Domingo, 15 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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JORNAL DE DEBATES >

Ecos do silêncio

Por Luiz Leitão em 15/09/2009 na edição 555

Pode-se recorrer a uma miríade de lugares-comuns para enaltecer tanto os benefícios quanto os males do silêncio. Mas nada é mais eloquente a respeito de um assunto que os fatos e circunstâncias, quando não se tenta subordiná-los a conveniências.

Na vigência da ditadura militar, repórteres e telespectadores não raro ouviam de autoridades questionadas a clássica não-resposta: ‘Nada a declarar’. A frase seca e arrogante, no entanto, era plena de significado, e honesta, dentro de sua torpeza. Dava a jornalistas e ouvintes a certeza de que havia algo a esconder e os induzia a crer que em tempos mais amenos, democráticos, as coisas seriam diferentes; e nem era moda, ainda, falar em transparência, a não ser na marcha da União Soviética rumo à extinção, ainda sob Mikhail Gorbatchov, quando o ocidente veio a conhecer duas palavras de sonoridade fácil e curiosa: glasnost e perestroika, transparência e reforma, respectivamente.

Lá, como cá, deu-se a conversão à democracia, extinguiu-se a censura, e Fernando Collor, não obstante o fragoroso desastre na condução da economia, abriu o país às importações.

Brasil, a nova Federação Russa e outros países puderam, então, provar o néctar da liberdade de opinião. Mas quis o destino que o trôpego populismo de BorisYeltsin desmantelasse a economia, terminando por jogar a adolescente democracia nas mãos de ninguém menos que um ex-agente da KGB – o serviço secreto soviético –, Vladimir Putin, que, economia embalada pela escalada de preços dos hidrocarbonetos, alcançou níveis de popularidade dignos de um Lula da Silva.

Indiferença e indignação

Hoje, o Kremlin volta a estender seus longos braços pela nação e a glasnost esfumou-se. Tudo é velado, jornalistas assassinados, verdades se dissolvem na névoa que encobre um totalitarismo de aparência democrática, eleitoralmente referendado.

Ninguém esperava, contudo, que o Brasil, finalmente embarcado no trem do futuro, retomasse o caminho dos gastos perdulários, da irresponsabilidade fiscal. Não se imaginava possível tamanha degradação das instituições, o ‘nada a declarar’, agora subliminarmente embutido no silêncio com que se ‘responde’ a perguntas incômodas.

O inquérito sobre Waldomiro Diniz, por exemplo. Argumente-se com o ministro da Justiça que a lei estabelece prazo – de há muito expirado – para sua conclusão e que seu eventual arquivamento pode ser determinado exclusivamente pelo Judiciário. A resposta será um clamoroso silêncio, ou, no máximo, uma tergiversação qualquer.

Que poder é esse que mantém um jornal sob censura há já quase dois meses? Aonde foram parar os escândalos do Senado e da Câmara? Escafederam-se em meio à encenação da CPI da Petrobras, às alegorias do pré-sal e à elevação do país à categoria de potência econômico-militar terceiro-mundista, a bordo de caças Rafale e outras maravilhas bélicas.

O silêncio que responde a incontáveis questões ecoa entre a indiferença das autoridades e a indignação da sociedade.

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Administrador de empresas, São Paulo, SP

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