Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Escândalo abala partidos britânicos

Por John F. Burns em 26/05/2009 na edição 539

Tudo começou em 2005, quando uma escritora independente americana e professora de jornalismo vivendo em Londres, Heather Brooke, fez um requerimento nos termos da recém-promulgada lei de liberdade de informação da Grã-Bretanha pedindo detalhes das despesas declaradas por membros do Parlamento britânico. A iniciativa de Brooke para expor a cobiça de políticos, agora encampada por um dos principais jornais do país, The Daily Telegraph, acarretou o maior escândalo que atingiu a Câmara dos Comuns em décadas.

Na terça-feira (19/5), o caso provocou sua maior vítima até agora quando o presidente da Câmara, Michael Martin, tornou-se a primeira pessoa destituída do cargo em mais de 300 anos.

Em um nível, o escândalo é um história deliciosa de políticos se aproveitando de um sistema frouxo de controle de despesas para solicitar uma série de benefícios chocantes. Os pedidos concentraram-se nas verbas de auxílio-moradia, que permitiram que alguns membros do Parlamento usassem quase US$ 40 mil por ano de dinheiro do contribuinte para reformar e até vender propriedades com lucro, enquanto outros pediram pagamentos mensais para hipotecas que já haviam sido pagas. Outros ainda pediram verbas para ‘necessidades’ como a limpeza do fosso de uma casa de campo e uma cadeira de massagens.

Em outro nível, é uma matéria de um jornal que rompeu com uma reputação de publicação conservadora para se apropriar do que veio a ser um dos maiores furos da Grã-Bretanha. Ao fazê-lo, ele passou a perna em seus rivais num mercado superlotado em que a queda dos lucros intensificou uma rivalidade já brutal.

Editores do Daily Telegraph não confirmaram as notícias de que teriam pago cerca de US$ 140 mil por discos de computador contendo mais de 1 milhão de pedidos de despesas individuais por membros do Parlamento nos últimos quatro anos.

Um informante não identificado teria abordado pelo menos uma das publicações rivais , The Times, com um pedido inicial de US$ 380 mil.

Perguntas insistentes

Com o país atolado na recessão mais profunda desde os anos 1930, é difícil imaginar um momento menos auspicioso para os parlamentares terem suas despesas expostas ao escrutínio público. Em resposta, eles fizeram pedidos de desculpas humilhantes, agitaram cheques de reembolso diante das câmeras de TV e prometeram restaurar o ‘respeito pelo Parlamento’.

Os principais protagonistas políticos do caso, o primeiro-ministro Gordon Brown, líder do Partido Trabalhista, e David Cameron, líder do Partido Conservador (na oposição), engrossaram suas respostas ao escândalo. Ambos prometeram que nenhum membro do Parlamento envolvido poderá concorrer na eleição geral que deverá ser realizada antes de junho de 2010 – e, até agora, já são pelo menos 80 membros do Parlamento nomeados pelo Telegraph em suas crônicas sobre abusos.

Alguns já decidiram saltar fora antes de serem ejetados. Assim que Martin anunciou sua renúncia, na terça-feira (19), o homem que parece o candidato a se tornar o ícone infeliz do escândalo, Douglas Hogg, anunciou que deixará a política no fim de seu mandato.

Hogg, de 64 anos, ex-ministro no gabinete conservador e aristocrata, incluiu um pedido de US$ 3,4 mil para a limpeza do fosso de sua casa de campo numa lista de suas despesas.

Quando o Telegraph tornou público o pedido sobre o fosso, Hogg propiciou um dos momentos mais hilários do escândalo, liderando uma equipe do canal de televisão BBC em marcha forçada de sua casa em Londres até a Câmara dos Comuns. Usando um boné e tentando explicar com a respiração ofegante as complexidades burocráticas do sistema de despesas, ele evitou responder diretamente às perguntas insistentes de um repórter da BBC sobre o fosso. Dias depois, sob pressão de Cameron, ele anunciou que reembolsaria o dinheiro gasto.

Lucros consideráveis

Brooke, que encaminhou o requerimento inicial de detalhes das despesas, tem sido uma figura desconsiderada no desenrolar do escândalo. Ela trabalhou como repórter investigativa nos Estados de Washington e Carolina do Sul antes de se mudar há dez anos para a Grã-Bretanha, terra natal de seus pais. Sua requisição provocou uma prolongada batalha da maioria trabalhista do Parlamento para obter uma exceção estatutária da lei de liberdade de informação para seus pedidos de despesas, tentativa abandonada apenas em janeiro.

Os ruidosos esforços de Martin, o presidente de 63 anos da Câmara, para bloquear a publicação das despesas, e seu anúncio de que pedira para a Scotland Yard abrir uma investigação criminal sobre o vazamento para o Telegraph parecem ter contribuído para a decisão de Brown de pressioná-lo a renunciar. A Scotland Yard escolheu o momento da renúncia de Martin para anunciar que não investigaria o vazamento.

As despesas teriam de ser divulgadas publicamente pela Câmara dos Comuns em julho, mas só depois de uma redação detalhada por funcionários que teriam disfarçado algumas das práticas mais controvertidas dos parlamentares. Uma delas é a manipulação do auxílio-moradia, que permitiu que alguns deputados comprassem e reformassem propriedades à custa do contribuinte e depois as revendessem com lucros consideráveis.

Para leitores do Telegraph, as exposições dia após dia também suscitaram questões sobre a integridade de muitos parlamentares conservadores, além dos trabalhistas e dos liberal-democratas, compondo o que alguns comentaristas chamaram de escândalo das ‘oportunidades iguais’.

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Do New York Times

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