Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & RELIGIÃO

Entre a cruz e… a cruz

Por Daniel Sottomaior em 26/08/2008 na edição 500

Longa e antiga é a discussão sobre o que é notícia e o que deveria ser notícia. Apesar de toda sua subjetividade, esse carimbo vital que sai das mesas dos pauteiros e editores quase sempre expõe uma visão de mundo, em especial quando milhares de jornalistas tomam, independentemente, a mesma decisão. Essa sintonia mágica expressa valores e vieses embutidos profundamente no olhar da imprensa – e possivelmente em toda a sociedade.

Na segunda-feira (18/8), Vilma Martins Costa, a seqüestradora do caso Pedrinho, recebeu liberdade condicional em Goiânia. Nada mais natural que o caso tenha sido reportado em todo o país, sem grande destaque. O que não me parece nada natural é que não se tenha dado destaque algum ao fato de que o despacho do juiz Éder Jorge, da 4ª Vara Criminal do estado, também tenha recomendado a Vilma que freqüentasse entidades religiosas de formação cristã. A recomendação aparece bem ao lado de outros pedidos insuspeitos, como o de não portar armas e manter endereço fixo.

Se você leu isso e não se assustou, ao menos ao ponto de se engasgar e cair da cadeira, então um de nós dois tem um problema. Um de nós acha que os juízes de direito podem se comportar como se o Estado fosse confessional, e o outro não. Um de nós vê a ‘formação cristã’ como fonte natural, universal e inquestionável de moralidade – talvez a única –, o outro não. Um de nós sabe que a laicidade do Estado está profundamente ligada à democracia, e que está expressa no artigo 19 da Carta Magna, o outro não. Um de nós sabe o que são garantias constitucionais como liberdade de consciência e crença, o outro não. Eu poderia continuar, mas acho que você já entendeu.

Arrogância abjeta

Não se trata aqui de indignação com a insensibilidade da imprensa em ver a relevância nacional da minha tia Maricota, mas com a profunda incapacidade de entender e valorizar elementos centrais da formação de democracias modernas e direitos individuais. Se estivéssemos no século 19, e ainda nem soubéssemos o que são direitos humanos e o papel da imprensa em proteger e fiscalizar a democracia, vá lá.

Mas os jornalistas de hoje supostamente são sensíveis a essas coisas. Com toda razão, chacinas e casos de preconceito racial fazem manchetes. Corrupção, nepotismo e tortura são pratos cheios. O princípio da igualdade é perseguido em todas as suas vertentes. Mas parece que essa profunda sensibilidade é bastante seletiva. Exaltar os brancos ou os sulistas é de uma torpeza abjeta, mas Deus nos livre denunciar a conversão forçada de cidadãos à crença em Nosso Senhor.

Nem um único jurista foi chamado para repercutir o fato, mesmo porque diversos veículos, como o próprio Consultor Jurídico, acharam tão desimportante a recomendação do bispo, digo, juiz, que nem sequer se deram ao trabalho de incluí-la na notícia. Não consultaram religiosos, cristãos ou não cristãos, grupos arreligiosos, ou uma associação de liberdade religiosa (sim, elas existem). Não publicaram editoriais clamando por liberdade e denunciando a abjeta arrogância culturocentrista da peça. Nada.

‘Princípio da maioria’

Além de seu papel estruturante no funcionamento do Estado, a laicidade é questão vital para mulheres (direitos sexuais e reprodutivos), crianças e adolescentes (ensino religioso), minorias religiosas, GLBTs (direitos de família), pessoas com deficiência (direito ao avanço científico). Ela até chegou a ser abordada ao longo do recente julgamento no Supremo. Mas parece que o interesse foi artificial ou forçado. Salvo honrosas exceções, não havia indignação, não havia engajamento. E agora parece que sabemos por quê. Parece que os jornalistas querem mesmo é dizer amém.

Em artigo divulgado no site da Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Victor Mauricio Fiorito Pereira, que atualmente é membro da instituição, afirmou que o Estado ‘com base no princípio da maioria, pode optar, quando necessário for, por determinada crença’, o que lhe permite ‘elaborar sua legislação tomando como base as orientações doutrinárias de um determinado credo, nisto incluindo questões polêmicas como aborto, uso de células de embriões humanos e união homoafetiva’.

Indolência crítica

Ora, adotar o ‘princípio da maioria’ para subverter direitos individuais é botar a democracia de ponta-cabeça, pois ela se baseia justamente na proteção intransigente desses direitos. A afirmação do promotor, que pertence a uma instituição a quem se confiou a defesa desses direitos, é equivalente, no campo dos direitos humanos, a uma plena confissão de que a tortura e o linchamento são vias democráticas e constitucionais. A simples idéia de que há casos em que é necessário que o Estado opte por uma crença é inadmissível. Em um país sério, isso seria notícia.

Pereira também foi membro do Ministério Público de Goiás, o que levanta sérias dúvidas sobre o que anda se passando no centro-oeste, mas a mídia do país inteiro, em uníssono, não vê que isso seja pauta. Ou eles não conseguem perceber que o Estado está sendo usado para emplacar valores religiosos e converter os cidadãos, ou não se importam. O que é mais grave?

Mais que preocupante, esse torpor jornalístico é um tapa na cara de qualquer cidadão e denuncia com clareza a indolência crítica de nossos meios de comunicação em matérias de relevância não apenas nacional, como global. Com a palavra, nossos editores e jornalistas.

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Engenheiro, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/08/2008 Felipe Faria

    Prenderam o criminoso Aguila de 39 anos em Cuba, cantor do conjunto de rock-punk Porno Para Ricardo, por Periculosidade e comportamento social inadequado……será que o juiz cubano vai recomendar que ele leia o terço na sua sentença, ou vai direto para o paredón? Prefiro os juizes cristãos aos materialistas, que fazem muito mal para a pele (furos).

  2. Comentou em 28/08/2008 Felipe Faria

    Será que o autor e seus colegas de crença tiveram o mesmo chilique quando o delegado federal Protógenes fez aquele arrazoado ideológico e pouco técnico contra O Dantas? E afinal, que positivismo é esse?

  3. Comentou em 28/08/2008 Leônidas Silva

    Não me parece que tenha ficado claro: por quê ‘recomendação’ atenta, segundo o autor, contra as garantias constitucionais? Por quê ‘recomendação’ é uma tentativa de conversão? Se não atenta, então não há nada de ‘abjeta arrogância culturocentrista’. A expressão, de palavras fortes e supostamente sofisticada, tenta impressionar demais.

    Vai ver, a imprensa não deu tanta importância porque não tem mesmo tanta importância.

    Há problemas nas relações entre poder público e religião. Mas não vamos exagerar vendo problema onde não há.

  4. Comentou em 26/08/2008 Ricardo Pereira

    Como leitor habitual do OI, fico agradecido por ter sido informado deste incidente, pois serve como base para uma discussao a respeito do papel do Judiciario na republica brasileira. Além dos habeas corpus altamente suspeitos do STF, das imposiçoes absurdas do STE sobre o uso eleitoral da internet, agora mais uma pérola antidemocratica como esta. O pior é que o Judiciario é o unico poder onde a açao direta do cidadao nao permite uma resposta imediata, pois nao existe eleiçao. Outras decisoes polemicas como o caso do candidato a prefeito de Salvador que consegue atraves de liminar impedir uma emissora de citar seu nome, caçando a liberdade de imprensa, mostram como a açao do judiciario tem contribuido pra aumentar a entropia na sociedade brasileira, colocando em cheque a propria Constituiçao.

  5. Comentou em 26/08/2008 Felipe Goulart

    Daniel, muito pertinente. Parabéns! A imprensa em geral realmente passou batida neste assunto. Precouparam-se apenas em noticiar que a Vilma está em liberdade condicional, mas nada foi dito sobre a imposição inconstitucional feita por este juiz. Talvez seja porque os jornalistas dizem amém mesmo.

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