Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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JORNAL DE DEBATES > NEWTOWN, ECOS DO MASSACRE

Newtown, Hanukah, José e Barack

Por Julia Sweig em 24/12/2012 na edição 726
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 19/12/2012, tradução de Clara Allain; intertítulo do OI

Para minha família e nossos amigos mais próximos, este mês vem sendo a temporada da celebração de bar-mitzvás, a cerimônia da maioridade no ciclo de vida de meninos e meninas de 13 anos, e de Hanukah, a “festa das luzes”.

Antes uma festa menor, Hanukah celebra a bravura marcial da revolta dos macabeus contra Antíoco 4º, que queria proibir a prática da religião judaica em Jerusalém. No século 20, os judeus americanos, na esperança de competir com o Natal, elevaram Hanukah e a converteram numa festa principalmente para crianças, voltada mais a milagres que à guerra.

Na sexta-feira (14/12), nos reunimos em nossa sinagoga, em Washington, com centenas de famílias para cantar, acender menorás e desfrutar a alegria simples de bebês, crianças, pais e avós juntos. As notícias de Newtown mal tinham começado a ser absorvidas.

Mas na manhã seguinte, quando estávamos novamente na sinagoga para um bar-mitzvá e a leitura da Torá, nossa celebração somou-se ao luto pela morte de 20 crianças e seis adultos. No dia seguinte, meu filho e eu assistimos ao discurso do presidente Obama para as famílias e a comunidade de Newtown, numa cerimônia em memória das vítimas.

O presidente parecia arrasado de tristeza. Ele pareceu fazer força para não chorar ao ler o nome de cada vítima, assim como nós, numa oração para os mortos, recitamos os nomes de nossos entes queridos que se foram, ao mesmo tempo em que festejamos os nascimentos, os bar-mitzvás e outros eventos do ciclo de vida.

Guerra política

Como pai e como presidente, Obama lançou um chamado por ação, observando com amargura que sua Presidência foi marcada por quatro massacres: Fort Hood (Texas), Tucson (Arizona), Aurora (Colorado) e agora Newtown (Connecticut).

Mas a realidade é muito pior. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, partidário irredutível do controle de armas, tuitou no dia seguinte que 34 americanos são mortos por armas de fogo a cada dia.

Quero pensar que a imagem de Obama encolerizado, arrasado e emocionado ficará gravada na memória de meu filho pelo resto de sua vida. Mas quero que meu filho e todos nossos filhos tenham um presidente que esteja preparado para desafiar o poder mitológico da Associação Nacional de Rifles e conduzir o país na direção de leis e políticas que, como ele disse, sejam dignas de nossos filhos.

Afortunadamente, embora tragicamente, o presidente contará com apoio de seu próprio partido, do público e até mesmo dos republicanos, que reconhecem que proteger a segunda emenda da Constituição não deve passar à frente do bem-estar e da segurança do público.

O bar-mitzvá e a leitura da Torá da semana passada descreveram como José, cujos próprios irmãos o haviam vendido como escravo, aprendeu a exercer o poder com sabedoria, a despeito de sua ambivalência, raiva e ressentimento. Obama precisa superar esses fatores e, como os macabeus, usar seu poder contra a ordem estabelecida. Ele precisará de guerra, do tipo político. E de um milagre.

***

[Julia Sweig é colunista da Folha de S.Paulo]

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