Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

E se não foi ele?

Por Daniel Thame em 08/04/2008 na edição 480

Alexandre Nardoni é um homem acabado.

Desde que foi acusado de ter jogado sua filha, Isabella Nardoni, de 5 anos, do 6º andar de um prédio num bairro de classe média em São Paulo, Alexandre recebeu o veredicto definitivo de ‘culpado’. A madrasta, Ana Carolina, igualmente acusada pela morte da menina, vive situação idêntica.

Ambos alegam inocência, mas o circo armado pela mídia em torno do caso, com a inestimável contribuição da polícia, fez com que Alexandre e Ana Carolina fossem lançados à fogueira da inquisição. As redes de televisão e emissoras de rádio fazem plantões na porta da delegacia e na entrada do prédio onde aconteceu a tragédia. Os jornais estampam manchetes retumbantes. Vizinhos, que não querem se identificar, dão declarações que incriminam ainda mais o casal.

Pelo menos até agora, não se produziu uma mísera prova concreta contra o pai e a madrasta de Isabella.

E precisa?

Numa carta emocionada, Alexandre reafirma a sua inocência e a da companheira e diz que ‘o sofrimento é muito grande, os culpados serão encontrados’ e que ‘a menina era minha princesa, quando me dei conta do que havia ocorrido, meu mundo acabou’.

E mais: ‘Não faria isso com ninguém, muito menos com minha filha. Amo Isabella incondicionalmente e prometi a ela, em frente ao seu caixão, que, enquanto vivo, não sossego enquanto não encontrar esse monstro. Tiraram a vida da minha princesa de uma maneira trágica e não me permitem sentir falta dela, pois me condenam por algo que não fiz.’

Se Alexandre matou mesmo a filha e ainda conseguiu produzir uma peça de tamanho cinismo, trata-se de um facínora animalesco, que deve ser exemplarmente punido.

A inquisição midiática

Mas, e se não foi ele? Esta é a pergunta tentadora.

Trata-se de um crime bárbaro, brutal, que além de uma menina morta brutalmente pode estar produzindo outras vítimas, assassinadas em vida. É inacreditável como, em nome da sociedade-espetáculo, parte da mídia subverte a lógica de que até prova em contrário, todos são inocentes. Não hesita em condenar pessoas ainda na condição de suspeitas.

O célebre caso da Escola de Base, em São Paulo, é uma lição solenemente ignorada. O que são algumas vidas quando se luta pela maior audiência, pela maior tiragem?

O respeitável (?) público quer sangue? Então, que se atire carne humana aos leões.

Admita-se a hipótese, diante de tantas evidências (que ainda não se converteram em prova, repita-se) de que Alexandre e/ou Ana Carolina sejam culpados pela morte de Isabella.

Ambos estão com prisão preventiva decretada e até agora são os principais (ou melhor, os únicos) suspeitos. Ainda assim, nada elimina os excessos que foram e estão sendo cometidos para manter as labaredas acesas e prolongar ao máximo a superexposição da tragédia.

Alexandre termina sua carta com a frase ‘a verdade sempre prevalecerá’.

Quando ela prevalecer, saberemos se essa é a história de um pai falsamente amoroso que escondia um monstro dentro de si.

Ou a história, tantas vezes repetida, de inocentes da santa inquisição midiática em que, quando a verdade aparece, só existem as cinzas das reputações e vidas lançadas ao vento.

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