Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > FEBRE AFTOSA NA MÍDIA

Do pé de página para as manchetes

Por Bruno Blecher em 17/10/2005 na edição 351

Afinal, quem foi o culpado pelo foco de febre aftosa descoberto dias atrás no município de Eldorado do Sul (MS) e que poderá custar ao Brasil uma perda considerável nos embarques de carne bovina para o exterior?

** o próprio fazendeiro, que não teria aplicado a vacina anti-aftosa em seu rebanho;

** o laboratório que produziu a vacina, que não teria a eficácia necessária para evitar a infecção dos animais;

** o Ministério da Fazenda, que cortou as verbas destinadas à defesa sanitária animal;

** o Ministério da Agricultura, por não ter aplicado as verbas recebidas e descuidado da vigilância sanitária;

** o Paraguai, que estaria contrabandeando gado contaminado com o vírus;

** grandes exportadores de carne bovina, concorrentes do Brasil, que inocularam o vírus no gado de MS na tentativa de alijar do mercado os produtores brasileiros;

** nenhuma das alternativas anteriores.

Em meio ao fogo cruzado sobre a volta da febre aftosa no Mato Grosso do Sul, a mídia não descartou nada: informações, desinformações, contra-informações. Prova de que faltam nas redações dos grandes veículos brasileiros profissionais especializados no agronegócio – atividade que hoje responde por 30% do PIB, 37% dos empregos e 40% das exportações nacionais.

Fato consumado

Em sua coluna domingo (16/10), o ombudsman da Folha de S.Paulo, Marcelo Beraba, cita a resistência das empresas e dos próprios jornalistas à especialização. ‘É próprio do jornalismo a valorização da capacidade do improviso, a convicção de que devemos estar preparados para enfrentar qualquer situação ou assunto e de que somos generalistas’.

Beraba tem razão. Grandes jornais brasileiros, como a Folha e o Globo, não cobrem o agronegócio de forma sistemática. Valor Econômico e Gazeta Mercantil valorizam mais o setor, que nos últimos anos tornou-se estratégico para o país. Diariamente, dedicam pelo menos uma página para as notícias do agronegócio. O Estado de S.Paulo, além de manter semanalmente o Suplemento Agrícola, tem em sua equipe de correspondentes jornalistas experientes na área – como José Maria Tomazella.

O caso da febre aftosa é emblemático. Parafraseando Gabriel García Márquez, é a chamada ‘crônica de uma morte anunciada’ – como a qualificou o jornalista Sebastião Nascimento, especializado em pecuária, que passou quase 20 anos nas redações da Folha e do Estado e hoje milita na área de assessoria de imprensa.

Como no livro de García Márquez, a tragédia já era prevista. Em abril deste ano, durante a Expozebu, a maior feira pecuária do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) já havia alertado para o risco da volta da febre aftosa, diante da falta de recursos do Ministério da Agricultura para defesa sanitária animal.

A notícia, na época, não mereceu mais do que um pé de página da grande imprensa. Agora, consumado o fato, a febre aftosa virou manchete dos jornais e até tema de editoriais. Coisa de um Brasil que sempre deu as costas para o seu campo.

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Jornalista especializado em agronegócio, editor do site Agropauta, deste Observatório

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