Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > MASSACRE EM DENVER

O sorriso de James Holmes

Por Mauricio Colares em 24/07/2012 na edição 704
Reproduzido da Agência Carta Maior, 22/7/2012; intertítulos do OI

Há homens que não são profetas, ao menos em seu sentido místico, mas que pelo uso da razão chegam muito longe na percepção de fatos que se darão futuramente e que, em verdade, ainda que em menor grau, já podem ser entre vistos desde então. Em 1950 Octavio Paz lançava O Labirinto da Solidão, um marco de uma mudança radical no pensamento filosófico, político e artístico da América Latina a partir do amplo retrato que traça da mexicanidade. Mas o que chamava e chama a atenção também nesta fundamental obra é a descrição da assombrosa tentativa de totalização do continente por uma nação que surrupia das outras a expressão Estados Unidos e que, ademais, impõe-se a todo o mundo. “O mundo foi construído por ele e está feito a sua imagem: é seu espelho”, dizia Paz. A lúcida e respeitosa descrição foi minimizada pelos americanos quando não rechaçada como a xenofobia de um mexicano.

Não obstante, o ataque numa sala de cinema, que deixou 12 mortos e mais de 50 feridos na cidade de Aurora, subúrbio de Denver, estado do Colorado, nos Estados Unidos, é o mais recente capítulo de um sistema descrito por Paz que “não pode senão provocar violentas rebeliões individuais”, onde a espontaneidade se vinga “em mil formas sutis ou terríveis”. É mais uma ocorrência da substituição daquilo que ele chamava “realidade real” por uma “outra realidade”, esta que hoje é denominada, por autores como Jean Baudrillard e Umberto Eco, de “hiper-realidade”. A ambiguidade, devido ao título do filme, nas manchetes de jornais – como, por exemplo: “Atirador deixa 12 mortos na estreia de Batman o cavaleiro das trevas ressurge” – e às entrevistas colhidas imediatamente após o ataque – “Nós continuamos a assistir o filme por um momento. Depois, ao perceber que os tiros eram reais, todos entraram em pânico” – dão conta disso.

“Barba por fazer e um ligeiro sorriso no rosto”

O fato de crimes como o ocorrido em Aurora caírem logo numa brutal naturalidade só demonstra o quanto nossas sociedades pós-modernas estão habituadas a esta hiper-realidade que, para Baudrillard, é justamente a “simulação de algo que nunca existiu” e que se exacerba no fundo das telas hollywoodianas. Uma das demonstrações mais fortes disso ocorreu no próprio atentado contra as torres gêmeas em 2001 quando muitas pessoas reagiram como se estivessem diante de imagens associadas a filmes de ação. “Eles [a plateia] primeiro acharam que era parte do filme, depois que fosse alguma espécie de brincadeira. De repente todos começaram a se jogar no chão e a correr para fugir do cinema”, relatou uma radialista americana neste caso de Aurora, e teve quem dissesse que o ocorrido foi “como uma cena de um filme de terror”.

E já que nos habituamos, junto com a comoção globalizada instantaneamente – um vídeo já está no YouTube –, vêm os desdobramentos usuais, que têm sempre como primeiro ponto traçar o perfil do assassino.

Neste caso, como não foram deixadas as cartas e vídeos que se tornaram comuns nesse tipo de acontecimento, as primeiras notícias dizem que “os motivos do ataque ainda não são conhecidos”, que o até então suspeito “não tinha antecedentes, a não ser uma multa por excesso de velocidade”, que seu nome é James Eaven Holmes, que tem 24 anos, que se formou na Universidade da Califórnia em 2010 e que atualmente cursa doutorado em Neurociências… Assim aquele que até então “ninguém o conhecia”, como disse o vizinho Ben, vai se tornando uma figura fascinante. Um certo Mitchell, que tomou uma cerveja com ele, ficou com a impressão de “alguém inteligente e com um jeito orgulhoso de andar”, e há quem o descreva pela foto como “um rapaz bonito, com cabelos escuros, sobrancelhas inclinadas e desiguais, e longas costeletas. A barba está por fazer; um ligeiro sorriso se esboça em seu rosto”.

Que inocência há em Hollywood?

Mais perigosas do que o fascínio que exercem nas massas em todas as eras aqueles que se tornam assassinos a partir de uma mistura de impotência e reação instintiva a um sistema, está a institucionalização lógica do massacre, como faz a polícia estadunidense ao tornar público que se tratou de “uma ação individual” e que Holmes “não tem vínculo algum com grupos terroristas”. Duplo ataque do Estado policialesco: um, diz que é possível um grupo de assassinos dispostos a praticar o mesmo tipo de ação praticada por Holmes, o que torna suspeito a qualquer um que não faça parte do roll dos bons americanos, mas que ao mesmo tempo implica todos os mesmos bons americanos; dois, que sua ação é a mesma de um terrorista, embora ele não o seja, e assim coloca todo o mundo sob a suspeição terrorífica. “Por uma parte a sociedade norte-americana se fecha ao exterior; por outra, interiormente, se petrifica. A vida não pode penetrá-la”, dizia Paz.

A própria comoção, em tempos de velocidade informática, é mais passageira que os cinco dias de luto estabelecidos pelo governo estadunidense em memória das vítimas e nada mudará na hiper-realidade cotidiana. O próprio arsenal de armas sofisticadas e o surpreendente sistema de explosivos armados no apartamento de Holmes, comprados pessoalmente ou adquiridos legalmente pela internet – e embora cineastas como Gus van Sant, em Elefante, e Michael Moore, em Tiros em Columbine, já tenham denunciado há muito a facilidade de se conseguir armas de fogo nos Estados Unidos –, não mudará em nada a política da influente National Rifle Association, que acusa o presidente Barack Obama de favorecer a estratégia das Nações Unidas de limitar o “direito constitucional dos cidadãos americanos de possuir armas de fogo”.

Apesar dos produtores de Batman, o Cavaleiro das Trevas Ressurge afirmarem que “ir ao cinema faz parte de nosso tecido social e este ato sem sentido nos choca profundamente”, em Hollywood a única preocupação é que o incidente afete as bilheterias. Afora isso, além do policiamento ostensivo nas salas desde então, por temor que o ataque seja copiado, e da proibição dos adolescentes em utilizar máscaras e vestimentas do filme, não haverá qualquer alteração na estética cinematográfica. O diretor do filme, Christopher Nolan, disse à imprensa que sentia um “profundo pesar por esta tragédia absurda”, que violou “a inocência do cinema”. Para todos que estamos acostumados a ver na tela a dizimação pelos bons americanos dos peles-vermelhas, vietcongues, latino-americanos, extraterrestres, intraterrestres, dinossauros etc., que inocência há em Hollywood? “Não seria mais exato dizer que os norte-americanos não desejam tanto conhecer a realidade como utilizá-la?”, perguntaria Paz.

“O homem e a mulher nunca crescem ou amadurecem”

O próprio Holmes joga com as contradições do sistema ao qual está imbricado: antes de começar seu ataque, gritou na sala de cinema “Eu sou o Coringa!”, e quando foi preso pela polícia afirmou: “Eu sou o Batman!”. Uma cruel ironia com o ingênuo maniqueísmo americano, do qual dizia Paz ser “de uma espécie muito particular”, pois “sua ingenuidade não exclui a dissimulação e, mais, a hipocrisia”. O que menos se quer realmente saber, porque na verdade é o óbvio do óbvio, é das causas ou mesmo das generalidades desse tipo de massacre. Os artifícios e esforços do poder, ao contrário, são para minimizar e apropriar-se desse clarão produzido por existências simples, esquecidas e estafadas de uma vida fabricada. “O que as arranca da noite na qual elas teriam podido permanecer é o encontro com o poder”, como diz Michel Foucault em A Vida dos Homens Infames.

Imediatamente, Holmes passou a aparecer numa ilustre lista da qual todos se tornaram conhecidos, da qual não deixa de fazer parte um brasileiro que matou três pessoas num shopping em São Paulo numa sessão de Clube da Luta, em 1999. Alguns dessa seleta lista até alcançaram o mérito de ter, por exemplo, a vida retratada em filmes, como nos de Sant e Moore citados acima, e como o colombiano Campo Elías Delgado, do filme Satanás, que por sinal tinha sido soldado nos Estados Unidos. Na verdade, o clássico do gênero é uma obra-prima esquecida hoje, Na Mira da Morte (Targets, 1968), de Peter Bogdanovich, a qual não é baseada em fatos reais. E nessa linha vai sendo traçada uma mortífera cartografia: entre tantos detalhes, não se deixou de observar que Aurora é um subúrbio de Denver perto do local do tiroteio de 1999 na escola de Columbine.

Há quem opine que não tem nada a ver a relação entre o assassino Holmes e os personagens do filme que utilizou justamente a première para fazer suas vítimas. A nosso ver esse crime, assim como outros em escolas e ambientes parecidos, é a resposta daqueles que foram infantilizados a uma sociedade hiper-real que os infantilizou. Segundo Paz, desde a infância a sociedade americana “submete a homens e mulheres a um inexorável processo de adaptação; certos princípios, conteúdos em breves fórmulas, são repetidos sem cessar pela imprensa, a rádio, as igrejas, as escolas e esses seres bondosos e sinistros que são as mães e esposas norte-americanas. Presos nesses esquemas, como a planta em um vaso que a afoga, o homem e a mulher nunca crescem ou amadurecem”.

“Sua vitalidade nega a morte, mas imobiliza a vida”

Jean-Luc Godard diz que “o maior crime dos homens maus é interromper a infância das crianças”. Uma forma de interrompê-la, e muito própria das sociedades hiper-reais, é cristalizá-la numa infantilização perpétua. A resposta instintiva a uma sociedade assim é hiper-realizá-la, elevando o nível do entretenimento mais vazio e esvaziador ao plano da aterrorização coletiva. É a escolha psicótica e calculada de um caminho brutal que Holmes e outros escolhem para se mostrarem reais e adultos por meio de uma cena que protagonizam na irrealidade da vida norte-americana. É uma violenta e assombrosa forma de anular por um instante, de um lado, o vazio de sua sociedade e, de outro, a hiper-realidade que a recobre como máscara holográfica.

Todas as instituições passam imediatamente a minimizar o ocorrido a partir da afirmação dos valores que compõem essa máscara, que se traduz bem no apelo de Obama: “Como fazemos quando confrontados por momentos de escuridão e desafio, devemos permanecer juntos como uma família americana.” Que poderia dizer Obama? De nada adianta estar juntos se não é para discutir de forma radical questões reais de percepção e mudança na estrutura da família americana, que aí está somente sendo utilizada por ele como metonímia de um Estado patriarcal fundado na palavra de ordem e amparado em metáforas tenebrosas (“escuridão e desafio”) para controlar e causar medo.

Para quem mirar as três imagens do agora famoso Holmes presente em qualquer buscador de imagem na internet, é interessante ver a ele: adolescente, com o característico sorriso americano, que bem poderia participar de um comercial de creme dental; outra em que aparece já adulto, numa foto passada, na qual aparece um jovem simples e ainda sorridente; e, finalmente, a mais recente, com o cabelo pintado de ruivo, tal qual alguns super-heróis, e sempre sem perder o sorriso. E não é que Paz havia descrito inclusive esse sorriso também. Numa comparação com os mexicanos, ele diz que estes são “tristes e sarcásticos”, diferentes dos americanos que são “alegres e bem-humorados”, no entanto o autor não deixa de acrescentar que “sua vitalidade se petrifica em um sorriso: nega a velhice e a morte, mas imobiliza a vida”.

Uma solidão patológica

Paz observa ainda que “em todos os lados o homem está só”, mas que a solidão do norte-americano é de outro tipo pelo fato de ele está “extraviado em um mundo abstrato de máquinas, concidadãos e preceitos morais”. Diante de tantas análises que Octavio Paz apresentou, em um tempo em que se acreditava que os Estados Unidos era para muitos uma potência invejável, e que só fizeram exacerbar-se cada vez mais até a atual crise americana, se vê que o crime de Holmes é um crime muito bem situado numa subjetivação produzida e induzida há muitas décadas nesse país, que está em consonância com o seu tempo e seu espaço, ambos desrealizados.

Mais do que comoção, diante de mais um massacre dessa natureza, o povo americano necessita entrar em contato com os Paz, os Baudrillard, seus próprios filhos, já que falávamos de família, como Sant e Moore, para modificar a orientação de seu movimento e tornar-se dono de seu destino. Para que isso ocorra é necessário primeiro sair de si e aceitar as críticas. “A crítica é a aprendizagem da imaginação em sua segunda volta, a imaginação curada da fantasia e decidida a afrontar a realidade do mundo”, disse Paz já na Volta ao Labirinto da Solidão. Se continua na sua patológica solidão, esse tipo de massacre continua sendo injetado nos sorrisos de um irrealizável sonho americano que acaba em crimes hediondos que chegam com uma moral e uma lógica constituídas e, acima de tudo, recorrentes.

***

[Mauricio Colares é mestrando em Literatura Latino-americana pela Universidade de Buenos Aires]

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