Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > WATERGATE, 40 ANOS

Nixon era pior do que pensávamos

Por Carl Bernstein e Bob Woodward em 19/06/2012 na edição 699
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 17/6/2012; tradução de Celso Paciornik, intertítulos do OI

Quando o senador Sam Ervin encerrou sua carreira de 20 anos no Senado em 1974 e divulgou seu relatório final como presidente da comissão do Senado sobre Watergate, ele fez a pergunta: “O que foi Watergate?” Incontáveis respostas foram oferecidas nos 40 anos desde o 17 de junho de 1972, quando um grupo de arrombadores com ternos e luvas de borracha foi detido às 2h30 na sede do Partido Democrata no edifício Watergate em Washington. Quatro dias depois, a Casa Branca de Richard Nixon ofereceu sua resposta: “Alguns elementos podem esticar isso além do que foi”, ironizou o secretário de imprensa Ronald Ziegler, desmerecendo o incidente como “ladroagem de terceira classe”.

A história provou que era tudo menos isso. Dois anos depois, Nixon se tornaria o primeiro e único presidente dos Estados Unidos a renunciar, uma vez estabelecido seu papel na conspiração criminosa – o encobrimento de Watergate – para obstruir a justiça. Outra resposta persistiu desde então, em geral não contestada: a noção de que o encobrimento foi pior do que o crime. Essa ideia reduz a importância da escala e do alcance das ações criminosas de Nixon.

A resposta de Ervin à sua pergunta sugere a magnitude de Watergate: “Destruir, no que diz respeito à eleição presidencial de 1972, a integridade do processo pelo qual o presidente dos EUA é indicado e eleito”. Mas Watergate foi muito mais que isso. No seu aspecto mais virulento, foi um ataque insolente e ousado, liderado por Nixon, ao cerne da democracia americana: a Constituição, nosso sistema de eleições livres, o estado de direito.

Hoje, muito mais do que quando cobrimos essa história quando jovens repórteres do Washington Post, um registro abundante oferece respostas inequívocas sobre Watergate e seu significado. Esse registro expandiu-se ao longo das décadas com a transcrição de centenas de horas das fitas secretas de Nixon, acrescentando detalhes e contexto às audiências no Senado e na Câmara; os julgamentos e declarações de culpa de aproximadamente 40 assessores e associados de Nixon que foram para a prisão; e as memórias de Nixon e de seus assistentes, cuja documentação permite rastrear o controle do presidente sobre uma ampla campanha de espionagem política, sabotagem e outras atividades ilegais contra seus adversários reais ou percebidos.

Durante sua presidência de cinco anos e meio, iniciada em 1969, Nixon iniciou e geriu cinco guerras sucessivas e superpostas – ao movimento contra a Guerra do Vietnã, à mídia noticiosa, aos democratas, ao sistema judiciário e, finalmente, à própria história. Tudo refletiu uma mentalidade e padrão de comportamento que era exclusiva de Nixon: a disposição de burlar a lei por vantagens políticas, e a busca de podres e segredos de seus adversários como um princípio organizador de sua presidência.

Antes da invasão de Watergate, investigações furtivas, arrombamentos, grampos telefônicos e sabotagem política haviam se tornado um modo de vida na Casa Branca de Nixon.

O que foi Watergate? Foi cinco guerras de Nixon.

Primeira guerra

A primeira guerra de Nixon foi contra o movimento contra a Guerra do Vietnã. O presidente o considerava subversivo e achava que ele limitava sua capacidade de tocar a guerra no Sudeste Asiático à sua maneira. Em 1970, ele aprovou o ultrassecreto Plano Huston, autorizando a CIA, o FBI e unidades da inteligência militar a intensificarem a vigilância de indivíduos identificados como “ameaças à segurança doméstica”. O plano incluía, entre outras coisas, interceptar correspondência e levantar restrições à “entrada furtiva” – isto é, arrombamentos e buscas ilegais de evidências.

Thomas Charles Huston, o assessor da Casa Branca que idealizou o plano, informou Nixon de que o plano era ilegal, mas o presidente o aprovou mesmo assim. Ele só foi formalmente rescindido quando o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, fez objeção – não por questões de princípio, mas porque considerava esses tipos de atividades uma prerrogativa do FBI. Sem se convencer disso, Nixon continuou obcecado por essas operações.

Num memorando de 3 de março de 1970, o assessor presidencial Patrick Buchanan escreveu a Nixon sobre o que chamou de “poder institucionalizado da esquerda concentrado nas fundações que auxiliam o Partido Democrata”. A preocupação era a Brookings Institution, um centro de estudos em Washington com inclinações liberais.

Em 17 de junho de 1971 – exatamente um ano antes do assalto a Watergate – Nixon reuniu-se no Salão Oval com seu chefe de gabinete H. R. “Bob” Haldeman e o consultor de Segurança Nacional Henry Kissinger. Em questão estava uma pasta sobre o tratamento dado pelo ex-presidente Lyndon Johnson à paralisação dos bombardeios ao Vietnã em 1968.

“Dá para chantagear Johnson com essa coisa, e pode valer a pena”, disse Haldeman, segundo a fita gravada do encontro. “Pode, mas o Bob e eu viemos tentando montar a droga da coisa há três anos, disse Kissinger. Eles queriam a história completa das ações de Johnson. “Huston jura por Deus que há uma pasta sobre isso na Brookings”, disse Haldeman. “Bob, lembra do plano Huston? Implemente-o… quer dizer, quero que seja implementado de forma furtiva. Que diabo, entre e consiga essas pastas. Estoure o cofre e pegue-as”, disse Nixon. Por razões que nunca foram esclarecidas, a invasão não foi concretizada.

Segunda guerra

A segunda guerra de Nixon foi movida incessantemente contra a imprensa, que estava reportando com maior insistência sobre a oscilante Guerra do Vietnã, e a eficácia do movimento contra a guerra. Apesar de Hoover pensar que havia dado um fim ao Plano Huston, este foi aplicado por assessores de alto escalão de Nixon.

Uma primeira missão foi destruir a reputação de Daniel Ellsberg, que havia fornecido os Papéis do Pentágono, a história secreta da Guerra do Vietnã, à mídia em 1971. A publicação dos documentos no New York Times, no Washington Post, e depois em outros jornais fez Nixon vociferar, conforme ficou registrado em suas fitas, contra Ellsberg, o movimento contra a guerra, a imprensa, os judeus, a esquerda americana e os liberais no Congresso – tudo misturado. Embora Ellsberg já estivesse indiciado e acusado de espionagem, a equipe chefiada por Liddy (G. Gordon Liddy, um ex-agente do FBI) e Hunt (Howard Hunt, um ex-agente da CIA) invadiu o consultório do psiquiatra de Ellsberg em busca de informações que pudessem enlamear a reputação dele e minar sua credibilidade no movimento contra a guerra.

“Você não pode deixar pra lá, Bob”, disse Nixon a Haldeman em 29 de junho de 1971. “Não dá pra deixar o judeu roubar aquela coisa e se safar. Entende?” E prosseguiu: “O povo não confia nessa gente do establishment do Leste. Ele é de Harvard. Ele é judeu. Você sabe, e é um intelectual arrogante.” Os furores antissemitas de Nixon eram conhecidos pelos que trabalhavam perto dele, entre os quais alguns assessores judeus.

Como reportamos em nosso livro de 1976, The Final Days (No Brasil, Os Últimos Dias, Editora Francisco Alves, 1976), ele dizia a seus assistentes, incluindo a Kissinger, “a conspiração judaica quer me pegar”. Numa conversa com Haldeman em 3 de julho de 1971, ele disse: “O governo está cheio de judeus. Segundo, a maioria dos judeus é desleal. Você sabe o que eu quero dizer? Você tem um Garment (o conselheiro da Casa Branca, Leonard Garment) e um Kissinger e, francamente, um Safire (o escritor de discursos William Safire), e, por Deus, há exceções. Mas Bob, em geral, não dá pra confiar nos bastardos. Eles se viram contra você.” O vazamento de Ellsberg pareceu alimentar seu preconceito e sua paranoia.

Em 1969, em resposta a suspeitas de vazamentos à imprensa sobre o Vietnã, Kissinger havia ordenado ao FBI que grampeasse, sem autorização judicial, os telefones de 17 jornalistas e assessores da Casa Branca. “A imprensa é nossa inimiga”, explicou Nixon cinco anos depois em uma reunião com o almirante Thomas H. Moorer, chefe do Estado-maior Conjunto, segundo outra fita.

Terceira guerra

Na terceira guerra de Nixon, ele pegou as armas disponíveis – Plumbers (um grupo centrado na Casa Branca para investigações secretas), escuta telefônica ilegal e arrombamentos – e as usou contra os democratas que desafiavam sua reeleição. John N. Mitchell, diretor de campanha e confidente de Nixon, conheceu Liddy no Departamento de Justiça no início de 1972, quando Mitchell era procurador-geral. Liddy apresentou um plano de US$ 1 milhão para atos de espionagem e sabotagem durante a campanha presidencial seguinte.

Segundo o relatório do Senado sobre Watergate e a autobiografia de Liddy, ele usou gráficos coloridos preparados pela CIA para descrever elementos do plano. Mitchell rejeitou os planos e disse para Liddy queimar os gráficos.

Numa segunda reunião, menos de três semanas depois, Liddy apresentou uma versão do plano reduzida, de US$ 500 mil; Mitchell o rejeitou de novo. Mas logo em seguida Mitchell aprovou uma versão de US$ 250 mil, segundo Jeb Magruder, o diretor-assistente da campanha. O plano incluiu coletar informações secretas sobre democratas por meio de grampos telefônicos e roubo.

A investigação do Senado forneceu mais detalhes sobre a eficácia dos esforços secretos contra o candidato presidencial democrata Edmund Muskie, que em 1971 e começo de 1972 era considerado pela Casa Branca o democrata mais capaz de derrotar Nixon. A campanha do presidente pagou ao motorista de Muskie, um voluntário da campanha chamado Elmer Wyatt, US$ 1 mil por mês para fotografar memorandos internos, cronogramas e documentos sobre estratégia, e entregar cópias a Mitchell e ao pessoal da campanha de Nixon.

Outras sabotagens dirigidas contra Muskie incluíram releases noticiosos e alegações falsas de deslizes sexuais contra outros candidatos democratas – registrados em papéis timbrados falsos de Muskie.

As fitas revelaram também a obsessão de Nixon por outro democrata: o senador Edward Kennedy. Uma das primeiras empreitadas de Hunt foi desencavar sujeiras na vida sexual de Kennedy a partir de um acidente de carro em 1969 em Chappaquiddick, Massachusetts, que resultou na morte de uma jovem assessora de Kennedy, Mary Jo Kopechne. Embora Kennedy houvesse prometido não disputar a presidência em 1972, ele certamente teria um importante papel na campanha e não era carta fora do baralho na corrida presidencial em 1976.

“Eu gostaria mesmo que Kennedy fosse grampeado”, disse Nixon a Haldeman em abril de 1971. O presidente também queria que Kennedy fosse fotografado em situações comprometedoras e as fotos fossem enviadas à imprensa.

Quarta guerra

A prisão dos invasores de Watergate colocou em movimento a quarta guerra de Nixon, contra o sistema de justiça americano. Era uma guerra de mentiras e subornos, uma conspiração que se tornou necessária para ocultar o papel desempenhado por autoridades e ocultar a espionagem ilegal e sabotagem política da campanha do presidente.

Numa gravação de 23 de junho de 1972, seis dias após as prisões em Watergate, Haldeman advertiu Nixon: “Na investigação, a coisa da invasão democrata, nós estamos na zona de problema, porque o FBI não está sob controle… sua investigação agora está levando a algumas áreas produtivas, pois eles conseguiram rastrear o dinheiro.” Haldeman disse que Mitchell havia enviado um plano para a CIA alegar que segredos de segurança nacional ficariam comprometidos se o FBI não parasse sua investigação sobre Watergate.

Nixon aprovou o esquema e ordenou que Haldeman telefonasse ao diretor da CIA, Richard Helms, e a seu vice, Vernon Walters: “Jogue duro”, orientou o presidente. “É assim que eles jogam, e é assim que nós vamos jogar.” Os conteúdos da fita foram tornados públicos em 5 de agosto de 1974. Quatro dias depois, Nixon renunciou.

Em outra fita, de 1.º de agosto de 1972, seis semanas após a prisão dos arrombadores, e no dia em que o Washington Post publicou nossa primeira matéria mostrando que dinheiro da campanha de Nixon tinha ido para na conta bancária de um dos arrombadores, Nixon e Haldeman discutiram sobre pagar os arrombadores e seus líderes para evitar que eles falassem com investigadores federais. “Eles precisam ser pagos”, disse Nixon. “Isso é tudo que há para fazer.” Em 21 de março de 1973, em uma das conversas mais memoráveis sobre Watergate registradas em fita. Nixon se reuniu com seu consultor, John W. Dean, que desde a invasão havia sido encarregado de coordenar o encobrimento.

“Estamos sendo chantageados por Hunt e os arrombadores e mais pessoas “vão começar a se perjurar”, relatou Dean. “De quanto dinheiro você precisa?” perguntou Nixon “Eu diria que essas pessoas vão custar US$ 1 milhão nos próximos dois anos”, respondeu Dean.

Quinta guerra

A guerra final de Nixon, travada até hoje por alguns ex-assessores e revisionistas históricos, pretende reduzir o significado de Watergate e apresentá-lo como um incidente menor no histórico do presidente.

Nixon viveu 20 anos depois de renunciar e trabalhou incansavelmente para reduzir a importância do escândalo. Embora tivesse aceitado o perdão integral do presidente Gerald Ford, Nixon insistiu em que não havia participado de nenhum crime. Em suas entrevistas na TV ao jornalista britânico David Frost, em 1977, ele disse que havia “desapontado o povo americano”, mas não havia obstruído a justiça. Em seu livro de memórias de 1978, Nixon abordou seu papel em Watergate: “Minhas ações e omissões, embora lastimáveis e possivelmente indefensáveis, não eram passíveis de impeachment”. Doze anos depois, em seu livro In the Arena (Na arena), ele rejeitou uma dezena de “mitos” sobre Watergate e afirmou que era inocente de muitas acusações feitas contra ele.

Um dos mitos, segundo Nixon, foi que ele ordenou o pagamento de suborno a Hunt e outros. Mas a fita de 21 de março de 1973 mostra que ele ordenou 12 vezes que Dean conseguisse o dinheiro.

O Watergate sobre o qual escrevemos no Washington Post de 1972 a 1974 não é o Watergate que conhecemos hoje. Foi apenas um vislumbre de algo muito pior. Na época em que foi obrigado a renunciar, Nixon havia transformado sua Casa Branca em uma empresa criminosa.

No dia em que saiu, 9 de agosto de 1974, Nixon fez um discurso de despedida emocionado ao seu staff. Perto do fim de suas observações, ele agitou os braços, como se para salientar a coisa mais importante que tinha para dizer. “Lembrem-se sempre, outros podem odiá-lo, mas os que o odeiam não vencerão a menos que você os odeie, e aí você se destrói.” Seu ódio havia provocado sua queda. Nixon aparentemente teve esse insight, mas era tarde demais. Ele já havia se destruído.

***

[Carl Bernstein e Bob Woodward, para o Washington Post]

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