Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

Empastelamento, modo de emprego

Por Alberto Dines em 06/11/2006 na edição 405



Do Aurélio:


Empastelar, verbo: Misturar (caracteres ou outro material tipográfico) com os de diferentes caixas. Inutilizar as oficinas de (um jornal). Amassar, machucar, estragar.


Do Houaiss:


Empastelar, verbo: Invadir uma gráfica ou redação de jornal para inutilizar o trabalho em curso, danificar equipamentos e materiais. Causar danos físicos ou materiais, estragar, machucar.


A história política brasileira e a história da imprensa brasileira se cruzam em diversas circunstâncias e formas. Nos primeiros anos do Império, política e jornalismo se tangenciavam através das pasquinadas, troca de insultos, infâmias. Esgotada a retórica, começou a correr sangue com os duelos e assassinatos de jornalistas.


A modernidade do Segundo Império trouxe a violência em escala industrial. Começou a Era dos Empastelamentos. Tornou-se corriqueira a destruição dos equipamentos (tipos e impressoras) para calar os veículos opositores. Nossa civilização política e jornalística foi fundada dentro do princípio de que aqueles que incomodam precisam ser silenciados. Se insistirem, devem sumir.


O empastelamento é a versão ‘jornalística’ de um linchamento. Formatos diferentes, igualmente covardes, para calar adversários e suprimir opiniões.


Num empastelamento, reúne-se diante das oficinas de um jornal meia dúzia de capangas – indignados ou não – alguém começa a gritar palavras de ordem e em poucos minutos o grupinho se transforma numa turba capaz de qualquer violência.


Às vezes, os ensandecidos recorriam a incêndios para aniquilar a capacidade de sobrevivência do jornal adversário. Destruíam a tipografia, a impressora, os estoques de papel, o prédio, e não raro atacavam os jornalistas que porventura estivessem refugiados no prédio. Mas isso dava muito trabalho, os próprios incendiários corriam riscos.


Opção mais ‘limpa’ e ‘inofensiva’ era a derrubada das caixas de tipos de modo a impedir que os tipógrafos juntassem as letras de chumbo. Espalhadas e misturadas no chão, tornava-se impossível compor palavras, montar frases, construir textos e transmitir idéias. Um jornal empastelado era um jornal sem letras e sem voz.


Outra vocação


Tivemos empastelamentos de jornais ao longo da nossa história política: da implantação da República até o golpe de 1964. A ditadura não precisou utilizar o recurso extremo para calar a imprensa, foi mais sutil. Mas os esbirros dos órgãos de segurança inventaram um gênero original de empastelamento para calar a imprensa alternativa: incendiar as bancas de jornal que os vendiam.


Um dos empastelamentos mais dramáticos, mas pouco referido pelos historiadores, foi o dos jornais Liberdade e Gazeta da Tarde (8 de março de 1897), como represália pelo apoio que supostamente ofereciam aos insurgentes de Canudos. Como os republicanos atribuíam aos monarquistas as vitórias do ‘fanático’ Antônio Conselheiro, resolveram calar os dois jornais da antiga Capital Federal (Rio de Janeiro).


Os amotinados destruíram os prédios, acabaram com os jornais e mataram a tiros aqueles que pareciam se opor à violência. Foi um empastelamento e um ato terrorista. O jornal O Paíz (ligado aos republicanos) designou os envolvidos na operação militar como ‘heróis’.


O dono dos jornais destruídos era o conde Afonso Celso, da família Ouro Preto. Não entrou para a história como vítima de um atentado à liberdade de expressão. Nem como aquele que poderia ter revertido a sorte dos seguidores de Antônio Conselheiro. Ironicamente, foi consagrado como autor de um livrinho chamado Porque me ufano do meu país (publicado três anos depois).


Ao invés de criar um capítulo na história da resistência à intolerância política, Afonso Celso preferiu entrar para os dicionários por meio de um substantivo e de um adjetivo quase pejorativos (ufanismo e ufanista).


Há gosto para tudo. A vocação deste observador é outra. Vai resistir ao empastelamento e ao linchamento que está sendo submetido pela turba enfurecida. E começa identificando um dos capangas.


 


MATA! ESFOLA! – 2


Paco, o linchador


Em seu site Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim publicou na noite de sexta-feira (3/11) a seguinte manchete: ‘Internautas criticam artigo de Alberto Dines’. Clica-se e aparece a foto deste observador e um pequeno texto: ‘A favor da mídia. Internautas criticam artigo em que Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, se manifesta a favor da mídia’.


Os curiosos então clicam para saber o que Paulo Henrique Amorim, porventura, tem a dizer sobre o assunto e descobrem que Paulo Henrique Amorim, como sempre, nada tem a dizer: escafedeu-se. Mas como precisa fazer jus ao cachê de linchador, remete para os comentários dos internautas furiosos com este observador. Convém registrar que o afiadíssimo site é completamente cego em matéria de interatividade e democracia: não recebe comentários dos leitores.


Paulo Henrique Amorim – Paco, para os íntimos – é o protótipo do linchador. Paradigma do empastelador. Agente provocador de quebra-quebras. Tem longa experiência nesta matéria.


Paco agora anda camuflado de militante petista. O disfarce vai durar pouco. Em setembro de 1998, véspera da segunda disputa Lula-FHC, ele comandou na TV Bandeirantes uma viciosa cruzada contra Lula com os mais torpes argumentos. Pretendia denunciar a operação financeira que permitira ao então líder sindical a compra de um apartamento em São Bernardo do Campo.


Não foi um ataque político, foi um golpe baixo. Não foi um surto pontual, foi uma cruzada contínua, demorada, persistente. Em todas as edições do principal telejornal da Band, durante longos minutos, com todos os recursos de edição, depoimentos, documentos e aquela vozinha histérica, nasalada, tentando levantar os ânimos para derrotar Lula logo no primeiro turno.


Paco, o linchador, era o âncora do telejornal e conseguiu ser ouvido por alguns veículos. IstoÉ, como sempre, viu na denúncia uma chance de ganhar alguns trocados e foi na onda.


O Observatório da Imprensa protestou. Naquela fase, alguns artigos opinativos eram assinados coletivamente, ‘Os Observadores’. A responsabilidade era obviamente do editor-responsável. Alguns leitores protestaram contra o Observatório.


É sempre assim. Quando um delirante grita ‘Mata!’, logo aparecem outros para berrar ‘Esfola!’. Esta é a insana dinâmica das execuções sumárias e do paredón.


Abaixo a íntegra do que foi publicado na edição de 20/8/1998 deste OI sobre uma das façanhas de Paco, o linchador. Adiante, duas manifestações de leitores dadas em 5/9/1998, com resposta do OI.


***


Baixaria eleitoral: mídia cabocla sofre do Complexo Lewinsky


[Publicado em 20/8/1998 – link original]


A mídia quer esquentar a campanha eleitoral. E escolheu a mais perniciosa maneira: procurando fazer barulho a todo custo, espalhando lama no ventilador. Tudo em nome da ‘independência’ e ‘neutralidade’.


Estão tentando adotar na cobertura política o mesmo esquema da longuíssima Farra da Copa: se não há fatos relevantes, inventa-se. As laranjadas produzidas nos intervalos dos jogos do Brasil, agora repetem-se na disputa eleitoral. Convém recordar: quando chegou a hora de cobrir o fato mais importante do Mundial ninguém estava na concentração para contar – foram todos ao jogo final.


As denúncias do Jornal da Band envolvendo as finanças pessoais do candidato Lula da Silva são simplesmente repulsivas. Já o dissemos aqui: Luíz Inácio da Silva é um ícone nacional e internacional, sua biografia exige respeito. Sobretudo por parte daqueles que se opõem às suas idéias. Lula não pode ser tratado como um Paulo Maluf. Querer apresentá-lo como trambiqueiro e fechar os olhos para as falcatruas de que Maluf é acusado, é repulsivo.


A manobra não aconteceu por acaso: ensaia-se há algum tempo uma ofensiva na vida privada de outros candidatos. Seria a compensação, prova de ‘isenção’, ‘eqüidistância’. Tem sido ensaiada por IstoÉ, foi tentada no Rio pelos velhos corvos de plantão na rua do Lavradio (Tribuna da Imprensa). E mesmo o protesto mezzo indignado de um colunista da Folha (10/8/98, pág. 2) teve a mesma sonoridade daquela capa de Veja onde, a pretexto de desmentir os boatos que destruíam a família de Glória Pires, magnificou-se amplamente o âmbito das aleivosias.


A mídia brasileira parece disposta a perder o resto da compostura. E credibilidade. O farisaísmo tornou-se endêmico. A lei do vale-tudo está começando a valer. [Os Observadores]


***


Manifestação de leitores


[Publicado em 5/9/1998 – link original]


Leio: ‘As denúncias do Jornal da Band envolvendo as finanças pessoais do candidato Lula da Silva são simplesmente repulsivas. Já o dissemos aqui: Luiz Inácio da Silva é um ícone nacional e internacional, sua biografia exige respeito. Sobretudo por parte daqueles que se opõem às suas idéias. Lula não pode ser tratado como um Paulo Maluf. Querer apresentá-lo como trambiqueiro e fechar os olhos para as falcatruas de que Maluf é acusado, é repulsivo’.


Perdoem-me a ingerência e a manifestação, mas, ao que parece, estamos diante de um texto mais próprio de um ‘julgador’. O jornalista ficou de lado. O ‘julgador’ absolve Lula e condena Maluf (que nem faz parte do processo ‘em julgamento’).


Puxa!!! Vão gostar assim de Lula lá na Conchinchina! Ícone nacional e internacional?!!! Depende do lado em que se situe o observador. Para alguns, Maluf também é ícone. Enéas idem. Quércia ibidem… Há ícones para todos os gostos.


Posso estar errado, mas algo me sugere que o professor Alberto Dines não se inclui entre ‘Os Observadores’ signatários da matéria. [Jorge Taleb, Goiânia]


***


‘Já o dissemos aqui: Luiz Inácio da Silva é um ícone nacional e internacional, sua biografia exige respeito.’ Isto é um observatório neutro ou um comitê eleitoral? OI está cometendo o erro que critica na imprensa – na falta de fatos, julgamentos preconcebidos. Em vez de OI questionar a apuração dos fatos pela Band (e outros órgãos de imprensa) – que pode ou não ter falhas –, assume postura de pessoa à prova de críticas.


O que OI não está questionando é que o candidato Luiz Inácio não deu explicações convincentes sobre a história – ou falar que vendeu um carro de R$ 29 mil por R$ 40 mil parece razoável? –, mas esse mesmo candidato se sente no direito de dizer que há caixa 2 na venda da Telebrás e coisas do tipo, sem ter provado nada.


Lamentável a postura de OI. [Maurício]


 


Os Observadores respondem


‘A manifestação do OI tem o respaldo da Justiça Eleitoral, que acionou os veículos – especialmente a TV Bandeirantes – para provarem as acusações. Achamos, sim, que certas figuras, como Lula, devem ser preservadas do denuncismo irresponsável. O que não significa que estejamos endossando as suas candidaturas. Não adotamos a tábula rasa de que todos os políticos são bandidos, temos respeito pelas biografias. Acreditamos no gênero humano. Jornalista precisa saber distinguir. O nivelamento por baixo induz ao vale-tudo. Tentar enlamear Lula, na véspera do pleito, qualificando-o como se fosse um Maluf ou um Quércia – há anos às voltas com a Justiça – é uma grande injustiça. A opinião dos Observadores expressa um consenso da equipe que edita o OI. Mas a opinião do Observatório é mais abrangente e compreende as opiniões de todos.’

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