Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

O jornalista e a herança colonial

Por Sylvia Colombo em 31/12/2012 na edição 727

Autor de recém-lançada coletânea de artigos sobre a África, repórter especializado em cobertura de zonas de conflito analisa aspectos da atualidade na América Latina. O jornalista atribui à falta do Estado de Direito na região a violência e as tentativas de controle da mídia pelo governo e pelo crime organizado.

Na América Latina, como repórter, Jon Lee Anderson já esteve em Cuba, El Salvador, México, Venezuela e Brasil. No Oriente Médio, cobriu as guerras do Iraque e do Afeganistão. Mas é na África onde se sente mais à vontade. “Quando era adolescente, vivi um ano na Libéria com um tio geólogo”, conta o veterano jornalista norte-americano, que em seu currículo tem o mérito de ter descoberto o destino do corpo de Che Guevara.

Anderson, 55, esteve na 26ª edição da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, em novembro. Por lá, lançou La Herencia Colonial y Otras Maldiciones (Sexto Piso), antologia de artigos sobre a África escritos para a revista New Yorker entre 1998 e 2012.

Estão ali relatos sobre mais de dez países. Entre eles, Angola, onde uma das cidades mais caras do mundo, Luanda, convive com uma população paupérrima e as chagas deixadas pela guerra civil (1975-2002). A Libéria, cujo ditador Charles Taylor o jornalista conheceu e retratou num perfil. Ou, ainda, a Líbia nos estertores do regime de Muammar Gaddafi, cuja morte descreveu.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista de Anderson à Folha de S.Paulo.

O que todos esses países retratados no livro têm em comum?

Jon Lee Anderson –São países muito distintos quanto a origem, colonização, trajetória e modo de lidar com o mundo globalizado. Mas todos carregam a herança colonial, essa marca da opressão europeia e um sentimento de esperança com relação ao futuro.

Como compara seu relato ao de outros narradores que estiveram na África no passado?

J.L.A. –Minha geração é posterior à de Ryszard Kapuscinski (1932-2007), que retratou o fim do colonialismo e da Guerra Fria. Era um período de intensa violência. Hoje, os revolucionários de seu tempo são líderes de cabelos grisalhos, metidos em ternos, dirigindo carrões e em cargos importantes. Há distintos níveis de integração com o mundo globalizado. Mas continua sendo uma experiência muito intensa escrever reportagens de lá.

Estamos no México, país que vem enfrentando uma guerra ao narcotráfico. Em que sentido a situação se parece ao que o sr. presenciou nos anos 1980, em El Salvador?

J.L.A. –São outros tempos, mas há semelhanças. A ameaça aos jornalistas é a mesma. Eu trabalhava sob a pressão de esquadrões da morte, como os colegas mexicanos hoje.

O grande problema da América Latina com relação à violência tem a ver com a não implementação, nessas sociedades, de um Estado de Direito, de governos preocupados com a estrutura do país, e não com o futuro de seus partidos ou, pior, seus interesses pessoais.

O combate a grupos criminosos não é possível se o poder regional é exercido por supercaciques, como são esses poderosos governadores dos Estados mexicanos.

É um problema semelhante à onda de violência em São Paulo nos dias de hoje, devido ao enfrentamento entre os traficantes e a polícia?

J.L.A. –Sim. Também tem a ver com a falta do Estado de Direito. No Brasil ainda há a tendência a fazer pactos com criminosos. Tendo feito uma vez, se fará sempre. É preciso quebrar esse círculo vicioso.

A polícia em São Paulo parece estar matando ou fazendo pactos. No Rio, de repente ouvimos que já não há mais tantas mortes, que os morros estão pacificados. É claro que há um pacto por trás disso, e esse método precisa parar de ser usado. O Exército que está nas favelas hoje vai ficar lá? Ou o controle vai ser entregue para uma espécie de poder paramilitar? Não sei. Há uma parte do Estado brasileiro que opera nas trevas.

O problema não passa pelo debate sobre a descriminalização das drogas? O que o sr. acha da iniciativa do Uruguai de estatizar a produção e a distribuição de maconha?

J.L.A. –Esse debate é central. Acho muito interessante o caso do Uruguai. Os agentes antinarcóticos com quem converso nunca dizem que seu método é vitorioso. Tenho certeza de que, no fundo, todos pensam o mesmo: é preciso legalizar as drogas. Porém a solução pode até nascer em Montevidéu, só que, para ter sucesso, precisa ser liderada por uma cidade como São Paulo.

Por quê?

J.L.A. –São Paulo já é o futuro. É uma cidade pós-apocalíptica. De algum modo, todos vamos acabar vivendo numa cidade dessas. É Blade Runner, é o futuro. O que se crie numa cidade assim será uma solução que pode ser aplicada em outros centros. O Brasil, por seu dinamismo e efervescência, deveria ser de onde saem ideias novas. O Bolsa Família foi uma grande iniciativa. O que se fez com a pobreza agora tem de ser feito com o crime organizado.

Mas, ao mesmo tempo em que é um país que lida com os problemas do futuro, também convive com questões do passado, como a escravidão, a demarcação de terras, as matanças regionais. Há uma parte de faroeste que convive com problemas do século 21. O Brasil é o novo continente: se as soluções não vierem dele, estamos perdidos. Tem criatividade, população. Ninguém pode vir e fazer por ele.

Qual a diferença entre o jornalismo de hoje na América Latina e o praticado nos anos 50 e 60?

J.L.A. –Há muita diferença. Naquela época, correspondentes tinham mais importância para os jornais. O ponto de vista privilegiado da pessoa que está ao lado da notícia era mais valorizado. Hoje são como agências de notícias, têm de produzir para diversas plataformas, enviar “flashes” [notícias sucintas], fazer vídeos, têm uma carga muito grande de trabalho. Visto assim, há um empobrecimento.

Por outro lado, vejo, principalmente na América Latina, uma efervescência da produção de crônicas. Há revistas e meios digitais produzindo muita coisa boa. Não vejo mais a novidade nos jornais convencionais. Vejo nesses suportes e em outros mais tradicionais, como o livro-reportagem, que está em voga e chama a atenção de jovens. Agora a geração mais nova começa na grande imprensa, mas depois procura vias alternativas. Isso é muito bom para a profissão.

Como você vê o enfrentamento entre mídia independente e os governos de países como Argentina, Venezuela e Equador?

J.L.A. –Creio que voltamos à questão da falta do Estado de Direito. Se não o temos, abre-se espaço para isso, um novo autoritarismo que tem como recurso amedrontar a sociedade pelo cerceamento à imprensa.

Acho grave que Cristina Kirchner esteja usando a Justiça e as instituições contra o grupo Clarín, apesar de achar que o debate sobre a Lei de Mídia seja válido. No caso da Venezuela e do Equador é muito pior porque estão se calando definitivamente algumas vozes, jornalistas estão sendo presos e até expulsos do país.

***

[Sylvia Colombo, é correspondente da Folha de S.Paulo em Buenos Aires]

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