Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Espanha, 1936-39: a primeira guerra midiática

06/05/2009 na edição 536

No dia em que a versão televisiva do Observatório da Imprensa completou onze anos no ar (5/5), o programa exibiu uma edição especial sobre os 70 anos do fim da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Gravado no Instituto Cervantes de São Paulo, o programa teve como cenário cartazes produzidos durante o conflito e que hoje compõem o acervo da Fundación Pablo Iglesias, na Espanha. Considerada o ‘grande ensaio’ para a Segunda Guerra Mundial, a guerra civil dividiu a Espanha entre republicanos e nacionalistas e deixou profundas marcas na história daquele país.


Alberto Dines recebeu os historiadores José Carlos Sebe Bom Meihy e Josep Buades, dois especialistas no conflito. Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), José Carlos Sebe Bom Meihy é professor titular da mesma universidade. Membro de corpo editorial da revista Oralidades, publicação de história oral, é autor do livro A Guerra Civil Espanhola. Nascido em Palma de Mallorca, Espanha, Josep M. Buades é doutor em História. Desenvolveu estudos e atividades acadêmicas em universidades e centros de pesquisa da Espanha, Portugal, Itália, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e Brasil. Buades mora em São Paulo desde 2000, onde colabora com a Cátedra Jaime Cortesão da USP.


Em editorial, Dines comentou que a imprensa praticamente ignorou os 70 anos da guerra, classificada por ele como um trailer da Segunda Guerra Mundial, que deixou profundas implicações no mundo e, sobretudo, na América Latina. Para Dines, a Guerra Civil Espanhola marcou o início do confronto ideológico que resultou na Guerra Fria. ‘Vamos rever este episódio, vamos procurar entender o passado para sepultar os seus fantasmas. Vamos juntar jornalismo e história para mostrar que não são antagônicos e assim contribuir para dar uma nova dimensão ao ofício de explicar os fatos, evitar repetições e recusar caricaturas’, disse.


Um conflito prestes a explodir


As décadas de 1920 e 30 na Espanha foram marcadas por intensa ebulição. Depois de séculos de regime monárquico, o país passou a ser governado pelo general Primo de Rivera, em 1923, depois de um golpe militar apoiado pelo rei Alfonso XIII. Em 1931, após a renúncia do general e o exílio espontâneo do rei, instalou-se o regime republicano. Cinco anos depois, após eleições legítimas, uma coalizão de partidos de esquerda chegou ao poder.


Mas as eleições não serviram para acalmar as lutas internas do país. De um lado, monarquistas, exército, grandes proprietários de terra e igreja católica não se conformavam com o resultado e com as primeiras medidas dos republicanos. De outro, sindicatos, partidos e facções esquerdistas exigiam reformas sociais em ritmo intenso. Em julho de 1936, um levante militar encabeçado pelo general Francisco Franco partiu do Marrocos espanhol em direção a Madri. Apesar das previsões de que o confronto entre republicanos e nacionalistas seria rápido devido ao baixo poder de fogo e à desorganização dos esquerdistas, os sangrentos embates duraram três anos.


Dines perguntou a José Carlos Meihy se em julho de 1936 houve simplesmente um golpe militar ou se ocorreu um contragolpe em oposição a um movimento que estaria sendo articulado dentro da própria esquerda. O professor destacou que quem estava no poder era a esquerda instituída por eleições, portanto legitimamente instalada. A direita se organizou contra propostas que já estavam em andamento desde a época da proclamação da República.


Uma República cercada de ditaduras


Naquele momento, o movimento fascista dentro da Espanha era minoritário, conforme explicou Josep Buades. Contava apenas com um único partido político, a Falange Espanhola, que se unira a um movimento anterior, as Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalistas (JONS). O número de filiados antes do levante militar era pequeno e o grupo não tinha representação parlamentar. Mas os falangistas reverteram a situação porque eram ‘muito ativos na rua’. Dines perguntou a Buades como os ditadores Adolf Hitler e Benito Mussolini se inseriam no contexto político da Espanha da década de 1930. O historiador explicou que com a Guerra Civil Espanhola, ambos encontraram um pretexto para intervir na península ibérica e tentaram tornar a região um ‘satélite’ de seus Estados.


Dines perguntou a José Carlos Meihy se houve um estopim religioso ou se a questão eclodiu após o início da guerra. Desde a Segunda República, havia uma série de movimentos anticlericais, o que acelerou uma reação violenta. Depois que a guerra explodiu, a defesa da cristandade ganhou caráter de ‘ideário’ espanhol. Alguns grupos que tinham maior visibilidade para a propaganda, como os religiosos, ganharam força na luta contra a esquerda. Outro fator que fez com que a questão religiosa tivesse muita importância nas batalhas foi uma presença anarquista ‘muito raivosa contra a igreja’ no início da luta.


Logo após o levante das forças franquistas, correram mundo as primeiras notícias sobre os chamados ‘massacres vermelhos’, comandados pelos esquerdistas que apoiavam a República. Somente em novembro de 1936, com o bombardeio de bairros operários e hospitais de Madri, é que a crueldade dos nacionalistas também foi exposta. Mesmo assim, os governos ocidentais mantiveram uma política antiintervencionista. O governo republicano tentava convencer o mundo que era uma democracia liberal, a favor da propriedade privada, mas ao mesmo tempo tinha que assegurar aos trabalhadores que a República defendia profundas transformações sociais.


A imprensa como arma


A coalização de partidos de esquerda e os nacionalistas utilizaram a imprensa como parte da máquina de guerra. Jornais monárquicos, católicos e falangistas apoiaram o levante militar. Mas a censura se mostrava presente. As organizações políticas e sindicatos produziram uma grande variedade de jornais. Na frente de batalha, divisões, brigadas e às vezes até batalhões produziam suas próprias publicações. Os dois lados também fizeram uso máximo do rádio para informação, recrutamento e propaganda.


A imprensa católica estrangeira apoiou de imediato o levante nacionalista. Criticava as restrições ao clero, a profanação das igrejas e a morte de religiosos. Mas os franquistas não se esforçavam para facilitar a vida da imprensa. Os jornalistas eram vistos como espiões e quem duvidasse dos fatos divulgados pelos rebeldes logo passava a suspeito de ser um ‘vermelho’.


O jornal britânico The Times, um dos mais importantes do continente, permaneceu neutro durante o conflito. Mas, em 1937, algumas reportagens sobre o país basco foram bloqueadas para não ‘irritar’ os alemães. Nos Estados Unidos, a República foi apoiada pelo The New York Times. Mas na produção de reportagens sobre os campos de refugiados, por exemplo, havia uma recomendação para que fossem evitados sentimentalismos.


No Brasil, a cobertura foi majoritariamente conservadora e crítica aos republicanos. As manchetes mais contundentes foram dos jornais O Globo e A Noite. O Correio da Manhã, Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Diário de Notícias e O Jornal optaram por uma cobertura menos passional. O clima não era favorável às forças de esquerda. Em 1935, o governo Vargas havia debelado um movimento rebelde que ficou conhecido como a Intentona Comunista. Dois anos depois, foi instaurado o Estado Novo, com forte tendência fascista.


A Guerra Civil Espanhola tem íntimos vínculos com a história brasileira. É grande o envolvimento de soldados brasileiros da esquerda militar que partem para a Espanha como voluntários, segundo José Carlos Meihy. Além disso, no Brasil viviam filhos de espanhóis progressistas, atentos ao noticiário da Europa. De outra parte, havia um ambiente favorável à criação do Estado Novo. Para José Carlos Meihy, houve uma preparação para que o regime fosse instalado no Brasil com respaldo da opinião pública. ‘Neste sentido, a imprensa acaba tendo um papel importante ao assumir a Espanha como um modelo para novos desastres de guerra. Diziam: `Veja o que acontece lá, onde a esquerda está instalada´.’


Intelectuais no campo de batalha


Artistas e intelectuais de todo o mundo participaram intensamente da guerra, a maioria do lado republicano. Conseguir o apoio internacional era vital para os dois lados do conflito. Alguns escritores não se contentaram apenas em ser observadores externos. Pegaram em armas e foram para as frentes de batalha, como André Malraux, George Orwell e John Cornford. Outros, como Ernest Hemingway, John Dos Passos, Pablo Neruda e Antoine de Saint-Exupéry passaram períodos na Espanha durante a guerra.


José Carlos Meihy explicou que quando Ernest Hemingway foi à Espanha já era um escritor conhecido, mas atuou como repórter de guerra. No entanto, não abandonou sua vocação literária durante a cobertura. O historiador destacou também o trabalho de fotorreportagem produzido por Robert Capa durante a guerra. Uma imagem registrada por Capa na ocasião hoje transformou-se em ícone: mostra um soldado republicano caindo, no momento em que é baleado.


‘Foi a primeira guerra midiática da história’, explicou Josep Buades. Na década de 1930, o cinema já era sonoro. Antes da exibição dos filmes, havia a projeção de documentários com notícias internacionais. ‘Para uma população que não estava acostumada com as imagens como nós estamos hoje, isso teve um impacto muito forte’, afirmou o historiador. Também pode ser considerada, para Buades, a última ‘guerra romântica da história’. Em poucas guerras tantos intelectuais pegaram em fuzis e partiram para o front para lutar diretamente contra o inimigo.


Em um momento de severa censura da imprensa no Brasil, a esquerda intelectual precisou ser sutil e camuflar o apoio aos republicanos durante a guerra. ‘Era um convite ao silêncio’, explicou José Carlos Meihy. Muitas reações apareceram somente no final do conflito. Em 1940, o escritor Erico Verissimo publicou o romance Saga, inspirado na guerra. Na cadeia, o escritor Monteiro Lobato traduziu o livro Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway. Poemas de Manuel Bandeira com a temática da guerra circulavam clandestinamente. Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado também condenaram o levante franquista.


Dois aliados históricos ‘deram as costas’ para a República na Espanha, explicou Josep Buades: a França e a Grã-Bretanha. Criaram um ‘fantasma chamado Comitê de Não-Intervenção’ que minou as forças esquerdistas. Mas logo foi criado um grupo de voluntários de diversos países, alguns desempregados, muitos ainda jovens, que se aliaram à causa republicana. Foi o embrião das Brigadas Internacionais, que tiveram um papel decisivo em batalhas ocorridas nos três anos da guerra. ‘A Guerra Civil Espanhola ainda hoje mantém uma aura de idealismo, de poesia, de luta pela liberdade e de romantismo. Mas quando os historiadores se debruçam sobre os fatos encontram uma realidade muito mais mesquinha’, ponderou.


Um grito na parede


Na guerra da propaganda, um meio de comunicação eficiente e inovador tomou conta das ruas da Espanha: o cartaz. Com imagens impactantes e textos breves, os cartazes estimulavam a confiança na vitória. Conhecidos como ‘soldados de papel e tinta’, conclamavam todos a participar da luta. As temáticas eram variadas, iam do alistamento à importância da educação e da higiene. Os horrores da guerra estavam sempre presentes.


A arte do cartaz tinha grande influência já antes da guerra civil. A República utilizou os melhores artistas gráficos da Espanha, que adotaram os preceitos estéticos da arte vanguardista, especialmente o construtivismo russo. Dines perguntou a Josep Buades o porquê de os cartazes produzidos pelas forças franquistas não terem o mesmo impacto dos republicanos. O historiador explicou que os dois lados produziram campanhas de motivação através de cartazes, mas a estética era diferente. Os republicanos, ao longo da guerra, passam a ter clara influência do realismo socialista, tomando o modelo da arte soviética stalinista. Já os nacionalistas avançaram para uma estética inspirada no nazismo.


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Guerra, jornalismo e história


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 501, exibido em 5/4/2009


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. Bem-vindos à comemoração do nosso décimo-primeiro aniversário. Começamos esta jornada na noite de 5 de maio de 1998 e, neste 5 de maio de 2009, ao invés das habituais revisões e prospecções, preferimos reviver com você um dos nossos compromissos.


A busca da excelência jornalística sobre a qual tanto falamos ao longo destes anos pressupõe não apenas uma visão equilibrada do presente, mas também uma disposição de reviver o passado. Sobretudo nos temas e situações que não sensibilizam as novas gerações de jornalistas. Um cidadão bem informado não pode estar alheio ao passado, sobretudo quando o presente é tão conturbado. Lembrar é aprender.


Dentro de alguns meses seremos convocados a reviver a Segunda Guerra Mundial que começou no início de setembro, há 70 anos, considerada a maior catástrofe dos últimos 500 anos. Mas no mês passado, no dia 1º de abril, houve uma efeméride que a imprensa praticamente ignorou. Foi um trailer da Segunda Guerra Mundial com profundas implicações no mundo e especialmente na América Latina.


A sangrenta Guerra Civil Espanhola, de 1936 a 1939, além de precursora do grande conflito bélico que se iniciaria apenas cinco meses depois, marcou o início do confronto ideológico que se estenderia ao longo da segunda metade do século 20 com o nome de Guerra Fria.


Vamos rever este episódio, vamos procurar entender o passado para sepultar os seus fantasmas. Vamos juntar jornalismo e história para mostrar que não são antagônicos e assim contribuir para dar uma nova dimensão ao ofício de explicar os fatos, evitar repetições e recusar caricaturas.

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