Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > CELEBRIDADES

Neymar está cansado. Nós, também

Por Aurélio Munhoz em 03/07/2012 na edição 701

Seu nome é Ivo Schiter. Completa 81 anos no dia 26 deste mês. Com um sorriso permanente no rosto, marcado pelos rigores do tempo, Ivo é uma das pessoas mais respeitadas pela sua vizinhança, no bairro Cajuru, em Curitiba. Mora lá há quase quatro décadas em uma casa de madeira, humilde como ele.

Gaúcho de Porto Alegre, mudou-se com a família para Curitibanos (SC), onde começou a trabalhar na lavoura ainda criança, aos nove anos. Depois, foi mecânico, soldador, caminhoneiro. Fez outras tantas coisas duras na vida, como abrir estradas usando apenas uma picareta, no governo do presidente Getúlio Vargas. Tem as mãos acentuadamente calejadas pelas décadas de lida.

Deveria ter se aposentado aos 65 anos, como todo trabalhador. Mas como a mãe só o registrou com dez anos de idade, levou mais uma década para conquistar o benefício. Mas não o descanso. No limiar dos seus 81 anos, Ivo Schiter continua trabalhando. É borracheiro, já há 36 anos. “Quebro um galho na borracharia para ajudar meu filho porque está difícil achar quem queira trabalhar”, explica, impressionado com a falta de disposição de muitos jovens para o suor no rosto.

Conheci-o no domingo anterior ao 1º de maio, Dia do Trabalho, quando muitos comerciantes preferem a companhia da família ao burburinho da freguesia. Estava na borracharia, sujo da planta dos pés ao alto da cabeça, fazendo um conserto de emergência no pneu do carro de um conhecido. No dia da entrevista a este articulista, um típico domingo de frio e chuva em Curitiba, também havia trabalhado. Resolveu encarar o mau tempo para socorrer outro conhecido na estrada.

Exploração e frustrações

Lembrei-me de Ivo Schiter por força da enxurrada de notícias veiculadas pela mídia a respeito do cansaço de Neymar. No vigor dos seus 20 anos, o camisa 11 da seleção brasileira e do Santos alega fadiga por sua rotina de estádios, treinos, aeroportos, compromissos sociais e gravações de comerciais de rádio e de TV. É plausível que Neymar esteja fisicamente cansado da vida atarefada que leva, ainda que grande parte dela seja plena de glamour, fama e dinheiro. O talento no trato da bola impôs mesmo ao craque uma vida cheia de compromissos. E a velocidade supersônica do futebol moderno torna dura a vida dos artistas dos gramados.

Neymar, enfim, tem o direito de se sentir cansado. Por não vivermos sob a égide do arbeit macht frei (“o trabalho liberta”) – suprassumo da fraseologia nazista que se usava para escravizar os judeus nos campos de concentração – temos todo direito ao “ócio criativo”, como diria o sociólogo Domenico de Masi. O milionário e jovem Neymar, inclusive. O garoto do Santos é, com todos os méritos, nosso mais importante jogador de futebol, o que não é pouco no país com o maior acervo de títulos e ídolos do esporte.

Acontece que – perdoem-me os santistas fanáticos – milhões de brasileiros, incluindo muitos apaixonados por futebol, também estão cansados. Primeiro, de trabalhar, de fato. E de trabalhar duro, rotina diária de milhões de brasileiros que, diferentemente de Neymar, vivem histórias marcadas por cenários de exploração dos seus patrões, além de um infinito de frustrações no plano pessoal.

Noticiário bestializado

Segundo, cansados do escandaloso grau de atenção que a mídia dedica ao jovem – foco deste artigo. Da quase absoluta irrelevância e futilidade dos temas ligados ao talentoso jogador. Da tentativa de transformá-lo no herói e no gênio – uma espécie de Ayrton Senna dos gramados – que ele, decididamente, não é. De serem bombardeados por uma tão intensa saraivada de perfumarias e paparicações – sobre ele, como de resto sobre tudo o que é fútil – que ofendem até a mais limitada inteligência.

A overdose de Neymar se torna ainda mais ofensiva e irritante quando se sabe que o país tem um rol de problemas tão gigantescos como nosso território, mas que, a despeito disso, não merecem um milésimo da atenção dedicada ao garoto do Santos pela imprensa. Alguém vai se apressar em dizer que ninguém é obrigado a consumir o caudaloso noticiário dos veículos que fizeram de Neymar a mais festejada celebridade esportiva nacional. Há quem goste deste gênero de informação – e estas pessoas merecem o nosso respeito. Fica difícil acreditar, porém, que elas sejam maioria e que este gênero de besteirol justifique tanto espaço quanto informações de efetivo interesse público.

O cerne do problema é conhecido. Ao impor uma superexposição injustificada de Neymar, como de resto ocorre com tantas outras estrelas do show bizz, a mídia bestializa o noticiário porque revela uma clara escolha por um modelo de jornalismo não baseado na divulgação de notícias efetivamente relevantes para o conjunto da população brasileira.

Cardápio de futilidades

O modelo de jornalismo que esta mídia adota se sustenta no entretenimento, no banal, no espetáculo, na perfumaria travestida de informação que interessa a uma minoria, mas que, na verdade, é tomada como assunto de interesse geral – a maquiavélica falácia de se tomar a parte pelo todo. Esquece-se, com isso, que seu papel é fundamentalmente social e seu compromisso é com a maioria – lições básicas que qualquer calouro de jornalismo deve saber. Não custa reabrir as feridas para lembrar, limitando-nos ao caso das rádios e TVs, que estes veículos operam por meio de concessões públicas aprovadas pelo Congresso Nacional e sancionadas pela Presidência da República. Usufruem da isenção de vários impostos. E recebem generosas doses de dinheiro público de governos e estatais – privilégio de que também gozam certos jornalões, revistas e portais de notícias nacionais.

Deveriam, portanto, pautar seu trabalho prioritariamente pela defesa dos interesses nacionais de todos os brasileiros, o que não significa que a mídia deva excluir o jovem jogador do noticiário. Significa, apenas, que não há absolutamente nenhum sentido em se dar tanta relevância a um menino que, decididamente, pouquíssimo importa para o desenvolvimento desta nação.

Diferentemente de Ivo Schiter, o borracheiro octogenário que, a despeito das suas amarguras, continua firme na sua duríssima lida diária (a mesma de milhões de brasileiros), Neymar está cansado. Nós, também: dos mimos concedidos a ele e do lauto cardápio de futilidades que domina boa parte da mídia nacional.

***

[Aurélio Munhoz é jornalista e sociólogo, Curitiba, PR]

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