Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2010

Entre a hipocrisia e o atraso

Por Ivo Lucchesi em 12/10/2010 na edição 611

A edição dominical de O Globo (10/10) estampava, como manchete: ‘Aborto ilegal mata a mulher a cada dois dias’. O fato tem duas implicações: 1) o caráter político da matéria jornalística; 2) a questão do Estado brasileiro.

É sabido que, há décadas, o tema do aborto, vez por outra, ressurge como um fantasma a rondar as consciências, sem que jamais a sociedade brasileira encontre um modo democrático capaz de lhe destinar uma solução. Em princípio, devemos reconhecer que a nenhum segmento parece interessar um desfecho conclusivo. Assim, a questão permanece pairando no ar. A pergunta primeira, portanto, é: por que O Globo, exatamente, no dia do primeiro debate do segundo turno, sob a chancela da TV Bandeirante, elegeu o tema para manchete? Igualmente é sabido por todos que a candidata situacionista teve oscilações quanto à questão. Ainda no primeiro turno, veio à tona um depoimento da candidata no qual ela se manifestava a favor da legalização do aborto. Em seguida, a mesma, sob alegação de que se tratava de ‘boataria’, deu declaração de que era a favor de uma política de assistência à mulher jovem.

O que interessa aqui é a motivação jornalística em torno da questão (contra ou a favor do aborto) no tocante à ocasião. A intenção do jornal, com base nos dizeres da manchete, foi a de induzir o (e)leitor a considerar que a prática do aborto deve ser legalizada, uma vez que a ilegalidade ‘a cada dois dias’ leva uma mulher para o túmulo. Considerando-se que a candidata situacionista havia desmentido ser favorável à legalização, fica evidente o propósito do jornal em, ao menos, criar um ‘embaralhamento das cartas’ na consciência do (e)leitor. Devemos lembrar que o tema está associado à candidata situacionista, e não ao oposicionista. A conclusão, portanto, é a de que a matéria publicada nesse contexto de definição eleitoral tem um condimento de manipulação.

O quadro catastrófico

No âmbito do Estado brasileiro, descartadas as circunstâncias a envolverem uma eleição majoritária em segundo turno, cabe pontuar a perplexidade ante a perpetuação do que parece ser um tabu. O Brasil, dentre outras características pouco louváveis, apresenta uma especialmente nefasta: a dubiedade (ou a indecidibilidade). A rigor, o que predomina é o regime do ‘parecer ser’. Como cidadão, até hoje, não sei se vivo num Estado laico ou teocrático. Por momentos, tenho um pé na modernidade; em outros, tenho um pé na Idade Média. Oficialmente, é-me dito viver num Estado laico. Todavia, na Câmara e no Congresso está afixado um crucifixo. As sessões diárias são abertas, invocando a proteção divina (há anos, escrevi um artigo, para o OI, no qual fazia alusão aos dois fatos). A respeito do aborto, nenhum governante (ou parlamentar) assume o problema, no sentido de se promover um plebiscito, exceção feita à candidata Marina Silva, que, apesar de evangélica, identificou ser esse o instrumento mais adequado para uma definição.

No quadro geral, mídia e políticos fingem não existir o problema. Quem, porventura, ousar tocar na questão logo será alvo de um cerco opressor. CNBB e a rede de seitas evangélicas se encarregam de construir uma muralha de proteção, de modo a inibir qualquer tentativa de análise conjuntural. Em nome da defesa pela vida, não se leva em conta quem morre. Sob tal aspecto, a matéria de O Globo, na própria manchete, define o quadro catastrófico: ‘a cada dois dias’ uma mulher-mãe tem de morrer, a fim de preservar a vida de um feto.

Impõe-se a discussão madura

Mesmo à luz dos preceitos religiosos, quem poderá assegurar que o princípio é justo ou lógico? Quem estabelece que a vida de uma adolescente grávida é menos importante que a de um ‘projeto de vida’? Para que existe o conceito de ‘livre arbítrio’? A teologia cristã apregoa essa condição. Se ela é para ser seguida, então cabe a cada pessoa decidir o que fazer e assumir, para si, o ônus da decisão. Deste modo, se o Estado brasileiro é oficialmente laico, igualmente deve assim proceder, ou seja, cada indivíduo deve ter o direito de escolher. Em caso contrário, temos de assumir que o Estado brasileiro é governado por um regime teocrático e, ainda assim, com o embaraço do que quer dizer o conceito de ‘livre arbítrio’.

Enfim, é hora de sabermos se colocamos os dois pés na modernidade, ou se deixamos um na Idade Média e outro na modernidade. Fora isso, o que resta é um comportamento ‘esquizofrênico’, para não considerar hipócrita, ou atrasado. Outro fato ainda agrava o cenário nacional: a cada eleição, cresce o número de parlamentares vinculados a facções religiosas. A história é pródiga em demonstrar que o conceito de democracia se situa numa angulação oposta à de teocracia. Deste modo, a questão do aborto, numa sociedade composta de seres livres, impõe uma discussão madura e aberta, à altura de contemplar crentes, ateus, agnósticos (e outros) e, por fim, chegar-se a um denominador majoritário, a exemplo do que tantos outros países já, há muito, fizeram. Não consta que sociedades ocidentais optantes pela legalização do aborto se tenham revelado, aos olhos do restante do mundo, como sociedades cruéis e insensíveis. Curiosamente, nessas mesmas sociedades, não se veem indigentes dormindo ao relento, nem pedintes em sinais de trânsito. Por que será?

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Ensaísta, articulista, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da FACHA (RJ)

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/10/2010 Igor M. Rodrigues

    É certo que a Constituição tutela o direito à vida: este é para os brasileiros e estrangeiros nascidos com vida, e não para os fetos ou embriões. Também é certo que a Lei põe a salvo alguns direitos dos nascituros: estes são direitos patrimoniais e sucessórios, que o próprio Código Civil prevê, e só (atuais direitos alimentícios na gestação são para gestante por questão da gravidez, e não para o nascituro, cuja pensão só se converterá após o nascimento com vida). Ou seja: feto e embrião não têm contemplado o direito à vida, segundo a legislação brasileira; há somente uma expectativa de direito à vida! A questão do aborto está além da questão de saúde pública: é questão de foro íntimo dos possíveis pais, a qual o Estado não deveria, de forma alguma, intervir na decisão, assim como deve reduzir o posicionamento de terceiros – mormente religiosos – à simples opiniões sem efeitos práticos.

  2. Comentou em 15/10/2010 Roberto Ribeiro

    O texto tem uma série de incongruências. Em primeiro lugar, se há tantas mulheres que morrem assim vítimas de abortos mal-feitos, como disse o comentarista abaixo, sendo o número de abortos maior até que o de assassinatos, o número de mulheres jovens mortas deveria ser altíssimo, quando todos sabemos que há muito mais mortes entre homens jovens que entre mulheres na mesma faixa etária (homens não morrem por aborto, penso eu). Depois diz o texto ”a cada dois dias’ uma mulher-mãe tem de morrer, a fim de preservar a vida de um feto.’ Ora, se elas morrem abortando, elas morrem matando os fetos, e não preservando a vida deles. Se elas abortam, não são portanto ‘mulheres-mães’, mas justamente mulheres não-mães. Depois o articulista mostra não compreender o conceito de ‘livre-arbítrio’. Um assaltante que rouba alguém, o faz por livre-arbítrio, ninguém o força a isso. Entretanto, este ato de sua livre vontade é punivel pela lei. A lei não pode punir quem não agiu livremente! Depois o que é um ‘denominador majoritário?’ nas minhas aulas de matemática nunca ouvi falar disso. Finalmente, os países ocidentais colonizaram o mundo, mataram milhões, escravizaram bilhões, condenaram outros bilhões à fome. Eles não são considerados bárbaros pelo simples fatos de terem dinheiro, mais dinheiro e bombas atômicas. Quem tem dinheiro e bomba atômica, faz o que quer. Nada a ver com moral.

  3. Comentou em 13/10/2010 André Sampaio

    ‘Das mulheres que declararam ter abortado, 15% são católicas. Evangélicas e protestantes somam 13%; 16% disseram ter outra religião, e 18% não têm religião ou não responderam. A pesquisa também mostrou que 23% das mulheres estudaram até a 4 série, 19% estavam entre a 5 e a 8 série, 12% concluíram o ensino médio, e 14% tinham curso superior.
    Outra pesquisa, encomendada este ano pelo Ministério da Saúde, chegou à conclusão de que uma em cada sete mulheres de até 40 anos já abortou. Estima-se que 15% das brasileiras, ou 5,3 milhões, tenham feito um aborto. De acordo com o ministério, 81% delas já têm filhos, 64% são casadas, e 88% têm religião. A maioria, 65%, é católica. (…)’
    (http://oglobo.globo.com, 09/10/2010, ‘Uma em cada cinco brasileiras de até 40 anos já fez aborto.’)

    Os números surpreenderam-me, rivalizando, por exemplo, com os 6,7 milhões de usuários de drogas nos países da América do Sul, contabilizados pela ONU em 2005, ou suplantando o número de homicídios em nosso país: 176 mil abortos x 47 mil homicídios por ano, em média. Os dois últimos assuntos sempre tratados – penso – com mais seriedade pela mídia. A argumentação estilizada e deslocada da realidade apenas comprova a esquizofrenia do discurso político, que dialoga com uma sociedade portadora de igual patologia.

  4. Comentou em 13/10/2010 André Sampaio

    ‘Das mulheres que declararam ter abortado, 15% são católicas. Evangélicas e protestantes somam 13%; 16% disseram ter outra religião, e 18% não têm religião ou não responderam. A pesquisa também mostrou que 23% das mulheres estudaram até a 4 série, 19% estavam entre a 5 e a 8 série, 12% concluíram o ensino médio, e 14% tinham curso superior.
    Outra pesquisa, encomendada este ano pelo Ministério da Saúde, chegou à conclusão de que uma em cada sete mulheres de até 40 anos já abortou. Estima-se que 15% das brasileiras, ou 5,3 milhões, tenham feito um aborto. De acordo com o ministério, 81% delas já têm filhos, 64% são casadas, e 88% têm religião. A maioria, 65%, é católica. (…)’
    (http://oglobo.globo.com, 09/10/2010, ‘Uma em cada cinco brasileiras de até 40 anos já fez aborto.’)

    Os números surpreenderam-me, rivalizando, por exemplo, com os 6,7 milhões de usuários de drogas nos países da América do Sul, contabilizados pela ONU em 2005, ou suplantando o número de homicídios em nosso país: 176 mil abortos x 47 mil homicídios por ano, em média. Os dois últimos assuntos sempre tratados – penso – com mais seriedade pela mídia. A argumentação estilizada e deslocada da realidade apenas comprova a esquizofrenia do discurso político, que dialoga com uma sociedade portadora de igual patologia.

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