Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > CADERNOS CULTURAIS

Em ritmo de transformação

Por Sérgio Luiz Gadini em 03/07/2012 na edição 701
Reproduzido do Suplemento Literário de Minas Gerais, edição especial “Reflexões sobre o jornalismo cultural”, Belo Horizonte, 2012

Qual a relação entre o modelo hegemônico do jornalismo cultural brasileiro com a gradual queda de tiragem dos diários impressos do País? Quais as principais características editoriais do jornalismo cultural dos diários impressos brasileiros? Como tais editorias se estruturam?

Não há um modelo único que marca a produção diária das editorias ou seções de cultura nos principais impressos do Brasil. Mas, com base nos produtos que circulam na grande maioria das cidades do País, pode-se falar em eixos ou orientações gerais que, para além das marcas regionais, estão presentes nas páginas cotidianamente publicadas pelos diários brasileiros. Tais indicações variam e apontam algumas características em comum, independentemente de região ou alcance, marcam o jornalismo cultural produzido pela mídia impressa brasileira.

Um estudo realizado entre 2002 e 2004, a partir de um acompanhamento dos cadernos culturais de 20 diários de 14 estados, retratou as principais características editoriais, em termos de formato, estrutura do produto, temas, seções e abrangência. Sem repetir dados (que estão disponíveis no livro Interesses Cruzados, publicado pela Editora Paulus, em 2009), tais orientações são as seguintes.

O tamanho dos cadernos culturais oscila entre 6 e 12 páginas diárias, na maioria dos casos em formato standard, conforme modelo ainda hegemônico no Brasil. Os referidos diários se aproximam, quando o assunto é editoria de cultura, em uma estrutura que agrega (1) material jornalístico (notícia, reportagem, entrevistas diretas, além de eventuais breves notas); (2) crítica cultural (inclui, aqui, espaço de articulista em forma de nota ou texto comentado ou breve ensaio; (3) coluna social; (4) serviço ou roteiro, com sinopses de cartaz de cinema, endereço e programação de cine, teatro, roteiros de museus, centros culturais, bares e outros espaços com atividades artístico-culturais; (5) programação ou guia de TV, com destaque para filmes do dia, seriados em exibição e informações sobre atores de telenovela, geralmente nos canais da televisão aberta; e (6) variedades.

E quem produz o material veiculado nos cadernos culturais dos diários do País? Matérias se dividem entre produção local (exclusiva, pela reportagem) e produção de agências noticiosas que, em geral, são reproduzidas sem muito questionamento, quase simultaneamente, nas páginas culturais de diferentes regiões, mesmo que a pauta não tenha a devida pertinência e proximidade do público-alvo.

Na maioria dos casos, a editoria de cultura está estruturada na forma de caderno (lógica do 'segundo', desde reformas editoriais da década de 1950) e, em termos de abrangência temática, a publicação apresenta cerca de 50% das matérias sobre assuntos locais ou regionais. Isso, claro, do espaço jornalístico ocupado pela média dos cadernos. A lógica noticiosa dialoga e considera demandas regionais de eventos, lançamentos, inaugurações artísticas e demais ações culturais, seja a partir da respectiva capital político-administrativa ou o Estado em que tais diários circulam predominantemente. Sem dúvidas, os jornais das duas maiores cidades (Rio e SP) circulam com uma média superior de material 'local', oscilando em 80% do material jornalístico publicado.

Em geral, constata-se ainda uma orientação editorial que marca os cadernos culturais, cada vez mais próxima de temas relacionados à produção televisiva, dialoga com demandas de lazer local, convive com a lógica do colunismo social; as variedades (adaptadas do jornalismo de revista nas primeiras metades da década do século XX), tensionam com os roteiros dos espaços tradicionais da área, operam como estratégia de agendamento temático, além de eventuais análises (em forma de crítica ou comentário). E este mesmo (inter)agendamento não está distante do que acontece ou é produzido nos demais meios de comunicação, bem como nos espaços culturais locais, ganhando visibilidade e, ao mesmo tempo, legitimando a existência (social) dos tais cadernos culturais.

Modelo (cultural) em crise?

Mas desde quando essas orientações hegemônicas estão presentes na área? Pode-se afirmar que tais eixos ainda são predominantes ou já é possível apontar aspectos que indicam a emergência de mudanças ou, de forma diferente, se falar em ‘crise’ dos formatos editoriais hegemônicos? Neste caso, quais seriam as tendências de transformação?

Este é o modelo hegemônico da grande maioria dos jornais que produzem/circulam cadernos culturais diários no Brasil. E é um modelo não tão recente, pois foi se instituindo a partir da década de 1950, quando diários (caso Jornal do Brasil e Folha S. Paulo, por exemplo) passam a circular com editorias culturais mais autônomas. E, como se vê, as principais orientações deste 'modelo' hegemônico foram adaptadas, de variáveis do próprio meio impresso (como as revistas, gerais ou segmentadas), da crescente influência televisiva no cotidiano brasileiro, a manutenção das críticas dos suplementos literários (forte entre os anos 1950 e 1970), bem como buscando-se manter uma marca de produto jornalístico cultural.

O debate em torno da identificação de crises dos modelos hegemônicos em Jornalismo Cultural no Brasil já é corrente há mais de uma década. O jovem Daniel Piza (in memoriam) chegou a discutir o assunto em vários textos (como Jornalismo Cultural. SP: Editora Contexto, 2003). Mas a tal crise parece envolver variáveis externas às opções editoriais da área.

Pode-se dizer que, basicamente, duas variáveis tensionam as diretrizes editoriais ainda hegemônicas no Jornalismo Cultural (diário) brasileiro. De um lado, as transformações sócio-econômicas que, ao longo dos últimos 10 anos, reconfigurou a tradicional pirâmide social do País. Sem ficar preso aos indicadores econômicos, não se pode ignorar que o aumento relativo do poder aquisitivo de parte da população brasileira recolocou também a mídia impressa ao alcance, ainda que modesto, de um maior número de leitores, mesmo que motivados por sentir-se incluídos na informação rápida e de efeito informativo restrito em breves notas, bem apresentado pelos chamados jornais voltados às classes D e E.

Dois indicadores ajudam a pensar este cenário. O estudo Observador Brasil 2012 revela um aumento crescente no tamanho da classe C, atingindo mais de 50% da população econômica do País no final de 2011, enquanto as classes D e E registraram uma redução de 50% para 24% da população em apenas seis anos (de 2005 a 2011).

E o que esta variável econômica tem a ver com o mercado cultural e, pois, também com a produção jornalística voltada ao setor? A reconfiguração do poder aquisitivo passa a incluir outros produtos em condição de acesso a um maior número de pessoas. Cinema, música e, em certos aspectos, também mídia impressa. Isso sem falar nos produtos eletrônicos.

É oportuno situar os dados de tiragem e circulação dos diários impressos brasileiros na última década. No ano 2000 os jornais chamados (ou que, ainda, se consideram) tradicionais estavam no topo dos diários com maior circulação no País. O diário de maior tiragem registrava a média de 430 mil exemplares. E entre os 10 maiores 8 estavam no eixo Rio/SP e 7 ou 8 eram voltados às classes A/B. Ao menos era o que se dizia!

No início de 2012, estes números indicam um outro cenário. Cinco dos 10 diários de maior circulação são considerados 'diários' populares, voltados às classes D e E, talvez no máximo para C. E, ao mesmo tempo, cinco entre os 10 de maior circulação, circulam fora das duas grandes metrópoles nacionais. Coincidência ou não, o diário de maior circulação é um destes voltados às classes C, D e E, com cerca de 290 mil exemplares e não é editado no eixo Rio/SP.

Como se vê, em números absolutos, a circulação de diários aumentou muito pouco, se comparado ao crescimento populacional. Enquanto em 2000 a média diária de jornais era de 7,9 milhões, em 2011 este número ficou em 8,6 milhões de exemplares. Todas as informações são de diversas entidades da área ou de indicadores do mercado de impressos no Brasil.

Mas, em números absolutos, comparativamente ao crescimento populacional e considerando o universo aproximado de 195 milhões de habitantes, o Brasil ainda está longe de uma média razoável de consumo per capita de mídia impressa diária!

Seria possível dizer que o mercado democratizou? Não necessariamente, mas é inegável o aumento nas condições de consumo e acesso a bens ou produtos culturais. Ao mesmo tempo em que o número de pessoas que, no início da década 2000, garantia tiragem para alguns jornais (tradicionais), não é mais tão fiel e tampouco parece manter interesse no modelo hegemônico. A redução da tiragem de tais diários, portanto, está associada a outros indicadores de mercado, mas possivelmente envolve outros aspectos, que não apenas a propagada eficácia de alguns grandes grupos empresariais de mídia.

E, por consequência, o que era (quase) consensualmente orientação editorial no início da década passada, hoje pode-se dizer que sofre ajustes ou adaptações, em função destas mesmas reconfigurações sócio-econômicas. Simples, embora ainda não seja fácil prever os próximos deslocamentos. Não é, pois, casual que a diagramação televisual dos diários populares possui outras características quando fala em cultura, se comparado aos perfis 'jornalões'.

Considere-se, aqui, a crescente ampliação do que se entende por cultura… cada vez mais próximo do lazer/diversão e, ao mesmo tempo, mais distante dos modernos esforços de reflexões ou consumo para pensar o mundo. A lógica televisiva que marca os jornais também vai, assim, 'contaminando' os outrora grandes diários, na medida em que temas e pautas que abordam produções televisivas (que envolvem diretamente setores da indústria fonográfica, em parte o cinema e diretamente a TV, em especial programas de auditório e tele-casas). Assim, não é casual o fortalecimento de conglomerados midiáticos que também contam com produtos impressos.

Tais diários – populares ou não –, para além do reforço estratégico da cultura televisual, contribuem para a legitimação de cenário cultural que dialoga cada vez mais com estratégias de lazer/entretenimento, reagendando comportamentos e hábitos de consumo. Se isso é bom ou ruim, é outro problema. Fato é que algumas destas transformações estão atingindo diretamente as orientações editoriais hegemônicas do Jornalismo Cultural (diário) brasileiro.

Entretanto, os diversos setores das tais indústrias culturais não parecem registrar tanta crise. Os modelos hegemônicos, sim, registram mudanças… com impactos nas formas de viver (pensar e consumir).

Efeito em redes… com impactos culturais

Por fim, a outra variável que envolve o modelo hegemônico editorial também no Jornalismo Cultural diz respeito à presença, ao rápido crescimento e ao impacto da internet na produção de mídia. Sem qualquer ressentimento de que as redes forçaram redução dos impressos, fato é que a disponibilização de dados e informações, outrora exclusivos aos consumidores de produtos impressos, ganharam espaço nas redes digitais.

E, ao mesmo tempo, o modelo pouco interativo, em boa medida sustentado na linearidade emissora, passou também a encontrar resistência, na mesma proporção em que o crescimento das condições de acesso à internet gerou um aumento de espaços de expressão (cultural e informativa).

O questionamento (mesmo que indireto) e o enfraquecimento do modelo hegemônico do jornalismo cultural brasileiro parece, assim, dialogar com o simultâneo fortalecimento das redes sociais, que possibilitam reconfigurações ainda experimentais nas formas de relacionamento, organização da vida e dos espaços culturais, bem como nos modos produzir, circular e consumir informação. Neste aspecto, parece mesmo que os principais eixos de orientação editorial na produção jornalística da cultura precisariam, com certa urgência, ser reavaliados, sob pena de pagar um preço ainda maior ao que, até o momento, já se registrou em termos de impacto, influência e presença do jornalismo no cenário cultural brasileiro.

***

[Sérgio Luiz Gadini é jornalista e professor da UEPG (Curso de Jornalismo e do Programa de Mestrado em Jornalismo), autor, entre outros ensaios, do livro Interesses Cruzados: a produção da cultura no jornalismo brasileiro (Paulus, 2009)]

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