Sexta-feira, 22 de Maio de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº851

JORNAL DE DEBATES > RIO+20 & COMISSÃO DA VERDADE

Espetáculo e segredo, badalação e sigilo

Por Alberto Dines em 13/06/2012 na edição 698

 

O pêndulo brasileiro produz estranhos movimentos e incríveis surpresas. A humanidade corre velozmente em direção do abismo climático e, não obstante, preferimos enfrentar a legião de fantasmas com a nossa infinita capacidade festeira.

As preliminares do Rio+20 não parecem uma reunião de emergência para soar os alarmes e emitir um portentoso SOS global. Mais se assemelha a um convescote mundial para celebrar a celebração.

A Comissão da Verdade segue um caminho paralelo, porém em direção contrária: deveria acender as luzes e soltar as palavras, prefere a surdina, a meia-voz e a meia-luz. Uma sociedade motiva-se para buscar a verdade quando lhe mostram os benefícios das penosas investigações. Esperar dois anos para então produzir um relatório gigantesco, provavelmente maçante e ilegível, não é a melhor maneira para mobilizar uma sociedade que afinal despertou da sonolência enganosa.

As reticências

O matador Cláudio Guerra, ex-delegado do DOPS capixaba e agora pastor protestante, recebeu instruções taxativas para não dar outras entrevistas à imprensa enquanto não fossem concluídas as investigações da Comissão da Verdade. Não é o mais recomendável depois de quase duas décadas de entranhado silêncio.

O país precisa viver a verdade, conviver com ela, acompanhar o seu parto. É mais educativo, cívico, eficaz.

Com os crimes acontecidos há tantos anos não se compreende a pressão pelo sigilo. As revelações desse agente da linha dura serão melhor absorvidas, entendidas e talvez menos traumatizantes se oferecidas gradualmente, seguindo o método heurístico e a ideia maiêutica preconizada por Sócrates – devagar, por partes, progressivamente, para sempre.

É evidente que certos depoentes precisarão da proteção do anonimato, caso contrário poderão sofrer represálias. Algumas investigações não podem prescindir do imperioso sigilo. Mas o governo dispõe de centenas de funcionários treinados para emitir comunicados parciais sem comprometer dados essenciais. As reticências agora são desmotivadoras, anticlímax.

Fora de prumo

Tal como o Tribunal de Nuremberg, a Comissão da Verdade tem um caráter didático que não pode ser negligenciado, ainda que não seja um órgão judicial como aquele que os vencedores montaram para julgar os vencidos no fim da Segunda Guerra Mundial. Aqui não há vencidos nem vencedores, há apenas o compromisso histórico de buscar os fatos acontecidos.

Já a grande festa ecológica com a qual se pretende conscientizar a cidadania e suas lideranças em todo o mundo, esta pode funcionar ao revés e desativar a gravidade da situação ambiental.

A roupa branca, os abraços de “paz e amor” e os sanduíches orgânicos de 1992 não funcionaram. A Rio+20 não pode parecer uma Copa do Mundo onde se escolhe o campeão, nem uma Olimpíada para distribuir medalhas. É uma cerimônia solene, prova de maturidade, todos devem perder algo. Não é o caso de enlutar-se. Ainda.

Nosso pêndulo precisa ser urgentemente reajustado; os sinais estão trocados.

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