Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & EDUCAÇÃO

Greve e atrofia na educação brasileira

Por André Tessaro Pelinser em 10/07/2012 na edição 702

Volta e meia os educadores entram em greve no Brasil. Isso, no entanto, é redundância porque a educação como um todo está em greve nestas terras há muito tempo, há séculos talvez.

Eu mesmo já quis fazer minha greve particular e escrever um texto apenas com pontos, um texto formado somente por reticências, mas concluí que isso no final das contas não serviria para nada. Esse trabalho a mídia já faz quando do alto da sua liberdade escolhe omitir do leitor, do espectador, do ouvinte, informações realmente importantes sobre o que se passa na realidade, sobre os atores da vida social.

Escândalo e violência vendem mais e isso não é exclusivo da contemporaneidade. Sempre foi assim. Uma vez que os assuntos verdadeiramente relevantes demandam reflexão a partir de diversas perspectivas, buscando dar conta da sua complexa relação com a sociedade, eles se tornam chatos, maçantes e não vendem. E informação, todos sabem, é um negócio e está sujeito, portanto, às mesmas lógicas de mercado de muitos outros.

Para além delas, submete-se muitas vezes à ordem inescrupulosa do jogo político. Não faltam exemplos de tráfico de influência, de patifarias da pior espécie na história político-midiática brasileira. Ainda que o caso Cachoeira seja a bola da vez, da maneira como o encaramos ele não nos diz nada. É só mais um exemplo de um sistema generalizadamente corrupto que não sabemos como mudar. Com isso, a informação segue sendo refém de alguns poucos interesses, separada de qualquer pensamento efetivamente crítico.

A reação obtusa

É assim desde a escola. Um pouco por falta de preparo dos professores, outro tanto devido à falta de interesse dos alunos, o difícil não vende entre eles. Em sala de aula, não se acessa a complexidade da obra de um Machado de Assis, por exemplo. O aluno, de modo geral, não consegue ultrapassar a superfície do texto literário e o professor muitas vezes não atua como um veículo para que isso ocorra. Assim, a leitura não flui, torna-se chata e o texto não se dá a conhecer. Um gênio como Machado de Assis, aos olhos do estudante, parece não ter nada a dizer sobre nossos tempos. E aos olhos do educador mal preparado essa fissura parece irreparável.

De nada adiantaria, portanto, minha própria greve de palavras, muito embora eu seja abundante em ímpetos de desistência. Se na mídia já quase não há informações sobre a greve das Instituições Federais de Ensino Superior que assola o país, se os órgãos competentes praticamente não se manifestam, se professores e alunos se distanciam ainda mais neste momento em que deveriam unir suas vozes, vejo que de nada adiantaria mais silêncio.

É difícil não se decepcionar com o estado das coisas. Mesmo com a recente aprovação de 10% do PIB para a educação na Câmara dos Deputados, a situação está longe do ideal. A proposta, que ainda precisa ser aprovada pelo Senado e sancionada pela presidente, já gerou reações obtusas como a do ministro da Educação. Aloizio Mercadante anunciou que, se aprovada, a proposta será uma “tarefa política difícil de ser executada”. No Brasil, precisamente o ministro que deveria comemorar uma vitória histórica para seu ministério é o primeiro a se lamuriar dela.

Educação paralisada

Esse tipo de pensamento explica um tanto da inércia do governo federal para com a atual greve, que parece existir somente dentro dos portões das universidades. Lá, contudo, é o lugar em que a greve menos se faz ver. A paralisação nas universidades é apenas reflexo da paralisia em que se encontra a sociedade fora delas. A verdadeira greve está nas escolas e empresas onde vão parar os profissionais mal preparados por um sistema educacional altamente falho, que jamais foi prioridade no país das festas, dos jeitinhos e da patifaria.

Quando o ministro da Educação reclama do esforço político oriundo de uma medida histórica como essa, quando as agências de fomento à pesquisa ficam quatro anos sem reajustar as bolsas de pós-graduação, quando o MEC ignora solenemente uma greve de quase 60 instituições de ensino, quando tudo isso ocorre fica claro o que não é prioridade nestas terras.

A educação brasileira está paralisada há séculos. Jamais conseguimos produzir um prêmio Nobel de qualquer área que seja, nossas inovações tecnológicas e artísticas não possuem força para transcender as barreiras do nacional e não há um projeto decente, apoiado por reais vontades políticas e econômicas, para alavancar o único setor capaz de realmente revolucionar um país.

Como não fazer greve, greve de existência? Como é que o brasileiro não vai desistir?

***

[André Tessaro Pelinser é doutorando em Estudos Literários pela UFMG, Belo Horizonte, MG]

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