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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > TENDÊNCIAS NA COMUNICAÇÃO

Estaria acabando a linguagem como a conhecemos?

Por Robin Kermode em 04/07/2015 na edição 857
Reproduzido do jornal The Guardian, 25/6/2015

tendênciasComo todos sabemos, as expressões do rosto, a presença visual e a linguagem corporal são fundamentais para que um orador pareça confiante. Porém, a notícia de que os emojis [imagens ou ícones usados para expressar uma ideia ou uma emoção, como o Smiley, por exemplo – “Sorria, você está sendo filmado”] se tornaram a linguagem que mais cresce na Grã-Bretanha mostra que atualmente as linhas que diferenciam a comunicação verbal da comunicação escrita são potencialmente indistintas.

Quando eu era um jovem ator, fiz um teste para um comercial de televisão sobre um cereal para o café da manhã. Eu estava de pé, olhando para a câmera e tentando manter um brilho vivo em meus olhos, enquanto os responsáveis pela agência me observavam pelo monitor sem manifestar qualquer expressão. De repente, não pude deixar de ouvir o diretor dizer: “Sim, mas ele está com um rosto de manhã ou um rosto de tarde?”

As pessoas têm opiniões sobre nós o tempo todo, mesmo antes que comecemos a falar. Imagine diretores de empresas aguardando serem apresentados do lado do palco; assim que se põem de frente para a audiência eles emitem centenas de sinais de linguagem corporal mesmo antes de pronunciar uma palavra sequer. Por exemplo: parecem entediados, nervosos, superiores? Em certo sentido, eles são emojis humanos. Rosto alegre. Rosto triste. Rosto de manhã. Rosto de tarde.

Não existe linguagem corporal boa ou ruim. O corpo é apenas uma manifestação exterior de nossas sensações internas. É claro que essa linguagem deve ser apropriada; portanto, se estamos contando uma história triste, nosso rosto e nosso corpo devem se mostrar igualmente tristes. Se contamos uma história triste com um brilho no olhar, ela deixa de ser triste e transforma-se numa anedota divertida. Os antigos cursos de linguagem corporal que ensinavam as pessoas a “parecerem harmoniosas” em geral não davam certo porque percebemos de longe a falta de sinceridade num vendedor. É preferível ser autêntico e dizer a verdade.

O motivo pelo qual os emojis se tornaram a nova linguagem que mais cresce é porque eles não passam de uma representação de sinais da linguagem corporal que os humanos vêm praticando há séculos. Os homens das cavernas tinham versões de emojis desenhadas dos lados de suas cavernas. Imagens, desenhos e emojis são atalhos que facilitam o verdadeiro significado de nossa mensagem.

Eliminam a ambiguidade e acrescentam contexto

Bastantes anos atrás, escrevíamos longas cartas e refletíamos sobre cada palavra. Os grandes oradores trabalhavam de maneira incansável para que suas mensagens chegassem corretamente aos receptores. O problema com mensagens de texto é elas serem mal interpretadas tão facilmente. Em certa ocasião assisti a uma moça sendo descartada devido a um texto que consistia de apenas cinco letras: U R MY X. Sintético, do ponto de vista linguístico, mas emocionalmente desagradável. Posteriormente, descobriu-se que a moça não havia sido descartada, pois aquele texto era uma pequena nota de amor. O que ele significava era “Você é minha. X” [num trocadilho em inglês, “You are mine. X”]. Talvez um emoji com um rosto brilhante e um coração desenhado tivesse conseguido fazer com que ela compreendesse a mensagem mais rapidamente.

Não existe um tom vocal em textos e muitas vezes a ironia se perde. “Preciso falar com você imediatamente” poderia significar muitas coisas: (a) estou querendo que você me acompanhe para tomar um café; (b) cheguei à conclusão que amo você; (c) você se comportou como um safado desprezível e foi flagrado. Mas com emojis, um café, um rosto sorridente, ou um rosto furioso tornariam muito mais fácil a compreensão.

Com emojis, você pode enviar flores e beijos virtuais. Portanto, talvez a pergunta seja: irá a “verdadeira” linguagem se perder para esta nova linguagem virtual?

É claro que a resposta é negativa. A linguagem mudou constantemente ao longo do tempo e as palavras mudaram de significado. Basta você tomar três palavras da língua inglesa: lame (coxo, incapaz, pouco convincente…), sick (doente, ansioso, mórbido…) e cool (fresco, indiferente, legal [gíria]…). Slogans publicitários também se tornam parte da linguagem: “Faz aquilo que está escrito na latinha.” Os padrões da fala também nos dizem mais do que a frase propriamente dita – assim como os emojis fazem com o texto. Eles ajudam a eliminar a ambiguidade e acrescentam contexto. É comum as pessoas acrescentarem algo como “coisa feia” ao final de certas frases, como “O final de semana foi um desastre. Coisa feia.” É um atalho. E é comum.

***

Robin Kermode é especialista em comunicação

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