Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

JORNAL DE DEBATES > APARÊNCIA & ESSÊNCIA

Dólar inflaciona o mundo

Por César Fonseca em 17/06/2008 na edição 490

A grande imprensa, como sempre, fica na aparência. Recusa ir à essência. O caso da inflação é típico. Jornalões, tevês e rádios vão na onda da fantasia ideológica.

Por que a inflação sobe?

Marx disse que é preciso acompanhar a trajetória do capital para entender os desígnios do próprio capitalismo. As crises capitalistas, segundo ele, estouram não na periferia, mas no centro, graças à sobreacumulação do capital. Já, naquela, o capital, acrescenta, representa instrumento de dominação interrnacional.

Num primeiro momento, dinamiza a produção; num segundo, graças às contradições que desencadeia, gera insuficiência relativa de demanda global, cujo resultado é o juro alto como preço pelo risco crescente.

É como, outro dia, disse a mesma coisa o repórter Cláudio Humberto, num comentário na Rádio Bandeirante: querem saber o caminho da corrupção? Siga, disse, o roteiro do dinheiro. Parece que é preciso fazer a mesma coisa com a inflação, em termos históricos.

Para não ir muito longe, melhor é ver o que ocorreu recentemente. Há seis meses, mais ou menos, os governos árabes deram um alerta. Não daria, segundo eles, para suportar a alta de preços dos alimentos que estariam importando da Europa. Os produtos alimentícios europeus, cotados em euro, exigiam desembolsos em dólar em escala ascendente.

Beiço geral

Sendo o petróleo árabe – e todo o óleo negro produzido no mundo – cotado na moeda norte-americana, claro, os governos dos países produtores de petróleo passaram a desembolsar mais dólares para comprar a mesma quantidade de comida importada expressa na moeda européia.

Que fazer? Produzir mais petróleo, aumentando a quantidade do produto, entregando mais barris, para pagar o mesmo ou menor montante de alimentos valorizados em euro, para suportar a sangria imposta pela moeda desvalorizada, o dólar? Ou, ao contrário, subir o preço do barril de petróleo, para compensar o prejuízo? Até um jegue saberia responder tal jogo de compensação monetária.

O ouro negro, sendo útil, necessário, objeto de desejo fundamental da industrialização mundial, impôs seu preço, porque a demanda sobre ele é maior do que a oferta disponível.

Os árabes, desde 1973, já sabiam disso, depois que criaram a Opep, o cartel do óleo. Desde então, passaram a impor seu preço, numa situação mais ou menos semelhante à atual. Naquela ocasião, os Estados Unidos, apertados com suas despesas, maiores do que as receitas, emitiam moeda sem lastro para sustentar a guerra fria, de um lado, e a guerra do Vietnã, de outro, ambas ligadas pelo sentimento do choque ideológico – comunismo versus capitalismo.

Os preços pularam. A inflação internacional explodiu. A Casa Branca, diante das pressões dos países que tinham suas reservas em dólar amarradas ao ouro, desvinculou um do outro para não ver o gigante americano ir à garra. Os países pobres dançaram. Beiço geral de tio Sam na praça. Calote americano pode; dos demais desgraçados, não.

‘Exuberância econômica irracional’

A capacidade de suportar déficits elevados, até então era enorme por parte da banca de Tio Sam. A moeda norte-americana tinha, ainda, a confiança do mercado. A especulação financeira global não desandou, irremediavelmente.

Agora, são outros quinhentos. As finanças norte-americanas, com um déficit ao redor de 7% do Produto Interno Bruto, da ordem de quase 14 trilhões de dólares, e de um endividamento total três vezes superiores ao PIB, em meio aos escombros da economia de guerra, sustentada pelo endividamento público interno incontrolável, revelou que o buraco é mais embaixo.

Se o mundo não se abalou, para valer, em 1973, quanto à saúde do dólar, quando os árabes pipocaram para cima o preço do petróleo, em 2008, o mesmo não ocorre. Trinta e cinco anos depois de sangrias intensas, o capitalismo de guerra, bancado pela emissão monetária sem lastro, não é mais aquela brastemp.

O mercado não vê com os mesmos olhos o panorama econômico internacional, tendo o dólar como equivalente universal, justamente, porque a continuidade do déficit norte-americano, num ambiente de estresse especulativo mais potencializado, representa risco mil vezes superior. Por isso, colocou as barbas de molho.

Tal gesto, depois da criação da União Européia e da emergência do euro, a partir dos anos de 1980, intensificou-se, no sentido de aumentar as desconfianças relativamente à saúde da moeda norte-americana, abalada após a ‘exuberância econômica irracional’ (Alan Greesnspan) dos EUA nos anos de 1990.

Olhos ávidos e desconfiados

Por quê? Simples. A sobreacumulação de capital sinalizou impossibilidade de sua reprodução na produção, sendo possível, tão somente, na pura especulação, nos anos de 2000 em diante.

A crise imobiliária presente, que abalou a estrutura do sistema bancário mundial, é o clímax de uma série de crises especulativas que se superpuseram umas às outras, inaugurando o que os economistas canadenses chamam de emergência do capitalismo de desastre.

Sua tônica é o desgaste conseqüente da confiança mundial no dólar e, igualmente, na capacidade de os Estados Unidos, mediante endividamento público keynesiano, continuarem a suportar o jogo da divisão internacional do trabalho, inaugurado em 1944, em Bretton Woods, no pós-guerra.

Os déficits norte-americanos bancariam a dinâmica capitalista global graças à emissão monetária deslastreada, enquanto a produção bélica espacial, suportada por tal emissão, daria segurança à democracia representativa contra o avanço do comunismo.

Essa armação geopolítica-estratégica-global, depois de vigorar por 64 anos, na base da ampliação da dívida pública interna – instrumento, segundo Keynes, de combate à inflação, na medida em que cresce no lugar dela –, a inflação estressou-se diante dos olhos ávidos e desconfiados do mercado.

O dólar tatibitate

Incapazes de continuarem acreditando eternamente nas possibilidades financeiras da nova Roma de bancar o mundo, dependurando a conta no permanente cabide do fiado, os especuladores arrepiaram.

A moeda norte-americana, nesse contexto de elevação irresistível da dívida pública interna, perdeu o fôlego e, diante da desconfiaça do mercado, deixou de ser – primeiro, aos poucos, depois, mais rapidamente – referência internacional única para fixar os termos de trocas cambiais nas relações comerciais globais.

A perda nos termos de troca vigentes entre o dólar, que cota o preço do petróleo, e o euro, que cota as mercadorias importadas pelos árabes, é a prova evidente. Se antes, dada sua força e credibilidade, impunha deterioração nos termos de troca, para garantir lucratividade na senhoriagem monetária na relação com as demais moedas, diante do desgaste financeiro e da desconfiança generalizada, a moeda norte-americana passou a não mais impor perdas, mas a sofrer perdas.

O preço do óleo negro sobe, portanto, como forma de compensação, exercitando, no caso, sua condição intrinsecamente monetária, em resposta à desvalorização acentuada do dólar, em decorrência dos déficits norte-americanos.

Vale então a pergunta: o que ocorre no momento é um choque inflacionário global produzido pelo preço do petróleo ou pela decadência financeira do capitalismo norte-americano, com o dólar tatibitate?

Contradições crescentes

Como a agricultura norte-americana teve seus custos elevados, por consumir muito derivado de petróleo, assim como explodiram os preços dos fretes, puxados pelo diesel, cuja cotação extrapolou, o governo buscou, no sufoco, substituir petróleo por etanol produzido do milho. Vale dizer, sobrou menos milho para a alimentação, cujo preço, também, explodiu.

Parece, então, que foi o preço do petróleo que gerou a desgraça toda, mas não é. Ele é o efeito, não a causa.

E a grande mídia, em meio ao fenômeno aparente, que diz? Nada. Melhor, enche páginas e páginas, para dedicar-se à aparência, sem mergulhar na essência.

Ela não suporta mergulho muito fundo. Ficaria sem ar para voltar à tona. Prefere acompanhar, mecanicamente, as formulações neoliberais, moralistas. Mantém-se na superfície, porque sua existência requer a própria superficialidade.

Quem vai questionar, para a opinião pública, a verdadeira causa da inflação que toma conta do mundo, despontando nas contradições crescentes do capitalismo norte-americano, que se tornou incapaz de puxar a demanda global, na base do keynesianismo praticado, pelo menos, a partir de 1936, quando Roosevelt, mediante conselho de John Maynards Keynes, decuplicou os gastos do governo, para tirar a economia do atoleiro em que a crise de 1929 a jogara?

‘A unidade das soluções’

O grande presidente norte-americano, pela cabeça de Keynes, não faria nada mais, nada menos do que pregara, na primeira metade do século 19 o genial Malthus, para quem os gastos governamentais têm que aumentar mais que o PIB, para evitar que o sistema capitalista caia na danação da deflação.

Claro, impulsionado pela ciência e pela tecnologia, colocadas a serviço da lucratividade e da produtividade crescente, o sistema, intrinsecamente, poupa mão-de-obra e concentra renda, criando, conseqüentemente, crônica insuficiência de demanda global, cujos efeitos são quedas de preços decorrentes da sobreacumulação de mercadorias e capital.

O que fazer com o excesso de eficiência do capital que leva o capitalismo à deflação? Malthus: lançar mão da ineficiência, expressa nos gastos do governo. Os comentaristas neoliberais, nesse momento, bradam que o aumento dos gastos do governo, subindo mais que o crescimento do PIB, joga a economia na crise inflacionária. Eles são mais inteligentes do que Malthus. Quem sabe o capitalismo teria melhor sorte se escutassem seus conselhos sábios?

Se o governo se torna eficiente, como reclama Arnaldo Jabor, o sistema vai para o buraco. Os economistas neoclássicos torceram o nariz, mas, Keynes, gênio, como Malthus, viu a contradição e trabalhou tornando-a sua aliada, para orientar os governos depois da crise de 1929. Caso contrário, a ideologia leninista dominaria o mundo. Os comentaristas querem salvar o capitalismo, não querem explicá-lo, sem saber que o sistema é mais inteligente do que eles.

Eles demonizam essa estratégia malthusiana-keynesiana-rooseveltiana-staliniana-mussoliniana-getuliana-militarista-desenvolvimentista, utilizada para tirar o capitalismo da deflação por meio da inflação, ‘a unidade das soluções’, segundo Keynes.

História repetida como farsa

Inflação ou deflação? Escolha de Sofia. Enquanto os governos capitalistas puderam esconder a inflação na dívida pública, tudo foi maravilha. Agora, com o preço do petróleo explodindo, como resposta à incapacidade de Tio Sam continuar dependurando o fiado na parede do boteco, buscam a pregação equilibrista. Esquizofrenia pura.

Ora, se Lula não puxa os gastos do governo acima do PIB, para garantir o Bolsa Família, reajustando-o, para compensar pressões inflacionárias, o PIB, claro, não cresce, porque o capitalismo não avança puxando os próprios cabelos.

Os departamentos I (D1) – produção de bens de capital – e II (D2) – produção de bens de consumo –, predominantes no século 19 com a chamada economia bi-setorial, perderam validade, na sua relação, quando estourou a crise em 1929, sob o padrão ouro.

A contradição intrínseca ao desenvolvimento de ambos (D1 + D2) exigiu superação. Marx, em O Capital, explica. De lá para cá, especialmente depois dos anos de 1930, entrou em cena o departamento III (D3) – governo –, tocado pelo novo padrão monetário, a moeda estatal inconversível, o statemoney, sem lastro. Este transforma o Estado em capital, rompendo com o equilíbrio monetário dezenovecentista, fixando a nova ordem (D1+D2+D3).

Essa estratégia capitalista, certamente, não seria eterna. Não há nada eterno, já que o capitalismo é um fenômeno histórico social, e não a norma do mundo. Ela começou a dançar quando os governos, a partir dos anos de 1970, deram sinais de que estariam perdendo fôlego monetário.

O discurso equilibrista de Margareth Thatcher entrou em campo, mas era clara tentativa de voltar atrás no tempo, retorno ao útero materno freudiano, neoliberal, neoclássico, dezenovecentista, que havia, já, entrado em crise no início do século 20, depois da primeira guerra mundial. História repetida como farsa.

A loucura do mercado derivativo

Durou pouco mais de vinte anos a pregação thatcheriana-reaganiana. Nesse período, o ajuste, principalmente da periferia capitalista, pós-crise do petróleo e pós-elevação brutal da taxa de juro norte-americana em nome do combate à inflação, para salvar o dólar do incêndio inflacionário, foi brutal.

Os governos periféricos capitalistas não puderam mais, graças ao Consenso de Washington, continuar a farra dos gastos keynesianos. Somente os Estados Unidos, lastreados na bomba atômica – inflacionária –, foram suficientemente fortes para continuar impondo moeda sem lastro sobre o mundo.

Depois que os árabes montaram seu cartel, em 1973, o quadro começou a mudar e, em 2007/2008, quando se assiste a incapacidade de o dólar continuar fazendo o jogo keynesiano-malthusiano, adios pampa mia. A negação está, a olhos vistos, sendo negada.

Não se trata tomar posição, como, indisfarçadamente, fazem os comentaristas econômicos, teleguiados pelo pensamento neoliberal-mecanicista, mas, como destacou Marx, de olhar a trajetória do dinheiro, das suas contradições.

O preço do petróleo em alta, que deixa Lula falando a torto e a direito, desconexamente, a partir do seu pensamento desenvolvimentista-paulista, nascido no Tatuapé, é, repetindo, conseqüência, e não, causa. Desta, a grande mídia e seus oráculos alienados e desafinados, fogem como o diabo da cruz.

A alta incontrolável do ouro negro é fenômeno reflexo, representação da desorganização anárquica do capitalismo norte-americano, que padece de sobreacumulação de capital, como demonstra a explosão da crise imobiliária, produzida na loucura do mercado derivativo. Demonstra a incapacidade do dólar de continuar bancando o jogo da divisão internacional do trabalho nos termos pós-segunda guerra mundial.

Esquizofrenismo equilibrista

O que vem por aí, então? Se for levada em conta a história, possivelmente o governo norte-americano, depois das eleições, dará violenta puxada nos juros para evitar o fogaréu dolarizado. Ou não teria fôlego mais para sustentar juro alto, dada a dívida elevada que mantém o mercado desconfiado da capacidade de Tio Sam continuar se endividando eternamente?

Quem vai pagar a conta desta vez? As moedinhas dos países capitalistas periféricos, como ocorreu na grande crise monetária dos anos de 1980, provocada por Washington, para afastar as pressões inflacionárias que afetavam a saúde do dólar?

A moeda sul-americana, contra a qual os jornalões se batem, precisa nascer porque está emergindo, nos escombros da derrocada monetária da moeda norte-americana, novo poder monetário global.

Nova subida irracional dos juros a salvaria ou a nova Roma teria que baixar a bola e reconhecer que a situação mudou?

Os sul-americanos, que acabam de criar a Unasul, ficarão parados, de boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como destacou o poeta Raul Seixas, acreditando nas predições do esquizofrenismo equilibrista que contaminam os editorialistas e comentaristas econômicos em geral, salvo honrosas exceções?

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Jornalista, Brasília, DF

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