Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

JORNAL DE DEBATES > FRANÇA

Divórcio de Sarkozy imita anglo-saxões e embaraça a mídia

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 23/10/2007 na edição 456

A vida íntima dos homens públicos era até hoje um tabu para a mídia francesa. Os jornalistas conheciam a existência de uma filha de Mitterrand fora do casamento, mas sua história ficou secreta durante os 14 anos de governo. Vida privada só interessa a tablóides sensacionalistas e revistas de fofocas, pensam os jornalistas franceses.

Por isto, os jornais e sites de informação não sabiam o que fazer com o boato que corria em Paris em todas as redações desde setembro. O desafio era transformar um boato em informação.

Os jornalistas credenciados no Eliseu tentavam há vários dias confirmar com o porta-voz a notícia recorrente que dava conta que os Sarkozy estavam se divorciando. A resposta era sempre a mesma: ‘Sem comentário’. O máximo que David Martinon confirmou foi que Cécilia Sarkozy não acompanharia o chefe de Estado na viagem oficial ao Marrocos esta semana.

Um jornal regional chegou a publicar na semana passada que o divórcio iria ser anunciado oficialmente na sexta-feira, dia 12. O silêncio do Eliseu desconcertou os jornalistas de outros veículos que continuaram sem poder tratar do assunto. A mídia veicula informação, não boatos, diziam os responsáveis pelos principais jornais e revistas aos seus repórteres.

Na quarta-feira, dia 17, o site do Le Nouvel Observateur dá o grande furo: o casal compareceu na segunda-feira, dia 15, diante de um juiz de Nanterre para assinar o divórcio por consentimento mútuo.

Outros sites suitam o furo e informam o comparecimento apenas de Cécilia Sarkozy diante do juiz. Para assinar os papéis, o presidente recebeu o representante da Justiça no Palácio. Em poucas horas, todos os sites deram a suíte com mais detalhes. Quebrava-se o silêncio ensurdecedor em torno da separação do casal presidencial.

Ausências alimentavam boatos

A esposa do presidente não tinha sido vista desde a festa nacional de 14 de julho. As ausências de Cécilia alimentavam todos os boatos de separação. Nicolas e Cécilia Sarkozy casaram-se em 1996 e se separaram por uns meses em 2005. Em início de 2006, ela voltou de Nova York, onde pensou em morar com um novo namorado. Nicolas Sarkozy escreveu no seu livro lançado no ano passado que ele e Cécilia tinham se reconciliado para sempre.

Os rumores de nova separação começaram durante o verão deste ano, quando Cécilia Sarkozy deixou pela metade a reunião dos chefes de Estado do G-8 na Alemanha e, depois, não compareceu ao almoço na casa de verão dos Bush.

Nicolas Sarkozy tentou de várias formas engajar sua mulher na sua campanha e depois no dia-a-dia do governo. ‘Cécilia fez parte integrante do sistema de conquista do poder para Sarkozy’, escreveu o diretor da Redação do Nouvel Observateur, Guillaume Malaurie. Amigos atribuíam a ela a declaração de que ‘levou Nicolas aonde devia’. Ao Eliseu, entenda-se.

No seu site, a revista Time intitulou de soap opera  a novela da separação do casal. ‘Tentar reconquistar uma pessoa amada mandando-a encontrar Kadhafi é uma tentativa única nos anais do amor cortês’, dizia o texto da Time, numa referência irônica à bem-sucedida missão humanitária dada a Cécilia por seu marido de libertação das enfermeiras búlgaras condenadas à morte na Líbia.

Os jornalistas estranharam a ausência dela na Bulgária para receber as homenagens do governo ao lado de Nicolas Sarkozy. O porta-voz do Palácio respondeu com uma explicação enviesada.

Na quinta-feira, 18, dia de greve geral no país, o divórcio, ainda não confirmado oficialmente, já estava na capa dos principais jornais.

Irreverência e imagens

Libération deu o título irreverente típico do estilo Libé de fazer títulos: ‘Desperate housewife’. A capa era inteiramente tomada pela foto de Cecília Sarkozy. Seu marido era visto de costas. O novo projeto gráfico de Libération, inaugurado no dia 15 de outubro, permitiu ao jornal dar mais espaço para a foto e para a matéria, ainda baseada em informações off the records.

Com todas as informações em off já publicadas nos sites e na imprensa, o Palácio do Eliseu ainda se negou a confirmar durante toda a manhã de quinta-feira, 18. Mas ao meio dia um comunicado lacônico de apenas quinze palavras anunciava a ‘separação do casal por consentimento mútuo’. Duas horas mais tarde, outro comunicado anunciava que ‘onde se escreveu separação fosse entendido divórcio’. A precisão teria sido exigida por Cécilia.

A confirmação num dia de greve geral, o primeiro choque do movimento social com o novo governo, foi sabiamente preparada pelo Palácio do Eliseu. Alguns jornalistas e políticos denunciaram a divulgação da notícia people nesse dia como um estratagema do governo para disputar espaço na mídia com a notícia da total paralisação nacional de protesto contra a reforma dos regimes especiais de aposentadorias.

O jornalista do New York Times contou que numa das passeatas, os manifestantes gritavam em coro: ‘Cécilia, on est comme toi, on en a marre de Nicolas’ (Cécilia, a gente é como você, também estamos cansados de Nicolas). O jornal L‘Humanité publicou uma foto de uma manifestante com um cartaz que dizia: ‘Moi aussi, je veux divorcer de Nicolas Sarkozy’.

Oposição evita comentar

A maioria dos políticos de oposição não quis comentar fatos da vida privada do presidente mas o deputado do partido Verde, Noël Mamère, ex-candidato a presidente em 2002 declarou que é hora de fechar ‘a página da americanização da vida pública’.

‘Expondo em público sua vida conjugal, o presidente da República correu o risco da superexposição e de introduzir uma perigosa mistura entre esfera pública e esfera privada. Precisamos proteger a concepção francesa de separação estrita desses dois campos. Quando se conhece o cinismo do presidente da República e de seus próximos, vê-se que por trás desses acontecimentos domésticos há uma manipulação’.

Correspondentes estrangeiros entrevistados em Paris têm uma visão bastante crítica da mídia francesa. ‘Há mais distância crítica e menos conivência na Alemanha entre a mídia e o poder político’, diz Ellen Ehni, da rede de televisão ARD. Ela informa que a missão da mulher do presidente na Líbia foi muito criticada na Alemanha. Sarkozy foi visto como um oportunista que se aproveitou da negociação da União Européia para colher os louros e assinar contratos com a Líbia.

‘Não penso que os jornais franceses foram pressionados pelo Palácio do Eliseu para guardar silêncio como insinuaram jornais belgas e suíços’, diz o correspondente do jornal italiano La Repubblica, Giampiero Marinotti.

Um presidente francês nunca se divorciou durante o mandato. Mas também nenhum deles expôs sua vida privada como se fosse uma celebrity. Em livros e em entrevistas, Sarkozy falou de sua relação, de seus problemas conjugais superados e da importância de Cécilia em sua vida.

Por isso, a mídia francesa se permitiu tratar do divórcio presidencial como um assunto que interessa aos leitores. Nem todos os jornais, contudo, deram a primeira página ao anúncio do divórcio. O L’Humanité reproduziu em página interna as capas de jornais e revistas para criticar a peopleolização da política: ‘A vida privada do presidente e de sua esposa participam deliberadamente da espetacularização da política ao estilo Sarkozy’.

Detalhes da soap opera começam a vir à tona logo depois do anúncio oficial do divórcio. Sábado, dia 20, o Le Monde publica uma matéria de página inteira intitulada ‘No Eliseu, sem ela’. Do texto, transparece a relacão fusional do casal presidencial. Fica-se sabendo que ultimamente o presidente controlava o tempo inteiro seu celular para ver se havia SMS de Cécilia, ‘mais próxima de Emma Bovary que de Mme de Maintenon’ (a influente e inteligente amante, depois esposa secreta, de Luis XIV).

Segundo o mesmo jornal, Cécilia Sarkozy já havia pedido ao advogado Georges Kiejman, ainda durante a campanha, para redigir um projeto de divórcio.

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