Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > TRAGÉDIA EM SANTA MARIA

Corações de estudante na câmara de gás

Por Ada Cristina Machado Silveira em 05/02/2013 na edição 732

A tragédia de Santa Maria abateu-nos em nosso valor mais caro, a vida de jovens a quem nos dedicamos a formar. Embalados por ilusões que a vida noturna promete, nossos alunos embarcaram no sonho de diversão num local qualificado pela tese da Delegacia de Polícia e Promotoria Pública como uma câmara de gás. Mortos e feridos pela ação do gás cianídrico, nossos jovens perderam a inocência presente em todos nós de que Santa Maria é o lar de milhares de corações de estudante, reminiscência que embala os relatos da maioria de egressos quando narram sua vida na cidade.

No curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) perdemos uma caloura de jornalismo, Alana Willers, uma loirinha de Ijuí, aluna nota dez, e um adiantado aluno de relações públicas, roqueiro e amante da noite, Emerson Cardozo Paim. A festa dos alunos da Comunicação da UFSM ocorreu na véspera na mesma boate por divergências de gosto musical com os alunos das rurais.

Retraída em casa por questões de saúde e aliviada de atender a alguém, observei atentamente a cobertura realizada. Desde o início sobressaiu o contraponto entre veículos locais, regionais e nacionais, ademais da repercussão da cobertura internacional, realizadas em grande parte por repórteres que para Santa Maria deslocaram-se prontamente.

Num primeiro momento, dois aspectos fazem-se salientes. O agendamento da cobertura a reboque das mídias sociais e o inevitável despreparo e carência de materiais das coberturas centralizadas no eixo Rio-São Paulo.

Testemunho qualificado

As mídias sociais atuaram num conjunto tão grande de ações que enumerá-las faz-se temerário: mobilização do voluntariado, informação sobre feridos e mortos, localização de familiares, promoção de auxílios diversos (alimentação, transporte, alojamento etc.), manifestação do pluralismo e, finalmente, a organização de passeatas e cultos.

A cobertura local atuou abnegadamente na busca por informações fundamentadas e pertinentes. Em que pese esse compromisso, o prefeito somente falaria à Rádio Nativa FM de Santa Maria (em cadeia com várias outras emissoras locais independentes de outros municípios) na segunda-feira (28/1). Houve duas manifestações suas no dia da tragédia à Rádio Gaúcha de Porto Alegre (RBS), em cadeia com sua outra emissora de Santa Maria e, pela noite, à Globonews. Pode-se observar sua mudança de perspectiva, amparada inicialmente na consternação e sentido de fatalidade, depois na premência da alteração na legislação, na responsabilização do Corpo de Bombeiros, para, finalmente, eximir o Executivo municipal de qualquer responsabilidade.

Em todos esses momentos o discurso peripatético alimentava a decepção local, ferida em seu anseio por uma voz de liderança em meio ao caos e desespero, a exemplo do prefeito de Nova York no atentado de 11 de Setembro. Na terça-feira (27), o prefeito Cesar Schirmer convocaria uma coletiva de imprensa e, por treze minutos, exerceu sua longa prática parlamentar de comentar a legislação vigente. Abruptamente deixou dezenas de repórteres sem sequer permitir que enunciassem suas perguntas, argumentando que a legislação é autoexplicativa.

Talvez sentindo-se ameaçado fisicamente pela proximidade da passeata pela justiça, ele preferiu abreviar sua fala. Nesse momento emerge a liderança do delegado Marcelo Arigony que, sem intimidar-se com a manifestação, desloca-se até os estudantes e reitera a tese formulada. O seu qualifica-se como dos únicos discursos propositivos dentre todas as autoridades envolvidas.

A cobertura local contou com a mobilização das diversas emissoras radiofônicas AM, FM e comunitárias, ademais dos canais locais de televisão (RBS TV Santa Maria, TV Pampa, TV Campus da UFSM e TV Santa Maria – canal de cabo) e dos dois diários locais (A Razão e Diário de Santa Maria). Essa cobertura local foi amplificada pela capilarização de dezenas de veículos da região.

Alguns equívocos da cobertura local podem ser alinhados à cobertura regional. Trata-se especialmente da promoção dos assessores de imprensa e o seu posicionamento firmado na produção de informação unitária e coerente, em acordo com interesses institucionais e muitas vezes distanciados do nível do indivíduo. Foi o caso de muitos jornalistas assessores que apoiaram o “cala boca” impetrado pelo governador do Estado ao chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros, major Gerson Pereira. Voluntariosamente presente em diversos programas locais, regionais e nacionais, ele plantou-se entre forças titânicas. Seu testemunho qualificado do cotidiano e a concretude das decisões no dia a dia da corporação foram condenados por muitos a pretexto de serem declarações desastrosas.

Razão jurídica

Alguns equívocos da cobertura nacional ficaram claramente perceptíveis quando observados da perspectiva local: a falta de estrutura para a cobertura de acontecimentos na extensão do território nacional, opiniões arvoradas na alocação de lugares comuns e clichês, o uso às vezes abuso de vozes de autoridade profissional para explicar os fenômenos em questão. Um viés informativo recorrente consistiu na afirmação de que as vítimas mais graves seguiam para Porto Alegre. Transportar um paciente não estável é um grande risco e os que seguiam para o Centro de Queimados eram os que o necessitavam; permaneceu em Santa Maria a ampla maioria dos pacientes acometidos pela inalação do gás. Um equívoco amparado pela falta de exatidão e guiado pelo olhar colonial quando entende que as infraestruturas estão concentradas nas capitais litorâneas.

A denúncia nas redes sociais de um suposto vínculo do deputado Paulo Pimenta (nosso egresso de jornalismo) com os proprietários da boate foi um dos fatos que gerou agendamento da mídia de referência. Em sua defesa, o deputado alegou tratar-se de ação de um grupo neonazista. Um tema delicado numa cidade com uma arraigada comunidade judaica, com destacados políticos a ela vinculados. O impacto da constatação de um pesquisador da UFSM de tratar-se do mesmo gás usado pelo nazismo significou mais que memória histórica para a nossa população multicultural, numa cidade geoestratégica e disciplinada pela presença do efetivo das Forças Armadas – comando do III Exército e base aérea.

O conflito com certas manifestações midiáticas aponta para a denúncia da exposição da morbidez e exploração sensacionalista da tragédia. Uma ausência refere-se ao não registro por qualquer mídia de comentários sobre supostas ocorrências de suicídios de familiares.

A ênfase dominante nos discursos politicamente corretos e no jornalismo de fontes sentiu-se perturbada com algumas autoridades muito próximas da população: o major do Corpo de Bombeiros e os delegados da Polícia Civil e Promotoria Pública. Seu desempenho em acordo com as virtudes heroicas contrariou nitidamente o perfil despido de autoridade assumido pelo prefeito e seu vice, recém reeleitos.

A avaliação das principais vozes em manifestação protagônica até o momento aponta para a afirmação do polo da consternação, contemplando o nível do indivíduo e, por outro, para o polo da judicialização do debate, apoiado nas figuras dos doutores das leis. Recordo Hannah Arendt, quando, frente a situações não razoáveis, refletiu sobre o totalitarismo e a impossibilidade da razão jurídica penetrar no núcleo de sua experiência.

Sonho e alegria

Continuo temendo que mesmo com a forte legitimidade das redes sociais e do terceiro setor, ademais da agilidade da Polícia e da Promotoria Pública, os desdobramentos permaneçam concentrados no conflito entre o polo do indivíduo e o da institucionalidade, fortemente estruturado na cultura autoritária e atualizada pela mídia de referência. Sair desse modelo implica a amplificação da cidadania, a imputação de responsabilidades pessoais frente a qualquer eventual comando da máquina de governo, por mínimo que seja seu poder decisório.

Fica para os que vivemos em Santa Maria o testemunho para o resto de nossas vidas de ter presenciado as condições de engendro do pior que o totalitarismo já proporcionara ao mundo. Mas também permanece conosco a missão cantada por Milton Nascimento: “Há que se cuidar da vida/ Há que se cuidar do mundo/ Tomar conta da amizade/ Alegria e muito sonho/ Espalhados no caminho/ Verdes, planta e sentimento/ Folhas, coração,/ Juventude e fé”.

***

[Ada Cristina Machado Silveira, pesquisadora do CNPq, é professora da Universidade Federal de Santa Maria e atua no Curso de Jornalismo e no Programa de Pós Graduação em Comunicação]

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