Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > PROMESSA É DÍVIDA

E a entrevista coletiva?

Por Alberto Dines em 21/11/2006 na edição 408

Há 24 dias (completados em 21/11), o presidente Lula, recém eleito, declarou solenemente que afinal concederia uma entrevista coletiva. Na ocasião – a festa da vitória em 29/10 – houve um simulacro de coletiva. De mentirinha, não valeu. Dia seguinte uma blitz de declarações ao vivo, nos principais telejornais. Também não valeu.

Entrevista coletiva de um Chefe de Estado faz parte dos ritos democráticos. Não muda nada, tem valor simbólico, mas a democracia, além das suas especificidades institucionais, repousa num repertório de ritos que a qualificam.

No caso do presidente Lula, uma entrevista coletiva

autêntica é muito mais do que um rito. É um dever imperioso, inadiável. Servirá para corrigir uma das falhas gritantes do primeiro mandato e, principalmente, para neutralizar seus ataques e ameaças à mídia iniciados muito antes da descoberta do Dossiê Vedoin pela Polícia Federal.

O presidente Lula, como bom político, sabe reparar brigas antigas e desarmar antigos adversários. Sua admiração por Antônio Delfim Neto (o ex-czar da economia no período em que o líder sindical Lula era o seu mais ferrenho inimigo) é uma prova inequívoca da sua capacidade de erradicar mágoas e fazer amigos.

O mesmo não acontece na esfera da imprensa. Como diria um consultor sentimental, o presidente deve ‘rever a sua relação’ com a imprensa. No seu íntimo, o presidente Lula sabe muito bem que não pode continuar cuspindo nas rotativas que tanto o ajudaram (a metáfora é de um dos fundadores do PT, o deputado Paulo Delgado).

No debate da TV Bandeirantes o presidente parecia curado da sua síndrome anti-mídia. Três semanas depois teve uma recaída. Inspirado talvez por Hugo Chávez ao seu lado, soltou o ressentimento represado.

A relação Lula-mídia é complicada, ambígua, conflitante, com conotações psicológicas e evidentes fundamentos messiânico-ideológicos. O presidente da República não gosta de réplicas, acha que a sua trajetória pessoal não pode ser contestada, seu novo triunfo eleitoral dá-lhe o direito de dizer o que bem entende. Ungido pelo povo, só ele sabe o que convém ao povo.

No Estado Novo, o famigerado DIP foi apelidado pelos jornalistas como o ‘Fala Sozinho’. Nosso presidente jamais imporia uma censura igual à de Getúlio Vargas. Mas incomoda-o ser contrariado e questionado. O jornalista Elio Gaspari apelidou-o de ‘Nosso Guia’, ele o conhece antes mesmo da matéria de capa de IstoÉ em fevereiro de 1978.

Origem dos ataques

Não foi o presidente Lula que iniciou esta cruzada de críticas e intimidações à imprensa: em 2005, Tarso Genro (então presidente interino do PT) produziu uma violenta nota oficial do partido contra a mídia acusando-a de golpista etc. (clique aqui para ler os comentários de Genro sobre a nota, feitos no programa Observatório da Imprensa na TV).

Depois, apareceu o ex-ministro José Dirceu utilizando com grande habilidade a técnica do ataque como arma de defesa para livrá-lo das acusações sobre o seu envolvimento no caso Valerioduto/Mensalão.

Virou moda, era cômodo dizer que o mensalão não existiu, foi invenção da mídia e que o moralismo da mídia era de origem udenista, tudo isto mesmo depois do contundente parecer do Procurador Geral da República sobre a ‘organização criminosa’ que operava o esquema. E como a imprensa cometeu algumas leviandades pontuais (os dólares de Cuba, por exemplo) era fácil desacreditá-la liminarmente.

A idéia de levar a mídia aos palanques para ser continuamente malhada e desmoralizada foi um recurso tático destinado a prevenir eventuais denúncias da imprensa na reta final, pouco antes do primeiro turno.

Então veio o Dossiê Vedoin e o tiro que deveria ferir mortalmente o candidato José Serra converteu-se no mais desastrado tiro no pé da nossa história política. Inventou-se finalmente o ‘complô da mídia’ forjado pela imprensa dita engajada para diminuir os seus efeitos. A verdade é que na trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva há uma zona cinzenta que corre o risco de parecer preta.

Difícil prever como o presidente Lula conseguirá reencontrar a naturalidade perdida no trato com a imprensa. Alguns dos seus conselheiros na área política recomendam uma mudança imediata, pois o esforço para atrair o PMDB pode esboroar-se caso persista a atual tensão entre o Executivo e o chamado Quarto Poder.

Convém ter em conta que alguns próceres do PMDB são poderosos barões da mídia em seus respectivos currais. Não pretendem abrir mão dos seus privilégios nem alterar o status quo em matéria de concentração dos meios de comunicação. E isso é exatamente o que se espera de um governo cujo partido clama pela democratização dos meios de comunicação.

Os principais auxiliares da Presidência na área jornalística não estão felizes: alguns já deixaram o governo, outros apenas colocaram os cargos à disposição e outros já decidiram formalizar a sua saída. Sem eles, a ciclotimia pode agravar-se e converter-se em mania de perseguição.

Uma entrevista coletiva poderia desanuviar os ânimos, mas também pode agravá-los. Jornalistas querem saber, não para pautar o governo (como acusou o irritado professor Marco Aurélio Garcia), mas porque têm a obrigação de fazer as perguntas que a sociedade exige deles.

Numa entrevista coletiva verdadeira, os repórteres não poderão deixar de lado problemas cruciais e gritantes como o ‘apagão aéreo’ (e sua implicação com a tragédia do Boeing da Gol) e a lentidão das investigações da Polícia Federal sobre a origem do dinheiro do Dossiê Vedoin. Tais perguntas exigirão respostas claras do entrevistado. Ou réplicas insistentes dos entrevistadores.

A tal ‘relação’ que já é precária pode deteriorar-se ainda mais. Isso talvez explique a demora em cumprir a promessa anunciada de maneira tão eufórica na noite de 29 de outubro.

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/04/2009 lucineia freitas

    Gostaria de consultar alguns artigos publicados por vocês, como posso fazer a busca?

  2. Comentou em 27/12/2006 Corina Melo

    Nossa, mais um ‘queixume desgastado.’ Sempre tive o maior respeito por esse jornalista, tão lúcido nas suas análises. Foi uma decepção ler essa matéria tão parcial na sua forma. Seria válido se considerasse a relação presidencial com a mídia através do tempo,, pensando em mudá-la. Mas., colocar o atual presidente como o algoz contra a mídia! Será amnésia, ou ingenuidade (improvável)?`Não dá para sair na defesa de uma mídia parcial e sem ética. E , o pior de tudo, serviçal daqueles que não queriam o a rreleição de Lula.
    Como se comprovou foi no caso do Vedoin ou, agoa dos controladores de vôo. Muito pouco se ouviu, leu ou assistiu sobre a o envolvimento do Serra, porque o momento eleitoral não lhes permitia. Certo? E, agora no dos controladores de vôo a mídia fica batendo nos atrasos dos vôos e não entrevista aqueles que aponta como os responsáveis: A mídia fica só na ‘casca’, pois não pode mexer num assunto que pode arranhar os ‘grandões’. O governo então passa a ser o único responsável.. Uma investigação a fundo, não interessa. Mas, ouvir 1 jornalista e 2 pilotos irresponsáveis, falando mal do espaço aéreo brasileiro sem o menor conhecimento, tem destaque,.Então, me desculpe, mas comojornalista temos o compromisso com a verdade e clareza na apresentação dos fatos, e quem náo faz isso, é o quarto poder….

  3. Comentou em 24/11/2006 Ivan Monte

    Sr. Dines, porque o Sr. não cobra uma entrevista dos tucanos sobre o VALERIODUTO, OS SANGUESSUGAS… que têm origem, autoria e DNA deles? o sr. só quer investigar rápido de onde veio o dinheiro, e o conteúdo do DOSSIÊ? mais de 70% dos contratos superfaturados com os Vedoins foi na gestão Serra/FHC, disso o sr. não quer saber…

  4. Comentou em 22/11/2006 Renato .

    Dines, continuamos no aguardo que você explique sua referência ao Elio Gaspari. É péssimo para um dito ‘observador’ jogar frases soltas sem explicá-las devidamente. Tem algo a questionar sobre alguma atitude do Elio Gaspari? Faça-o corretamente para não cair na vala comum dos colunistas ordinários que criticam a todos sem um mínimo de embasamento ou critério. Continuaremos questionando e contrariando, o que quando é feito com o senhor, o senhor chama de linchamento, mas quando é feito com outros, o senhor chama de incômodo.

  5. Comentou em 22/11/2006 Marco Davis

    Quando é que teremos uma imprensa investigativa e independente nesse país? Tudo o lemos/assistimos ou ouvimos é mais do mesmo. Apenas clichês já surrados com o tempo. Apenas reportagens que interessam aos objetivos ideológicos das empresas de comunicação. Informação suja e corrompida. Vivemos na época do denuncismo puro e simples. Investigar jamais!!
    A imprensa já foi bem melhor. Hoje em dia é produto de supermercado. Descartável.
    Entrevista coletiva para quê?? As mesmas perguntas de sempre, as mesmas respostas de antes.

  6. Comentou em 22/11/2006 Carlos Rajão

    Quer dizer que erro humano (queda do Gol 1907) é culpa do Presidente, Dines?
    Você pirou de vez. Procure um profissional da medicina.
    A partir de hoje, deixo de ler as baboseiras que andas escrevendo. Não perco mais tempo.

  7. Comentou em 22/11/2006 João Motta

    Tenho acompanhado o debate e minha impressão é que Dines quer apoderar-se da verdade. Quem pensa igual ele tem legitimidade e quem discorda é linchador, petista, nazista e o escambau. Uma baita falta de respeito com os leitores que não rezam em sua missa.

  8. Comentou em 22/11/2006 Rogério Ferraz Alencar

    Lula deve fazer, de novo, um ótimo governo, mas, para a mídia, terá sido o presidente que não deu uma entrevista coletiva ‘autêntica’. Pois, além de coletiva, tem que ser ‘autêntica’. O selo de autenticidade, na certa, será dado pelo Extinto Observador, na feliz expressão de Washington Ferreira, de Ubá. Agora, não deixa de ser engraçado que o Extinto se refira a alguém criticando-o por não gostar de ser contrariado. Nem que os tucanos, agindo como matilha, atribuam isso aos outros. Aliás, o ‘Mata! Esfola!’ é uma orquestração: o Extinto desinforma e agride, e a matilha vem atrás, elogiando o guia e desqualificando os opositores.

  9. Comentou em 22/11/2006 Mirna Vieira

    Já sei… vou ligar para o Lula convidar o Dines a dar uma voltinha no avião da FAB! Pronto… ai o senhor Dines vai ficar calmim calmim que nem o Virgílio!

  10. Comentou em 21/11/2006 CARLOS ALBERTO

    Dines,
    Gostaria que você fosse claro nas afirmações abaixo, ultimamente, noto que você se esconde através de meias palavras misturadas em textos simplistas, será que é reflexo de sentenças proferidas recentemente contra alguns JORNALISTAS/COLUNISTAS????!!!!que se julgam acima da Lei?????? e para não passar pelos mesmos dissabores, usa esse artifício?????
    O jornalista Elio Gaspari apelidou-o de ‘Nosso Guia’, ele o conhece antes mesmo da matéria de capa de IstoÉ em fevereiro de 1978.

    A verdade é que na trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva há uma zona cinzenta que corre o risco de parecer preta

  11. Comentou em 21/11/2006 Clerton de Castro e Silva

    Acho justo a imprensa cobrar a entrevista que o próprio Presidente prometeu. Entendo que o Lula deveria aproveitar a ocasião e por na mesa, tudo que ele tem contra a mídia. É melhor ele falar aqui no Brasil, do que se queixar no exterior. O traídor que o Lula citou, deve saber que o Presidente se referiu a ele, mas o povo não sabe a identidade do Judas. Esse joguinho está indo longe demais.

  12. Comentou em 21/11/2006 Fernando Ferreira

    Gonçalo Osório, para que fazer média com o Dines, Que Dines é um grande jornalista ninguém duvida, está passando por um período não muito propício, depois da reeleição do Lula, esqueceu de observar a imprensa e desviou-se do que ele faz melhor, sei que essa fase vai passar. O candidato do Dines foi derrotado fragorosamente, mas eleições são assim mesmo, uns ganham e outros perdem.
    Os comentários ao presidente, mostram o vosso lado em depreciar os outros, estiveram lá 8 anos o que o poliglota fez? vender, vender, pedir emprestimos ao FMI e para Lula pagar. Tenha paciência.

  13. Comentou em 21/11/2006 Fernando Ferreira

    Gonçalo Osório, para que fazer média com o Dines, Que Dines é um grande jornalista ninguém duvida, está passando por um período não muito propício, depois da reeleição do Lula, esqueceu de observar a imprensa e desviou-se do que ele faz melhor, sei que essa fase vai passar. O candidato do Dines foi derrotado fragorosamente, mas eleições são assim mesmo, uns ganham e outros perdem.
    Os comentários ao presidente, mostram o vosso lado em depreciar os outros, estiveram lá 8 anos o que o poliglota fez? vender, vender, pedir emprestimos ao FMI e para Lula pagar. Tenha paciência.

  14. Comentou em 21/11/2006 Élcio Filho

    Pura tática diversionista: eu falo do governo ou do presidente para não ter que falar daquilo que é o meu objeto – a imprensa – e do mal cheiro que exala embaixo do meu nariz.
    Não vale mais a pena sequer tomar conhecimento desse trabalho de observação. A rede globo divulgou antes e depois das eleições matérias francamente mentirosas sobre o porto de Paranaguá, que ela quer ver privatizado (por que será?). Chegou-se ao cúmulo – e não se trata de especulação, mas de algo comprovado, inclusive indiretamente admitido por um desmentido do William Bonner em rede nacional – de utilizar imagens de congestionamentos de caminhões datadas de 2002 quando o porto de fato tinha esses problemas para apoiar a infame campanha. É possível haver um caso de estelionato jornalístico mais claro do que esse? E no entanto ele só foi ‘observado’ pela ‘comprometida’ agência carta Maior e, claro, pela tv E do Paraná que transmitiu o genial desmentido do governador Requião, o mais novo algoz da ‘liberdade de imprensa’. E assim chegamos ao paradoxo de que a mídia comprometida ideologicamente acaba prestando um serviço público mais importante do que a imprensa ‘livre’ cuja excelência o sr. Dines não cansa de ‘observar’.
    Com certeza o Brasil não é um país sério. Melhor seria ter deixado o nome do negócio em inglês: Media Watching. A falta de tradução talvez tivesse preservado a pureza do negócio.

  15. Comentou em 21/11/2006 Adriana Silva

    Dimes, isso aí que você destila é aviso de um lincamento? O linchamento coletivo da impresa ao presidente. Pelo ódio manifestado em suas várias agressões aos petistas, ao petismo e ao presidente, parece que sim!
    Muito bem, muito bem. O trabalho do jornalista é perguntar e replicar insistentemente. Até aqui concordo.
    Mas não vejo um desejo republicano e ético nas suas palavras. Entendo seu pedido como um desejo de vingança.
    Gostaria de saber quais pergundas o senhor fez, em coletivas anteriores, com todos os ex-presidentes, sobre os graves indícios de corrupção e sobre o verdadeiro apagão que afetou muito mais gente? Só assim poderei ter certeza que trabalha pelo bom jornalismo e não movido por um ódio cego. As críticas leves e sem repercussão, publicadas aqui em outrora, não são me suficientes para tal certificação.

  16. Comentou em 21/11/2006 Alexandre Moreira

    Concordo com a necessidade de uma coletiva de imprensa de Lula. Todavia, discordo veementemente da insistente tese trazida pelo articulista de que o presidente e o PT estão tentando intimidar a mídia…só uma criança do primário não notou a descarada tentativa de interferir no processo eleitoral orquestrada pelos grandes veículos de comunicação deste país. Como muitos já observaram, está faltando à mídia a necessária humildade para reconhecer que errou e se excedeu em sua postura durante as eleições, visto o que a verdadeira ‘opinião pública’ manifestou nas urnas.

  17. Comentou em 21/11/2006 Matheus Bié

    Concordo com o comentário feito pela il. educadora. Espero que o tempo ajude a elevar o nível desse grande debate que tomou conta da internet brasileira (democracia x mídia). Independente de onde vem, o radicalismo elimina a chance do aparecimento de idéias inovadoras, construtivas, progressivas, verdadeiramente democráticas. A guerrilha dialética está fazendo mal até aos mais ponderados (A.D.). Aproveito a oportunidade para sugerir a re-leitura de um texto, de autoria do Sr. Dines, que poderá nos dar uma idéia de como o debate fugiu à racionalidade: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=338JDB005 .

  18. Comentou em 21/11/2006 Lica Cintra

    Concordo com o texto, é muito pertinente a cobrança sobre a entrevista coletiva que Lula prometeu na campanha eleitoral e não cumpriu. Vai rolar? Sigo discordando da caracterização da polêmica mídia/governo/opinião pública como ‘cruzada de críticas e intimidações à imprensa’. Existem problemas no desempenho da mídia que merecem ser criticados e crítica não significa ionda anti-mídia. Reitero minha opinião de que falta aos jornalistas jogo de cintura para lidar com a interatividade.

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