Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > CONFECOM & COP-15

Eventos sem instrumentos, resultados comprometidos

Por Alberto Dines em 22/12/2009 na edição 569

Todas as conferências se parecem: todas mobilizam, todas produzem ruído, todas geram formidáveis expectativas e quase todas deixam enorme saldo de frustrações.


Os organizadores da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15), reunida em Copenhague, não tinham o direito de errar. Dispunham do suporte das maiores entidades internacionais, são experimentados na organização de grandes eventos e apoiados por todos os tipos de Gs – do G-2 ao G-77. E, no entanto, erraram.


A Rio-92, Eco-92 ou Cúpula do Clima foi organizada com metas menos ambiciosas: consagrar um novo conceito de progresso, o desenvolvimento sustentável. Produziu um compromisso (a Agenda 21) e criou uma agência, a Comissão de Desenvolvimento Sustentável dentro do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.


Em 1997, no Japão, o mundo voltou a se reunir para discutir e proclamar o Protocolo de Kyoto, que deveria ser subscrito por todos os participantes e iniciar o controle efetivo das mudanças climáticas. O então presidente americano George W. Bush não concordou, o protocolo dançou.


Metas precisas


Os organizadores da COP-15 foram ousados e/ou delirantes: acreditavam que a comunidade internacional estava suficientemente alertada e motivada para os riscos do aquecimento global e que ao longo de doze dias as grandes lideranças, devidamente pressionadas, seriam capazes de chegar a algum tipo de consenso. Efetivamente chegaram a um consenso: o de que o consenso era impossível. Naquelas circunstâncias.


O mundo cansou-se do foguetório dos eventos, a sociedade do espetáculo já não se anima com espetáculos, prefere menos holofotes e mais transpiração. Os mais poderosos líderes mundiais hoje têm predileção por trabalhar em surdina, com menos exposição e menos pressão. Não estão ali para fazer sucesso pessoal, colher aplausos e ganhar direitos autorais. Têm contas a prestar a eleitores (no caso de democracias) ou aos birôs políticos (no caso de regimes autoritários). Igualmente exigentes.


O sabor de fracasso da Conferência de Copenhague certamente produzirá um elenco de iniciativas mais realistas. Instrumentos podem produzir milagres desde que precedidos de intensas negociações, em cima de agendas e metas precisas. O desenlace negativo talvez tenha sido extremamente positivo.


Tudo como dantes


A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) realizada em Brasília teve todos os defeitos estruturais dos eventos, acrescidos da falta de experiência. Vilã foi a ausência das seis maiores corporações empresariais – que não se importaram em assumir publicamente o papel de algozes do consenso. Não queriam o confronto e ingenuamente ajudaram a prepará-lo a médio prazo. Isso não é estratégia, é absoluta falta de inspiração e de malícia.


O erro maior foi a fascinação com o espetáculo político. O governo que assistiu impassível à brutal liquidação do Conselho de Comunicação Social (CCS) deveria tê-lo reavivado no início de 2009. Reeleito para presidir o Senado, José Sarney jamais permitiria o renascimento de uma entidade que detesta antes mesmo de regulamentada (ver ‘E a sociedade civil?‘, na edição nº 1 desde Observatório). O governo não tentou demovê-lo, preferia não ameaçar a coesão da base aliada.


O CCS seria o incubador natural de uma agenda para desintoxicar o ambiente, modernizar a estrutura e distender as posturas do setor de mídia. Como órgão auxiliar do Congresso Nacional, desprovido de poder, poderia ao menos identificar as carências, produzir diagnósticos e reconhecer oportunidades mais visíveis.


Ao longo dos seus dois anos de existência efetiva (2003-2005), o CCS jamais registrou confrontos entre empresários, profissionais e representantes da sociedade civil. Num ambiente restrito, obrigatoriamente marcado pela civilidade, seria possível desenvolver aquela pequena plataforma de convivência e negociação. Isso não interessava aos quase 50% de parlamentares-concessionários (Sarney incluído). Muito menos às redes de radiodifusão às quais estão atrelados.


A Confecom fez barulho, chamou a atenção, obrigou o grosso do empresariado a revelar a sua intransigência, mas dificilmente produzirá qualquer alteração substantiva antes das próximas eleições presidenciais.


Eventos chamam a atenção, mobilizam apoios e também estimulam resistências. É tênue a linha que separa o evento exitoso do evento fracassado. Instrumentos produzem resultados.


 


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Todos os comentários

  1. Comentou em 25/12/2009 Cristiana Castro

    Dines, Feliz Natal, pra vc. Quanto a Confecom e COP -15, não nos preocupemos, toda e qq mudança, de fato, passará pela rede. a gente vai conseguir tudo. Não contabilizemos fiascos, eles não nos dizem respeito, a web é vencedora desde sempre e para sempre. Feliz Natal e um excelente 2010 a todos do OI. E, ao Dines, muita paciência para o próximo ano, 2010 promete ser punk.

  2. Comentou em 22/12/2009 Tadeu Santos

    Nós leigos entendemos que uma conferência deveria antes de tudo ser abrangente e democrática, oportunizando todas as tendências e correntes da ciência, juntamente com os atingidos/testemunhos, num debate amplo sobre o aquecimento global. Entendemos também que deveria haver uma identificação das várias formas de emissões, classificá-las e encontrar os procedimentos mais adequados de como reduzi-las sem causar falência a nenhum setor, porém é preciso sacrifício por parte do poluidor. Enquanto não houver recuo do lucro de nada adiantará discutir entre as partes, partes todas comprometidas com o poder econômico. A ONU não deveria reformular a COP? Torná-la mais socioambiental?
    O que vimos nesta COP 15 foi uma imposição do poder econômico que polui o planeta, agindo por trás dos governantes, com o discurso de que os mesmos não podem reduzir as emissões porque geram divisas e empregos. Enquanto que ao mesmo tempo os governantes priorizavam a quantidade de dólares que iriam botar em cima da mesa, mesa que apontava dados sobre o desequilíbrio do clima na Terra. Estão distorcendo tudo. Dos 700 brasileiros que foram à Dinamarca, por exemplo, apenas 10% entendiam do que tratava a conferência, o resto foi fazer turismo e campanha eleitoral.

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