Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > RESCALDOS DO TERROR

Em nome da dor

Por Afonso Caramano em 23/05/2006 na edição 382

A dor tem nome – o nome da perda de vidas, no primeiro caso a de policiais surpreendidos pela ação criminosa do Primeiro Comando da Capital (PCC) – e o Jornal Nacional da noite de sexta-feira (19/5) nomeia cada vítima, divididas em grupos de 10, encerrando cada bloco com o depoimento, sempre comovente, de um parente.

Justapõe-se, dessa forma, o número de suspeitos (107) abatidos pela reação da polícia do estado de São Paulo ao número de baixas policiais, uma vez que, de acordo com o noticiário, já surgem questionamentos sobre tal reação – quem são esses suspeitos, serão todos criminosos? Ou a polícia, ferida em seu brio, tem cometido exageros?

O certo é que o medo exacerba radicalismos e expõe a face mais cruel da sociedade – uma face impregnada de rancor, ódio, preconceito e desigualdades. Revela a fragilidade de nossa democracia e a tibieza dos princípios de cidadania e justiça.

Demonstra, por outro lado, a ineficiência ou incompetência das autoridades numa ação preventiva mais ágil contra a ‘represália’ (prevista) do PCC, evitando-se assim as mortes (de policiais) e o pânico gerado na cidade.

Jean Charles

É papel dos meios de comunicação questionar a atuação das autoridades e buscar diversidade de olhares sobre tais acontecimentos (funestos) – não deve relativizar nem espetacularizar as mortes, tampouco se deixar aprisionar por discursos evasivos ou manipuladores, adotando por vezes um tom amenizador diante de tantas mortes – e deixando de tocar em pontos mais delicados desse imenso problema, que é o da criminalidade, da corrupção, do sistema prisional, da justiça.

Nesse contexto talvez seja pertinente recordar o não menos lamentável episódio do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em julho do ano passado pela polícia britânica – uma perda que causou tanta indignação por todas as circunstâncias conhecidas e divulgadas na mídia –, já que se tratava apenas de um ‘suspeito’ (confundido com um homem-bomba) – para que não nos tornemos todos prisioneiros do medo, da suspeição e da indiferença.

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Funcionário público, Jaú, SP

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