Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
Menu

JORNAL DE DEBATES >

A hipótese do Outro regulando a renúncia

Por José Isaías Venera em 26/02/2013 na edição 735

“Bento 16 renuncia”. A manchete de capa do caderno especial da Folha de S.Paulo (12/02) é ilustrada por uma imagem de uma cadeira papal vazia com um fundo negro. Nas páginas internas do caderno, uma foto se destaca, não pelo tamanho, mas pelo campo imaginário que ela suscita. A legenda da imagem a descreve: “Raio atinge a basílica de São Pedro, no dia da renúncia do papa Bento 16”. Dois dias depois, a Folha de S.Paulo publica outra foto marcante, desta vez na capa, com a legenda: “O papa após a Missa de Cinzas, na basílica de São Pedro”. Na imagem, Bento 16 aparece de costas, caminhando entre uma multidão, sendo que centenas estão com suas mãos levantadas, não para louvá-lo, mas para segurar as máquinas fotográficas e smartphones.

O que as pessoas buscavam ao fotografar, filmar e aplaudir Bento 16 durante a primeira missa depois de seu anúncio de renúncia? Pergunta que caberia também a grande mídia. Teríamos ainda que a estender para os consumidores midiáticos.

O Outro é virtual

“[…] Você não pode ser comprado, mas o raio / Que atinge a casa também / Não pode ser comprado. / Você sustenta o que disse. / Mas o que você disse? / Você é honesto, dá sua opinião. / Qual opinião? / Você é bravo. / Contra quem? / Você é sábio. / Para quem? […]” O poema de Bertolt Brecht é ilustrado por Slavoj Zizek, em artigo sobre o real da ilusão cristã. Nele, a tese (em parte converge com a de Alain Badiou, em seu livro São Paulo: a fundação do universalismo, lançado em 2009 pela editora Boitempo) sobre a suspenção da lei – entre elas a judaica – pelo apóstolo Paulo, tido como fundador do cristianismo.

Para Badiou, Paulo seria responsável pelos fundamentos do universalismo. “Pedro é o apóstolo dos judeus, Paulo, dos gentios” mostra Badiou ao indicar as disputas entre os dois apóstolos. Elas aparecem nos próprios discursos dos apóstolos. Em Gálatas (2. 1. 10), Paulo diz que “[…] Ao verem que o Evangelho me havia sido confirmado para os incircuncidados, assim como a Pedro os circuncidados – pois aquele que fez de Pedro o apóstolo dos circuncidados também fez de mim o apóstolo dos pagãos – […] afim de que fôssemos em direção aos pagãos e eles aos circuncidados” (extraído do livro de Badiou).

Tanto na divisão da igreja primitiva quanto nas insinuações de Bento 16 em seu discurso na Missa de Cinzas (13/02), a mensagem é produzida sempre para um Outro. Na capa da Folha de S.Paulo, abaixo da curiosa foto que faz de Bento 16 um popstar, a manchete funciona para regular a interpretação: “Bento 16 critica divisão na igreja e fala em hipocrisia”. Ora, a quem de fato Bento 16 presta contas?

O grande Outro, formulado pelo psicanalista francês Jacques Lacan, é virtual. Quase um virtual deleuziano, que não para de se atualizar. Umberto Eco, no livro A estrutura ausente, elaborou uma boa síntese do Outro, que “é o lugar psíquico não-individual da lógica que nos determina”. Há sempre uma existência (como o Deus todo poderoso) pelo qual determinamos nossas ações, mas que, paradoxalmente, não existiria sem as nossas crenças. O grande Outro é a ordem simbólica, que estrutura o nosso imaginário (atualiza), ao mesmo tempo em que deixa rastos do Real (fica sempre alto incompreendido, que não se consegue simbolizar).

Ratzinger diante de um nó

Como foi possível o acontecimento renúncia de Bento 16? Na imprensa, tirando um ou outro artigo mais crítico, a informação jornalística reproduz a versão oficial, narrada pelo próprio Bento 16. Na capa do caderno especial da Folha de S.Paulo, uma citação de Joseph Ratzinger evidencia isso: “Após ter examinado perante Deus reiteradamente minha consciência, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério petrino.”

É evidente que no bojo de outras falas, como a da divisão na igreja e de hipocrisia, o que Ratzinger queria dizer é que a igreja estava pesada demais para ele suportar. Mesmo que o sentido implícito (o conotativa na semiologia de Barthes) se faça presente, a questão permanece. A quem Bento 16 fala? À multidão, a Deus, ou a si mesmo? Aceitando que o exame de consciência a Deus por Ratzinger é a construção de um imaginário que tem a função de tornar a realidade suportável, haveria então um real (instância que independe da linguagem) sob essa realidade e, acima dela, uma lei que, recorrida, regularia os significantes do imaginário.

Quando Lacan elabora, na década de 50, o R (Real) S (simbólico) e I (Imaginário), ele o chama de “trindade infernal”. A expressão se ajusta bem neste contexto, já que em contraponto a trindade cristã (o pai, o filho e o espírito santo), o discurso psicanalítico busca saturar o sentido no mesmo território do discurso religioso. O exemplo mais prático é a morte. Enquanto no discurso religioso produzem-se sentidos sobre a morte, para o discurso lacaniano a morte seria da ordem do Real, não simbolizável, sem sentido. Na lógica desta análise, o discurso religioso produz sentido sobre o que não tem nenhum sentido. Mas quem é o grande operador do discurso religioso? Quem autorizou Bento 16 renunciar? Estamos às voltas novamente da questão do Outro e a responder a quem Ratzinger fala? Ou quem pensa por Bento 16?

A cadeira vazia

Talvez a melhor forma de encerrar essa questão seja relembrando uma piada capitalista sobre o comunismo: em um discurso político, o orador diz que o comunismo já desponta no horizonte. Imediatamente, um ouvinte grita – o que é horizonte? Educadamente, o comunista diz que é uma linha imaginária, onde o céu e a terra se encontram e que se afastam à medida que seguimos em sua direção.

Assim caminha a humanidade. Na busca de cobrir (por meio da linguagem) o Real, acredita-se na possibilidade de chegar nessa linha que divide o inexplicável (Real) e nossas crenças (imaginário). Do ponto de vista do discurso objetivo, o exemplo melhor vem da coluna online de Janio de Freitas, também na Folha de S.Paulo (14/02), quando inicia a análise dizendo que o “Vaticano é a grande caixa-preta, a maior e mais duradora de todos os tempos. Sua vida interior só pode ser sondada, até hoje, por especulações, por combinações de mínimas certezas factuais com hipóteses à vontade dos autores”.

Entre as especulações; as divisões das primeiras comunidades cristãs e, nessa longa duração, a divisão da igreja, aqui anunciada por Bento 16. O raio que caiu sobre a basílica de São Pedro é a melhor imagem dessa divisão. A cadeira papal vazia, pode aqui funcionar como um significante icônico do grande Outro, na medida em que se assemelharia ao sentido desde sempre presente naquele que faz o exame de consciência, seja para renunciar o papado ou para confirmar a indicação.

Uma nova ilusão

O significante do Outro implica em manter a estrutura, mesmo que o sentido sofra alterações. O significante “é primeiro aquilo que tem efeito de significar, e importa não elidir que, entre os dois [significante/significado], há algo de barrado a atravessar”, ensinou Lacan no seminário “Mais, ainda”. Ora, a forma com que cada um significa este ou outro papado dependerá, no fundo, de sua relação com a própria castração, o que faz do sujeito, desde sempre barrado. Não seria este também o desejo dos seguidores que, havidos em perdurar o acontecimento renúncia de Bento 16, enquadram e congelam sua primeira e última missa depois da renúncia? O que eles buscam com este gesto? Como se o sujeito barrado pudesse desaparecer.

Por fim, estamos às voltas do aforismo lacaniano: “o desejo é o desejo do outro”. Quem autorizou Ratzinger a renunciar seu persona foi o Outro. Quem faz com que a grande mídia produza sentidos (fabrica outro acontecimento) exaustivamente sobre este acontecimento, é o Outro. O mesmo que leva milhares e milhares de consumidores digerirem a mesma informação hora após hora, dia após dia, quase sempre com os mesmos fatos, salvo algumas análises especulativas.

O Outro instaura a ilusão de que outorgamos nossas escolhas (por isso a liberdade é sempre imaginário) em função de uma lei maior que nos determina, regula nosso movimento. Regula o movimento compulsivo de buscar sempre uma nova informação; de buscar um novo fato para alimentar o deseja de consumidores midiáticos, fazendo funcionar o lugar das mídias; ou mesmo para disparar flashs no rosto de Bento 16 como se estivessem inscrevendo em algum suporte a imagem da santidade, ou, ainda, o desejo de mostrar que andou de mãos dados com a história.

De mais, lembremos que Bento 16 anunciou a descoberta dos restos mortais de São Paulo, em 2009. Há sempre um mais ainda… Há sempre uma nova ilusão.

***

[José Isaías Venera é jornalista com formação em psicanálise e professor]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem