Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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ENTRE ASPAS >

Empregos a jornalistas geram debate sobre parcialidade

Por Jim Rutenberg em 10/02/2009 na edição 524

Washington – Jornalistas de grandes órgãos de imprensa americanos, em número incomum, começaram em janeiro a trabalhar em novos cargos no governo, alimentando o debate sobre se o presidente Barack Obama estaria recebendo tratamento incomumente favorável na mídia.

Jay Carney, novo diretor de comunicações do vice-presidente Joe Biden, chefiou, até o final do ano passado, a sucursal da revista Time em Washington, onde cobriu a campanha presidencial e, coincidentemente, foi coautor de um artigo publicado em setembro intitulado ‘A alegação de viés feita por McCain: verdade ou tática?’.

Sanjay Gupta, principal candidato ao cargo de diretor nacional de saúde, é o correspondente médico chefe da CNN. Seu currículo de neurocirurgião praticante – e um dos nomes da lista da revista People de 2003, dos ‘homens mais sexies do mundo’ – não é o de um jornalista tradicional. Mas ele escreveu sobre os históricos de saúde dos candidatos presidenciais, no ano passado, e também sobre suas propostas para a saúde.

Se obtiver o cargo, Gupta trabalhará para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, tendo como possível secretária-assistente de assuntos públicos Linda Douglass, por anos correspondente noticiosa de TV. Ela deixou o jornalismo no ano passado para trabalhar na campanha de Obama.

No Capitólio, o senador democrata John Kerry contratou Douglas Frantz para ser seu investigador-chefe na Comissão de Relações Exteriores do Senado. Frantz é ex-editor-administrativo do Los Angeles Times e, antes disso, foi repórter investigativo no mesmo jornal, no New York Times e no Chicago Tribune.

Funcionários do governo admitem ter conversado com outros jornalistas em busca de trabalho, à medida que os veículos de imprensa começam a cortar vagas.

‘Afinidades ideológicas’

As mudanças dão credibilidade às acusações de parcialidade da mídia, feitas por conservadores, que se queixam há tempos que os jornalistas da grande imprensa são favoráveis aos democratas.

‘Acho que há indícios de uma certa afinidade’, disse Richard Lowry, editor da importante revista conservadora National Review. ‘Não teríamos visto tantos jornalistas da grande imprensa indo trabalhar [num eventual governo de] John McCain.’

O governo de George W. Bush teve como secretário de imprensa Tony Snow (já morto), que entrou e saiu do jornalismo durante anos, embora tivesse passado boa parte de sua carreira escrevendo artigos de opinião. Em 2007, Bush contratou como porta-voz do Pentágono Geoff Morrell, ex-correspondente da ABC News na Casa Branca.

Alguns dos ex-jornalistas que começam a trabalhar para o governo dizem que não veem seus novos empregos como partidários.

Frantz já declarou que, como investigador-chefe da Comissão de Relações Exteriores do Senado, atuará de maneira semelhante à de um repórter investigativo, com o acréscimo de duas ferramentas potenciais com as quais não teria podido sonhar antes: o poder de intimar pessoas judicialmente a depor, e, se sua candidatura for aprovada, acesso a dados classificados como sigilosos.

Frantz, que deixou o LA Times quando o jornal trocou de donos, em 2007, disse que estava pronto para uma mudança de carreira. Mas admitiu: ‘Se o ramo dos jornais estivesse em situação melhor, queria ainda ser o editor-administrativo do Los Angeles Times‘.

Carney, ex-chefe de sucursal da Time que hoje é porta-voz de Biden, disse que tampouco vê seu emprego como sendo especialmente político. ‘Este é um governo democrata; obviamente, estamos do lado democrata do espectro, mas não vejo este cargo como partidário’, disse em entrevista.

Falando sobre Carney, seu antigo chefe Richard Stengel, editor-administrativo da revista Time, comentou: ‘Nunca tive evidências, de um lado ou de outro, de quais fossem suas preferências políticas’. Stengel deixou o jornalismo para trabalhar na campanha de Bill Bradley pela indicação presidencial democrata, em 2000.

‘Seria ingenuidade imaginar que os jornalistas não tivessem afinidades políticas ou ideológicas’, disse Stengel. ‘A questão é que, se você é bom jornalista, você deixa suas preferências de lado no interesse da objetividade.’

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Do New York Times

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