Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > 11 DE SETEMBRO, 10 ANOS

Dez anos depois, outra vítima

Por Alberto Dines em 12/09/2011 na edição 658

Inacreditável: para os semanários Veja e Época o assalto aos cofres do Banco Itaú e o estado de saúde do jogador Sócrates foram mais importantes do que o 10º aniversário da catástrofe que marcou o efetivo começo do século 21, em 11 de Setembro de 2011.

Vejanão brinca em serviço: embargou o assunto drasticamente – nem uma linha. Época ainda fingiu e ofereceu uma réplica de jornalismo ao entrevistar o ilustre desconhecido James Rubin, um dos porta-vozes do Departamento de Estado na Era Clinton e cujo mérito maior consiste em ser marido da “renomada” jornalista da CNN, Christiane Amanpour. No verso das banalidades, um texto do chatíssimo militante Christopher Hitchens, colaborador quinzenal.

CartaCapitalfoi ao ponto com sua matéria de capa: “Bin Laden venceu”. Seus poderosos concorrentes passaram ao largo do funesto evento porque não querem reconhecer que as derrotas militares no Iraque, Afeganistão e a débâcle financeira americana são heranças de George W. Bush, agora reencarnadas no Tea Party.

Para quê?

A ostensiva omissão dos semanários nacionais diante de uma efemeridade desta magnitude confronta os “especiais” dos três jornalões, os editoriais do Globo e da Folha, a caprichada e extensa cobertura da GloboNews e até mesmo a atenção que o Jornal Nacional deu ao assunto.

Não se trata de tropeço, descuido, foi opção, opção ideológica, que o editorial da Folha involuntariamente desvenda quanto tenta minimizar a importância do massacre e as mudanças que produziu no curso da história.

Ao proclamar as excelsas virtudes do capitalismo para solapar o fundamentalismo islâmico, os editorialistas da Folha olham para o lado e procuram esquecer a crescente crise econômica mundial e a volatilidade político-social que está produzindo em todos os quadrantes, inclusive no mundo islâmico.

Os semanários resignaram-se, reconhecem a sua desimportância, não fazem questão de participar do processo de fazer história. Mais um caso de suicídio coletivo e desperdício de oportunidades. Mas cabe uma pergunta pragmática: se Veja envergonha-se e sequer lembra o seu extraordinário desempenho na edição que foi às bancas em 15-16 de Setembro de 2001,para que servirão as fantásticas rotativas Cerruti que acaba de inaugurar? Para imprimir embalagens de tablets?

A nova vítima

A ausência maior – e nisso toda veiculação se iguala –relaciona-se com o debate sobre mídia e terrorismo. Evaporaram as discussões sobre as novas tecnologias, tão presentes na agenda contemporânea. As redes sociais, sempre apresentadas como solução para todos os males e vibrantes alternativas ao jornalismo tradicional, de repente sumiram da pauta.

Não existiam em 2001, mas a ferramenta precursora, o telefone celular, foi o herói da cobertura do 11-S. Com o seu celular a jornalista da CNN Barbara Olson avisou o marido que o seu avião foi seqüestrado e despencava – o único desviado do alvo.

Barbara Olson foi jornalista até o minuto final. Merece ser lembrada no balanço desta Década Infame junto com nova vítima acrescentada ao rol de 2.996 mortos. Ainda não é fatal, está sendo sangrada, definha em estado vegetativo, merece um réquiem antecipado – a garra jornalística.

 

Em tempo: A publicação antecipada da matéria sobre o 11-S por Veja e Época (no fim de semana 3-4 de setembro) não desculpa nem justifica a ausência dos dois semanários na data precisa em que ocorreram os atentados. Se a funesta efeméride ocorresse no meio da semana a antecipação de alguns dias seria lógica, inevitável. Subverter uma data histórica só para “furar a concorrência” é deplorável.

Abandonar o leitor sem qualquer referência no dia exato em que buscará a informação é um modelo de negócio antijornalístico, meramente comercial. (A.D.)

***

Anotações de um observador atônito

A.D. # Observatório da Imprensa, edição 139, 19/9/2001

** A mídia não era o alvo. Era o objetivo. Precisava ser acionada e explorada ao máximo. Para magnificar. O terror funciona para aterrorizar e sem divulgação não há terror. Matar é secundário, o terrorista precisa intimidar. Pela irradiação do medo obtém efeito maior: mata a capacidade de reação da sociedade. Os dezoito minutos de diferença entre os choques nas duas torres do WTC indicam que os terroristas contavam com a agilidade da mídia americana para flagrar em toda a extensão o segundo abalroamento e os dois desabamentos. Foram recompensados.

** A mídia americana foi posta à prova. Saiu-se brilhantemente: reagiu com incrível velocidade, derrubou os constrangimentos empresariais relativos a custos e receitas, esqueceu o show business. Mostrou o que precisava ser mostrado. Cumpriu a sua missão. O fato de não transmitir imagens de gente esfacelando-se ou esfacelada no chão não significa que tenha adotado a autocensura. No Brasil, os que reclamaram contra este respeito à sensibilidade e este senso de responsabilidade foram sobretudo aqueles que defenderam o embargo total na cobertura de um recente seqüestro. Se o Prêmio Pulitzer deste ano puder ser concedido a uma instituição certamente quem o merece é o jornalismo americano.

** Inclusive pelo seu pronto e instintivo espírito crítico. Já na quinta-feira (13/9), os grandes jornais americanos estavam comentando o desempenho da mídia, sobretudo a eletrônica. Sem tabus ou corporativismos.

** Barbara Olson, apresentadora da CNN (passageira do único avião que não acertou o alvo), conseguiu ligar pelo celular para o marido, Ted Olson, do Ministério Público Federal. Outros o fizeram no mesmo vôo certamente para enfrentar os terroristas. Barbara encarna a bravura profissional do repórter, atento até o último segundo.

** O certo, porém, seria falar em mídia nova-iorquina, porque o modelo do jornalismo americano foi produzido e continua sendo alimentado na ilha de Manhattan. A CNN está em Atlanta, o Washington Post é baseado na capital, em Chicago sempre fez-se muito bom jornalismo; mas Nova York mistura o jornalismo de rua com o jornalismo de idéias, usina dos paradigmas formais, morais, técnicos, conteudísticos e humanos da imprensa americana e vigentes ao longo dos últimos 100 anos. Lá estão sediadas as duas melhores escolas de jornalismo do país e certamente do mundo; lá vivem correspondentes de todos os quadrantes, razão do seu cosmopolitismo. Na exígua ilha do rio Hudson, os jornalistas aprendem a exercitar o seu espírito público e missioneiro.

** Mas Nova York também é a matriz do jornalismo yuppie, central da mídia fashion, capital mundial das Relações Públicas e dos lobbies. Este “estilo Armani” exterior, cosmético, superficial e que tanto impregna a mídia brasileira foi soterrado na terça-feira, 11 de setembro de 2001. Não há leviandade e mundanidade que resista ao horror do que aconteceu naquele dia e ainda vai acontecer nas próximas semanas ou meses quando forem desenterrados os corpos, enterrados seus restos, encarada a extensão dos escombros e contadas todas as histórias. A noção de ter escapado da carnificina vai mexer profundamente com a alma nova-iorquina por mais forte que seja a inclinação consumista sua mídia não poderá deixar de refletir a dorida metamorfose.

** Jornalistas brasileiros começam a criticar a mídia americana porque estaria incentivando o furor vindicativo contra os mandantes do genocídio. Jornalistas brasileiros, em geral, não sabem fazer contas: são mais de cinco mil vítimas, no mínimo dez mil famílias chorando seus mortos e, considerando cinco pessoas por família, 50 mil pessoas diretamente atingidas pela tragédia. Sem contar amigos, parceiros, vizinhos, famílias afins e ex-cônjuges. É um universo de 100 mil pessoas numa cidade cuja imprensa costuma refletir diretamente aquilo que seus leitores sentem. Seria possível neste exato momento clamar por outra coisa que não a punição?

** Grande parte da nossa mídia está esquecendo que este foi também o maior ataque terrorista contra cidadãos brasileiros. Os cerca de 20 patrícios que se encontram desaparecidos não foram vítimas de uma catástrofe natural. Foram massacrados num ato político, premeditado friamente para causar o maior número de vítimas. Acostumada a chacinas confinadas em notícias curtas e perdidas, a mídia brasileira está tratando os conterrâneos desaparecidos com espantosa frieza. Não são nossos, preferiram os states, fazem parte do vilão americano. Tsk, tsk, tsk pêsames, a culpa é do neoliberalismo e da globalização.

** Nas edições de ontem [domingo, 16] e de hoje, segunda-feira [17/9], já se percebem os contornos da incapacidade de perseverar que parece dominar nossas redações: os editores se cansaram de tragédias. Com apenas 200 corpos resgatados dos cinco mil desaparecidos, já não querem saber do que se passou no World Trade Center de Nova York. Querem outra coisa, mais quente. A retaliação, o charme da guerra com seus fabulosos artefatos, os fascinantes lances que envolvem o terrorismo internacional atraem mais do que esta lenta tragédia condenada a estender-se ainda por tanto tempo. Jornalista brasileiro é mais novidadeiro do que os colegas de outros países? Ou foi educado para driblar o sofrimento com a panfletagem política?

** A banalização não resulta da repetição mas de uma vocação ou condicionamento para surtos, espasmos e intermitências. A descontinuidade e não a reiteração competente é que torna o nosso jornalismo tão trivial e descartável.

** Veja dedicou 90% do seu espaço para a cobertura dos atentados. Parabéns. Terá estofo para repetir a dose na próxima semana? Três dos quatro jornalões nacionais colocaram a cobertura dos atentados e seus desdobramentos em cadernos especiais. Meritório. Quanto tempo aguentarão? Pouco: as editorias internacionais já começam a bater pino. Há muito tempo que estão espremidas em nesgas, subdimensionadas, sem apoio de correspondentes internacionais experimentados e com pessoal de retaguarda jovem, sem o devido treino. Há uma década importaram-se “consultores” de Miami e Navarra para desfigurar veículos tradicionalmente comprometidos com a cobertura internacional. O mundo sumiu dos nossos jornais e revistas justamente no auge da mundialização. Agora, a ferro e fogo, o mundo irrompe em nossas vidas e só sabemos reagir mandando buscar os cientistas sociais da esquina mais próxima para ouvir os seus palpites. Em lugar do jornalismo declaratório estamos desenvolvendo o jornalismo achista.

** Prova: nestes últimos dias um cientista político enviou aos principais veículos um curriculum-vitae oferecendo-se para dar entrevistas e depoimentos. É o verbo pautar na forma reflexiva. Colou: um de nossos semanários sapecou a entrevista nas páginas de abertura.

** Vitimado pela pressão das entrevistas-relâmpago, sem tempo para pensar e preparar-se, o economista Celso Furtado, professor emérito da Sorbonne, um dos ícones da esquerda moderada, acabou dizendo uma sucessão de tolices numa entrevista para a Folha de S.Paulo (sexta, 14/9, Especial, pág. 18). Levou um homérico cacete de um dos colunistas do mesmo jornal (domingo, pág. A-10). Merecia dois: pela incapacidade de resguardar sua dignidade e pelo infantilismo do que disse.

** O mundo mudou bruscamente, não importa se é o século, milênio ou apenas uma nova era que começou. Importa saber se a mídia especialmente a nossa mídia tem condições de acompanhar esta mudança. Está ela intelectualmente preparada para escapar do esquizofrênico pêndulo futilidade-indignação? O fundamentalismo caiu do céu num Boeing seqüestrado ou vem sendo gestado silenciosamente através do jornalismo de chavões e de palavras de ordem? A questão pode estar contida em duas perguntinhas muito mais simples: o fotógrafo Sebastião Salgado vai incluir Nova York no seu périplo sobre a miséria humana? Ou o sofrimento de americanos está barrado do rol das dores do mundo?

 

Leia também

A mídia como campo de batalha – Alberto Dines (26/9/2001)

A volta da “cascata” / Uma cobertura para não esquecer – Alberto Dines (3/10/2001)

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