Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > MEIO AMBIENTE

Ecologia e censura prévia

Por Kleber Galvêas em 10/04/2012 na edição 689

O texto a seguir foi oferecido aos nossos principais jornais, A Gazeta e A Tribuna, como faço com sucesso desde 1966. Não houve interesse nesta publicação. Quando a Vale comemorar 15 anos como empresa privada, em maio de 2012, o projeto “A Vale, a vaca e a pena” chegará à 16ª edição. A primeira tela desenhada com a poluição atmosférica, em 1997 (veja o processo do desenho em www.galveas.com), mostra um labirinto e a inscrição “Encontramos a saída”? Julgava que, sendo a Vale uma empresa estatal, a fiscalização feita pelo Estado estava relaxada. Perguntava se, com a privatização, a poluição seria fiscalizada.

Nesse ano seu lucro foi de U$ 270 milhões e ela foi vendida em leilão por U$ 3,7 bilhões. A nossa instalação artística foi planejada como registro do último ano de poluição da estatal. Porém, ao perceber que o pó preto em nossa casa e no trabalho estava aumentando visivelmente, remontamos a instalação em 1998, nas mesmas condições do primeiro ano, e desenhamos mais uma tela para a coleção da Casa da Memória do ES.

Em seu primeiro ano como empresa privada, o lucro da Vale foi de U$ 756 milhões; no ano seguinte, de U$ 1,29 bilhões. Quinze anos depois, chega a quase U$ 30 bilhões. Enquanto o lucro da empresa alcança valores astronômicos pelo desempenho fantástico da sua área financeira, impressiona a decadência da qualidade de vida em seu entorno: aumento da poluição e dos problemas sociais e políticos.

Ninguém quer como vizinho

Quando as primeiras siderúrgicas foram instaladas na Ponta de Tubarão, a sotavento da Grande Vitória, os cientistas Augusto Ruschi e Michel Bergman apontaram a impropriedade do local. Naquele tempo, a consciência ecológica era restrita e se fazia premente a geração de empregos devido à quebra do café, do cacau e à forte migração do campo para nossa capital. Entretanto, uma empresa considerada de alto risco já no início, quando suas dimensões eram relativamente modestas, vem se expandindo de forma exponencial ao longo dos últimos anos.

No relatório da CPI da Poluição da AL-ES, Resolução nº 1.808/95, portanto três anos antes da privatização, médicos e cientistas (José Carlos Perini, Ana Maria Cassatti, Valdério Dettoni e Ennio Candotti) apontaram danos irreversíveis à nossa saúde persistindo a poluição das siderúrgicas. Não foram ouvidos. Quanto maior o lucro, mais ativa foi a siderúrgica, o que gerou maior produção e mais poluição. O descaso do governo em identificar os responsáveis faz contraponto com a lista, publicada na imprensa, dos principais contribuintes às campanhas eleitorais do governo.

No século 21, com expressiva consciência ecológica e existindo uma proposta de transferir o parque siderúrgico de Tubarão (considerando que esse custo será absorvido pelo formidável lucro anual da Vale, quase dez vezes maior do que o preço pago por toda ela), a mudança se faz oportuna. Quando julgávamos que, no alvorecer deste século, a fase de expansão das siderúrgicas em Tubarão havia cessado, o governo passado autorizou a construção da Usina 8, gigante que faz as sete usinas pioneiras parecerem anãs. Com dimensões fabulosas, é coisa que ninguém no mundo quer ter como vizinho. Ressuscitaram as wind fences, cercas para vento que haviam sido rejeitadas por eles mesmos nos anos 90, e mais uma vez convenceram quem ansiava por ser convencido: o governo.

“Oscar da Vergonha”

Com uma escova ou pincel, lance sobre uma folha de papel um pouco do pó que pelo ar chega à sua casa todos os dias. Sob essa folha, movimente um ímã, desses que enfeitam a geladeira. Observe que parte da poeira sobre a folha acompanha a movimentação do ímã. Essa poeira que o segue é constituída de pequenas limalhas: fragmentos de ferro Fe2, a maioria com dimensões microscópicas. Ela é importante matéria-prima que há 16 anos uso para desenhar as telas da nossa provocação artística, graças à “generosidade” sempre crescente, das grandes empresas de Tubarão. Gostaria muito que ela me faltasse este ano.

Este texto faz parte da 16ª edição do projeto A Vale, a vaca e a pena. Como faço há 16 anos, no dia 17 de março instalei uma tela para receber a poeira por 50 dias. Este ano acredito que será especial, pois a Vale completa 15 anos como empresa privada; as wind fences foram instaladas e a poluição aumentou; a empresa recebeu o “Oscar da Vergonha” e a super Usina 8 deve começar a funcionar.

***

[Kleber Galvêas é pintor, Vila Velha, ES]

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