Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > MASSACRE NO CINEMA

Matar sem olhar a quem

Por Lucio Carvalho em 31/07/2012 na edição 705

Naquilo que o presidente Barack Obama qualificou como “violência sem sentido”, 14 pessoas perderam a vida e outras 58 resultaram feridas em Denver, nos Estados Unidos, em 20/7, num crime que, pelo menos de forma aparente, é a repetição de um tipo de gesto que liga pessoas descritas comumente como doentes mentais ao cinema hollywoodiano. No caso de James Eagan Holmes, estudante de Neurociências de 24 anos, foi a vez do homem-morcego, o Batman, colocar na mente de muitas pessoas um ponto de interrogação, justamente porque o próprio James teria anunciado, logo em sua prisão, que ele mesmo seria a personificação do Coringa, personagem dúbio que é um dos principais antagonistas do homem-morcego e que pode ser agora visto em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, em cartaz nos cinemas.

Enquanto críticos e toda a sorte de profissionais da mente e do cérebro são acionados pela imprensa na tentativa de elucidar as relações entre a ação do criminoso e a trama do filme, a oportunidade de resgatar crimes em tese semelhantes não é desperdiçada. Mesmo a relação mais evidente não pode, entretanto, excluir o excessivo belicismo de Batman. Ao contrário da maioria dos super-heróis, Batman não possui superpoderes. É um homem comum, um mero mortal. Um milionário que, nas horas vagas, mantém criminosos e mafiosos na cadeia através do uso de sofisticada tecnologia de guerra. Se alguém se dispusesse a contabilizar o número de vezes que armas são acionadas no filme, não seria de espantar que o produto final da soma fosse bem superior ao número de palavras pronunciadas pelos personagens. Só que, num filme como Batman, as explosões não são coadjuvantes; elas são responsáveis pelo ponto alto do filme. Sua importância e poder estão reservados aos picos de maior tensão, quase sempre resolvendo os problemas colocados pelo roteiro.

Engajamento e justificação

A relação com outros crimes semelhantes não é descabida. Em 1999, em Columbine, aventou-se a influência da ficção científica de Matrix na tragédia que resultou na morte de 12 pessoas e feriu outras tantas. Como em Batman, a exposição de armas em Matrix é imensa, num mundo dominado por uma tecnologia que ganhou vida própria e pretende acabar com os humanos. Em Columbine, os alunos Eric Harris e Dylan Klebold teriam supostamente entrado na escola, cena do crime, vestindo-se como os protagonistas de Matrix, portando as armas que usaram como se estivessem num videogame.

No mesmo ano, no Brasil, um crime semelhante ao de agora aconteceu numa sala de cinema em São Paulo, quando o estudante Mateus da Costa Meira, de 24 anos, irrompeu na sala atirando e matando três pessoas e ferindo outras cinco. No caso brasileiro, um filme também foi invocado como elemento de motivação: o próprio Mateus escolheu O Clube da Luta por supostamente identificar-se com o personagem esquizofrênico da trama. Nesse caso a loucura, e não a violência explícita, serviu de interpretação sobre o ato de matar, humano como se sabe, mas desejavelmente reservado aos monstros que periodicamente assumem a cena, no lugar da própria violência, personificando-a e dramatizando-a, a despeito da banalidade de sua execução.

O protagonismo que a violência ocupa nos filmes do assim chamado gênero “ação” não é, de modo algum, uma novidade. A partir de meados dos anos 1970, o gênero cresceu, ao passo que a violência pessoal igualmente foi popularizada – não que ela não existisse antes, mas glamourizada, essencialmente no gênero faroeste. Desde lá, humanos e super-heróis têm se revezado incessantemente na sanha de resolver os conflitos no sopapo ou no gatilho, restando inútil o acordo e a civilização. Deve ser porque é preciso, e não se sabia disso, reviver de modo permanente o estado de espírito dos antepassados do tempo da clava, ao invés de imaginar outra espécie de interlocução. Mais ou menos real, há uma forte motivação nesse sentido, conclamando um público entusiasmado por engajamento e justificação.

Exclusividade da violência

Um dos pontos em comum nos crimes mencionados é justamente o anonimato das vítimas. É um matar sem olhar a quem. São mortes imperativas e impositivas, bem como as guerras são. O cinema transpõe para as telas e sublima um desejo latente, do homem contra o homem, que é subjacente à barbárie mas que se encontra plenamente justificado porque as nações também estão empenhadas no ato de subjugar umas às outras, no imperialismo que tem no armamento um símbolo inocultável e no qual a verdade é propriedade de quem grita mais alto. O espetáculo é grandioso, o cinema faz parte dele.

Naqueles filmes em que a violência tem cadeira cativa, todo o prazer do espetáculo reside na observação, mas todo o mundo sabe (e aguarda) o prazer que há no golpe desferido pela vingança legitimada. Quem não gostaria de estar naquele lugar, de quem detém a razão e tem nas mãos os meios de criar a justiça no caos? Batman – O Cavaleiro das Trevas é, nesse aspecto, fabuloso. É como o alter ego de toda uma população sitiada pelo crime e pela desordem. O mundo deve funcionar e o homem-morcego está ali para garantir o establishment, representando nele mesmo, no milionário Bruce Wayne e sua indústria que desenvolve, entre outras coisas, tecnologia militar da qual ele próprio é beneficiário, em sua mania de salvar o mundo do mal. Para as multidões de espectadores, talvez o que incomode em Batmanseja que ele detém a exclusividade da violência. Ele não empresta seus brinquedos e é preciso considerar que já há mais que uma geração acostumada a brincar junto com heróis violentos e outros seres em videogames que a mimetizam e entregam ao cuidado precoce de mãos de crianças e adolescentes.

Todos contra todos

James Holmes resolveu no último dia 19 deixar de lado o papel de observador para tomar outro papel, este com identidade e personalidade próprias. Diz ele ser o Coringa, o criminoso caricato e provocativo que ganhou vida nas telas pelo premiado e tragicamente falecido ator Heath Ledger, mas é claro que seu desejo é mais simples. É preciso participar do espetáculo. Entender como essa participação veio a transformar-se num crime bestial é uma tarefa que está além da capacidade de todos aqueles que se dispuserem a imaginar o que aconteceu ali, mas que não foi visto por ninguém. Por muito tempo ainda, os feridos e os familiares dos mortos parecerão ouvir os estampidos resultantes dos cliques resultantes da ação dos dedos de James nas armas que comprou via internet, no país que mais vende e produz armas no mundo todo. É simples e fácil participar. Os mortos são ninguém e o assassino agora tem um nome, uma existência de verdade.

Para quem continua vivo, entretanto, é preciso continuar a existir. Além de existir, saber-se existente. Talvez James Holmes tenha se equivocado ao dizer que ele é o Coringa, o vilão que assume sua vilania em plena luz do dia. James esboça mais o gesto do cãozinho Muttley, amigo inseparável do rabugento Dick Vigarista que, buscando medalhas e reconhecimento, atravessa a fronteira do bem e do mal brincando infantilmente. Em seu olhar e gesto provavelmente não reside toda a sua periculosidade, mas apenas no seu delírio e no de toda uma parcela da população sem tempo e lugar no mundo aparentemente pacífico do pós-capitalismo onde, como no Leviatã de Hobbes, todos (sem sentido algum, como quer o presidente Obama) levantam-se contra todos e não há ninguém que os possa deter, nem a diversão violenta nem talvez sequer o Batman em pessoa.

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[Lucio Carvalho é coordenador-geral da revista digital Inclusive – inclusão e cidadania e autor de Morphopolis]

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