não é judaico’. No final do primeiro episódio, tendo acabado de entrevistar uma família palestina cujo filho tinha sido morto num fogo cruzado, ele conclui com o que percebeu como a moral da história: ‘A dor é a mesma dor. Mas no noticiário da noite, eles são sempre os matadores e nós somos sempre as vítimas’.

O seriado de Yavin pretendia mostrar aos israelenses o que eles raramente enxergam – o que a vida sob ocupação tem significado para os palestinos e, também, o lado mais escuro dos colonos. Mas no final, o que foi ainda mais chocante do que a loucura dos colonos e o sofrimento dos palestinos foi que Yavin os apresentou como se fosse Colombo descobrindo um mundo novo em seu próprio quintal. Uma caricatura política publicada no dia seguinte ao primeiro episódio capturou isso perfeitamente. Abaixo das palavras ‘Últimas Notícias’, um Yavin visivelmente ansioso, com o suor pingando da testa, segura um microfone e anuncia: ‘A Cisjordânia e Gaza estão cheias de colonos!!!’.

A surpresa de Yavin levanta a questão: se tudo isto é novo para o homem que estava em contato íntimo com as notícias por tantas décadas, o que dizer dos outros seis milhões israelenses?

Antes da intifada, israelenses estavam pelo menos em contato com palestinos de carne e osso, mesmo que fossem lavadores de pratos e trabalhadores de construção. Mas, de tempos para cá, com a proibição da entrada de palestinos, é apenas através da mídia que os israelenses os têm conhecido. E o rosto que vêem na mídia é normalmente oculto, e pertence a um jovem raivoso lendo seu último testamento antes de se dirigir a Israel para se explodir.

A pessoa que talvez lamente mais esta situação, que tenta diariamente mitigá-la, é Gideon Levy. O que Yavin apresenta como uma escandalosa revelação em seu documentário é o ‘arroz com feijão’ de Levy. Triste, olheiras escuras, nos dez minutos de nosso encontro ele me confessou sua solidão. Sem surpresa. Ele é o bando de um homem só tentando apresentar a perspectiva palestina numa forma que absolutamente nenhum outro (além de sua colega Hass) faz. Para ele, a negligência da mídia israelense é ‘criminosa’.

‘Se um soldado israelense é apenas arranhado por uma pedra, ele será notícia de primeira página. Se quinze palestinos são mortos por uma bomba, isto estará na página 16, bem pequeno’, diz Levy. ‘Qual é a mensagem? A mensagem é que quinze palestinos não são grande coisa. Que não são seres humanos como nós. Assim suas vidas se parecem com quinze cães mortos.’

Ele acredita que um processo de ‘desumanização e demonização’ está acontecendo. Pode não ser consciente, talvez por razões comerciais. Mas o resultado final, pensa, tem sido a redução da imagem do povo palestino a uma turba lunática.

‘Isto serve ao propósito de todos’, diz. ‘Temos uma coalizão muito rara. Os leitores que não querem ler, os escritores que não querem escrever, e os editores que não querem publicar porque não vende. E o governo que não está interessado em que alguém veja’.

O principal argumento de Levy – que a experiência palestina é raramente relatada – é inegavelmente verdadeiro. Mas também é verdade que tem havido alguma melhora nos anos que se seguiram ao início do processo de Oslo em 1993.

Mesmo que os dias mais escuros desta segunda intifada não se comparem à primeira, quando qualquer entrevista com um palestino tinha que ser aprovada pelo diretor da autoridade de radiodifusão, os jornalistas na época tinham que usar a palavra ‘pessoa’ quando se referiam a líderes palestinos, palavra que em hebraico confere importância e respeito. Naqueles dias, dezenas de telefonemas iam e vinham semanalmente entre jornalistas israelenses e fontes palestinas. Líderes da Autoridade Palestina (gente como Hannan Ashrawi, Muhammed Dahlan e Saeb Erekat) são agora nomes familiares em Israel, suas caricaturas aparecem em cartoons políticos sem qualquer necessidade de explicar quem eles são.

E se existe um lugar onde a mídia israelense se aperfeiçoou, é na sua disposição em monitorar os próprios soldados do país. Muitos artigos nos últimos anos têm descrito abusos em checkpoints (postos de controle militar) e tratamentos não-éticos de prisioneiros palestinos. Agora em junho, o Maariv, considerado o mais à direita entre grandes diários, abriu a história de uma missão de vingança ‘olho-por-olho’ em 2002, na qual soldados israelenses indiscriminadamente mataram quinze policiais palestinos para vingar as mortes de seis soldados israelenses assassinados no mesmo dia.

O que ainda falta, porém, é qualquer reportagem sobre o que os palestinos estão pensando. Considere-se, por exemplo, como a reação palestina ao iminente desligamento de Gaza, foi coberta em Israel. Qualquer percepção de como eles viam a retirada – uma questão crítica – era adquirida principalmente através de hipóteses, presunções e conjeturas do establishment militar israelense. E não de ninguém do campo real palestino.

Em junho, o ex-chefe do Estado Maior de Israel, Moshé Yaalon, e seu antigo chefe dos serviços de segurança Avi Dichter, ambos aposentados, deram entrevistas aos três jornais. Yaalon disse que após o desligamento o ‘terrorismo retornará em todas suas formas – ataques a tiros, carros-bomba, atentados suicidas, morteiros e foguetes Qassam’. Uma semana depois, Dichter, respondendo às observações de Yaalon, disse que a ‘previsão apocalíptica não é sustentada por qualquer inteligência’. Sua interpretação era a de que todos os grupos palestinos, incluindo o radical Hamas, iriam manter a paz após o desligamento.

Essas interpretações esquizofrênicas do humor palestino são razoáveis como uma fonte de informação. O problema é que tais fontes são quase o único prisma pelo qual os israelenses são capazes de explorar o estado de espírito dos palestinos..

O pêndulo oscila

Os escritórios do Maariv têm a aparência de uma redação de história em quadrinhos – talvez o Planeta Diário de Clark Kent – combinando com o mais tablóide dos tablóides israelenses. O ar está cheio da fumaça que sai dos finos cigarros fumados por duas secretárias que sentam fora da sala do editor-chefe Amnon Dankner. O próprio Dankner senta atrás de uma mesa gigantesca e bebe um enorme copo de chá quente. Ele tem os ombros de um atleta e a voz de um fumante incessante (meio maço de Winstons na hora e meia em que estive com ele).

A primeira coisa que Dankner queria que eu entendesse é o que significa ser um israelense. ‘O que eu esperaria que qualquer um que faça críticas a Israel pensasse, é como ele reagiria se vivesse num bairro muito violento, do qual não pudesse sair e onde todos seus vizinhos tentassem constantemente molestar seus filhos, violar sua mulher e matá-lo. Após duas semanas de tal existência, ele não se comportaria mais agressivamente do que nos comportamos agora?’

Dankner aceita plenamente que a cobertura da imprensa israelense não tem sido equilibrada nesses últimos anos e não se desculpa por isto. ‘Não. Eu não dou tempo igual para eles’, diz, referindo-se aos palestinos. ‘Quando você está numa sociedade que está lutando por sua vida, um jornal tem que seriamente ajustar as proporções de forma a não enfatizar demais a importância das feridas de seus inimigos e ignorar as feridas de seu próprio povo’.

O que eu tenho chamado de narrativa, Dankner aceita como fato irrefutável, como uma doutrina religiosa. A sociedade palestina está doente, ele acredita, e a imoralidade da intifada (que ele prefere chamar de uma ‘guerra de terror’) deve ser repetida e repetida.

Mas Dankner se considera um homem da esquerda moderada. Como estudante em 1967, diz, iniciou a primeira organização contra a ocupação. Durante nossa conversa, ele disse que Israel fez coisas ‘estúpidas, violentas e desumanas aos árabes’, e falou sobre sua total oposição ao movimento dos colonos. Mas ele sofreu fortemente os efeitos de 2000. Quando começou a pregar a verdade sobre os palestinos, como ele começou a vê-la, ele foi amplamente criticado. O Haaretz o colocou na capa de sua revista semanal com a manchete ‘O novo Dankner’, e o acusou, como Dankner descreve, de ‘conduzir o redação para uma atmosfera nacionalista e chauvinista’. Mas ele corretamente nota que em 2002, ‘até os editoriais do Haaretz escreviam as mesmas coisas que eu havia escrito dois anos antes’.

Para ele, a história é de desencantamento e remonta a antes desta intifada. Em meados dos anos ’90, a imprensa israelense acompanhou o processo de paz de Oslo. A imprensa começou a descrever os palestinos como parceiros viáveis e futuros vizinhos. Mas quando Arafat rejeitou a oferta de Barak em Camp David, quando a segunda intifada começou, quando ocorreu a morte dos policiais, pareceu claro para Dankner que os palestinos tinham dado as costas para a paz. E não seria exagero dizer que seu coração foi partido.

Ele agora acha que foi ingênuo demais durante o período de Oslo, muito cego pela esperança – algo que ouvi de muitos jornalistas que desde então se tornaram falcões.

‘Eu não queria conhecer a verdade’, diz Yossi Klein Halevi, correspondente em Israel do The New Republic. ‘E isto foi o que a maioria de nós fez naqueles anos. Nós inconscientemente suprimíamos as más notícias porque queríamos demais acreditar na mentira de Oslo.

‘Paz. Todos nós fomos pela paz. E quando fizemos isto, deixamos todos nossas credenciais jornalísticas na porta. A maioria de nós o fez. Posso lhe dar os nomes do punhado de jornalistas que desde o início do processo de Oslo atuaram como jornalistas e, lamentavelmente, não sou um deles.’

Mas ele não seria iludido de novo. Esta era a essência da mensagem de Dankner também. Nunca mais ele se deixaria persuadir a confiar nos palestinos.

Ele até confessou que esta sensação de total desilusão provavelmente contaminou a cobertura do conflito nesses últimos anos. ‘Eu não estava correto no que fiz em mal conduzir a população no processo de Oslo. Agora temos que retificá-lo’, disse Dankner. ‘Então é isto que estamos fazendo. E, talvez, como um pêndulo oscilando, você tenda a exagerar para o outro lado. O desapontamento foi tão sério, as esperanças quebradas tão dolorosas, que talvez tendemos a exagerar para o outro lado.’

E o Maariv, dos três jornais, melhor exemplificou o tipo de reação emocional ao terror. Foi o jornal que mais deu vazão aos sentimentos de ameaça, raiva e opressão. Será que Dankner acha que a forma pela qual o conflito foi coberto ajudou a pavimentar o caminho para o desligamento unilateral? ‘Com certeza’, respondeu. ‘Estivemos a favor dele desde o primeiro dia. Acho que ajudamos em preparar a opinião pública para isso.’

A genialidade de Sharon foi a de aparecer com um plano que a imprensa nunca poderia rejeitar. Um que não pedia à maioria dos israelenses para pensar diferentemente sobre o conflito. Que não lhes pedia para pensar diferente sobre os palestinos. Eles não precisavam aprender uma nova história, apenas continuar repetindo a mesma e antiga para eles mesmos. É por isto que foi tão popular, só uma extensão natural do que a maior parte dos israelenses já aceitavam, a desesperança em alcançar a paz.

******

Ex-diretor assistente da Columbia Journalism Review, publicada pela Graduate School of Journalism da Universidade de Columbia; está escrevendo um livro sobre o movimento para libertar os judeus da União Soviética durante a guerra fria, a ser publicado pela Houghton Mifflin

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem