Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > MASSACRE NO CINEMA

Atiradores surgem das trevas para o cinema

Por Carlos Pisani em 31/07/2012 na edição 705

Na sexta-feira, 20 de julho, na cidade de Aurora, no estado norte-americano do Colorado, um estudante de doutorado em Neurociência chamado John Holmes entrou em uma sessão de cinema que exibia o filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, anunciou ser o vilão Coringa, jogou um gás tóxico na plateia e matou, sem razão aparente, doze pessoas, ferindo outras 59. Holmes, de 24 anos, recusa-se a falar sobre o crime. Talvez seja por opção ou porque não tenha como explicar o que aconteceu. Como alguém explicaria racionalmente o assassinato sem motivo de doze desconhecidos?

Pelas imagens que foram exibidas na televisão, de Holmes se apresentando à justiça americana, nota-se que ele não estava em condições mentais para relatar com clareza o que fez. Possivelmente devido ao uso de calmantes ou até mesmo alucinado por drogas ilegais. Comentaristas especulam que Holmes estaria encenando um catatonismo para não depor. Arrisco dizer que o assassino sofre de algum distúrbio psiquiátrico grave, algo como uma esquizofrenia paranoide, que é a forma mais comum da doença. A imprensa tem relatado que John Holmes consultava materiais com conteúdo sobre esquizofrenia, depressão e abuso de substâncias psicoativas. Esse incomum interesse pode ser um indício de que ele próprio seja esquizofrênico e usuário de substâncias ilegais. O abuso de drogas ilícitas é um sintoma comum da esquizofrenia.

Caso Holmes seja realmente esquizofrênico, isso explicaria o fato de ele ter anunciado que era o Coringa ao realizar o massacre, uma vez que esquizofrênicos podem vir a perder noção de identidade, por mais que isso possa parecer engraçado. Outro agravante é o fato dos colegas de universidade relatarem que o assassino era muito desconfiado e isolado, um sintoma comum da doença.

Compreensão distorcida

Além disso, o fato de Holmes ter abandonado o doutorado em Neurociência que até então cursava na Universidade do Colorado pode ser mais um indício de uma suposta perturbação mental, uma vez que a esquizofrenia é progressiva e incapacitante. Holmes era aluno bolsista desde 2006. Quem, em sã consciência, jogaria fora uma oportunidade como essa? De qualquer maneira, sendo esquizofrênico ou não, é raro um júri que considere insano um assassino como Holmes. É preferível se acovardar diante do clamor do povo justiceiro do que manter alguém com uma cabeça problemática em uma instituição corretiva apropriada. Tudo isso sem mencionar o quanto se economiza ao jogar um esquizofrênico em uma cela comum.

A imprensa prefere linchar o assassino a criticar o conteúdo dos filmes ou o sistema carcerário. Agora, pare e pense. Respire e reflita comigo. Tente imaginar, mas não apenas imaginar, tente entender o que se passa na cabeça de uma pessoa muito infeliz, uma pessoa depressiva e confusa, uma pessoa perturbada e com delírios de grandeza, uma espécie de mártir de coisa alguma, alguém que desconfia até da própria sombra e que de uma hora para a outra pode achar que é o Coringa porque ela própria já esqueceu quem realmente é.

Imagine um inteligentíssimo bolsista de doutorado em Neurociência que largou os estudos para maquinar planos de destruição em massa e que está munido de uma AR-15 de fazer inveja a muito traficante brasileiro. Imagine um cientista maluco que de tão possesso pela loucura pintou os cabelos de vermelho e se entregou à polícia identificando-se como “um palhaço”. Tente visualizar uma imagem mental dessa perturbadora e perturbada letal criatura. Então vamos ao que realmente interessa.

Ainda lembro bem de quando era criança e assisti ao filme Batman, aquele em que Jack Nicholson interpretava o Coringa, lançado há mais de 20 anos. Foi num pay-per-view de um hotel nos Estados Unidos. Difícil é lembrar quem eram os outros atores, uma vez que o Batman era um mero coadjuvante do próprio filme. Aparecia pouco e sem brilho algum. O Coringa, por sua vez, surgia sempre eufórico e triunfante. Qual jovem, com seus poucos anos de idade, iria “torcer” para um herói apagado e sem nenhum carisma? Eu é que não. Nem John Holmes, que era ainda bebê. Se voltarmos às origens da história do Batman, veremos que o Homem Morcego tornou-se herói para vingar os pais assassinados pelo Coringa, ou seja, já carrega a sina de sofredor. Já nasceu apanhando, não tem “superpoderes” e é figurante no próprio filme. Só faltava ser corintiano.

Na época do lançamento de Batman, O Cavaleiro das Trevas, com Heath Ledger no papel (principal) de Coringa, corria por e-mail um viral que pedia votos para o corrupto Harvey Dent, o “Duas Caras”, candidato a prefeito de Gotham City. Haviam também mensagens de supostos integrantes da gangue do Coringa tentando trazer membros para o crime. Ainda que a quase totalidade das pessoas considerasse a mensagem como uma forma divertida de atrair espectadores para o cinema, alguns poucos paranoides, como pressuponho que seja John Holmes, talvez tenham compreendido o convite de forma distorcida.

Qualquer semelhança não é mera coincidência

É desnecessário lembrar que não houve nenhum chamariz para fãs do Batman, ressaltando a ideia de que ninguém “torce” para o Batman. Aliás, quem realmente é fã do Batman nos dias de hoje? Talvez o Robin, em alguma dimensão paralela desde que sumiu de cena. Do novo filme, que ainda não foi lançado no Brasil, não sei muito além do nome, mas pela lógica posso deduzir que nosso grande herói vai fazer o mesmo papel de tonto de sempre. Um bobão correndo feito louco para apagar os incêndios iniciados pelos inimigos. Tudo isso em duas horas e quarenta e cinco minutos de muitos efeitos especiais exagerados e ensurdecedores (escrevi a duração do filme por extenso para dar a noção exata de como vai ser demorado).

Este artigo não trata de achar chifre em cabeça de cavalo, pois há quem ache mensagens infernais até em músicas infantis tocadas ao contrário. Também não se trata de afirmar que filmes violentos devam ser censurados. Alguns poderiam pensar então que quero argumentar que os bons da vida real se espelham nos mocinhos do cinema e os maus nos bandidos, o que não faz lá muito sentido também. Vou exemplificar. Há alguns anos, muitos repetiam exaustivamente os bordões do filme Tropa de Elite, sem nem ao menos questionar a integridade moral do suposto herói Nascimento, que de mocinho não tinha muita coisa.

Ele espancou mulher, bateu em criança e torturou e matou quem bem entendesse. Por pouco a própria esposa não tomou uma surra. Não foi a toa que em Tropa de Elite 2 ele voltou divorciado. E o povo achando tudo lindo e louvável. Ah, é claro, e sempre repetindo até a exaustão os bordões que o capitão tinha berrado naquele filme. Não é uma crítica, é apenas uma constatação da influência do filme, que é uma obra realmente cativante. Se Holmes fosse brasileiro, é muito provável que o capitão Nascimento fosse seu herói em 2007. Em um país com mais de 192 milhões de habitantes, muitos de alguma maneira já se espelharam no capitão Nascimento das piores formas possíveis, sem precisar de nenhum distúrbio psiquiátrico para isso.

Para quem acha que atiradores abrindo fogo contra inocentes em salas de cinema é algo distante para nós, tupiniquins, “coisa de americano”, vale recordar que em 1999, em São Paulo, o estudante de Medicina Mateus Meira matou três, feriu quatro e deixou outras 15 pessoas em pânico durante uma sessão de Clube da Luta, filme igualmente violento e que pode dar margem a interpretações distorcidas. Meira vinha abusando de cocaína há dois meses e utilizou uma submetralhadora Cobray M-11. A defesa alegou que Meira era semi-imputável, ou seja, tinha consciência apenas parcial de seus atos, e que fora influenciado por vozes e pelo jogo Duke Nukem 3D, no qual há uma cena de tiroteio em um cinema. A alegação não foi aceita e Meira foi condenado a 30 anos de prisão. Vale lembrar o que foi dito anteriormente, que é muito comum a utilização de drogas ilícitas por pessoas acometidas de esquizofrenia. Qualquer semelhança com o recente caso ocorrido em Aurora, nos Estados Unidos, não é mera coincidência. Antes de efetuar os disparos, Mateus Meira, atirou contra a própria imagem refletida no espelho do banheiro do shopping.

***

[Carlos Pisani é jornalista, Curitiba, PR]

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