Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > VOTO & RELIGIÃO

Entre a coerência e a superficialidade

Por Gabriel Perissé em 12/10/2010 na edição 611

Nunca antes na imprensa brasileira se escreveu tanto sobre o aborto. O tema
está em destaque na revista Época, na Veja e na
CartaCapital desta semana. Vários jornalistas e articulistas têm escrito
sobre ele nas páginas dos jornais e nos blogues. Tema da hora porque, ao que
tudo indica, o segundo turno para a escolha do próximo presidente aí está em
virtude do voto religioso, que alguns consideram simplesmente
fundamentalista.


Muitos católicos e evangélicos teriam identificado a candidata Dilma como
agente do mal, aquela que ‘é a favor de matar criancinhas’ (Mônica Serra).
Votaram em Marina Silva, que já foi católica e hoje é evangélica. O que
proporcionou a José Serra a sobrevida de um mês na disputa eleitoral. Além de
Marina, o próprio Serra teria sido diretamente beneficiado pelo voto
religioso.


Aborto… Política… Religião… As autoridades religiosas vêm a público se
manifestar. A palavra dessas autoridades se dirige ao fiel que, na hora sagrada
de votar, é pressionado por sua consciência a não cooperar com a
iniquidade…


O pastor Silas Malafaia influencia o povo evangélico. Decidiu não votar na
‘irmã’ Marina e opta por Serra: veja o vídeo.
Outro líder cristão, o pastor Paschoal Piragine Jr., da Igreja Batista de
Curitiba, também se posiciona contra o PT: veja o vídeo.
Um sacerdote católico, da Canção Nova, manifesta-se no seu sermão contra o PT:
veja o vídeo. Um vídeo
no YouTube, contra o aborto, chega a denunciar Gabriel Chalita (PSB), líder
católico, como ‘traidor’, ao apoiar as candidaturas de Marta Suplicy e
Dilma.


Não fica um, meu irmão…


A ideia de fundo é que uma pessoa coerente com seus princípios religiosos não
pode votar em políticos que defendam práticas contrárias à lei natural, à moral
do Evangelho ou aos ensinamentos da Igreja católica.


No entanto, se esse contingente de eleitores quiser ser coerente para valer
deverá aprofundar sua busca de informações. Não basta ler e-mails de origem
duvidosa ou a revista Veja, que na capa da última edição associa Dilma
Rousseff (somente Dilma) à questão do aborto.







Trata-se de averiguar então o grau de coerência católica de
José Serra, que seria a ‘opção do bem’.

O candidato do PSDB, quando ministro
de FHC, em 1998, assinou a Norma Técnica ‘Prevenção e
Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e
Adolescentes
‘, autorizando os hospitais
públicos a realizar abortos. O padre Léo, da Canção Nova, sobre isso se
manifestou: veja o vídeo.


Serra é um entusiasta dos valores da maçonaria, como neste
vídeo
. (Aliás, o próprio católico Geraldo Alckmin simpatiza com a maçonaria,
conforme este
vídeo
, e Gilberto Kassab e o candidato a vice Michel Temer se irmanam neste
outro
vídeo
.) A rigor, católicos também não podem votar em simpatizantes da
maçonaria.


Com relação à homossexualidade, seria difícil para José Serra explicar este vídeo aos seus
apoiadores à la Malafaia. A rigor, evangélicos também não podem votar em
quem elogia a Parada Gay.

******

Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/10/2010 FELLIPE KNOPP

    Assim não o processo eleitoral nunca será ‘FRANCO’ (rs). Parece um jogo de damas!(rs)

  2. Comentou em 13/10/2010 Mariana Kumaira

    E isso porque o Estado (ainda) é laico. A estratégia do segundo turno é rechear a campanha com falsos moralismos: é Dilma fazendo voto antiaborto com os evangélicos pra lá, é Mônica Serra acusando a candidata de ‘matar criancinhas’ pra cá e José Serra pedindo respeito aos valores cristãos. E essa questão atinge tais proporções pelo fato de os eleitores da Marina (evangélica e praticante) e seu partido serem decisivos para o resultado das eleições presidenciais. Antes de tudo, em um país LAICO, democrático e de tamanha diversidade cultural como o Brasil, deve existir LIBERDADE religiosa. As crenças podem pautar a vida do Presidente em sua forma pessoal de encarar a vida e o mundo mas, de forma alguma, devem influenciar na tomada de decisões nacionais – apesar de que muitas das nossas leis são pautadas nos dogmas católicos, como a proibição ao casamento homossexual, ao aborto, à eutanásia…
    Não é notório que essas questões podem ofender outras crenças? Não sou cristã e sou a favor do casamento gay. Sou a favor da legalização e regulamentação do aborto. Por que, então, devemos nos submeter à moral católica?
    Acredito que boas propostas e planejamentos possam conciliar vários pontos de vista. Também não queremos uma ‘marginalização’ dessas práticas. Mas é preciso dar voz à minoria.
    Daqui a pouco estaremos ouvindo pregações no debate e Lula será promovido a aiatolá.

  3. Comentou em 13/10/2010 Rodrigo Alexandre

    Olha, que texto Petista, é o que tenho a dizer!!

    Comparar a liberação TOTAL do aborto com casos de risco de morte e estupro é de uma ignorância sem tamanho.

    Quer dizer que prefere ver uma mãe morrer nos primeiros meses de gestação ou que uma mulher carregue e crie um filho de um homem que a violentou?
    Pois já que disse PESQUISE, averigue vc tb, que o mesmo serra de quem vc falou colocou a pilula do dia seguinte no SUS, sim, somente para esses dois casos extremos.

    E a liberação para qualquer garotinha, que nem sabe quem é o pai do filho, foi feita no governo Lula!

    Acho que nesses casos, acima da religão, está o direito a vida, o RESPEITO a vida. E se qualquer pessoa puder abortar, puder transar com quem qusier e depois entrar na fila do SUS, as evzes até contra a vontade do pai, aí sim, os valores a vida e respeito serão perdidos.

    O Serra não é um santro. E nem vc é. E nem eu sou.
    Mas é a arma que temos contra essa mulher desconhecida chamada Dilma e seu PT que fez a corrupção se tornar parte corriqueira deste governo falso e mentiroso!

  4. Comentou em 13/10/2010 Cristiana Castro

    O mais engraçado é que parece que Cristo, desembarcou no Brasil, após o segundo turno, deve ter descido, surfando a onda verde.Pq uma país que é conhecido, mundialmente, por rifar suas mulheres e meninas, explorar a imagem da mulher a exaustão, e por aí vai pq não tenho paciência para tanta hipocrisia… De repente, acorda carola e, pasme, a mídia, maior exploradora da imagem feminina adulta e infantil, promovendo a caretice para fazer média com o Senhor. Sugiro aos ‘ puros’, de plantão que comecem sua cruzada, rasgando as resvistas de mulheres nuas e seminuas nas bancas e exijam da TV aberta programas adequados a nova onda-carola-verde-fake e, na medida do possível,colocar uma camiseta em Jesus pq pra quem prega tanto moralismo, determinadas coisas não ficam bem.

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