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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > AINDA O 11/9

Distorções graves no relatório final

Por Marcelo Csettkey e Marcelo Gil em 10/08/2004 na edição 289

A comissão bipartidária que investigava os ataques de 11 de setembro de 2001 divulgou seu relatório final, com 585 páginas, no dia 22 de julho de 2004. Presidida pelo ex-governador de Nova Jersey, o republicano Thomas Kean, nomeado pelo presidente Bush, apresenta vários pontos confusos e contraditórios. Nas páginas 275 e 276, porém, pode-se detectar uma grave distorção, que muda todo o sentido de um fato decisivo ocorrido antes de 11 de setembro.

O caso grave de distorção da verdade envolve a agente especial e supervisora jurídica Coleen Rowley, do FBI, chefe do escritório de Mineápolis, Minnesota. A escola de pilotagem Pan Am, em Eagan/Minnesota, pediu investigação de Zacarias Moussaoui. Ele foi considerado suspeito pelos instrutores porque queria voar um jato apenas em altitude de cruzeiro, não se interessava em aprender a decolar nem pousar. Foi preso no dia 15 de agosto de 2001 por estar com seu visto de permanência vencido.

Coleen Rowley interrogou Zacarias e este revelou sua intenção de lançar um avião comercial seqüestrado contra o World Trade Center. Em sua busca aos arquivos do FBI, Rowley descobriu quem era Moussaoui. Cidadão francês de origem marroquina, era um terrorista conhecido. Já havia participado de diversos atentados e foi treinado pela al-Qaeda no Afeganistão. O serviço secreto da França já havia transmitido essas informações à inteligência americana antes de 11 de setembro de 2001. Com base nessas informações e na confissão de Moussaoui, a agente pediu aos seus superiores, do setor antiterror em Washington, um mandado de busca aos pertences e ao computador de Zacarias. Se a busca fosse realizada certamente esclareceria os planos de ataque da al-Qaeda, pois hoje se sabe que muitas dessas informações estavam no computador de Zacarias. Mas seus memorandos foram ignorados e seus pedidos, negados.

Como conseqüência do descontentamento a respeito de algumas declarações do diretor do FBI Robert Mueller à imprensa, e aos senadores da comissão de investigação em curso em 2002, Coleen Rowley redigiu documento no qual afirmava que já obtivera informações de Zacarias antes dos atentados. Uma cópia desse documento foi entregue por ela, pessoalmente, a dois integrantes do Comitê de Inteligência do Senado americano; que foi publicado pela revista Time em 3 de junho de 2002, sob o título ‘The Bombshell Memo’. No entanto, o relatório final afirma que o FBI só recebeu as informações sobre Zacarias depois de 11 de setembro, fornecidas pelo escritório do FBI em Londres.

História bem diferente

Esta é uma afirmação que não corresponde a verdade, e é feita pelos senadores que disseram ter lido 2,5 milhões de páginas de documentos. Certamente ‘The Bombshell Memo’ estava entre eles. No relatório estão contidos os seguintes trechos

Página 275

‘Havia um substancial desacordo entre os agentes de Mineápolis e da sede central do FBI, sobre o que Moussaoui estava planejando fazer. Em conversa entre o supervisor de Mineápolis e os agentes da sede central do FBI, os últimos reclamaram que o pedido de Mineápolis para o mandado de busca e apreensão estava redigido de forma a colocar o pessoal ‘em alerta’. O supervisor argumentou que era essa precisamente sua intenção. Ele disse que estava ‘tentando evitar que alguém tomasse um avião e o arremessasse contra o World Trade Center’. O agente da sede central do FBI respondeu que isso não iria acontecer, e que eles não tinham conhecimento de que Moussaoui fosse um terrorista’.

‘Em 11 de setembro, após os ataques, o escritório do FBI em Londres renovou os apelos para obter informações a respeito de Moussaoui. Em resposta ao pedido o governo britânico informou aos americanos alguns dados biográficos sobre Moussaoui, que imediatamente coletaram informes a respeito de Moussaoui. Em 13 de setembro, o governo britânico recebeu novas e importantes informações de que Moussaoui teria sido treinado num campo da al-Qaeda no Afeganistão. Isso foi transmitido à inteligência americana no mesmo dia. Se essa informação tivesse sido conhecida na última parte de agosto de 2001, o caso Moussaoui certamente teria recebido um nível maior de atenção’.

Página 276

‘Como foi observado acima, antes de 11 de setembro, os agentes do FBI em Mineápolis falharam em persuadir os supervisores da sede central do FBI de que existiam evidências suficientemente fortes para conseguir o mandado de busca e apreensão no computador de Moussaoui e seus pertences. Dessa maneira a informação britânica teria quebrado o sistema’.

The bombshell memo

Memorando elaborado pela agente Coleen Rowley, supervisora jurídica e chefe do escritório do FBI em Mineápolis, endereçado ao diretor do FBI Robert Muller, publicado na revista Time de 3 de junho de 2002:

‘Como os agentes de Mineápolis tiveram suspeitas bastante razoáveis e rapidamente entenderam que havia uma ‘causa provável’, que pelo menos ocorreria dentro do período da prisão de Moussaoui, quando a inteligência francesa confirmou sua filiação ao radical grupo islâmico fundamentalista e suas atividades conectadas a Osama bin Laden. Eles ficaram desesperados para conseguir o mandado, que lhes permitiria investigar o computador de Moussaoui, como também buscaram saber dos detalhes de sua conduta. Os agentes de Mineápolis acreditavam que Moussaoui tinha alguma coisa a esconder pela forma como ele se recusava a permitir uma busca em seu computador’.

‘Fato é que os elementos-chave da central do FBI, cujo trabalho seria coordenar os agentes de campo nas investigações sobre terrorismo e dar apoio para obter e usar o mandado de busca (e que, teoricamente, tinham muito mais fontes de informação de inteligência que os agentes da divisão de campo) continuaram a, quase inexplicavelmente, jogar fora as pistas apresentadas e minimizavam o trabalho dos agentes de Mineápolis, que estavam empreendendo um esforço desesperado para obter o mandado, muito depois de a inteligência francesa ter dado essa informação e a causa provável se tornar clara. Os supervisores da sede central do FBI elaboravam perguntas quase ridículas, num esforço aparente de minimizar a causa provável. Em suas conversas e correspondências, os supervisores da sede central nunca informaram aos agentes de Mineápolis que a divisão de Phoenix, aproximadamente três semanas antes, tinha avisado que operadores da al-Qaeda estariam em escolas de vôo procurando obter treinamento para propósitos terroristas!’

‘A sede central do FBI também não fez alguma coisa para informar a respeito de Moussaoui a outros canais de inteligência e autoridades do poder judiciário. Quando, num esforço desesperado para ultrapassar as barreiras impostas pela sede central do FBI, a divisão de Mineápolis tomou a iniciativa de notificar diretamente a divisão de contra-terrorismo da CIA, os supervisores da sede central passaram a zombar dos agentes de Mineápolis, por fazerem notificação direta à CIA sem a aprovação do FBI!’.

Como se vê, o relatório final sobre o 11/9 narra uma história bem diferente daquela que a agente Coleen Rowley de Mineápolis afirmou sobre sua investigação a respeito do terrorista Zacarias Moussaoui, publicada na Time. A mudança grave ocorre quando o relatório indica que as informações sobre Zacarias só chegaram de Londres depois do atentado, alegando que por esse motivo o FBI não agiu. Fato bem diferente da afirmação de Coleen Rowley, indicando que estas informações já existiam, e foram enviadas pela inteligência francesa antes de 11 de setembro.

Falhas de comunicação

Também é clara a comunicação constante entre CIA e FBI. A agente não cita a inteligência britânica em nenhum momento como decisiva, no envio de dados sobre Zacarias Moussaoui. Esse ponto é o mais importante de todo o relatório, e foi modificado.

Se a agente falou a verdade, o setor antiterror do FBI impediu intencionalmente a ação da pessoa que poderia ter salvo a vida de quase três mil pessoas. Por quê?

A comparação entre as partes do relatório da comissão e as de The Bombshell Memo mostra que a comissão não foi eficiente para esclarecer devidamente este assunto, e nos faz perguntar por que a comissão distorce o episódio Coleen Rowley e Zacarias Moussaoui, mudando assim a história. Este, para nós, é o ponto central que deve ser cobrado com insistência pela imprensa. Trata-se de uma deturpação dos fatos, que a cada dia se mostra mais vergonhosa.

Outra comissão que investigou os atentados teve seu relatório final, com 900 páginas, divulgado em 24 de julho de 2003, e seu presidente, o senador democrata Bob Graham, declarou que ‘a parte mais significativa dos fatos foi censurada e, portanto, o povo americano jamais terá acesso a ela’. Ainda assim, esse relatório concluiu que a CIA e a NSA (Agência Nacional de Segurança) não informaram ao FBI sobre os dois sauditas cujos vínculos com a rede terrorista al-Qaeda tinham sido comprovados pela interceptação de conversas telefônicas, e que os dois, Kalid Almihdhar e Nawaf Alhazmi, dividiam um apartamento com um informante do FBI. Portanto houve falhas de comunicação entre os dois órgãos.

Time em silêncio

Vê-se que no primeiro relatório a CIA tinha uma estrutura de coleta de informações bastante eficiente, mas o segundo relatório apaga as informações divulgadas no primeiro e na imprensa. Mas não é possível apagar a edição de 10 de junho de 2002 da revista Newsweek, que mostra Alhazmi na lista telefônica de San Diego. Como podem dizer que perderam a pista? Que ações precisariam ser tomadas para achá-los nos EUA, além de uma olhadela na lista telefônica?

A postura de omissão da mídia por conveniência pode causar prejuízos graves em sua credibilidade. O caso Watergate é um exemplo clássico. Grandes jornais mantiveram-se neutros, apesar de todos os indícios, fato que beneficiou o Washington Post, que ousou publicar matérias contundentes que comprometiam o governo Nixon. Como conseqüência, houve o impeachment do presidente; o jornal conquistou respeito nacional e internacional e até hoje é referência de jornalismo sério e comprometido com a verdade. Num caso recente, a revista The New Yorker publicou artigo do jornalista Seymour Hersh denunciando as torturas na prisão de Abu Ghraib, forçando o tradicional The New York Times a fazer mea-culpa por não ter tido postura crítica no acompanhamento da guerra do Iraque e suas conseqüências.

A primeira a manifestar-se contra essa alteração dos fatos pela comissão deveria ser a revista Time (ou será que já se esqueceram do depoimento da agente Colleen Rowley, elegendo-a inclusive a Personalidade do Ano de 2002?). Por que ainda não se pronunciaram? ‘É possível enganar muitos por muito tempo. É possível enganar alguns por algum tempo. Mas é impossível enganar a todos todo o tempo’ (Abraham Lincoln).

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Estudantes de Jornalismo

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