Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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ENTRE ASPAS >

Eleições: TV alavanca candidatos nas pesquisas

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 23/09/2008 na edição 504

Leia abaixo a seleção de segunda-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 22 de setembro de 2008


 


CAMPANHA
Thiago Reis


Mais tempo de TV alavanca candidatos nas pesquisas


‘Em apenas um mês de horário eleitoral, a TV já pode ser apontada como fundamental para a mudança do cenário político nas capitais do país. Em 18 das 26 cidades, o líder nas pesquisas às prefeituras é o que possui o maior tempo nos meios de comunicação.


Levantamento nas 20 cidades onde foi possível comparar a mais recente pesquisa de intenção de voto (Ibope ou Datafolha) com aquela feita dias antes do início do horário eleitoral revela ainda mais o poder de exposição dos candidatos.


Em dez cidades, aqueles com tempo de TV maior ou igual aos adversários se mantiveram na frente, boa parte alargando a vantagem. Em outros cinco municípios, onde os candidatos com maior tempo de TV estavam atrás, eles viraram o jogo e agora são líderes.


Em duas capitais, candidatos com maior tempo de TV não chegaram a primeiro, mas subiram: Gilberto Kassab (DEM), em São Paulo, e João Henrique (PMDB), em Salvador, diminuíram a distância para os líderes. Amparado por uma coligação que inclui o PMDB, Kassab é dono do maior tempo de TV e rádio em São Paulo (39% do total destinado aos quatro principais candidatos). Sua propaganda também recebe boa avaliação. Segundo pesquisa Datafolha da semana passada, o prefeito democrata tem o segundo programa mais bem avaliado entre os que acompanham o horário eleitoral -32%, contra 35% de Marta Suplicy (PT).


Em Manaus, Omar Aziz (PMN), com maior exposição que Amazonino Mendes (PTB), conseguiu diminuir a diferença entre os dois, de 42 pontos para 27. Em Vitória, João Coser (PT), com um minuto a menos de TV, manteve a distância de Luciano Resende (PPS), e o cenário ficou inalterado.


A única exceção à regra ocorreu em Macapá, onde Camilo Capiberibe (PSB) conseguiu passar à frente de Roberto Góes (PDT), que tem tempo de TV maior e apoio do primo do governador, Waldez Góes (PDT).


Para o cientista político Vitor Ferraz, da PUC-SP, a campanha na televisão é fundamental na escolha do eleitor e o impacto é sentido nas sondagens. ‘O candidato que tem mais tempo passa a sensação de que tem mais força política, ainda que o eleitor não saiba como é composta essa divisão.’


O professor do Instituto de Ciência Política da UnB Luis Felipe Miguel concorda. Ele diz que, se o candidato tem um tempo bom de TV, significa que está sendo apoiado por partidos grandes. ‘E o início do horário eleitoral coincide com a mobilização desses partidos nas ruas, colocando suas estruturas para funcionar.’


De acordo com Miguel, com um tempo maior, o candidato pode expor as propostas, fazer críticas aos adversários e apresentar as lideranças que o apóiam. ‘Com menos tempo, o adversário é obrigado a abrir mão de uma ou mais linhas discursivas, o que o prejudica.’


Os dois dizem, no entanto, que só a TV não é decisiva em uma campanha. ‘O papel do marqueteiro, de criar uma imagem, de tentar superar uma margem de rejeição, também é crucial. Por isso, a TV influencia dependendo da maneira como é usada e do que se tem para mostrar. No caso de Belo Horizonte, o apoio expresso dado a Marcio Lacerda [PSB] foi fundamental’, afirma Ferraz.


Lacerda tem como padrinhos o governador Aécio Neves (PSDB) e o prefeito Fernando Pimentel (PT). Na primeira quinzena de agosto, antes do rádio e da TV, ele tinha 9%, segundo o Ibope. Agora, tem 42%.


Dinheiro


Além do maior tempo de TV, Lacerda e os outros quatro candidatos que ultrapassaram os oponentes também arrecadaram mais que eles. O candidato do PSB já recebeu quatro vezes o valor doado a Leonardo Quintão (PMDB). No Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB) diz ter arrecadado R$ 2,6 milhões a mais que Marcelo Crivella (PRB), que ficou para trás nas pesquisas.


Para os cientistas políticos, isso mostra o quanto o dinheiro é importante em uma eleição numa capital. ‘Conseguir dinheiro mostra a capacidade de um candidato se articular politicamente e isso pode refletir em votos’, diz Ferraz.


Miguel diz que o candidato com poucos recursos não se torna competitivo, pois o eleitorado, em grande medida, é desinteressado. ‘É importante se fazer presente. Para isso, é preciso material de campanha, estar nas ruas.’ Para ele, na década de 80, havia mais diferenças entre as campanhas eleitorais, dada a criatividade dos publicitários mesmo com tempos de TV e rádio mais restritos.


‘Hoje, as campanhas dos partidos que disputam de verdade uma eleição são parecidas, com o mesmo profissionalismo, marqueteiros experientes e usando as mesmas formas de pesquisa. Ter mais dinheiro e mais tempo para passar uma mensagem tem muito mais peso’, diz Miguel.’


 


 


GRAMPO
Fernando Rodrigues


Degradação institucional


‘BRASÍLIA – O escândalo dos grampos já está quase no arquivo de indignações sem solução do Brasil.


O último capítulo foi um laudo da PF na semana passada sobre a capacidade de a Abin fazer escutas telefônicas. Os equipamentos dos arapongas só captam conversas a partir das antigas linhas analógicas.


Logo, o presidente do STF, Gilmar Mendes, não teria sido ouvido ilegalmente com os aparelhos do serviço secreto federal.


A reação negativa ao laudo explicitou o estágio de degradação das instituições brasileiras. Ministros, congressistas e juízes colocaram sob suspeita a perícia. A CPI dos Grampos já anunciou uma análise independente -que certamente também será questionada.


Na quinta-feira à noite, num jantar com gente graúda da República, não se ouvia ninguém disposto a defender o resultado do laudo da PF. Há um estado de desmoralização de calibre não desprezível das instituições em Brasília.


O Congresso não confia no Poder Executivo, que não confia no Poder Judiciário, que não confia em ninguém. Não se trata da desejável fórmula dos freios e contrapesos pensada por Montesquieu há 260 anos.


O caso brasileiro é de aversão abjeta, pura e simples, um pelo outro.


Há pouca ou nenhuma disposição de colaboração mútua dentro do governo. Desde a volta à democracia os Três Poderes vivem uma lenta, constante e perigosa perda de credibilidade. É quase um esporte nacional falar mal dos ‘políticos’, expressar repugnância por qualquer órgão policial ou desconfiar da isenção dos juízes.


Depois de décadas de estagnação ou retrocesso, houve alguns avanços na economia e no social. Tudo muito lento. Mas, na área dos costumes e boas práticas públicas, a velocidade é ainda menor. Para piorar, há pouca gente disposta a descontaminar o ambiente e produzir um país mais saudável.’


 


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Humildade, humildade


‘O secretário do Tesouro fez campanha pelo pacote nos programas dominicais de entrevistas dos EUA. Nas redes NBC, ABC e CBS e no canal republicano Fox News, pressionou os democratas por aprovação rápida e sem emendas. Na manchete on-line do ‘New York Times’, fim do dia, ‘emerge apoio bipartidário’. Também ‘Washington Post’ e ‘Wall Street Journal’ destacaram os efeitos dos programas.


Mas os democratas de Nancy Pelosi ainda queriam em troca, no Congresso, o apoio republicano a seu plano de estímulo à economia. De seu lado, ao menos para consumo eleitoral, os republicanos criticavam o apoio a bancos estrangeiros.


Na frase de maior efeito, Henry Paulson disse que ‘é hora de humildade, humildade [humbling, humbling] para os Estados Unidos da América’.


COMO NO BRASIL?


O ‘Financial Times’ perguntou a William Rhodes, vice do Citigroup e que realizou pelos credores a negociação da dívida de Brasil e outros, se ‘a América está hoje em pior estado do que a América Latina’ nos anos 80.


Respondeu que é ‘diferente’, que o ‘mercado é maior’. Mas, sim, é a pior crise financeira que ele já viu ‘e provavelmente a pior desde a Grande Depressão’.


E TEM A COMIDA


Em meio à crise financeira, a Reuters lembrou a anterior -e ressaltou que os ministros de agricultura da União Européia discutem relatório da França, dizendo que a ‘incerteza sobre oferta e demanda’ em nível global vai prosseguir por dez anos.


Devido não só às mudanças nos hábitos de ‘China, Brasil e Índia’, mas às políticas dos grandes produtores ‘Brasil e Estados Unidos’.


ABAIXO DO RIO GRANDE


Jorge Castañeda, que foi chanceler no México e hoje é professor em Nova York, retorna às ‘duas esquerdas’ no ‘Miami Herald’. Alerta que ‘os EUA hoje precisam tanto da América Latina porque a resistência ao país aparece por toda parte’ do mundo -e também por questões de ‘interesse especial’ como petróleo.


O futuro presidente, para se reaproximar, precisará ‘fortalecer a esquerda moderna representada pelo cada vez mais influente Lula’ e se preparar para a ‘transição iminente’ em Cuba, retirando o embargo assim que ela começar sem exigir democracia antes.


AINDA CANA


A Europa pisa no freio com o etanol e os republicanos, nos EUA, já falam em reduzir os percentuais previstos para a mistura com gasolina. Mas o ‘WSJ’ destacou que prossegue a ‘Aposta do Brasil: etanol passa gasolina’.


E enquanto o Brasil criticava em Bruxelas as novas barreiras européias, que afetam projetos da África, o ‘Business Daily’, do Quênia, destacava ontem que o país africano vai buscar tecnologia brasileira para o etanol.


CORMAN CHORA


O ‘NYT’ deu pequena crítica de ‘Tropa de Elite’, que estreou lá. Vê ‘exploitation’, exploração, chama de ‘incoerente’ e ‘feio’ -e fecha afirmando que, ‘em algum lugar, Roger Corman deve estar chorando’


QUILOMBO LÁ


Na mesma edição sobre estréias de cinema, em contraste significativo, o ‘NYT’ faz elogios a ‘Quilombo Country’, sobre os quilombolas que, no Brasil, ‘ainda enfrentam pobreza, racismo’ etc.


GUERRA SANTA


A Globo destacou ‘uma passeata por liberdade religiosa na orla de Copacabana’, em plena campanha, reunindo ‘várias religiões’. Não citou evangélicos. Entre os cristãos, só católicos’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Audiência ignora ascensão de Felipe Massa


‘O bom desempenho do piloto Felipe Massa no atual campeonato de Fórmula 1 ainda não se traduziu em audiência para a TV Globo. O brasileiro está apenas um ponto atrás do líder, o inglês Lewis Hamilton.


Até o último GP, o da Itália (Monza), a Globo registrava média de 16,5 pontos com a Fórmula 1, somente meio ponto a mais do que as 14 primeiras corridas de 2007. Na transmissão do treino classificatório de Monza, no sábado, a Globo pagou o mico de ficar atrás dos desenhos animados apresentados pela menina Maísa, no SBT.


Os dados são do Ibope na Grande São Paulo. Cada ponto equivale a 1% dos domícilios da região metropolitana, ou seja, cerca de 56 mil residências.


A audiência da Fórmula 1 atual é muito inferior à dos tempos de Ayrton Senna. O GP de Monza de 2008, por exemplo, marcou 20,1 pontos (a segunda maior do ano, só atrás de Mônaco, que deu 20,2). A mesma prova em 1993, com Senna, registrou 29 pontos.


Apesar de ainda não empolgar o telespectador, a ‘era Felipe Massa’ supera 1998, quando Rubens Barrichello vivia má fase, e a Globo teve média de só 15 pontos. Barrichello, contudo, daria à emissora uma de suas maiores audiências com corridas dos últimos 15 anos (sem contar os GPs do Brasil). Em 2000, na estréia do piloto na Ferrari, a Globo cravou 33 pontos no GP da Austrália, disputado em plena madrugada.


LEI DO SILÊNCIO 1


A Globo vem mantendo sigilo sobre suas próximas estréias (programas como ‘Ó Paí, Ó’, ‘Capitu’ e ‘Força-Tarefa’) e projetos. Faz parte de sua nova estratégia. A emissora vai evitar divulgar datas e programas com antecedência para tentar impedir reações da concorrência, principalmente a Record.


LEI DO SILÊNCIO 2


Oficialmente, a Globo diz que as datas de estréias ainda não foram definidas.


OPORTUNIDADE


Empresários estão pegando carona em ‘A Favorita’ para vender condomínios de luxo em Buenos Aires. Prometem, a quem ‘reservar sua unidade’, ‘um vaucher e passeio pelos aposentos’ do hotel argentino que serve de fachada para o racho dos Fontini da novela.


TRAVE


Globo e Record disputam o direito de transmitir um show de Madonna no Brasil. Mas há o risco de nenhuma das duas levar. O staff da cantora está dificultando as negociações. Não quer exibição ao vivo.


NEGÓCIO


A Globo deverá trocar pelo menos um dos cinco patrocinadores do seu futebol em 2009. No mercado publicitário, especula-se que um ou dois atuais anunciantes sairão do pacote. A emissora oferece cada uma das cinco cotas por R$ 112 milhões.


BOMBA


O horário eleitoral gratuito está tendo efeito avassalador sobre alguns programas. O ‘Jornal Hoje’ da última quinta teve seu segundo pior ibope do ano. Marcou só 7,7 pontos. O normal são 12.’


 


 


Cristina Luckner


Programa busca analisar a cientologia


‘Um homem de terno, gravata e óculos escuros caminha rápido e revela eloqüência. Parece ter sido transportado diretamente de um filme de ficção científica para o documentário ‘O Mistério da Cientologia’, exibido hoje, às 22h, no GNT. Tommy Davis é o porta-voz da cientologia e bate de frente com o repórter britânico John Sweeney -que apresenta o programa- quando o assunto é defender a sua fé.


No documentário, Sweeney busca revelar alguns dos segredos, os princípios e a origem dessa instituição baseada na obra do escritor Ron Hubbard -além de estar disposto a arcar com as conseqüências. Ele entrevistou críticos e seguidores da cientologia -entre eles celebridades que depois não aceitaram aparecer no documentário- e foi importunado e perseguido por Davis, que também tinha uma equipe de filmagem para acompanhá-lo.


É quase como se dois documentários corressem paralelamente. O primeiro mostra a cientologia, e o segundo, as acaloradas discussões entre Sweeney e Davis. O programa não determina se a cientologia é uma religião, um culto ou algo que nem o repórter conseguiu desvendar. Fato é que há curiosidade sobre o assunto, e as igrejas se espalham por grandes cidades na Europa e nos EUA.


O MISTÉRIO DA CIENTOLOGIA


Quando: hoje, às 22h


Onde: no GNT


Classificação indicativa: não informada’


 


 


Folha de S. Paulo


Emmy premia ‘Entourage’, ‘Damages’, ‘House’ e ‘30 Rock’


‘Jeremy Piven, da série ‘Entourage’, levou o Emmy de melhor ator coadjuvante em comédia pelo terceiro ano seguido, ontem à noite, em Los Angeles, na premiação anual da TV americana.


A Academia de Artes e Ciências Televisivas apontou Jean Smart, de ‘Samantha Who?’, melhor atriz coadjuvante em comédia.


Nas categorias de coadjuvantes em drama, foram reconhecidos Zeljko Ivanek (de ‘Damages’) e Dianne Wiest (de ‘Em Terapia’).


‘John Adams’, o programa mais indicado do ano (23 menções), levara, até as 23h, os prêmios de melhor minissérie e atriz em minissérie ou telefilme (Laura Linney).


A academia também deu estatuetas a ‘30 Rock’ (melhor script de comédia), ‘Mad Men’ (script dramático), ‘House’ (direção de drama) e ‘Pushing Daisies’ (direção de comédia).


Pelo sexto ano seguido, ‘The Daily Show with Jon Stewart’ foi escolhido melhor show de variedades.’


 


 


LITERATURA
Sylvia Colombo


Mindlin começa a esvaziar biblioteca


‘‘A gente passa, os livros ficam’, as palavras do bibliófilo José Mindlin, 94, ecoam num dos compartimentos da imensa biblioteca que é sua casa, no Campo Belo, em São Paulo. Biblioteca esta que, até o final de 2009, deve ter suas estantes parcialmente esvaziadas. Nesta data, está previsto o início do transporte de cerca de 20 mil títulos, equivalentes a quase 45 mil volumes, entre coleções e folhetos, para o edifício da Brasiliana USP, no campus da universidade, em São Paulo.


A generosa doação de Mindlin, que incluirá obras sobre o Brasil que o ex-empresário vem colecionando desde os 13 anos de idade, porém, ainda depende de um compromisso firmado com a instituição. Se a USP não tiver concluído, até o fim do ano que vem, a construção de um edifício de 20 mil m2 em condições de armazenar a coleção, a doação será revogada.


Por conta disso, a universidade corre contra o relógio para viabilizar o projeto. Até agora, já foram reunidos cerca de R$ 26 milhões, em meio a doações diretas ou via leis de incentivo, além de um aporte da própria USP. Participam empresas como a Petrobras, o grupo Votorantim, a Telefônica, a CBMM (Companhia Brasileira de Mineração e Metalurgia, empresa do grupo Moreira Salles). De acordo com o coordenador do projeto, o professor István Jancksó, faltam ainda cerca de R$ 20 milhões a serem arrecadados para garantir o resultado da empreitada.


O prédio que abrigará a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) já está sendo levantado entre os edifícios da Reitoria e os da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. O projeto foi desenvolvido pelos escritórios Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, com assessoria da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo). Como referências foram utilizadas a New York Public Library e a Biblioteca Nacional de Paris.


O edifício também servirá como nova sede do IEB (Instituto de Estudos Avançados), criado em 1962 pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, e que contém entre seus mais de 140 mil títulos, obras de Mário de Andrade e Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, entre outros.


Entre as raridades de Mindlin que irão para a USP estão desde o primeiro livro em que o Brasil foi mencionado numa coletânea de viagens de Fracanzano da Montalbodo, de 1507, que noticia a viagem de Cabral, obras de história, periódicos, trabalhos científicos e didáticos, álbuns ilustrados, gravuras e edições valiosas de grandes obras da literatura nacional, muitas primeiras impressões e volumes autografados pelos próprios autores.


Uma vez pronto o prédio e transportados os livros -o que está previsto para acontecer em meados de 2010- o acesso a essas duas coleções será aberto e irrestrito. Mais sobre o que já foi feito e que vem por aí pode ser conferido no site www.brasiliana.usp.br.


Paralelamente, está em curso um processo de digitalização de obras raras, a Brasiliana Digital. Um piloto desta idéia já está no ar. Trata-se do dicionário ‘Vocabulario Portuguez & Latino’, do padre Raphael Bluteau, do século 18, que pode ser consultado por meio do site do IEB (www.ieb.usp.br).


Visita do ministro


Em visita à casa do bibliófilo, na última sexta-feira, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse que o personagem e sua história mereceriam um documentário. ‘O depoimento de quem lê é muito importante para suprir a carência de pais leitores no país’, disse.


Com relação ao tema, Ferreira também disse que sua gestão, iniciada oficialmente no fim de julho, pretende zerar o número de municípios brasileiros sem biblioteca (cerca de 600) e propor a recriação de um órgão apenas para cuidar do tema, como o extinto Instituto Nacional do Livro. O ministro diz que quer discutir o assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no próximo encontro entre ambos.’


 


 


 


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 22 de setembro de 2008


 


MARKETING
Ana Paula Lacerda


Anunciantes preparam o cardápio dos restaurantes


‘Na busca por maneiras menos convencionais de se fazer propaganda, espaços diferentes estão virando outdoors. Um dos mais novos é o cardápio dos restaurantes – o produto anunciado vai para dentro das receitas da casa.


‘Não é você colocar o anúncio da marca nas suas mesas ou na sua fachada, mas realmente integrar aquele produto a algumas receitas’, explica um dos sócios da rede de fast-food Wraps, Marcelo Ferraz. A rede fez uma parceria com a Unilever, mais especificamente com a Hellmann?s, para integrar a nova maionese Hellmann?s Deleite ao cardápio. A chef do Wraps criou dois pratos com o produto, que no cardápio aparecia com um pequeno logotipo da maionese.


‘Deu super certo, um deles ficou em 3º lugar no ranking de mais pedidos da rede’, diz Ferraz. Em 2 meses, foram 150 mil clientes. ‘Só deu certo porque o produto tem a ver conosco: uma maionese de pouca gordura e poucas calorias em um restaurante de comida saudável.’


O gerente de marketing da Hellmann?s disse que a marca optou por esse canal de divulgação por querer atingir um público A e B preocupado com alimentação saudável. ‘É exatamente o público do Wraps. Não funcionaria em qualquer restaurante. E foi uma divulgação com custo menor que a mídia tradicional, se levarmos em conta a experiência do consumidor com o produto.’


O professor de gestão de marketing do Ibmec São Paulo, Giancarlo Greco, diz que do ponto de vista de marketing faz sentido divulgar o produto no local de consumo. ‘O uso comedido de marcas conhecidas passa confiança ao consumidor. porém, o uso em excesso pode cansar. A pessoa vai ao restaurante comer, não ver propaganda.’


A vice-presidente de comunicação da América Latina do McDonald?s, Flávia Vígio, concorda. ‘Se enchermos a loja de marcas, o consumidor fica confuso. Mostramos marcas quando faz sentido para atrair o consumidor.’ Ela diz que a rede de fast food faz com freqüência parcerias para suas sobremesas. Até a semana passada, o sorvete McFlurry era servido com cobertura de chocolate Suflair (da Nestlé) e a partir de hoje começa a ser oferecido com cobertura de chocolate Twix (da Mars). ‘São marcas de chocolate muito desejadas, que chamam consumidores para a parte de sobremesas.’


O primeiro critério para escolher um parceiro, no entanto, é qualidade, não marca. ‘Se a empresa não tiver um reconhecido controle de qualidade, não fazemos a parceria, mesmo que a marca seja forte’, afirma Flávia.


Para o diretor da BrandAnalytics, Eduardo Tomiya, as iniciativas de co-branding (associação de marcas) sempre são benéficas, quando ambas as marcas são relacionadas. ‘Não combina um produto super light com rodízio de pizzas. Mas uma marca famosa que combine com o cardápio deixa o consumidor mais seguro para escolher.’


A vodca Absolut cria parcerias com alguns bares para divulgar seus produtos. Nesta semana, será lançada no País a vodca Absolut Mango, com sabor de manga, e o programa de divulgação inclui – além do lançamento de um site com jogos e receitas – a criação de drinks especiais no Bar Gabriel, no bairro dos Jardins em São Paulo. Os bartenders do estabelecimento foram treinados por especialistas da Absolut, e os drinks que contém a vodca sueca vêm assinalados no cardápio.


‘Como temos esse contato forte com eles, nossa campanha de divulgação do novo produto também terá outras ações por lá’, conta Nodjame Fouad, diretora de marketing da Absolut para a América Latina. ‘Para divulgar a Absolut Mango, a bateria da escola de samba carioca mangueira fará alguns shows para os clientes do local, por exemplo. Foi a Mangueira que criou o jingle da nova campanha, depois mixado pelo DJ Mam. Queríamos um som bem brasileiro para um produto com sabor bem brasileiro.’’


 


 


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Associação apóia parceria, mas sem exclusividade


‘O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Paulo Solmucci Jr., afirma que a entidade é favorável à parceria de fornecedores e restaurantes como forma de marketing, benéfica para os dois lados. ‘Acho que os restaurantes até deviam buscar mais esse tipo de acordo para divulgar sua imagem de estabelecimento preocupado com o uso de produtos de qualidade’, afirma.


Ele critica, porém, os contratos de exclusividade. ‘São mais comuns no caso de bebidas, em que o estabelecimento pode oferecer apenas uma marca, e isso cerceia a liberdade de escolha do consumidor’, diz ele. ‘O restaurante tem de avaliar se diminuir o número de opções só para receber algumas vantagens daquele fornecedor é realmente um bom negócio. Além do que, ser obrigado a encher a casa do logotipo do fornecedor não é bom.’


Para Eduardo Tomiya, diretor da consultoria BrandAnalytics, a exclusividade não é prejudicial. ‘Ter uma marca forte associada ao restaurante é benéfico. Cabe ao estabelecimento avaliar, no entanto, o que é melhor para sua imagem e também seu caixa: a diversidade ou a parceria.’’


 


 


SHOW BUSINESS
Michael Cieply, The New York Times


Magnatas da mídia chinesa vão às aulas em Hollywood


‘Agora já se pode falar a respeito do que aconteceu. Nas últimas semanas, alguns dos principais agentes, executivos e nomes influentes de Hollywood foram à Universidade da Califórnia, em Los Angeles, para oferecer à próxima onda de magnatas chineses da televisão e do cinema aulas particulares sobre a essência do show business.


Apesar de não ser exatamente um segredo de Estado, as sessões foram realizadas sem exposição à mídia por causa daquilo que Robert Rosen – reitor da escola de teatro, filme e televisão da universidade – chamou de ‘questões de segurança’. Estas se referiam ao bem-estar de várias dúzias de executivos chineses, a maioria entre os 20 e os 30 anos, e não às figuras influentes, que já conhecem bem o meio em que se encontravam.


Os freqüentadores foram escolhidos pela administração estatal chinesa de rádio, filmes e televisão, e chegaram sob a constante supervisão de Jiao Hongfen, um vice-presidente da China Film Group Corp. Estes incluíam ao menos alguns indivíduos cujo alcance seria invejado pela HBO. ‘Ele possui 800 milhões de espectadores’, disse Rosen durante o seminário final. Rosen estava se referindo a um jovem que administra um canal chinês de filmes.


De acordo com a programação das palestras – divulgada somente durante a sessão final -, Ron Meyer, presidente da Universal Studios Group, fez uma visita em agosto para dar algumas dicas de como administrar um estúdio de cinema. Dan Glickman explicou a função da associação dos cineastas americanos. Mike Simpson explicou a função dos agentes. Mark Gill, um produtor, explicou a arte dos filmes independentes.


Gareth Wigan, ex-vice-presidente da Sony Pictures Entertainment que agora presta assessoria ao estúdio em co-produções estrangeiras, disse que ele e seus colegas executivos fizeram o papel de vilões ao lidar com os estrangeiros. ‘Hollywood não adquiriu boa reputação durante as suas aventuras junto a outros países’, disse.


Quando a palestra foi aberta a perguntas, os chineses revelaram preocupações de outra natureza. O primeiro deles queria saber o que estava havendo com o escritório da Sony em Hong Kong, onde a atividade parece estagnada. Wigan reconheceu que sua empresa havia realocado parte dos seus investimentos para Rússia e Índia. Outro perguntou como os filmes chineses poderiam atingir uma audiência global se o público americano continua a rejeitar as legendas.’


 


 


TELEVISÃO
Patrícia Villalba


O assassino no espelho


‘Assassinos em série são figuras recorrentes da literatura policial. Nada melhor do que um sujeito que transforma o ato de matar num ritual requintado, tirando o sono de algum detetive de bom coração, para levar o leitor a atravessar páginas e páginas de uma história. Há sempre os que perseguem prostitutas e até os que perseguem ruivas – e pode haver também os que saem degolando prostitutas ruivas. Mas nenhum serial killer é como Dexter Morgan, um psicopata que mata psicopatas.


Chamado hoje de ‘o serial killer mais amado dos Estados Unidos’, por mais extraordinário que isso possa parecer, Dexter virou estrela de um seriado de TV, personificado pelo ator Michael C. Hall (da série A Sete Palmos, da HBO), depois de protagonizar com bastante sucesso uma série de livros, de Jeff Lindsay. O primeiro volume – Dexter, A Mão Esquerda de Deus – acaba de chegar às livrarias brasileiras, um lançamento da editora Planeta (270 páginas, R$ 31,40).


O lançamento do livro em português, em tradução de Beatriz Horta, coincide com a chegada à TV americana do terceiro ano da série, que vai ao ar a partir do dia 28, no canal Showtime, e com a apresentação da segunda temporada do seriado no Brasil, a partir do dia 9 de outubro, às 22 horas, no canal a cabo FX. ‘Essa idéia me veio à cabeça quando pensava numa maneira de tornar um serial killer simpático, e isso me atraiu pela ambigüidade moral’, explica o autor, em entrevista ao Estado.


O charme da ambigüidade é, de fato, o que mais atrai na trama criada por Lindsay, com inteligentes jogos de palavras e imagens que resultam numa história ao mesmo tempo sensível e dotada do mais fino humor negro. Dexter é um perito em espirros de sangue, que trabalha numa divisão de homicídios da polícia de Miami. É daqueles sujeitos que analisam a cena do crime e, pelo estrago das manchas de sangue no chão e nas paredes, sabe dizer como a vítima foi atacada. O mais curioso é que Dexter é obcecado por asseio. Quando o conhecemos, nem sexo ele é capaz de fazer (e, por isso, namora com Rita, ex-mulher de um viciado em drogas que, traumatizada, não está também preparada para ter relações sexuais).


Mas isso é superfície. No fundo, o agente usa o privilégio de estar tão perto das investigações da polícia para escolher suas presas, ‘gente que merece morrer’, como define o pai adotivo de Dexter, Harry. Conforme a história avança, numa troca bizarra, nosso herói usa o sexto sentido especial que tem para caçar criminosos numa espécie de combate ao crime – é um policial que pensa como assassino, justamente, por ser assassino. ‘A gente não se sente capaz de fazer qualquer julgamento, ninguém ali é realmente bom ou mau’, anota Lindsay. ‘Eu quis chamar a atenção para o que faz as pessoas aplaudirem um cara ruim e por quê.’


Quando o leitor encontra Dexter, ele já é um homem feito e, digamos, bem resolvido. Aos poucos, flash-backs dão conta de que ele sofreu certo trauma quando criança, pouco antes de ser adotado por Harry, um policial. Um ou outro cachorro morto na vizinhança, Harry logo percebe o instinto assassino do filho. E trata de canalizá-lo. ‘Há gente que merece morrer, Dexter’, ensina o pai. De arrepiar.


Uma enfermeira que matava pacientes de um hospital aos poucos. Um padre que abusava sexualmente e matava garotinhos da paróquia. Dexter poupa as vidas de futuras vítimas picotando assassinos – enquanto vivos. E terá o grande embate de sua vida quando encontra um assassino que segue a sua cartilha. Esse é o mote do livro em que a caçada de Dexter ao ‘assassino do caminhão de gelo’ se confunde com os detalhes do passado do protagonista, como numa sala de espelhos.


Deveria chocar, mas não choca. Tanto no livro quanto na série de TV, torcemos por Dexter. E para Lindsay essa simpatia não tem exatamente a ver com o lado vingador do personagem. ‘O fato de ele ser um vingador é apenas parte da justificativa que damos para nós mesmos por gostar de um sujeito como ele. E nós gostamos dele porque achamos que ele é inocente. É um bom sujeito, exceto pelos assassinatos ocasionais que comete’, teoriza o autor.


Lindsay lançou este primeiro livro da série Dexter em 2004. Depois dele vieram Dearly Devoted Dexter (2005) e Dexter in the Dark (2007), cujos direitos de publicação no Brasil já foram comprados pela Planeta. No ano que vem, o autor deve lançar mais um da seqüência, Dexter by Design. A série de TV veio logo depois do lançamento do primeiro livro, em 2006.


Quem já é fã da série e lê os livros logo percebe que a adaptação é mesmo certeira e a interpretação de Hall, um primor. E até desconfia que o jeito cinematográfico com que Lindsay constrói suas cenas no livro denuncia uma intenção prévia de levar a história do serial killer às telas. Ele nega. ‘Qualquer escritor espera um holofote como esse sobre sua obra. Mas meu jeito de escrever, em primeiro lugar, parece cinematográfico porque é assim que imagino as cenas. Em segundo lugar, acho que é porque eu escrevi roteiros de TV e cinema antes’, justifica ele, que diz ainda não ser grande fã de literatura policial, mas de Hemingway (por coincidência, ele é casado com uma sobrinha do escritor, a também escritora Hilary Hemingway) e Edgard Rice Burroughs.’


 


 


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‘Não chego a sonhar com Michael C. Hall’


‘NA TV: Depois de dois anos no ar, já não dá para imaginar o Dexter de Jeff Lindsay senão com o ar desajustado e o olhar enviezado do ator Michael C. Hall, que vive o serial killer na TV. O primeiro ano da série, que foi exibido no Brasil pela Fox, é baseado principalmente em Dexter – A Mão Esquerda de Deus (Darkly Dreaming Dexter, no original), numa adaptação do premiado roteirista James Manos Jr (que escreveu a primeira temporada de Os Sopranos).


O autor afirma manter, tanto quanto é possível, uma distância da equipe da série de TV. Diz que está feliz com o trabalho de adaptação e que sabe que, caso não goste de algo, pode dar um telefonema. E garante que ainda não sofre influência do Dexter da TV na hora de criar para o Dexter dos livros, o que seria até normal acontecer. ‘A série não tem influenciado em nada o meu trabalho como escritor, exceto uma ou outra vez em que vi algo que eles fizeram na TV e desejei que tivesse tido a idéia antes’, brinca. ‘Depois deste tempo, vendo o Dexter na TV, não chego a imaginar o personagem com a cara de Michael C. Hall. Não sonhei com ele ainda!’


Na segunda temporada, que estréia no Brasil no dia 9 de outubro no FX, às 22 horas, a liberdade dos roteiristas parece ter sido maior em relação ao que está nos livros de Lindsay. Os corpos das vítimas de Dexter, que já despertava suspeitas na primeira temporada, começam a ser descobertos.’


 


 


Keila Jimenez


COI adia acordo


‘Record e canais Globosat realmente engataram um namoro. Mas casar, casar mesmo, só em abril. É fato que os canais de esporte da Globosat estão interessados em transmitir os Jogos de Inverno de Vancouver (2010), o Pan da Cidade do México (2011) e da Olimpíada de Londres (2012), cujos direitos pertencem atualmente à Record. No entanto, esse acerto só poderá ser finalizado, se for, no fim do primeiro trimestre de 2009, obedecendo a prazos estabelecidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para o encaixe de patrocinadores e anunciantes internacionais dos eventos.


Mesmo tendo de obedecer à tal agenda olímpica, as conversas prosseguem. O diretor-geral da Globosat, Alberto Pecegueiro, mantém negociação com o diretor de Esportes da Record, Eduardo Zebini.


Em um desses papos, o futebol – canais como o SporTV têm direitos de transmissão de vários campeonatos da modalidade – já apareceu como moeda da troca da Globosat, além de uma boa quantia em dinheiro, é claro.


Já com a TV aberta do grupo, no caso, a Globo, não existe conversa. A Record não abre mão da exclusividade dos eventos nessa seara.’


 


 


RÁDIO
Patrícia Villalba


Livro relata as histórias de cidadania da Eldorado


‘Daria uma cena de cinema o momento em que um dos herdeiros de um grupo de mídia nacional chega de Nova York, onde passara algum tempo estudando música na Juilliard School, para recuperar uma empoeirada rádio da família. Contando apenas com equipamentos dos anos 50, ele tenta transformá-la numa das emissoras mais influentes do País. E consegue. Não é filme, mas um dos capítulos do livro Eldorado – A Rádio Cidadã, que o jornalista João Lara Mesquita lança hoje, no Restaurante Dom Pedro.


No livro, João Lara relata os fatos mais marcantes do período em que dirigiu a rádio, entre 1982 e 2003, uma maneira de reconhecer o trabalho dos funcionários que arregaçaram as mangas e estiveram ao seu lado nos momentos mais difíceis da reestruturação das emissoras AM (700 KHz)e FM (92,9 MHz) do Grupo Estado. ‘A idéia de escrever o livro surgiu lá na rádio quando soube que ia sair da direção. Achei que seria bom registrar aqueles momentos, pela singularidade da história’, explica o autor. ‘Quis fazer uma homenagem aos funcionários que trabalharam comigo, apostaram na rádio. Eu achava que tinha um pouco de obrigação de resgatar essa história.’


Eram tempos difíceis, mas de grande entusiasmo. João Lara dá detalhes sobre a aventura de relançamento da faixa FM, em julho de 1982. ‘Partíamos do princípio de que nossa audiência era formada por gente culta, interessada, curiosa e com bom poder aquisitivo’, escreve o autor. Assim, com tato, logo a nova programação rejuvenesceria a então emissora que, nas palavras do ex-diretor, parecia ter parado em 1958, ano de sua fundação. ‘Eu fazia as mudanças na rádio como se eu mesmo fosse o ouvinte. Naquela época, o padrão era a Rádio Cidade, todas se miravam nela – era um vitrolão, que tocava praticamente só sucesso e tinha muita brincadeira de locutor. Não quisemos ser mais uma.’


O lado B dos discos, muito além dos sucessos fáceis que martelavam no rádio, a cobertura esportiva diferenciada e o apoio ao melhor da produção cultural da cidade logo fizeram da Eldorado a preferida dos formadores de opinião. ‘Procuramos gueto por gueto e, de repente, começou o boca a boca’, conta o autor. ‘Às vezes, você pegava a nossa audiência do mês e via que 100% do público tinha curso superior. Eu ria, porque rádio é conhecido como um veículo popular.’


Entre os episódios mais memoráveis da história da Eldorado, João Lara destaca a cobertura que fez do rali Paris-Dacar, em 1989 – ‘Pela primeira vez, um brasileiro havia conseguido chegar ao fim’ -, o Prêmio Cara-de-Pau – uma campanha da rádio pela moralização da política, lançada em 1999 -, a mobilização pelo fim da obrigatoriedade de veiculação da Voz do Brasil e o apoio à difusão musical, com o Prêmio Eldorado de Música, criado em 1984.


Há destaque ainda para o papel da Eldorado na defesa do meio ambiente, como no caso da fundação do Núcleo União Pró-Tietê. O que começou como uma reportagem especial em 1988, acabou se tornando uma grande mobilização pela necessidade de despoluição do rio. ‘Passados estes anos, temos muito do que nos orgulhar. O Núcleo continua ativo, e muito ativo, até hoje. As duas primeiras etapas de obras foram encerradas com sucesso, e 2 bilhões de dólares foram investidos’, anota o autor.


Num relato emocionado, não poderiam faltar histórias engraçadas, típicas de redação. Uma das melhores é a de um encontro entre João Lara e Adoniran Barbosa no elevador do prédio da Rua Major Quedinho, antiga sede da Eldorado. ‘Proibido por seus médicos de praticar boemia noturna, ele se dedicava à diurna: almoçava no bar Mutamba, vizinho nosso, tomava suas biritas e depois subia para a rádio, onde se instalava num sofá aconchegante, escolhido para a sesta diária. E lá passava as tardes. Todo dia era a mesma coisa’, escreve o autor. ‘Não canso de repetir, e não vou esquecer: foram anos divertidos e lindos. Emocionantes!’


Trecho


O primeiro Prêmio Eldorado de Música foi um tremendo sucesso, com 150 inscritos do Brasil todo. E foi o grande acontecimento musical daquele ano. A final foi uma noitada tensa e animada; os seis candidatos se apresentaram diante de uma casa lotada. (…) Foi uma noite linda, com uma platéia extremamente ativa, formada por muitos músicos, professores, cantores líricos, estudantes e parentes dos candidatos. O público gritava ‘bravo!’, apostava para saber quem seria o ganhador, comentava a apresentação de cada um e torcia.’


 


 


 


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