Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > CERVEJA & HIPOCRISIA

Devassa na boca do professor de ética

Por Paulo Ghiraldelli Jr. em 16/03/2010 na edição 581

Felizmente, os professores de ética atuais não são os filósofos éticos gregos que, com seu comportamento, faziam a filosofia se espraiar e criavam discípulos. Caso fossem, correríamos o risco de ver não só um grupo de estudantes de Filosofia saindo às ruas contra a cerveja, mas, talvez, todo um partido de militantes dessa nova postura ascética. Então, uma boa parte da indústria de bebidas entraria em colapso, causando desemprego.

Esses estudantes seriam os discípulos do professor de ética Renato Janine Ribeiro. Para comentar a proibição da propaganda da cerveja Devassa, ele iniciou fazendo profissão de fé na sua aptidão para o gosto sofisticado quanto à bebida e ao sexo (ver ‘A devassa da devassa‘). Poderia ter iniciado seu texto falando da proibição, mas não, ele precisou, antes, falar de como perdeu o gosto, de uma vez, pela cerveja Devassa quando a viu associada ao nome de uma atriz pornô. Cito a passagem que, confesso, achei hilária:

‘Provei a cerveja Devassa num dia no aeroporto. Mas, quando vi na TV sua propaganda com uma norte-americana rica que deve a fama a um vídeo pornô que circulou na internet, achei de mau gosto e perdi a simpatia pela bebida. Ponto. Agora, quando o Conar retirou a propaganda do ar, vale a pena discutir um pouco o assunto’ (Folha de S.Paulo, 07/03/2010).

Muito sexo e pouco erotismo

Qual o objetivo de, em um texto sobre a censura, antes de tudo se colocar como alguém que está acima de Paris Hilton e de cervejas que podem estar ligadas, nas propagandas, a mulheres? E será que a forma com que Janine Ribeiro falou do assunto ‘vale a pena discutir um pouco o assunto’?

O texto do professor de ética segue, então, de maneira ziguezagueante: usa vários parágrafos para titubear e, ao fim, não conseguir condenar o que foi, claramente, um ato de censura. Envolve discussões não cabíveis sobre ‘mulher objeto’ (a essa altura do campeonato?) e suas relações com a ‘sensibilidade’ do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, órgão privado). Fala, fala e não diz nada.

Pode ser que Renato Janine Ribeiro ainda esteja traumatizado por conta das reações a seus últimos artigos. Um deles, em que deixou escapar um possível gosto (nada sofisticado, diga-se de passagem) pela pena de morte, lhe deu boa dor de cabeça. Teve de enfrentar um Jô Soares que, como um professor mais velho, puxou sua orelha dizendo ‘o que se passou nessa sua cabecinha, Renato?’. Isso sem contar os artigos anteriores, de defesa envergonhada do governo mensaleiro, quando ele ainda era membro da Capes. Pode-se lembrar, também, o artigo sobre a garota hostilizada na Uniban em que ele, de modo muito estranho, poupou a escola em um momento em que todos apontavam para o descaso para com o ensino em uma universidade como aquela. Sim, tudo isso pode ter deixado o professor de ética sem jeito.

Todavia, lá pelo final do artigo, Janine Ribeiro parece encontrar o eixo: ele faria, sim, uma objeção à propaganda: ela ligaria sexo e bebida de um modo a não fomentar a imaginação, uma vez que seria uma propaganda sem erotismo. Ah, então aí começamos a entender a razão de Janine ter começado retratando o seu próprio gosto sofisticado. Ele é adepto do erotismo e, em nossa sociedade, há muito sexo e pouco erotismo. Ou seja, há uma perda da imaginação.

Voyeurismo em cenas belíssimas

Ora, dito assim, eu endossaria a afirmação de Janine. A geração dele, mais que a minha até, foi leitora de Herbert Marcuse. Talvez não ele, que não vem da tradição frankfurtiana da qual eu venho, mas como jovem dos anos 1960 ele sem dúvida soube bem absorver a crítica da época: vivemos uma civilização que, para ser civilização, cortou os pulsos de Eros. Tenho dito isso até hoje. Quanto mais há a venda de Viagra e quanto mais precisamos de propaganda para consumo de pornografia, mais isso denota que estamos apáticos, que não nos erotizamos mais, que nos deixamos sucumbir pelos ditames da ‘sociedade do trabalho’ (Karl Marx), da ‘sociedade administrada’ (Theodor Adorno) ou coisa parecida. Sim, mas será que é isso que Janine quis dizer?

Penso que há em Janine, na verdade, menos sofisticação do que ele quer fazer parecer e, talvez, um rabicó de puritanismo. Convido o leitor para concordar ou discordar de mim. Vejamos, vamos ao que nos interessa: a propaganda.

Quem viu a propaganda da Devassa pode simplesmente dizer: foi a propaganda menos apelativa ao sexo que já vi em relação a bebidas. Foi, sem sombra de dúvidas, na comparação com outras, em que partes sexuais da mulher são enfatizadas (principalmente as nádegas), uma propaganda que mostra o voyeurismo do fotógrafo em cenas belíssimas. Nada de ‘devassidão’. Muito menos de pornografia. A propaganda é um elogio ao trabalho fotográfico do erotismo de algo nível.

Guerra econômica por mercado

Renato Janine Ribeiro ou não viu a propaganda, o que é gravíssimo para um professor que escreve comentando sobre ela, ou simplesmente viu e, por conta de algum drama psicológico, não conseguiu fazer a distinção entre o erótico e o pornográfico, entre o que faz a imaginação andar e o que faz a imaginação parar.

O que faz a imaginação andar na literatura expressa em livros é uma coisa. As possibilidades da TV são outras. Quando criticamos a TV por ela não provocar a imaginação que o livro pode fomentar, cometemos uma injustiça, além da burrice implícita na comparação. A TV é imagem e som, e de modo rápido. Fazer TV imaginativa implica reconhecer os limites e as possibilidades desse meio por ele mesmo, e não em comparação a outros.

O publicitário da Devassa acertou a mão. A propaganda é boa e nada tem de ofensiva – não há nem mesmo cena de nudez ou qualquer gesticulação pornográfica. Assim, talvez tenhamos de ir menos pelo saber superficial de lições de ética e mais pelo conhecimento filosófico amplo. Um filósofo deveria antes desconfiar de algo que é um segredo de Polichinelo: o Conar não cedeu a qualquer imperativo ético novo ou velho; ele certamente se viu no interior da guerra econômica por mercado – e isso, sim, foi a devassidão que caiu sobre a Devassa. O resto é frescura – infelizmente, frescura que não vem do sabor da Devassa ou de qualquer outra cerveja.

Bem, abram uma cerveja, brindem a Epicuro e esqueçam falsas lições de ética!

******

Filósofo, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/03/2010 Sergio Luiz Fernandes

    Ghiraldelli, uma correção: a Paris Hilton não é uma “atriz pornô”. O “vídeo pornô” a que o Renato Janine se refere é “caseiro”. Não é uma produção cinematográfica (com roteiro, cenógrafos, atores, diretor etc.), mas uma filmagem feita por um ex-namorado da socialite. Não é uma personagem interpretada pela Paris Hilton que aparece transando, mas ela própria. Também não é um documentário. Se foi divulgado com a autorização dela ou não, são outros quinhentos. Quanto ao conteúdo do artigo, concordo plenamente com sua análise.

  2. Comentou em 22/03/2010 Sergio Luiz Fernandes

    Ghiraldelli, uma correção: a Paris Hilton não é uma “atriz pornô”. O “vídeo pornô” a que o Renato Janine se refere é “caseiro”. Não é uma produção cinematográfica (com roteiro, cenógrafos, atores, diretor etc.), mas uma filmagem feita por um ex-namorado da socialite. Não é uma personagem interpretada pela Paris Hilton que aparece transando, mas ela própria. Também não é um documentário. Se foi divulgado com a autorização dela ou não, são outros quinhentos. Quanto ao conteúdo do artigo, concordo plenamente com sua análise.

  3. Comentou em 20/03/2010 Silvio Miguel Gomes

    Uma pessoa doente como Paril Hilton não poderia estar sendo usada para fazer propaganda de bebidas alcoólicas. O mesmo para o o nosso Zeca Pagodinho. Acho estranho usarem o argumento sobre ‘desemprego’. Cheira a chantagem.

  4. Comentou em 18/03/2010 Wallace Lima

    O autor desse artigo é filósofo mesmo?! De que botequim? Ele tem alguma obra publicada, alguma tese, algum tratado? Ele é filósofo ou é graduado em filosofia? Mesmo que ele tenha mestrado em filosofia, ou doutorado, coisa que eu duvido, entre isso e ser um filósofo, vai uma distância daqui ao Japão! Sério, senhor… (como é mesmo que ele se chama? Esqueci, mas não importa) é sério, se eu tivesse lido apenas um livro modesto que tenho aqui na minha estante, de introdução à filosofia, não li muitas obras, muitos autores nessa área, mas se eu tivesse lido só esse livrinho de introdução, já seria suficiente para desconfiar muito de sua idoneidade. Não tem nenhum pudor de se dizer um filósofo e mostrar-se uma pessoa assim tão… na moda?! Tão de acordo com tudo o que aí está? Epicurista, hedonista, pós-modernista confesso, politicamente incorreto? Eu também juro que não entendi de que ‘capeonato’ o ‘filósofo’ está falando! Este país está precisando de decência, de muita decência, caro ‘filósofo’! Quem dera que todo país tivesse filósofos de ética do nível de Renato Janine Ribeiro! Li o artigo dele e não existe nenhum trecho que denote puritanismo, não vi nada disso no artigo. Se você fosse um rebelde do nível de Fernando Gabeira ou de José Celso, me animaria a brindar vários copos de cerveja com você, mas não a Epicuro, brindaria a Nietzsche. Espero que você saiba quem é.

  5. Comentou em 16/03/2010 Marcelo Ramos

    Senhor Ghiraldeli, complementando meu outro post, diria que o senhor analisou o texto do Janine sob o ponto de vista errado. O Janine não analisou o comercial do ponto de vista da ética, mas de uma pessoa comum. Por isso ele fala como uma pessoa comum. Parece que, aqui também, o senhor não percebeu uma informação importante.

  6. Comentou em 16/03/2010 Marcelo Ramos

    Prezada Fabiana Tambellini, a meu ver, sua percepção é totalmente correta. Foi uma ‘censura’ planejada. Apesar de ser uma estratégia fraca (na minha opinião) ela ainda funciona, porque mexe com áreas ainda não totalmente compreendidas pelas pessoas. Da mesma forma que muitas pessoas ainda compram produtos baseadas no apetite appeal (apelo ao apetite), cenas de close em hambúrgueres suculentos, pedaços de tomate e cebola, ou mesmo closes em cerveja caindo no copo (essa última realmente mexe comigo). A maioria das pessoas ainda é insconsciente de suas próprias reações. E é aqui que entra o sex appeal. Tudo isso ainda funciona porque é como se se apertasse um botão na cabeça das pessoas. Sobre o texto, o filósofo Ghiraldeli realmente ‘caiu’. Não percebeu que a censura foi planejada. Ele mesmo demonstra isso ao dizer que ‘Quem viu a propaganda da Devassa pode simplesmente dizer: foi a propaganda menos apelativa ao sexo que já vi em relação a bebidas’. Prezado Ghiraldeli, o artigo teria sido ótimo se você analisasse a relação estranha entre o Conar e a agência que fez a propaganda. O Conar ‘atendeu aos pedidos’ da agência para censurar.

  7. Comentou em 16/03/2010 Fabiana Tambellini

    Minha opinião (sei que dificilmente alguém vai concordar): os publicitários armaram uma estratégia de lançamento da Devassa que incluia essa ‘polêmica’ absoultamente artificial. Os publicitários colocaram jornalistas, sociólogos e filósofos no bolso, instrumentalizaram esse debate para vender cerveja. Seria interessante pesquisar ‘quem’ entrou no CONAR contra o comercial, porque não foi só a Secretaria de Direitos da Mulheres, parece que chegaram muitas soclicitações… Juro, a maneira como tudo aconteceu, as entrelinhas me levam a crer que a mídia caiu como um patinho na armadilha publicitária.

  8. Comentou em 15/03/2008 judite aparedia de melo melo

    Gostaria de saber como faço pra ler o diario ofical do dia 11/10/2006.
    por favor me ajudem…
    abraços
    judite melo

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