Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

JORNAL DE DEBATES > Uma outra dimensão da profissão

A espiritualidade do jornalismo

Por Kevin Willian Kossar em 26/12/2016 na edição 929

No 25 de dezembro se comemora o nascimento de mestres espirituais de várias religiosidades que, ao longo da história da humanidade, moveram e movem consciências e condutas de bilhões de pessoas, tencionando o pensar dos sentidos de ser e existir na mundanidade cotidiana. Todas as religiosidades implicam espiritualidades, cujos pressupostos, no Ocidente, são repensados de modo mais acurado na época natalícia, que se entende enquanto momento por excelência para tanto, dado o marco de nascimento na história da fonte da maior religião da contemporaneidade, o cristianismo.

Pela sensibilização epocal, somos levados a refletir como nosso objeto de lida diária profissional, o jornalismo, pode ser contributo no meditar sobre os sentidos de ser e existir que nos movem – enquanto uma espiritualidade secular –, contribuindo para a promoção da paz, da justiça e da dignidade humana, temas tão caros à humanidade no presente momento do ano.

Definições

Existem muitas compreensões de espiritualidade e, também, variadas formas de vivenciá-la, seja na perspectiva religiosa, em suas multifacetadas manifestações, ou mesmo fora das tradições religiosas, enquanto espiritualidades seculares [Elias Wolff. Espiritualidade do diálogo inter-religioso: contribuições na perspectiva cristã].

O termo espiritualidade existe desde o século V [Elias Wolff. Espiritualidade do diálogo inter-religioso: contribuições na perspectiva cristã]. Etimologicamente, o conceito está vinculado a “espírito” e dele se desdobra. Sua raiz hebraica, ruah, expressa vento, respiração, hálito. Ruah é o vento corporal que possibilita que a pessoa respire e se oxigene, para manter-se viva. Essa não é, todavia, a única definição possível. O universo semântico de “espírito” e “espiritualidade” é plural e significa a dinamicidade e circunscrição dos termos à existência de cada pessoa e de cada comunidade humana. Tomada em sentido antropológico, a espiritualidade pode ser referente da expressão do espírito de uma pessoa, suas motivações, ideais e utopias, o modo como ela cultiva sua interioridade e dá consistência ao horizonte de sentido de sua vida. A espiritualidade inspira o progresso do ser e do agir humano e motiva projetos existenciais [Pedro Casaldáliga e José María Vigil. Espiritualidade da libertação].

A espiritualidade é fonte de inspiração do novo, de geração de sentido pleno e de potencialização das capacidades do ser humano [Leonardo Boff. Espiritualidade: um caminho de realização].

Os religiosos não podem esquecer da possibilidade de se levar uma vida moral/espiritual sem religião. Isso é possível na medida em que entendemos que há motivos biográfico-psicológicos suficientes para que as pessoas renunciem às religiosidades reduzidas ao obscurantismo, superstições e ilusões; empiricamente, não há como negar que os não-religiosos também possuem bases éticas fundamentais e que levam vidas moralmente orientadas; antropologicamente, não se pode negar que pessoas não-religiosas também possuem objetivos e prioridades, valores e normas, ideais e modelos para discernir o certo do errado; filosoficamente, não se pode negar que, enquanto seres racionais, às pessoas cabe uma verdadeira autonomia e, pois, mesmo sem a fé em um ser ou força transcendente, esta autonomia permite se ter uma fé fundamental na realidade e tratar com seriedade sua responsabilidade sobre o mundo. Para a paz entre os povos, os religiosos devem reconhecer que pessoas não-religiosas também lutam pela dignidade humana e pelos direitos humanos [Hans Küng. Projeto de ética mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana].

Discussões sobre o valor da espiritualidade recebem especial atenção no tempo presente até mesmo no âmbito acadêmico. Não se duvida do efeito crítico de tal resgate da sociedade ocidental, alicerçada em valores como competitividade, produtividade e consumismo em um mundo egoísta. A espiritualidade levanta valores contrapostos, referentes a qualidades do espírito humano que em nosso tempo estão embaçadas ou obstruídas. São valores como o amor desinteressado, a compaixão, a atenção, a hospitalidade, o cuidado, a delicadeza, a paciência e a abertura ao diferente. Não há como desvincular o ser humano da espiritualidade, pois essa é uma dimensão antropológica fundamental, que forma o repertório existencial de toda pessoa [Faustino Teixeira. Religiões e espiritualidade].

A espiritualidade deve ser entendida como a metadimensão que nos abre para a profundidade da experiência singular que é viver esta vida, neste planeta, neste tempo, que possibilita a formulação e a vivência de questões éticas e existenciais essenciais que reorientam o rumo que toda jornada pessoal necessita em diferentes momentos, e que instiga a transformação pessoal na medida em que se confronta com a concretude do mundo, suas dificuldades e desafios, sua dimensão trágica e nossa condição de seres finitos [Tiago Costa Nepomuceno. Educação ambiental e espiritualidade laica: horizontes de um diálogo iniciático].

Espiritualidade secular

Na segunda metade do século XX, em virtude, dentre outros fatores, da crise das instituições tradicionais, o termo espiritualidade ganhou outras significações para os que não se sentiam mais confortáveis com o peso histórico das nomenclaturas associadas ao escopo das religiões e que buscavam uma independência semântica ao tratarem das demandas existenciais mais profundas do humano. Se consagrou entre alguns estudiosos de diferentes áreas do conhecimento a compreensão de que o termo espiritualidade poderia nomear satisfatoriamente o que passou a ser reconhecido como uma metadimensão constitutiva dos seres humanos, aquela através da qual experienciamos os mistérios da existência [Tiago Costa Nepomuceno. Educação ambiental e espiritualidade laica: horizontes de um diálogo iniciático].

Se todo ser humano é um ser espiritual e desenvolve uma espiritualidade, mesmo que não tenha uma religião, pode-se dizer da existência de “espiritualidades seculares” [Elias Wolff. Espiritualidade do diálogo inter-religioso: contribuições na perspectiva cristã] que colaboram para o bem comum e para a valorização da vida. Na complexidade da contemporaneidade, mostra-se oportuno identificar nas espiritualidades existentes elementos que qualifiquem a vida humana, que conduzam as pessoas a viverem a plenitude ou o sentido radical que propicie dignificar a existência. As verdadeiras religiosidades são legítimas na medida em que servem à humanidade e que promovem a identidade humana, o sentido e o sentimento de valor das pessoas [Elias Wolff. Espiritualidade do diálogo inter-religioso: contribuições na perspectiva cristã].

O desenvolvimento espiritual do ser humano significa desenvolvimento da sua história de vida. Tudo o que tem relação com a vida humana – a economia, a cultura, a política, a religião, a família, o trabalho, as amizades – tem uma dimensão e um significado espiritual [Elias Wolff. Espiritualidade do diálogo inter-religioso: contribuições na perspectiva cristã], visto que a espiritualidade não está desassociada do corpo, nem da natureza ou das realidades desse mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos cerca [papa Francisco. Laudato si]. A espiritualidade se manifesta legitima na medida em que, experimentada na inserção nas situações que constroem a história dos indivíduos, dá sentido a ela. Tal inclusão colabora para o discernimento das realidades que verdadeiramente se harmonizam com a realização humana daquelas que são uma ameaça à sua realização [Elias Wolff. Espiritualidade do diálogo inter-religioso: contribuições na perspectiva cristã].

A espiritualidade norteia a existência do homem, dirige seu dinamismo para “Deus”, dizem alguns; para uma sociedade mais justa e igualitária ou para a superação do sofrimento, dizem outros. Pode-se, pois, falar de uma espiritualidade budista, mesmo que os budistas não falem de “Deus”; de uma espiritualidade marxista, por mais que os marxistas subestimem a linguagem religiosa. O conceito, nessa lógica, expressa melhor uma qualidade de vida, de ação, de pensamento, não ligado a uma doutrina, confissão ou religião específica [Elias Wolff. Espiritualidade do diálogo inter-religioso: contribuições na perspectiva cristã]. Podemos, então, falar de uma espiritualidade jornalística.

O jornalismo enquanto espiritualidade

Não há no jornalismo um elemento espiritual formal. Mas, por predisposição pessoal, ethos da profissão ou tradição, a espiritualidade do jornalista se manifesta no senso de promoção da verdade, da justiça, de transformação de estruturas [Jorge Claudio Ribeiro. A ‘religião’ do jornalismo], da profissão como missão social. Do ponto de vista antropológico e até psicológico, a cultura jornalística apresenta fortes traços de uma espiritualidade secular.

Enquanto indivíduos que possuem como objeto de trabalho a prática jornalística e, a afirmando enquanto função social imprescindível para o funcionamento das sociedades contemporâneas, tenciona-se o entendimento da profissão enquanto espiritualidade secular, na medida em que ela preza pela liberdade de expressão, pelo direito à informação, e por se constituir como espaço de diálogo da pluralidade de vozes em disputa na dinâmica social.

Em tempo de sensibilidade reflexiva, reafirmamos a força social do jornalismo como promotor da busca pela paz, do reconhecimento da alteridade, da união dos povos em vista do bem comum, da valorização da vida e da qualificação da existência humana, da vivência da plenitude que propicia dignificar o ser; enfim, do serviço em vista da promoção da identidade humana, do sentido e do sentimento de valor da pessoa humana, independentemente de sua ascendência, etnia, nacionalidade, cultura, idioma, cor, crenças e opções que dizem respeito apenas a cada qual, legitimadas que são na autonomia inalienável de cada ser.

Neste Natal, reafirmamos o jornalismo como uma espiritualidade contribuinte para outro mundo possível.

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Kevin Willian Kossar é doutorando em Teologia, mestre em Ciências Sociais Aplicadas, bacharel em Comunicação Social, professor substituto de Jornalismo e editor da Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo

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