Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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JORNAL DE DEBATES >

Extremos que se tocam

Por Juliana Sayuri em 25/09/2012 na edição 713

Dizer que o filme Inocência dos Muçulmanos, do californiano Nakoula Basseley Nakoula, e as charges de Maomé nas publicações satíricas Charlie Hebdo (francesa) e Titanic (alemã) foram faíscas no palheiro do Oriente Médio seria um singelo eufemismo diplomático. Foi querosene no barril de pólvora. Barril que entornou mais uma vez nos rincões islâmicos alastrando manifestações e protestos furiosos, provocando a morte de manifestantes e do embaixador norte-americano Cristopher Stevens na Líbia. No entanto, tirando o véu da ideologia religiosa, o xis da questão é a disputa por poder. É o que diz o cientista político e historiador Brian Katulis, senior fellow do Center for American Progress e um dos diretores do Middle East Policy Council.

“Estamos vendo extremistas no Oriente Médio respondendo a extremistas nos Estados Unidos e na França”, diz Katulis, formado pela Woodrow Wilson School for Public & International Affairs, da Universidade Princeton. Das simbólicas bandeiras norte-americanas incendiadas aos livros sagrados empunhados nas ruas, os acontecimentos das duas últimas semanas ofuscaram as reais questões que assolam tais países. “O gatilho foram as desrespeitosas representações de figuras religiosas, mas o que está acontecendo não é um conflito estritamente religioso. É uma disputa por poder, entre diferentes facções, diferentes perspectivas, diferentes políticas. Muitos desses países muçulmanos ainda estão iniciando uma transição democrática. Não me surpreende que o Islã volatilize as discussões políticas”, considera.

Americano de ascendência lituana, Brian Katulis viveu em países como Iêmen, Iraque, Israel, Jordânia, Marrocos e Paquistão ao longo da década de 1990. Entre 1995 e 1998, morou no Egito e na Faixa de Gaza, enquanto trabalhava para o National Democratic Institute for International Affairs.

Tempos de provocações

De Washington, Katulis conversou com o “Aliás” nesta sexta-feira (21/9), o dia das orações dos muçulmanos. Embaixadas e postos diplomáticos americanos e europeus em países islâmicos preferiram fechar as portas, temendo represálias e novos protestos, principalmente no Paquistão, onde foi decretado o “dia de amor ao profeta”. “Se você pensa que a semana passada foi complicada, prepare-se para muito mais. Para muitos anos de instabilidade”, arrisca Katulis. A seguir, trechos da entrevista.

Tempos de provocações

“Estamos vendo extremistas no Oriente Médio respondendo a extremistas nos Estados Unidos e na França. Esses radicais inflamaram as opiniões e provocaram reações incandescentes que se alastraram pelos países do Oriente Médio. O que, na verdade, não me surpreende. A ação foi simbólica: um filme, uma charge. A reação também. Afinal, os protestos diante de embaixadas e alvos diplomáticos indicam uma escolha altamente simbólica. Além disso, a escolha da embaixada norte-americana mostra isso, apesar de ser uma distorção, porque o governo norte-americano não está vinculado ao filme, assim como o governo francês não está alinhado ao cartoon. No entanto, precisamos lembrar que os protestos estão sendo levados por movimentos menores e grupos minoritários. Em seus países de origem, a maioria da sociedade não compartilha das opiniões e valores dos manifestantes mais radicais, principalmente envolvidos nos ataques a embaixadas. Há muitos grupos extremistas tentando se aproveitar da situação, mas que não refletem a perspectiva da sociedade como um todo. Foram provocados – e há os que responderam com manifestações pacíficas, absolutamente legítimas. Por outro lado, os provocadores também tiveram atitudes extremas, pois estavam intencionalmente tentando revoltar as pessoas e inflamar as opiniões, sem se preocupar nem se sensibilizar com o respeito a opiniões divergentes. No fim, há vozes raivosas que se confrontam, se provocam e se retroalimentam, o que acaba por distrair os olhares de um desafio maior: como sociedades tão diferentes podem se tornar mais democráticas? Como podem se relacionar com o resto do mundo? Como podem alcançar o século 21?”

O xeque em um tabuleiro tumultuado

“A liberdade de expressão não está em xeque. Sim, é um ideal e um direito muito valorizado em países como os Estados Unidos e a França. Sim, é uma das discussões na ordem do dia, mas não é o xis da questão. O que está acontecendo no Oriente Médio ultrapassa a fronteira da liberdade de expressão, que seria uma discussão mais teórica e simbólica se comparada aos problemas reais. Certamente, os direitos de liberdade de expressão e liberdade religiosa são fundamentais, mas são demasiadamente teóricos se comparados aos problemas estruturais desses países, onde a fragilidade dos direitos constitucionais impede sequer a construção de um sistema político que funcione. Na década de 1990, eu vivi no Egito e em muitos outros países do Oriente Médio. Posso dizer que há um desejo por pluralismo e por respeito às religiões e liberdades. Esse é o debate que interessa. Mas, como disse, esse debate real foi ofuscado pelos acontecimentos das duas últimas semanas. O gatilho foram as desrespeitosas representações de figuras religiosas, mas o que está acontecendo não é um conflito estritamente religioso. É uma disputa por poder, entre diferentes facções, diferentes perspectivas, diferentes políticas. Muitos desses países muçulmanos ainda estão iniciando uma transição democrática. Não me surpreende que o Islã volatilize as discussões políticas. E que a discussão se desvie para questões religiosas. Além disso, eles não estão discutindo os problemas reais, que não são as ideologias perigosas e os fanatismos. Não querem confrontar os problemas reais mais básicos: há ordem e respeito à lei? Há oportunidades econômicas? Há sistemas políticos?”

Diplomacia al dente

Eu estava no Departamento de Estado dos EUA ontem, com diplomatas, e o presidente Barack Obama não tinha definido ainda se receberia a visita do presidente Mohammed Mursi, em Washington. Se eles se encontrarem, seria uma mensagem: nós ainda queremos ser aliados. Talvez fosse uma mensagem no mesmo tom da visita de Hillary Clinton ao Cairo em julho. Mas, se não se encontrarem, tampouco seria uma surpresa, pois afinal houve um distanciamento nas relações entre eles, especialmente pelo silêncio de Mursi sobre o atentado à embaixada norte-americana na semana passada. Na atual política externa dos EUA, a relação mais problemática é com o Iêmen. O que muito se justifica pela presença da al-Qaida, que encontra território nesse país muito pobre. Apesar do trágico assassinato do nosso diplomata em Benghazi, o relacionamento com a Líbia, país relativamente pequeno e mais perto da Europa, é menos tumultuado. Na verdade, não sei se há risco de essa onda de protesto cruzar as fronteiras neste momento e se alastrar por EUA e Europa. Quero dizer, protestos e manifestações pacíficas são legítimos. As pessoas têm o direito de protestar. Então, o que preocupa nos possíveis alastramentos é a natureza dos protestos. Na minha opinião, mais interessante que observar se esses protestos realmente poderão se espalhar, e com que intensidade e natureza, será observar se haverá e qual será a reação contra os movimentos radicais e extremistas. Não ficaria surpreso se visse em alguns, talvez não todos, países do Oriente Médio uma repercussão fortemente negativa contra esse extremismo, talvez em países com tradições mais assentadas de inclusão, instituições e direitos pluripartidários, mais abertos ao debate constitucional no Parlamento. Talvez nesses territórios essas vozes radicais continuem minoritárias. Por outro lado, em países menos coesos, como Síria e Iêmen, poderíamos encontrar mais brechas para perspectivas mais extremistas, tanto na política quanto na sociedade.”

Mais umas dez primaveras

“Radicais, como os salafistas no Egito e os terroristas que mataram o diplomata americano na Líbia, são minoritários. São vozes minoritárias, diferentes dos milhões que protestaram pacificamente por democracia, justiça e liberdade nos levantes da Primavera Árabe – expressão, aliás, de que não gosto muito e não uso. A Primavera Árabe é um processo incompleto, que não retrata totalmente a situação. Para mim, ‘primavera’ quer dizer algo totalmente positivo. Não podemos ser ingênuos assim, pelo menos não a partir de uma perspectiva política mais densa. Há 19 países no Oriente Médio e no Norte da África. Apenas seis passaram por megatransformações internas; quatro tiveram líderes depostos e mortos; no mínimo dois ainda estão atravancados na guerra civil, o que é o caso da Síria e do Iêmen; outros ainda estão enfrentando conflitos internos, como o Bahrein. Quer dizer, nós nos empolgamos no começo, com a expectativa de uma nova onda de democracia. Mas, na minha opinião, esse é só o início de uma transição. Mas uma primavera apenas não basta. Precisaremos de talvez de umas dez. Então, se você acha que semana passada foi complicada, prepare-se para muito mais. Para muitos anos de instabilidade. Uma década para podermos assistir a essa transição completa, para termos a clareza se foi realmente uma boa primavera. Até agora, não sabemos. Sabemos que as mudanças continuarão, mas resta saber em que direção. Além dos desafios socioeconômicos e políticos nesses países, outro fator muito importante para o tabuleiro do Oriente Médio é o papel dos jovens, já que metade da população de muitos desses países tem menos de 25 anos.”

Por um mundo mundano

“Uma das maiores questões é: como o Oriente Médio pode preservar suas identidades religiosas e, ao mesmo tempo, cultivar um novo relacionamento com o Ocidente? Isso é ao menos possível? Sim, mas levará anos. Seria possível na Turquia, com a transição democrática e o fortalecimento econômico. Seria possível na Indonésia, um dos países mais muçulmanos do mundo. Quer dizer, se é possível ali, será possível na maioria dos países do Oriente Médio. O que não significa que será um processo rápido, fácil e indolor. Entre os fatores básicos para garantir essa possibilidade estão os rumos da economia e da política, intimamente relacionados ao papel dos jovens que mencionei. Poderá a ascensão das novas gerações transformar a economia e a política de seus países, garantindo suas necessidades mais básicas? Sei que parece uma ideia demasiadamente simples, mas, sem isso, nenhuma mudança se consolidará. Com milhares de desempregados e famintos, não importa quem seja o presidente do Egito, quem seja o rei do mundo, quem seja o chefão, você enfrentará protestos e instabilidades. Trabalho com segurança e política internacional, mas preciso dizer: essas necessidades básicas – o combate à fome, o direito à moradia, a erradicação da pobreza, o trabalho –, tudo isso pode parecer ‘mundano’, mas é o mais importante para assegurar a mudança e as transições políticas. Você está em São Paulo, então certamente sabe disso. E, nesses países do Oriente Médio, ainda há os jovens que sentem que estão ficando para trás na história, que jamais terão essas oportunidades e direitos. Tudo parece bagunçado agora? Pois a tendência é piorar. Eu vivi, visitei e viajei muito por esses países. O que assola essas sociedades não é uma ou outra brincadeira com Maomé. O que realmente enfurece a sociedade é a falta de emprego e de oportunidade, o que lhes priva de um presente e uma chance de futuro.”

***

[Juliana Sayuri, do Estado de S.Paulo]

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