Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > A VOZ DOS DONOS

Em defesa do inconfessável

Por Luiz Egypto em 21/01/2010 na edição 573

Os principais veículos jornalísticos brasileiros, congregados em torno das mega-associações que reúnem as mais influentes emissoras de rádio e TV, jornais e revistas do país, estão cumprindo, como se fosse de caso pensado, uma estratégia perigosa no que se refere às posições editoriais adotadas em relação ao Programa Nacional de Direitos Humanos, anunciado em dezembro, e à 2ª Conferência Nacional de Cultura, convocada para março. O mesmo comportamento pôde ser observado na cobertura que fizeram da Conferência Nacional de Comunicação, reunida em dezembro.


Claro está que essas iniciativas governamentais não são, em absoluto, imunes a críticas – muitas delas, aliás, justíssimas. O problema, para as organizações filiadas à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Nacional de Jornais (ANJ) e Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), é que o papel social desempenhado pela mídia é posto em relevo nos documentos produzidos tanto pelo Programa Nacional de Direitos Humanos como pelas duas conferências. Não poderia ser diferente numa sociedade que se quer democrática e em dia com seu tempo, e onde a mídia desempenha um papel central na vida dos cidadãos.


O simples fato de sentirem-se observadas e acompanhadas por qualquer organização da sociedade civil assanha os instintos de defesa das corporações de mídia. A alegação de volta da censura, controle social da comunicação e atentado à liberdade de expressão são os motes repetidos, reiterados e amplificados pelo oligopólio do discurso e da construção simbólica que essas organizações exercem no país.


Riscos relevantes


A estratégia escolhida é perigosa porque boa parte da argumentação das empresas colide com o que está disposto na Constituição em vigor. Não querem admitir, para ficar apenas em dois exemplos, que as concessões de radiodifusão sejam submetidas a algum tipo de regulação; nem que organizações independentes do Estado monitorem seu desempenho em relação ao compromisso inalienável que devem obrigatoriamente manter com as melhores práticas de promoção dos direitos humanos e valorização da cultura e da identidade nacionais.


O risco de insistirem nisso é que essa estratégia pode derivar para situações constrangedoras para o negócio, de um lado, e para a democracia, num plano maior. As organizações de mídia administram um bem público de alta relevância – a informação – e um direito geral da cidadania – o direito à informação. Devem saber, portanto, que sua credibilidade constitui importante e decisivo ativo empresarial a ser aplicado para incrementar a rentabilidade necessária à manutenção da independência editorial, que por sua vez reforça a credibilidade percebida pelo público consumidor de seus produtos jornalísticos. Romper esse círculo que se quer virtuoso pode resultar não apenas num movimento perigoso, mas suicida – o que é ruim para a democracia. Neste caso, então, será a treva.


 


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Todos os comentários

  1. Comentou em 25/01/2010 Odracir Silva

    E outra coisa, caro Marcelo Ramos. Este espaco, no qual vc parece ler, legitima e acredita na tal midia q vc tanta critica. As vezes (muitas vezes atee) a midia falha, assim como a politica. E a mesma critica q vc aplica aos partidos politicos, se aplica aos jornais. Agora, uma coisa bem pitoresca. Haa colunistas/jornalistas na grande midia q nao sao criticados no OI, alias sao tratados c/ uma certa reverencia neste espaco.

  2. Comentou em 23/01/2010 Marcelo Ramos

    Prezado Odracir, eu não sou petista e também não acredito que tenha existido mensalão do PT. Existiu Caixa 2 de campanha mas com diversos políticos inclusive do PT. Sobre esses causos do caseiro Francenildo, há muito coisa mal explicada. Não leio jornais faz tempo e, se fosse ler, não acreditaria nem na previsão do tempo. Aliás, você AINDA acredita nos jornais? Você deve estar falando isso de brincadeira, né? Acreditar em jornais que publicam matérias como a ficha falsa da ministra Dilma, ou a matéria onde o cara acusa o Lula de ter estuprado um garoto na cela? Em nenhum momento você questiona o que está nos jornais?

  3. Comentou em 22/01/2010 Odracir Silva

    Caro Marcelo Ramos. Nao haa como fazer uma orgao q consiga regular a midia q sem q seja imparcial. Principalmente c/ este governo, q daqui a pouco vai pedir a carteirinha do PTp/ ser funcionario publico. Certamente vao colocar um monte de cumpanheiros no tal orgao, e c/ relacao aa confecom, fala serio… faltou combinar c/ os ‘russos’, nao?

  4. Comentou em 21/01/2010 Odracir Silva

    Caro Marcelo Ramos, espero sinceramente q nao. Pela qualidade dos nossos politicos, dos nossos jornalistas, e dos segmentos sociais q participaram de tal conferencia, eu acho totalmente inviavel um orgao q seja imparcial. Se isto ocorrer neste governo ou da sua sucessora, vai ser q nem a composicao do conselho curativo TV Brasil, q vai apontar um jornalista chapa-branca (como a Tereza Cruvinel) como diretor(a). Se for o Jose Serra, entao vai ocorrer as mesmas questoes cabeludas q ocorreram na TV cultura. Agora, poderia ser pior, e se fosse o Collor!!!??? Eu jaa estaria imaginando o Claudio Humberto como o czar da midia…

  5. Comentou em 21/01/2010 Odracir Silva

    Ee pelo jeito as ‘senhoras de Santana’ vao adorar o modelo ingles q o caro Egypto quer introduzir. Para o tal ‘ofcom’ (q admito, pouco sabia) ai vai um artigo bem ilustrativo:

    http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2006/nov/30/abolishofcom
    fala serio, quemossabi…

  6. Comentou em 21/01/2010 Marcelo Idiarte

    As concessões… O Calcanhar de Aquiles dos grupos de comunicação. Muita gente pensa que esses grupos têm total liberdade para fazerem jornalismo do jeito que quiserem, só que a verdade é que eles deveriam se submeter às premissas expressas nestas concessões, que versam não apenas sobre direitos, mas também sobre obrigações. Por tradição (péssima tradição, diga-se) nunca houve qualquer exigência efetiva referente ao cumprimento destas premissas (pelo contrário: concessões viraram moeda de troca entre políticos e empresários), de tal modo que se consagrou o modelo jornalístico adotado pela Globo, por exemplo, onde eles veiculam o que querem, como querem e na hora que querem. Num momento em que o poder público ensaia fazer o que nunca fez (ou seja: fiscalizar), os oligopólios de comunicação se apressam em dizer que a ‘liberdade de opinião’ está ameaçada, e os bobos acreditam. Pior que acreditam sob a premissa de que se pretende amordaçar a imprensa para estabelecer um regime autoritário, quando na verdade este regime autoritário (das cinco ou seis famílias que comandam a grande imprensa no Brasil) já existe disfarçado de… liberdade de opinião. A sociedade civil brasileira é marionete absoluta dos interesses de apenas cinco ou seis famílias – e não percebe. Concentração e propriedade cruzada, recomendo: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/download/oforrodocarteldamidia.pdf

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