Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & CIÊNCIA

Estamos sozinhos no Universo?

Por Felipe A. P. L. Costa em 14/08/2012 na edição 707

A notícia de que uma nave não tripulada pousou em Marte (ver, por exemplo, as matérias “Novo robô da Nasa pousa com sucesso em Marte”, publicada pela BBC Brasil, em 6/8; e “Jipe da Nasa faz pouso histórico em Marte”, publicada pela Folha de S.Paulo, em 7/8), mexeu com a cabeça de muita gente nos últimos dias. O assunto é por si só dos mais intrigantes; todavia devemos manter o senso crítico funcionando: vida extraterrestre é um ímã para manchetes sensacionalistas. E o pior: o sensacionalismo surge mesmo em âmbito estritamente científico.

Foi assim, por exemplo, no final de 2010, com a divulgação da chamada “bactéria extraterrestre”, uma pseudodescoberta em torno da qual a Nasa fez muito alarde (ver, por exemplo, as matérias “Nasa deixa mundo em suspense sobre descoberta de vida extraterrestre”, publicada na Folha, em 1/12/2010; e “Pesquisadores descobrem bactéria com DNA ‘ET’”, publicada na Folha, em 2/12/2010; além do artigo “Como respirar arsênico (por pouco tempo)”, de Rafael Garcia, publicado na Folha, em 9/7/2012.

Afinal, será que nós algum dia encontraremos algum tipo de evidência (direta ou indireta) de que há (ou já houve) vida em algum outro planeta?

Assunto controverso

Até onde sabemos, a Terra é o único planeta do Sistema Solar – para não dizer da Via Láctea, ou mesmo de todo o Universo conhecido – habitado por seres vivos. Mas será que estamos mesmo sozinhos no Universo? Esta é uma questão antiga e das mais intrigantes, sobre a qual, aliás, cientistas de áreas diferentes costumam expressar opiniões contrastantes. Por um lado, há quem argumente em favor da ideia de que a vida na Terra é um fenômeno único e exclusivo; por outro, há quem defenda a noção de que a vida prospera por toda a Via Láctea ou mesmo por todo o Universo.

Para o biólogo francês Jacques Monod (1910-1976), por exemplo, o surgimento da vida na Terra teria sido um golpe de sorte. Um evento tão improvável que seriam praticamente nulas as chances de que haja seres vivos em outro lugar (Monod 1976). Ponto de vista contrário era defendido por Fred Hoyle (1915-2001), para quem o surgimento de seres vivos na Terra seria fruto de um processo trivial e amplamente disseminado de colonização. De acordo com o astrônomo inglês, o nosso planeta foi – a rigor, ainda estaria sendo – colonizado por esporos vindos do espaço sideral (ver, por exemplo, Hoyle & Wickramasinghe 1992, além de entrevista em Hogan, 1998).

Em linhas gerais, parece que biólogos e outros cientistas que lidam com seres vivos preferem o primeiro ponto de vista, enquanto físicos, astrônomos e outros cientistas que lidam com cosmologia tendem a defender a segunda posição. No que segue, vamos examinar um modo racional de lidar com a seguinte questão: admitindo que a vida não seja uma exclusividade da Terra, quantos exoplanetas (planetas situados fora do Sistema Solar) seriam habitados hoje por seres inteligentes e comunicativos?

A equação de Drake

Como podemos lidar de modo racional com a questão da existência ou não de seres vivos em outros planetas? Mais especificamente, haveria um modo de contabilizar o número de civilizações tecnologicamente avançadas existentes no Universo ou, quem sabe, na Via Láctea?

O assunto é instigante e várias sugestões de resposta têm sido oferecidas ao longo dos anos. Com relação especificamente à segunda pergunta, vamos examinar a seguir a proposta apresentada pelo astrônomo estadunidense Frank D. Drake (1930-). Na década de 1960, quando trabalhava em um observatório astronômico no estado de Virgínia (EUA), Drake apresentou um modelo probabilístico – conhecido hoje como equação de Drake – por meio do qual seria possível estimar o número de planetas que poderiam abrigar civilizações semelhantes à nossa. (Outro modo de olhar para essa equação é dizer que se trata de um modelo que descreve a cadeia de condições que precisam ser satisfeitas antes que possamos decidir a favor ou contra a existência de civilizações como a nossa em outras regiões do Universo.)

A equação de Drake envolve uma série de multiplicações, podendo ser expressa da seguinte maneira:

N = E x P x T x V x I x C x D,

onde

* N é o número de civilizações extraterrestres com as quais se poderia estabelecer algum tipo de contato;

* E é o número de estrelas existentes na Via Láctea;

* P é uma fração de E, correspondendo àquelas estrelas da Via Láctea que possuem planetas em torno de si;

* T é o número médio de planetas parecidos com a Terra associado a cada uma das P estrelas que possuem sistemas planetários;

* V é uma fração de T, correspondendo aos planetas parecidos com a Terra que abrigam vida;

* I é uma fração de V, correspondendo àqueles planetas que abrigam formas de vida inteligentes;

* C é uma fração de I, correspondendo àqueles planetas que abrigam formas de vida inteligentes e comunicativas (isto é, civilizações que desenvolveram uma tecnologia eletromagnética semelhante ou mais avançada do que a nossa); e

* D é a parcela da história do planeta ocupada por uma civilização inteligente e comunicativa.

Os setes passos de uma simulação

Dito isso, o que temos agora a fazer é substituir cada uma das sete variáveis presentes no lado direito da equação acima por valores numéricos. Eis aqui uma simulação (ver o artigo [em inglês] “Lotto or life: what are the chances?”, de Kara C. Granger):

* Primeiro passo: E = 400 bilhões = 4 x 1011, pois, de acordo com o conhecimento astronômico atual, esse seria o número aproximado de estrelas existentes na Via Láctea;

* Segundo passo: P = 1 / 4 = 0,25, pois uma em cada quatro estrelas teria planetas em torno de si (evidências astronômicas indicam que sistemas planetários podem ser comuns em torno de estrelas como o Sol);

* Terceiro passo: T = 2, pois cada sistema planetário teria dois planetas parecidos com a Terra;

* Quarto passo: V = 1 / 2 = 0,5, pois um de cada dois planetas parecidos com a Terra abrigaria seres vivos;

* Quinto passo: I = 1 / 10 = 10–1, pois um de cada 10 planetas “vivos” abrigaria formas inteligentes de vida;

* Sexto passo: C = 1 / 10 = 10–1, pois um de cada 10 planetas com vida inteligente abrigaria uma civilização comunicativa; e, por fim,

* Sétimo passo: D = 1 / 100.000.000 = 1 / 108 = 10–8, pois a parcela de tempo ocupada por uma civilização inteligente e comunicativa corresponderia a apenas um centésimo de milionésimo da história de cada planeta.

Substituindo esses valores na equação, obtemos:

N = (4 x 1011) x 0,25 x 2 x 0,5 x 10–1 x 10–1 x 10–8

= (4 x 1011) x 0,25 x 10–10

= 1011 x 10–10 = 10.

Trocando em miúdos, dados as premissas do modelo e os valores utilizados, a Via Láctea poderia abrigar nesse momento 10 civilizações inteligentes e comunicativas.

Ora, admitindo por um instante que esse seja mesmo o caso (isto é, que a Via Láctea possua ao menos 10 planetas habitados), por que ainda não detectamos ou fomos contatados por ao menos uma dessas civilizações? Parte da resposta tem a ver com o tamanho da nossa galáxia, que é suficientemente grande para manter seus bilhões de astros afastados uns dos outros por distâncias gigantescas, o que dificulta ou mesmo impede a comunicação. Em todo caso, porém, esse já seria outro assunto…

Considerações finais

Com relação especificamente ao resultado, caberia aqui dizer o seguinte: antes de decidir se 10 planetas representam ou não um número “razoável”, penso que valeria a pena examinar as premissas do modelo e os números usados na simulação. Afinal, enquanto determinados valores têm algum fundamento observacional, como é o caso do número de estrelas ou de planetas presentes na Via Láctea, outros são inteiramente especulativos, ao menos por enquanto – ver, por exemplo, a matéria “Cientistas listam quatro descobertas recentes sobre o Universo”, publicada na Folha de S.Paulo, em 23/3/2011.

Implica dizer, portanto, que o assunto ainda está carregado de incertezas e que os valores numéricos ainda têm uma margem de erro muito grande. Amanhã ou depois, por exemplo, os estudiosos do assunto podem vir a mostrar que ao invés de V = 0,5 seria mais apropriado trabalhar com V = 0,1 (isto é, apenas um em cada 10 planetas parecidos com a Terra abrigaria seres vivos); nesse caso, mantendo os demais valores inalterados, o resultado final mudaria de N = 10 para N = 2.

Com o avanço dos estudos, é bem possível que os cientistas consigam reduzir a margem de erro, obtendo resultados mais precisos e exatos. Sem esquecer, claro, que a própria equação de Drake pode se revelar inteiramente inadequada, vindo a ser substituída por outro modelo. Uma coisa, porém, parece certa: a aventura vai continuar…

Bibliografia citada

Hogan, J. 1998. O fim da ciência. SP, Companhia das Letras.

Hoyle, F. & Wickramasinghe, N. C. 1992. Fuerza vital cósmica. México, Fondo de Cultura Económica.

Monod, J. 1976. O acaso e a necessidade, 3ª edição. Petrópolis, Vozes.

***

[Felipe A. P. L. Costa é biólogo e autor de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)]

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