Segunda-feira, 27 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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‘Deus não nos deu o dom da imparcialidade’

Por Márcio Tonetti e Thiago Campossano em 06/09/2005 na edição 345

O jornalista Ancelmo Gois, colunista de O Globo e comentarista da TVE, tem 40 anos de profissão e amplo currículo, do qual constam ‘furos’ de grande repercussão. Entre eles, a primeira nota sobre o escândalo PC Farias. Nesta entrevista por telefone, ele fala do peso do ‘jornalismo de notas’, fenômeno tipicamente brasileiro – ‘Essas notas viraram âncoras de leitura’, diz –, e condena o fato de que políticos sejam proprietários de meios de comunicação. ‘O sertão vai virar mar no dia em que o jornal do Sarney tiver o mínimo de independência em relação à atividade política do clã Sarney’, afirma. No sistema de rádio, dominado por políticos e igrejas, a ‘praga’ vai de norte a sul do país. ‘Isso distorce e contamina o jornalismo’.

Ancelmo Góis também ajuda a derrubar o mito da imparcialidade da imprensa. Para ele, a mídia não consegue ser imparcial por uma razão compreensível: ‘Deus não nos deu o dom da imparcialidade.’

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A divulgação do escândalo de corrupção no governo Lula se deve às investigações por parte da mídia ou já havia interesse da oposição em denunciar o esquema?

Ancelmo Gois – Com certeza a oposição não tem culpa no cartório. Eu acho que ela, como qualquer oposição que se preze, aproveitou a onda pra bater, matar e atirar no cara. Mas ela não é responsável pela maternidade dessa crise. Na verdade, a crise é produto das próprias contradições do governo e do PT. O governo é levado a fazer políticas de alianças que são, na minha opinião, legítimas, porque nenhum partido consegue aprovar mudanças importantes no Congresso sozinho. É preciso se aliar. E o PT também procurou criar sua base de sustentação no Congresso, só que essa construção foi muito mal feita. Foi feita com cimento de quinta qualidade. Essas contradições na base são, em parte, responsáveis pela crise.

Mas há contradições também dentro do próprio PT, que sempre foi um partido de muitas divisões. Então, a crise nasceu nesses esquemas de corrupção, após a divulgação do vídeo daquele dinheiro que era para o PTB num esquema de corrupção liderado pelo deputado Roberto Jefferson, que tentou, num primeiro momento, negociar com o governo. Depois ele achou que o governo não estava segurando ele. Que o governo não era amigo dele e resolveu botar a boca no trombone. Ou seja, o PSDB e o PFL são rigorosamente inocentes no detonar da crise. Não estou dizendo que, a partir daí, eles não se aproveitam o tempo todo tirando uma casquinha, mas isso é assim mesmo. É assim em qualquer lugar do mundo. Isso é normal. É até legítimo! Eu acho que o PSDB e o PFL, na verdade, fazem o que sempre fez qualquer oposição do mundo democrático. A crise nasceu nas entranhas do próprio partido e nas entranhas do próprio governo.

Em outubro de 2002 a CartaCapital já havia publicado uma ‘revelação’ do ex-deputado federal Valdemar Costa Neto, que mostrava os bastidores do acordo entre o PT e o PL durante a campanha do Lula. Por que o caso foi abafado e só agora veio à tona?

A. G. – É mais ou menos o seguinte: quando um governo surge como o de Lula – com a força e o respaldo de 53 milhões de votos e com índices de popularidade nunca vistos – nada cola contra o governo. É sempre assim. O Lula, como todo novo presidente, tem uma espécie de cheque especial, e daí, nada ‘derruba’. Eu atribuo, em grande parte, o não-desdobramento dessa matéria da CartaCapital a essa questão.

De que forma o jornalismo contribui para as investigações?

A. G. – Eu acho que a imprensa é parte envolvida da vida. Mas acho que ela não é imparcial. E não consegue ser imparcial por uma razão que creio ser compreensível: Deus não deu a nós jornalistas esse dom da imparcialidade. Com 40 anos de profissão vejo que, na verdade, o jornalista escreve sobre o que sente, gosta, torce etc. Você pode ter certeza: a imprensa não gosta do Maluf e qualquer coisa que sai contra ele é motivo de festa.

Por mais desejável que fosse a natureza produzir seres humanos imparciais, a realidade dos fatos e a realidade da minha vida ensinaram, a duras custas, que a imprensa trabalha com fatos e com emoções próprias dos jornais e dos leitores. Tenho para mim que a maioria dos jornalistas votou em Lula. Assim, os que hoje cobrem o colapso do governo do Lula são pessoas que, de alguma forma, também estão insatisfeitas, indignadas, descontentes. Então, essa cobertura está muito impregnada de emoção, e a emoção nem sempre é a melhor conselheira. Por quê? Porque a emoção faz muitas vezes o sangue subir, e então, você xinga a mãe de um, xinga a mãe de outro.

Tenho quase certeza que daqui a dois ou três anos, quando for analisado com mais distanciamento e mais frieza o comportamento da imprensa, vamos perceber que ela contou muitas histórias interessantes. E também fez coisas imbuídas de preconceitos e de emoções. A natureza da imprensa é muito mais imperfeita do que a gente sente. As pessoas não fazem isso por safadeza nem para ganhar dinheiro ou emprego. Elas fazem porque acabam se envolvendo, e ninguém no Brasil conseguirá se distanciar dessa crise. As pessoas são tragadas por ela. Por mais que o desejável fosse profissionalismo, isenção, ouvir sempre os dois lados e manter o equilíbrio, a natureza humana não é isso e os jornalistas não são diferentes.

Para alguns críticos, a imprensa estar forçando um pedido de impeachment de Lula. Você concorda com isso?

A. G. – Nessa confusão e nesse carnaval que virou a crise tem personagem para tudo. Gente que está pedindo e gente que não está pedindo. Mas eu acho que a maior parte da imprensa não quer o impeachment do Lula. O que parece é que eles desejam o Lula fraco até a eleição. Fraco no sentido de manter a pressão, mas até a eleição.

A Constituição de 1988 proíbe senadores e deputados de obterem concessões de TV e rádio. Mas não são poucos os políticos que têm concessão. O que você tem a dizer sobre a constante exposição do neto de Antônio Carlos Magalhães na mídia?

A. G. – Um dos piores defeitos da imprensa brasileira, e isto pode ser mais visível na Bahia, é a propriedade dos meios de comunicação. O maior empresário de comunicação da Bahia é o senador Antônio Carlos Magalhães. No Sergipe é o ex-governador Albano Franco. No estado de Alagoas é a família de Fernando Collor de Melo. No Rio Grande do Norte é a família do ex-ministro Aluízio Alves. No Maranhão é a família do ex-presidente Sarney. O ‘sertão vai virar mar’ no dia em que o jornal do Sarney tiver o mínimo de independência em relação à atividade política do clã Sarney. E isso é uma coisa horrível!

E no sistema de rádio essa praga vai de norte a sul do país. Grande parte do controle das emissoras de rádio no Brasil está nas mãos de evangélicos ou políticos. A política é quase uma religião e a religião é quase uma política. Isso distorce e contamina o jornalismo. Você vê que nessa CPI acontece algo que já tinha acontecido em outras: alguns poucos querem apurar e alguns muitos aparecer, ter seus 15 minutos de glória e, como o fato de a eleição ser no próximo ano todo mundo aparece ali na CPI querendo dizer o seguinte: ‘Meu querido eleitor, eu estou aqui trabalhando por você. Estou aqui indignado com essa sujeira…’ O Brasil virou um grande circo e a imprensa termina virando palanque. É um espetáculo cheio de palhaçadas e malabarismos. É como uma feira. Nessa feira você tem feirantes que estão com boa fé, e feirantes que estão ali pra empurrar uma fruta podre ao freguês. É um horror! Um horror!

O presidente do PTB, Roberto Jefferson também faz parte do grupo dos políticos corruptos, mas não tem passado uma imagem de ovelha à nação? A imprensa foi hipnotizada por esse político?

A. G. – Foi. O Roberto Jefferson foi flagrado mais uma vez fazendo coisa errada. A quantidade de provas contra ele é um absurdo. E o que é que ele fez? Tentou conseguir sua indulgência e a absolvição entregando os outros. É a chamada delação premiada. Por mais que ele seja um homem que tem prontuário, ele era o presidente de um partido da base do governo. Um partido que tem representação expressiva no Congresso. Se num momento a imprensa deu muita bola para ele, é preciso reconhecer que praticamente tudo foi confirmado.

O fato do presidente recorrer à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e esta lhe oferecer ajuda em meio à crise não é uma ameaça à Constituição, já que estamos num país laico?

A. G. – Eu acho que não. O país é laico, e é bom que seja laico, mas não vejo as manifestações políticas da CNBB como uma interferência errada. A CNBB, como qualquer outra área da fé, tem todo o direito de se pronunciar, opinar, criticar, elogiar. Acho bom os padres, os pastores falem, os bispos falarem. Enquanto ficarem falando, não tem nenhum problema.

Você é exemplo de como uma nota de jornal pode desencadear uma série de investigações e levar a um impeachment. Qual a importância do jornalismo de notas? Ele pode ser considerado um jornalismo sério?

A. G. – O jornalismo de notas é um jornalismo que está no meio de um grande debate. E o debate não é muito novo não. Por quê? Porque na verdade o Brasil talvez seja o único país de porte econômico razoável que pratica essa espécie de jornalismo de notas. Se você reparar bem na imprensa da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá, as colunas não são de notas, são de idéias. No Brasil, esse ‘colunismo’ de notas ganhou muita força, em grande parte porque tem muita leitura. Essas notas viraram âncoras de leitura. São muito apreciadas.

Em alguns casos, o índice de leitura dessas colunas só perde para a primeira página do jornal. Então, elas são um sucesso. Os jornais têm colunas de notas pra todos os gostos, enfoques e classes. E como elas são instrumentos de grande leitura, uma notinha tem grande repercussão. São instrumentos de pautas permanentes nos jornais. No meu caso, quando publiquei a primeira nota no Informe JB sobre PC Farias e o escândalo que envolvia o ex-presidente Fernando Collor, ela teve enorme repercussão, pois gerou matérias logo no dia seguinte.

Você recebeu alguma ameaça a partir daquela publicação?

A. G. – Não, não houve ameaça. Recebi alguns xingamentos de pessoas ligadas ao Collor, mas nada que afetasse a minha vida e a minha integridade física.

Se o presidente fechasse o Congresso hoje com o intuito de convocar novas eleições e cassar o mandato dos deputados denunciados, do ponto de vista da liberdade de expressão, como isso seria visto pelo olhar da imprensa?

A. G. – Com certeza a imprensa iria espernear. Na minha opinião, o que deve acontecer no Brasil, hoje, não é nada. Não é normal num país que reconquistou a democracia há 20 anos ter duas interrupções do processo democrático, como no caso de Fernando Collor, e uma eventual agora com Lula. Isso não é normal! Se você esquartejar o mandato do Lula vai achar uma tremenda violência. Por mais que as pessoas mais jovens queiram soluções rápidas, nós, em nome de uma sociedade democrática estável, não devemos fazer nada. Quem cumpre seu trabalho é a CPI, a Polícia Federal, o Ministério Público e a imprensa. Sinceramente, o Congresso está com o prestígio lá embaixo, na lama mesmo, mas fechá-lo seria ainda pior.

A imprensa não tem memória curta? O fato de o secretário relator da CPI ser Ibrahim Abi-Ackel, envolvido em contrabando de pedras preciosas há 25 anos, não desmoraliza a comissão e a própria imprensa que não resgata essa memória?

A. G. – Tem razão. O Brasil tem memória curta. O Brasil é campeão em repetir erros por falta de memória. A imprensa até fez umas matérias na época, mas o problema é mais grave. O país é que é assim. As coisas passam e num instante as pessoas esquecem.

E qual a solução?

A. G. – Com o passar dos anos fico mais tolerante com essas coisas. O Brasil é um país relativamente jovem, de 505 anos. Se você compara o Brasil à Europa quando tinham essa idade, vai ver que eles também tinham problemas sérios. Mas daí, você diz: ‘Os Estados Unidos são tão jovens quanto o Brasil’. Mas, ao contrário do Brasil, eles receberam uma influência das tradições democráticas da Europa muito mais forte do que a gente. Eles se beneficiaram muito da importação de pessoas. Absorveram a Europa antiga mais do que a gente, e isso foi para o bem e para o mal. Mesmo assim, eles têm registrado na história muitos crimes de governo. Então, eu acredito, quero e fico torcendo que o Brasil melhore.

Só que é um processo mais lento. Você não pode medir o tempo de um país como se mede o tempo de uma pessoa. Uma pessoa com 100 anos está bem velhinha e um país ainda está moço. Eu não sei se o que estou dizendo é bobagem, mas é um sentimento de esperança que é muito forte em mim. Eu acho que a gente tem que aprender errando. Nesses 505 anos, o Brasil não viveu nem 100 anos de democracia representativa com eleições periódicas. É muito pouco tempo! Creio que devemos ter paciência. O Brasil tem esse desempenho escandaloso de ser um dos piores países do planeta em matéria de distribuição de renda. Por mais que seja duro viver com a roubalheira, com a sacanagem, sabendo que o cara está roubando dinheiro que poderia ser utilizado para minorar a situação do povo. Ainda assim, temos que investir na democracia. O ser humano é muito inteligente, mas só foi capaz de criar dois regimes, então, vejo que na democracia só tem uma alternativa, é ela ou a ditadura.

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Alunos do curso de Jornalismo do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp)

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